“Assumir que um destino, uma experiência ou um projeto turístico não pode ser para todos não é um ato de exclusão. É, cada vez mais, um ato de sustentabilidade. Se queremos prolongar a vida dos destinos (…) temos de aceitar que existem limites naturais, culturais e humanos que não podem ser ultrapassados”
Por Ana Clara Silva
Fala-se hoje muito sobre o crescimento do turismo. Sobre os recordes batidos, os números superados, as metas alcançadas. Os indicadores multiplicam-se e, com eles, a sensação de sucesso.
Mas raramente se pergunta o que significam esses números, o que medem de facto e o que deixam de fora. E mais, quais os prejuízos associados.
Este texto não é sobre exclusão social. É sobre critério, identidade e respeito.
Durante muito tempo acreditou-se que quanto mais acessível, abrangente e compreensível fosse uma proposta turística, maior seria o seu sucesso. Criou-se a ideia de que tudo devia ser explicado, simplificado e adaptado para chegar ao maior número possível de pessoas, atraindo-as assim para o destino/produto. Mas quando um projeto tenta ser entendido por todos, arrisca-se a deixar de fazer sentido para quem realmente o procura.
No turismo, esta tensão é permanente. Entre agradar a muitos ou ser fiel a uma identidade. Entre ampliar o público ou aprofundar a experiência. Entre facilitar o acesso ou preservar o significado.
Existe um medo silencioso de assumir escolhas claras: o receio de parecer ‘elitista’, o receio de dizer, com honestidade, “isto não é para todos”, o medo de perder público, oportunidades ou escala. No entanto, selecionar não é excluir. Selecionar é definir, é assumir um posicionamento, é respeitar o território, o projeto e o próprio visitante.
Nem todas as experiências são universais, nem todos os ritmos são compatíveis.
E aqui permito-me uma partilha pessoal. No Douro, há um momento com que presenteamos os nossos clientes em cada experiência: o momento em que o barco abranda, os motores se desligam e as pessoas são convidadas a fechar os olhos. Não para ouvir uma explicação, nem para seguir um guião, mas para sentir em plenitude o silêncio e o excesso de natureza que transborda naquela paisagem.
Esse momento é impagável e não é compatível com passeios de massas, não há tempo para ele quando tudo é acelerado. Não há atenção possível quando o foco está em cumprir horários, gerir volumes ou seguir um áudio-guia.
Sentir o Douro na sua plenitude exige presença, cuidado, disponibilidade e respeito pelo ritmo do lugar. É aqui que a ideia de “receber todos” entra em conflito com a verdade da experiência. Não podemos querer acolher toda a gente da mesma forma e acreditar que estamos a oferecer o mesmo serviço. Não estamos.
Criar experiências continuará a ser essencial. Comunicar também. Mas fazê-lo com intenção, com identidade assumida e com clareza sobre para quem se fala é hoje um sinal claro de maturidade no turismo.
Assumir que um destino, uma experiência ou um projeto turístico não pode ser para todos não é um ato de exclusão. É, cada vez mais, um ato de sustentabilidade. Se queremos prolongar a vida dos destinos, preservar a sua identidade e garantir experiências com sentido ao longo do tempo, temos de aceitar que existem limites naturais, culturais e humanos que não podem ser ultrapassados.
Ainda assim, insiste-se muitas vezes em facilitar o turismo de massa, como se acessibilidade total fosse sinónimo de progresso. Simplifica-se, acelera-se, multiplica-se. Mas quanto mais se força um destino a receber todos, mais rapidamente se desgasta aquilo que o torna único. E isso é trágico.
A sustentabilidade no turismo não começa apenas nas práticas ambientais ou nos discursos bem-intencionados. Começa na escolha. No critério. Na coragem de dizer que nem todos os públicos fazem sentido, nem todos os ritmos são compatíveis, nem todas as propostas ganham em ser ampliadas indefinidamente.
Porque dizer “não é para todos” não é excluir. É proteger.
E, sobretudo, é garantir que continue a fazer sentido para quem realmente procura.
Por Ana Clara Silva
É diretora de Operações da Pipadouro, empresa de turismo fluvial de luxo no Douro. Assina mensalmente a coluna de opinião Contrafluxo, um espaço para pensar o Douro, o vinho e o turismo com autenticidade, elegância e sentido crítico.




