Lisboa, em 2019, apresentou uma estada média de 2,64 dias por turista, o que é manifestamente pouco para o que a cidade tem para oferecer. Este facto é agravado pela nossa localização na periferia da Europa, o que requer, na maioria das vezes, que o meio de transporte usado seja o avião.
Todavia, Lisboa poderia aumentar essa mesma estada média, com um investimento anual de 6000 euros por quarto, valor que aproximadamente corresponde ao que é pago em comissões a OTA’s, que tantas vezes (para não dizer muitas vezes) não privilegiam o parceiro e, tão pouco, o destino.
Depois de todos estes anos a trabalhar na hotelaria em Lisboa, sinto que quem nos visita, pela primeira vez, não sabe exatamente o que podemos oferecer, além do obvio. Só quando já cá estão, é que os turistas percebem o imenso potencial do destino e que deveriam ficar, no mínimo, mais um dia, sendo que, mesmo assim, não chegaria! O que colide com o que sabemos: todas as OTA’s cobram-nos comissões exageradas (para não dizer brutais), para ajudar a vender o que é nosso, com investimentos altíssimos, numa espiral que – ninguém duvide – terá tendência para aumentar a muito breve prazo, com a invocação de mais funcionalidades, para uma maior visibilidade, ou seja, existirá um aumento de percentagem de comissão a que ninguém poderá fugir se quiser realmente vender através, por exemplo, da OTA líder de mercado.
Todos recordamos que isso mesmo já aconteceu no passado, sem que ninguém tivesse forma de fugir a esta “obrigação”.
Na verdade, se dispensássemos mais inventário aos nossos parceiros tradicionais e locais, seja para grupos, seja para individuais, e segmentássemos, de uma forma mais inteligente, a disponibilidade nos nossos canais diretos de venda (deixando o restante para as OTA’S), conseguiríamos reduzir custos enormes em intermediários que, neste momento, não são mais que um canal de venda rápida, sem qualquer estratégia. E, com isso, poderíamos canalizar essa eventual poupança para investimento (sem que fosse, quase toda ela, diretamente para GOP).
Como? Uma das formas seria tentar, por algum meio, um acordo com as principais companhias aéreas e participar nos custos de alterações dos respetivos voos. Significa isto que, se por exemplo, numa mudança de voo, o custo fosse repartido (não necessariamente em percentagens iguais) pelo hotel, pelas companhias aéreas, e – porque não – pelas taxas turísticas, conseguiríamos que a estada média aumentasse. Com isso, teríamos – de imediato – mais faturação para o hotel, para as agências emissoras de reservas e, muito provavelmente, para as próprias companhias aéreas, que, ao saberem da alteração de voo, conseguiriam vender novamente esses mesmo lugares.
Claro que é uma ideia que envolve muitas entidades, que tem obrigatoriamente de ser amadurecida, bem pensada e melhor executada, e que só poderia avançar com o contributo de todos.
Sob o lema “mais que um hotel ou uma agência, temos de promover um destino”, que – reconheça-se – não passa exclusivamente só por Lisboa, Sintra e Cascais. Com uma estada média mais longa, poderia-se expandir à Península de Setúbal, ao Ribatejo e à Zona Oeste, que tanto têm para ver e desfrutar, seja nas suas rotas vinícolas, nas suas praias, na natureza ou na história.
O que não podemos é continuar nesta dependência absurda de parceiros a quem poucos conhecemos o rosto, e que, na realidade, muito pouco contribuem para o enriquecimento do país, seja em termos de criação de postos de trabalho, seja em receita fiscal, seja em serviço prestado!
A ideia não poderá ser – nunca, obviamente – a de fomentar um cartel, mas sim a de gerar uma menor dependência (que, neste momento, é manifestamente exagerada).
A necessidade imperiosa em vender não nos pode conduzir a um processo de tomada de decisões sem planeamento e sem estratégia.
Lisboa será sempre um sucesso a nível turístico, porque tem condições ímpares na Europa para o ser! Mas talvez seja chegado o momento de “puxar dos galões” e sermos nós, internamente, com a ajuda dos parceiros locais e das companhias de aviação que servem a cidade, a definir qual o caminho a seguir.
Por Alfredo Tavares
É diretor geral do grupo The Beautique Hotels






