Quinta-feira, Julho 18, 2024
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Da ficção à realidade: O que acontece quando um destino turístico fica sob os holofotes de Hollywood?

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Hollywood sempre incutiu um sentido de desejo de viajar na sua audiência, e promover este sentimento de aspiração a viajar tem sido uma caraterística fundamental dos filmes desde os primeiros dias do cinema. No entanto, se combinarmos isso com a explosão de estrelato nas redes sociais que ocorre nos dias de hoje, um destino pode sofrer com o peso dessa atenção. Quando uma cidade ou região é colocada sob os holofotes, de Taormina, na Sicília, a Dubrovnik, na Croácia, o aumento do turismo é positivo ou as desvantagens são demasiado grandes para serem ultrapassadas? Como é que uma região pode responder e recuperar de um aumento tão repentino e massivo de interesse?

Este artigo, da Thrillist, analisa como diferentes destinos lidaram com esta situação, desde restrições de visitação até à implementação de medidas de sustentabilidade.

“White Lotus”: Taormina, Sicília, Itália

A segunda temporada de “The White Lotus”, que foi transmitida em 2022, escolheu o San Domenico Palace, um hotel Four Seasons em Taormina, na Sicília, como cenário. O próprio hotel tinha acabado de abrir no ano anterior, mas a série criou um apetite insaciável nos viajantes para ficarem, jantarem ou de outra forma visitarem o enclave de luxo exclusivo. “Já vi pessoas a chorar porque não as deixámos entrar”, diz Juri Romano, gerente do bar no San Domenico Palace. Como uma mulher a gritar com o marido: “Eu disse-te para reservares em novembro! Ela estava mesmo a chorar”.

Hotel San Domenico Palace, em Taormina, Itália, onde foi gravada a 2ª temporada da série “White Lotus”.

A situação obrigou a propriedade a adaptar as suas políticas para garantir que os hóspedes internos recebiam o nível de serviço e as comodidades disponíveis de que estavam à espera. “Os nossos hóspedes começaram a perguntar-se o que se estava a passar e, por isso, fechámos as portas aos visitantes externos”, explica Alessandro Malfitana, sommelier do Principe Cerami, o restaurante do hotel com uma estrela Michelin.

Mas ainda há esperança para os visitantes que não conseguem garantir um dos cobiçados quartos do hotel, mas que ainda assim querem visitar para uma refeição ou bebida. O conselho de Malfitana é simplesmente planear com a maior antecedência possível. “Sabíamos que esta tempestade – esta tempestade muito boa – estava a chegar, por isso a mensagem agora tem sido: Por favor, reserve com antecedência para garantir um lugar”.

Gerir as expectativas e o espaço tem-se revelado difícil, mas é o receio do oposto, da diminuição da afluência, que preocupa a equipa. “A minha preocupação é o que vai acontecer no próximo ano, porque eles vão seguir em frente; esse é o maior pensamento que tenho”, diz Romano.

O hotel onde trabalha é o epicentro do boom turístico de Taormina, mas acredita que o impacto positivo está a ser sentido em toda a região e em toda a ilha. “Penso que a Sicília é um dos destinos mais populares este ano e, por isso, isto é bom para toda a Sicília, não apenas para a nossa propriedade ou apenas para Taormina”, afirma Romano.

“Game of Thrones”: Dubrovnik, na Croácia

Dubrovnik, Croácia, onde decorreram gravações da série “Game of Thrones”. Foto: Spencer Davis/Unsplash

E, claro, há Dubrovnik, que serviu como King’s Landing na série da HBO, Game of Thrones (GOT). Mas mesmo antes das multidões entusiasmadas com Stark e Lannister terem começado a chegar, a sua cidade velha murada já era uma área restrita. “Dubrovnik tem um problema de espaço limitado, uma vez que toda a gente quer ver a cidade murada e os portões são minúsculos”, diz Ivan Vukovic, um conhecido guia turístico que começou a organizar visitas guiadas à região, centradas em GOT, após a estreia da série. “Não podemos acomodar demasiadas pessoas ao mesmo tempo.”

Um ex-presidente da câmara estimou que metade do crescimento turístico de Dubrovnik na metade da década de 2010 foi impulsionado pela série, e essa afluência em massa forçou o governo a agir, implementando políticas para controlar o fluxo. “O governo de Dubrovnik fez algo muito positivo ao limitar os navios de cruzeiro a dois por dia”, diz Vukovic. “O número de passageiros que entram e saem, que pouco ou nada contribuem para a economia local, diminuiu em milhares, e os visitantes são incentivados a passar noites na região, impulsionando os negócios com gastos diretos em vez de apenas congestionar as ruas”. O governo também limitou o número de turistas autorizados a subir às Muralhas da Cidade de Dubrovnik.

Dubrovnik, Croácia. Foto: Patricia Jekki

“É uma bênção e uma maldição quando cidades como Dubrovnik atingem tal popularidade”, defende Vukovic. “Mas devo dizer que nunca é demais, visto que o turismo é a nossa principal indústria. É difícil torná-lo sustentável, mas estamos a caminhar nesse sentido. Dubrovnik está numa posição melhor para o turismo do que estava antes.”

A recomendação de Vukovic é considerar visitar Dubrovnik durante outras estações para além da agitação do verão e explorar para lá dos locais mais famosos para ter uma experiência superior. “Não se esqueça de explorar mais além das suas imponentes muralhas”, frisa. “Use Dubrovnik como um centro para ficar mais tempo, vivenciar mais coisas e visite nos meses de inverno, quando desfrutamos de um clima suave mediterrânico.”

