O presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP) destacou esta quinta-feira a necessidade de captar novos mercados, numa altura em que o principal mercado emissor de turistas, o Reino Unido, “tem estado a arrefecer”. Francisco Calheiros voltou também a defender uma “solução intermédia enquanto não houver aeroporto em Alcochete” e considerou que a revisão da lei laboral é “muito positiva e equilibrada”. Alertou ainda que a guerra no Médio Oriente poderá ter “fortes consequências económicas”.
Na sessão de abertura do congresso da ADHP – Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal, em Elvas, Francisco Calheiros destacou o desempenho histórico do turismo nacional em 2025, sublinhando que “nunca como no ano passado os turistas gastaram tanto dinheiro em Portugal”. Segundo os dados oficiais, as receitas turísticas cresceram 6,1% no último ano, atingindo um novo máximo de 29,4 mil milhões de euros, acima dos 27,7 mil milhões registados em 2024.
No caso da hotelaria, o presidente da CTP afirmou que o setor “continua a viver um momento de crescimento e investimento”, destacando “a procura internacional e a atração de grandes cadeias hoteleiras”.
Contudo, reconheceu que persistem desafios, nomeadamente ao nível da falta de mão de obra. O setor, disse, tem procurado respostas através de iniciativas como o programa “Integrar para o Turismo”, que junta o Turismo de Portugal, a AIMA e a CTP, que promove a integração de migrantes na atividade turística. Para Calheiros, trata-se de “mais um exemplo de como o turismo é a melhor parceria público-privada do país”.
Revisão da lei laboral para “construir um setor turístico forte”
Francisco Calheiros reiterou que a revisão da legislação laboral em discussão tem “uma importância decisiva para o futuro do emprego e da competitividade em Portugal”, nomeadamente no setor turístico.
“No turismo, as regras laborais tornam-se ainda mais relevantes devido a características específicas da atividade turística como a sazonalidade, o trabalho por turnos, os horários noturnos e o aumento de atividade em épocas festivas e de férias”, afirmou.
“A legislação laboral no turismo é essencial para equilibrar os interesses das empresas e os direitos dos trabalhadores. Só com condições de trabalho justas é possível construir um setor turístico forte, competitivo e sustentável”, afirmou, acrescentando que “a reforma que está em discussão parece-nos muito positiva e equilibrada, pelo que espero que se chegue a bom porto neste tema”.
Captação de novos mercados
Para garantir um crescimento sustentado do turismo, é essencial “assentar a estratégia na captação de novos mercados e seduzir turistas com maior poder de compra”, afirmou.
Apesar de continuar a liderar, o mercado britânico “tem estado a arrefecer”, referiu, defendendo por isso a necessidade de “garantir novas rotas para captar novos mercados”, nomeadamente da América Latina, e “reforçar mercados como o norte-americano”.
“Os Estados Unidos são um bom exemplo de mercado que gera valor e no qual temos de continuar a apostar. Mas não só”, sublinhou, destacando o potencial do mercado asiático, nomeadamente a China, o Japão e a Coreia do Sul.
Neste contexto, sublinhou o papel das ligações aéreas, referindo que os voos diretos “com cidades dos Estados Unidos e a capital da Coreia do Sul são essenciais e será até desejável haver um reforço destas rotas”.
Solução intermédia no aeroporto e modernização da ferrovia
No plano das infraestruturas, o presidente da CTP voltou a insistir na necessidade de avançar com soluções que reforcem a capacidade aeroportuária de Lisboa.
“Não haja receio em decidir, em ficar com o ónus da decisão ou em recuar um pouco. Ninguém levaria a mal uma pequena inversão na estratégia e que o Governo equacionásse o investimento numa solução intermédia enquanto não houver aeroporto em Alcochete”, disse.
Defendeu igualmente uma aposta clara na modernização da rede ferroviária. “Acelerem-se as decisões que tenham de ser tomadas, acabem-se com as burocracias desnecessárias, invista-se o dinheiro que existe para que o TGV e a modernização da ferrovia sejam uma realidade em Portugal”, frisou, acrescentando que “é importante que o turismo tenha as condições para continuar a crescer regionalmente”.
Para o responsável, é “urgente modernizármos as nossas infraestruturas de mobilidade: um novo aeroporto para receber mais turistas e uma ferrovia moderna que ligue todo o país”.
Adaptação do setor ao novo perfil de turista e instabilidade geopolítica
Francisco Calheiros destacou ainda a necessidade de o setor continuar a adaptar-se às novas tendências dos visitantes. “Há uma mudança visível no perfil dos turistas. A adaptação à nova procura está em curso e deve ser reforçada”, afirmou, defendendo uma oferta cada vez mais diferenciada e orientada para experiências únicas, capazes de prolongar as estadias e aumentar o valor gerado pelo turismo.
Ao mesmo tempo, alertou para a instabilidade geopolítica internacional que levanta “cada vez mais incertezas”. “Já não bastava a guerra na Ucrânia e o conflito Israel-Palestina e este fim de semana acordámos com as notícias da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão, que poderá ter fortes consequências, nomeadamente económicas”, rematou.



