Quarta-feira, Fevereiro 18, 2026
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Casual Friday | Saudades de André Jordan

“De quando em vez lembramos com saudade pessoas que marcaram a nossa vida e desapareceram, de quem gostávamos e que nos fazem falta”.

Dou por mim a pensar com saudades no André. Na sua vida tão rica, no entusiasmo, amor e alegria que tinha pelos outros, por Portugal, ele que pensava muito à frente do seu tempo, que nos anos 70 falava em sustentabilidade, protecção ambiental, autenticidade, no papel das cidades, na importância da qualidade de vida e na responsabilidade social no desenvolvimento urbano. Tenho muitas saudades da sua defesa intransigente da paridade entre mulheres e homens em todos os aspetos da vida ativa. Jordan acreditava no seu papel transformador, não por condescendência, menos ainda por moda, mas por convicção. E do alto dos seus quase 90 anos escreveu “Penso que é uma legítima esperança depositar nas mulheres a resolução pacífica de situações de conflito internacional, enquanto é necessário mobilizá-las para as várias frentes que ameaçam a humanidade, tais como aquilo que é o Aquecimento Global, a Inteligência Artificial, as migrações causadas pelos conflitos e a fome”.

O André Jordan morreu dia 9 de fevereiro do ano passado. Viveu tempo suficiente para ter conhecido os horrores da guerra, do nazismo à reconstrução da Europa, o exilio, a confiança no liberalismo americano e o sucesso do capitalismo, cujo sucesso, nas suas palavras, fez da “democracia uma vítima” (porque as melhores pessoas e quadros foram para as empresas, assim depauperando a política e a administração pública).

O André nasceu num século que assistiu ao colapso de impérios e ao nascimento de novas ordens, sempre com a promessa de progresso e liberdade. Mas, felizmente, no fim da sua longa e rica vida, foi poupado a ver o que hoje vemos: o mundo a retroceder — não por inevitabilidade histórica, mas por escolha, política, social e cultural.

O que diria ele, que evitava ferir suscetibilidades, mas não evitava pensar alto, que em 2017 descreveu Donald Trump como representando “um segmento do negócio imobiliário norte-americano que eu conheço muito bem e que é o segmento mais ordinário”, acrescentando que “o Trump não mudou: é presidente dos Estados Unidos e continua ordinário”… que diria ele, se o visse hoje de novo como Presidente?

Ele que dizia que a única intolerância que tinha era com a intolerância, que veio fugido do nazismo com a família em 1939, o que diria sobre a retórica anti-imigração; o desmantelamento dos programas da USAID; o desprezo pela ONU, pelos acordos internacionais no comércio, clima, saúde, etc e o autoritarismo que se pratica na Casa Branca, onde as ordens executivas a par das “tarifas” são os únicos instrumentos de gestão? O que diria se visse a naturalidade com que os bilionários têm acesso privilegiado ao poder político, e o desprezo de Elon Musk, que, no meio do abuso de ketamina e alegadas trips de ecstasy e cogumelos psicadélicos (The New York Times, 31/5/2025, entre outros), fechou agências governamentais, alegando o desperdício e a fraude? Agências que existiam para o combate à pobreza, à desigualdade, para a promoção da educação e saúde? O que diria da chantagem sobre empresas, comunicação social e da petulância com que se adoptam políticas retrógradas? E da chantagem sobre as universidades, mesmo da Ivy League, condicionadas a cumprir a agenda do Presidente, designadamente no recrutamento de docentes e definição de projectos de investigação, ou intimadas à expulsão de alunos que se atrevam a manifestar-se por exemplo em solidariedade com a Palestina? Sob pena de, incumprindo estas ordens, não só de ficarem sem fundos públicos mas também proibidas de ter estudantes estrangeiros?

Lendo as suas muitas entrevistas e reflexões partilhadas em artigos e livros, permito-me adivinhar o que diria.

Diria que o que se passa actualmente nos EUA, país onde passou parte da juventude e que tanto influenciou a sua formação cívica, é profundamente inquietante. Diria que a terra onde aprendeu o valor da democracia liberal, do pluralismo e da justiça está hoje sob ameaça não externa, mas interna. Diria que a rejeição das políticas de diversidade, equidade e inclusão — tão essenciais à construção de uma sociedade coesa e justa — revela um recuo civilizacional preocupante. Que a ausência de cultura, de humanidade e de propósito na política e nos negócios é um caminho para o colapso.

Também creio que, entre a ironia e o desalento, ele nos lembraria, não por nostalgia, mas por consciência histórica, que quando os Estados Unidos perdem o equilíbrio, o mundo todo oscila.
Estou em crer que, se estivesse aqui afirmaria, com a serenidade de quem construiu com tempo, que a União Europeia se devia comportar “consciente do seu património espiritual e moral”.

E, acrescento eu, sabem porquê? Porque se deve guiar pelos seus princípios e valores comuns, que hoje, fruto de muito trabalho, evolução e consenso, estão consagrados nos artigos 2º e 3º do Tratado de Lisboa e na Carta dos Direitos Fundamentais da UE. Está lá tudo. Escrito, mas em crise.

São os nossos valores e princípios: liberdade; democracia; igualdade; Estado de Direito; promoção da paz e da estabilidade; desenvolvimento sustentável do planeta; solidariedade e respeito mútuo entre os povos; crença no comércio livre e equitativo; na erradicação da pobreza e na proteção dos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias, numa sociedade caracterizada pelo pluralismo, não discriminação, tolerância, justiça, solidariedade e igualdade entre homens e mulheres.

E a nós, cidadãos, o André diria que continuássemos a viajar! E a acarinhar este enorme activo que temos: um país aberto aos outros e ao Turismo. Lembrando que o Turismo é, sempre, a Indústria da Paz.

(nota: este meu texto corresponde, com pequenas alterações, ao que foi publicado no Jornal de Negócios de 16/4/2025)

Por Cristina Siza Vieira

É Vice-Presidente Executiva da Associação da Hotelaria de Portugal e uma das vozes mais influentes no setor turístico nacional. Todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, Cristina Siza Vieira assina a coluna de opinião ‘Casual Friday’, trazendo a sua visão sobre os principais temas do setor do turismo e da hotelaria

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