“Vikings” e “Game of Thrones”: Islândia

Enquanto Dubrovnik tomou medidas limitando o turismo e filtrando os tipos de turistas que menos contribuíam em termos de impacto económico, outras áreas responderam de formas diferentes. Considere-se o caso da Islândia, que recebeu o seu próprio aumento de popularidade devido também a Game of Thrones – juntamente com a série Vikings, o filme Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga e muitas outras aparições na cultura pop – mas que conseguiu aumentar as infraestruturas e as capacidades turísticas para acompanhar este aumento. Isto inclui um aumento do número de voos e hotéis, bem como a qualidade e capacidade das estradas, empresas de aluguer e fornecedores de transportes.

O turismo na Islândia aumentou de 500.000 visitantes em 2010 para 2,2 milhões em 2018, coincidindo aproximadamente com a exibição completa de Game of Thrones, um salto de 340% em menos de uma década. Quinhentos novos quartos de hotel em poucos anos podem não parecer muito numa grande cidade metropolitana, mas para um país com menos de 400.000 habitantes, esses projetos conseguiram satisfazer substancialmente a procura reprimida. A Islândia viu uma oportunidade de se destacar como um destino turístico a nível mundial e acolheu-a de braços abertos, realizando investimentos diretos não apenas para lidar com o aumento repentino, mas também para o sustentar a longo prazo.

Islândia. Foto: Vilmos Heim/Unsplash

“A Praia”: Ko Phi Phi, na Tailândia

Um dos primeiros locais a sentir os efeitos completos de uma torrente moderna de turismo impulsionada por Hollywood foi Ko Phi Phi, na Tailândia. A quase totalmente fechada Maya Bay em Ko Phi Phi Leh, escondida do mundo graças às íngremes rochas que a rodeiam, ficou imortalizada na mente dos mochileiros de todo o mundo como o refúgio tropical perfeito em “A Praia”, o filme com Leonardo DiCaprio que estreou em 2000. O icónico local também desempenhou um papel principal em filmes como “007 – O Amanhã Nunca Morre”, lançado vários anos antes.

“Há trinta anos, havia apenas algumas pessoas aqui, a minha família e eu visitámo-la pela primeira vez num barco de pescadores e podíamos ver baleias a lançar água pelo caminho”, diz Watrapol Jantharo, um operador de hotel e antigo presidente da Associação Empresarial de Turismo de Phi Phi. Watrapol Jantharo descreve como Maya Bay nem sequer tinha palmeiras, pelo que foram transferidas de Krabi para lá como adereços para o filme “A Praia”. “Depois de terminarem de fazer o filme, deixaram algumas palmeiras onde as tinham colocado.”


Ko Phi Phi, Tailândia, onde foi gravado o filme “A Praia”. Foto: Stefan Pflaum/Unsplash

O que costumava ser um esconderijo de difícil acesso tornou-se uma sensação. Milhares de pessoas iriam até lá durante uma tarde, sobrecarregando e degradando a área com resultados catastróficos, uma cruel ironia para um pequeno trecho do mundo adorado pela sua avassaladora beleza natural.

Embora os esforços para recuperar Maya Bay tenham começado antes da pandemia, o encerramento do turismo devido à covid-19 permitiu uma ação mais completa. “Os turistas continuaram a visitar Phi Phi mesmo quando a Baía Maya ainda estava fechada, até à chegada da covid-19, e depois Phi Phi esteve fechada durante quase três anos”, recorda Jantharo.

O Parque Nacional Hat Noppharat Thara-Mu Ko Phi Phi entrou em ação para restaurar os recifes de coral, restringir o movimento do turismo e cobrar taxas de entrada para o acesso ao parque. Ironicamente, um grande passadiço construído pela equipa de produção de “A Praia” agora serve como a entrada oficial para a área. “Eles construíram o grande terraço de madeira que podia ligar-se à outra baía, a Baía de Losama, que agora é a entrada principal”, relata Jantharo. “Lembro-me de pensar de forma positiva: se a equipa de Hollywood não tivesse construído o terraço, não saberíamos que poderia ser ligado à entrada por trás de Maya Bay. A partir daí, o parque nacional conseguiu limitar o número de barcos.”

Jantharo vislumbra um futuro promissor para Maya Bay graças às mudanças e melhorias que foram feitas. “Na última alta temporada em novembro de 2022, pude ver que os turistas regressaram em força, e Phi Phi está novamente cheia, mas não da mesma forma negativa”, afirma. “Há um novo sistema para gerir as pessoas para que não visitem mais de uma ou duas horas, e podem gerir e limitar os barcos que entram.”

Ko Phi Phi, Tailândia. Foto: Humphrey Muleba/Unsplash

Enquanto as enormes multidões de turistas impulsionados por Hollywood podem ser ótimas para a economia local e para os pequenos empresários, também podem causar estragos no ambiente, bem como na qualidade de vida dos habitantes locais, e diminuir os fatores que tornaram uma determinada área, seja a cidade murada de Dubrovnik ou a praia intocada de Maya Bay, tão cativante e procurada.

“Todos os anos observamos e aprendemos, pois as tendências do turismo mudam rapidamente”, diz Vukovic. Para um operador turístico como Vukovic, ou para os empregados de um resort de luxo próspero como o San Domenico Palace, quanto mais, melhor. “Esperamos que nunca acabe”.

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