Sábado, Fevereiro 14, 2026
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Dependência do turismo e fraca coesão territorial limitam crescimento económico em Portugal, alerta estudo

A fraca coesão territorial e a especialização excessiva no turismo estão a travar o crescimento económico em Portugal, segundo defende um estudo académico divulgado pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP).

De acordo com o resumo do estudo, “o atual modelo de centralismo territorial em Portugal está a comprometer a coesão nacional e a limitar o potencial de crescimento económico do país no contexto da União Europeia (UE)”.

A investigação aponta que a concentração excessiva de poder político, económico e decisório na Área Metropolitana de Lisboa (AML) tem impactos negativos persistentes no desempenho económico de longo prazo, agravando desigualdades regionais e dificultando a consolidação de um modelo de crescimento mais equilibrado, produtivo e inclusivo.

O estudo baseia-se numa análise de dados do Eurostat e do Instituto Nacional de Estatística entre 2000 e 2023, incluindo indicadores como PIB per capita em Paridade do Poder de Compra, produtividade, estrutura setorial do Valor Acrescentado Bruto e distribuição populacional.

“A convergência regional observada foi limitada e ocorreu num contexto de empobrecimento relativo do país no seu conjunto, resultando sobretudo de um menor crescimento das regiões mais ricas e não de um salto estrutural das regiões mais desfavorecidas, configurando um processo de igualização por baixo”, afirma.

A análise dedica também atenção à Área Metropolitana do Porto (AMP), que tem vindo a perder nível de vida relativo. “Este fenómeno fragiliza não apenas o desenvolvimento local, mas o desempenho económico de toda a região Norte”, refere, sublinhando que, ainda assim, “a AMP reúne condições para se afirmar como um dos principais motores económicos do país, desde que consiga atrair e fixar população, talento e investimento que sustentem ganhos de produtividade”.

Um dos eixos centrais do estudo incide na excessiva especialização da economia portuguesa no turismo e no imobiliário. Segundo os investigadores, trata-se de setores de baixo valor acrescentado, intensivos em mão de obra pouco qualificada, que contribuem de forma limitada para o progresso técnico e para o aumento sustentado da produtividade.

Consideram ainda que este modelo, associado ao centralismo territorial, desvia investimento de atividades transacionáveis, industriais e tecnológicas, com maior potencial de inovação e criação de valor. O estudo refere ainda que Portugal permanece excessivamente especializado no setor público e perdeu peso relativo na indústria.

No investimento, a análise da Formação Bruta de Capital Fixo entre 2009 e 2023 revela um crescimento de 45,8% na AML, próximo dos 52,3% registados na região Norte. No entanto, as fontes diferem substancialmente: enquanto o Norte depende sobretudo de fundos de coesão europeus, a AML beneficia da sua centralidade política e económica, apesar de não ter acesso aos mesmos mecanismos de apoio comunitário.

Os autores sublinham também que Portugal é um dos poucos países da UE sem níveis efetivos de governação intermédia, penalizando especialmente os territórios do interior.

Nesto contexto, defendem a necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento territorial e económico, através da criação de polos regionais fortes de crescimento, da reorientação do investimento público e dos incentivos privados, recomendando uma reforma “profunda” do Estado com “efetiva” descentralização e “promoção de uma economia mais produtiva e menos dependente do turismo”.

O estudo é da autoria do diretor da FEP, Óscar Afonso, e do investigador e coordenador do Gabinete de Estudos Económicos, Empresariais e de Políticas Públicas (G3E2P), Nuno Torres.

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