“Nenhuma empresa, nenhum operador, nenhuma entidade, nenhum projeto isolado consegue resolver a sazonalidade por si. Trata-se de um desafio de destino, que exige alinhamento, visão comum e uma proposta coerente ao longo do ano”
Por Ana Clara Silva
A sazonalidade é, de facto, um dos grandes problemas do turismo. Não é um conceito teórico, nem uma abstração estratégica. É uma realidade concreta que condiciona a vida dos destinos, das empresas e das pessoas que neles trabalham.
Existem meses de excesso e meses de ausência, picos intensos de procura seguidos de períodos de incerteza, equipas que sofrem um desgaste sazonal imenso, que se reforçam rapidamente para depois se desagregarem.
Territórios que respiram com dificuldade na época alta, que são difíceis de visitar e conhecer, onde se vêem multidões e se respira confusão, para depois ficarem desertos em época baixa com vidas em suspenso.
Perante esta realidade, a reação mais comum é compreensível. Na época alta, tenta-se receber todos. Facilita-se, acelera-se, multiplica-se a oferta. Não por ambição desmedida, mas porque se sabe o quão difícil é garantir trabalho, rendimento e continuidade quando a procura desaparece. Parece literalmente a história da formiga e da cigarra.
Mas é aqui que começa o problema maior.
Aceitar tudo na época alta não resolve a sazonalidade, apenas a adia e muitas vezes agrava.
Quando se concentra todo o esforço num curto período de tempo, cria-se um modelo frágil, dependente de picos, vulnerável a qualquer quebra e profundamente desgastante para o território e para quem nele trabalha. Quanto mais se força a época alta, mais intensa, desgastante e pouco verdadeira ela se torna.
Combater a sazonalidade não significa aceitar menos pessoas por princípio. Significa aceitar que não se combate o problema sozinho.
Nenhuma empresa, nenhum operador, nenhuma entidade, nenhum projeto isolado consegue resolver a sazonalidade por si. Trata-se de um desafio de destino, que exige alinhamento, visão comum e uma proposta coerente ao longo do ano.
Aceitar apenas o possível na época alta, sem querer fazer milagres para aceitar toda a gente, e atrair mais na época baixa só é possível quando existe uma narrativa partilhada, uma estratégia conjunta e uma oferta pensada para diferentes momentos, ritmos e públicos.
A solução não está em baixar preços fora da época, nem em replicar o modelo da época alta durante todo o ano. Está em criar valor real nas propostas de época baixa, propostas que façam sentido naquele tempo, naquele ritmo, naquele contexto.
Um destino que funciona todo o ano não é um destino igual o ano inteiro. É um destino que aceita a mudança, que propõe experiências diferentes consoante a estação e que comunica com públicos distintos sem abdicar da sua identidade.
E aqui entra um ponto essencial: combater a sazonalidade não implica deixar de dizer “este produto não é para todos”. Pelo contrário. A época baixa é, muitas vezes, o momento em que o destino se revela com mais verdade. Sem pressa, sem excesso, sem ruído. É o tempo de quem escolhe conscientemente, de quem valoriza contexto, silêncio, profundidade. Não é para todos, e não precisa de ser.
O erro está em querer resolver a sazonalidade tornando tudo acessível e rápido. Isso não cria valor. Cria desgaste.
A sazonalidade resolve-se quando o destino decide, em conjunto, com todos os intervenientes da equação, que tipo de turismo quer em cada momento do ano. Quando aceita limites. Quando distribui a procura no tempo em vez de a concentrar. Quando entende que a sustentabilidade não é apenas ambiental. É também económica, social e humana e talvez a humana deva ser a primeira a considerar.
Enquanto continuarmos a tratar a sazonalidade como um problema a resolver apenas na época alta, continuaremos presos ao mesmo ciclo. Só quando for assumida como um desafio coletivo, pensado como destino e não como soma de esforços isolados, poderá ser verdadeiramente enfrentada.
Nenhum projeto, por mais sólido que seja, consegue equilibrar sozinho aquilo que só o destino pode decidir.
Quando é que nos vamos verdadeiramente sentar todos à mesa e dialogar, quando? Todos sofremos da mesma doença, e já sabemos que a cura estará na nossa união.
Por Ana Clara Silva
É diretora de Operações da Pipadouro, empresa de turismo fluvial de luxo no Douro. Assina mensalmente a coluna de opinião Contrafluxo, um espaço para pensar o Douro, o vinho e o turismo com autenticidade, elegância e sentido crítico.




Excelente desafio. Aliás, absolutamente necessário, para que a sobrecarga do Verão não torne este nosso Destino pouco aconselhável. Há tanta oferta para a época baixa! Se todos nos sentarmos, poderemos encontar algumas respostas.
Tomei a liberdade de fazer um “copy past” da parte final do seu artigo para a minha página do Facebook.