O Rali de Portugal vai ficar fora do calendário do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC) de 2027, revelou esta terça-feira o Automóvel Club de Portugal (ACP), uma decisão que já motivou fortes reações da Turismo Centro de Portugal (TCP) e do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), que classificam a ausência da prova como “um murro no estômago” e “um desastre” e exigem explicações sobre as circunstâncias que levaram à sua exclusão.
Numa nota enviada esta terça-feira, o ACP informa que “alteração de última hora força intervalo na presença de um dos mais emblemáticos ralis do campeonato do mundo, admitindo-se regresso em 2028”.
O organismo revela que, apesar de já existir uma data prevista para a prova no próximo ano, entre 13 e 16 de maio, “fruto de alterações feitas pelo promotor no último dia da preparação da próxima temporada do WRC, com o objetivo de a tornar geograficamente tão diversa e intercontinental quanto possível, o Vodafone Rally de Portugal foi uma das provas cuja calendarização foi afetada”.
O ACP acrescenta ter já mantido “as primeiras conversas entre o Automóvel Club de Portugal e o promotor do WRC tendentes à avaliação da possibilidade do Vodafone Rally de Portugal voltar a integrar o Mundial de Ralis em 2028”.
Turismo Centro de Portugal: “perdemos economia, perdemos dormidas, perdemos promoção internacional”
Num comunicado enviado esta terça-feira, a Turismo Centro de Portugal lamenta a decisão e considera que as consequências da saída do Rali de Portugal do Mundial ultrapassam a dimensão desportiva.
Para Rui Ventura, presidente da TCP, trata-se de “um murro no estômago”, sendo, acrescenta, “uma notícia profundamente negativa para Portugal e que não pode ser recebida com normalidade”. O responsável considera que “o Rally de Portugal é uma das grandes marcas internacionais do nosso país, construída ao longo de décadas e reconhecida em todo o mundo”.
O impacto económico e turístico da prova é também destacado pelo presidente da entidade regional. “Estamos a falar de um evento com um impacto extraordinário na promoção externa de Portugal, na economia dos territórios, na hotelaria, na restauração, no comércio e no emprego. São milhares de visitantes que acompanham a prova e milhões de pessoas em todo o mundo que conhecem Portugal através das imagens do Rally”, afirma.
Para o Centro de Portugal, a decisão ganha uma importância adicional devido ao trabalho que estava a ser desenvolvido para reforçar a presença da prova na região. “Para a região, esta notícia é particularmente difícil de aceitar. Existia um trabalho em curso para reforçar a presença do Rally no nosso território, com Viseu a assumir um papel relevante, criando uma oportunidade excecional de promoção internacional e de retorno económico para toda a região. Esse trabalho e essa expectativa ficam agora interrompidos”, sublinha Rui Ventura.
A Turismo Centro de Portugal considera, por isso, essencial conhecer as circunstâncias que conduziram à exclusão da prova do calendário de 2027. “É necessário perceber exatamente o que aconteceu. Como é possível que uma prova com este historial, esta notoriedade e este impacto fique de fora do calendário mundial? Que negociações foram realizadas? Que alternativas foram apresentadas? Que condições colocou o promotor? E, sobretudo, o que foi feito para defender até ao limite a presença de Portugal?”, questiona.
A possibilidade de regresso em 2028 não elimina a relevância da ausência no próximo ano, segundo Rui Ventura. “Se houve uma alteração de última hora por parte do promotor do WRC para procurar uma maior dispersão geográfica e intercontinental do campeonato, então Portugal deve também perceber por que razão foi o Rally de Portugal a pagar esse preço. Não basta dizer que poderá regressar em 2028. Uma marca internacional desta dimensão não pode entrar e sair do calendário como se nada estivesse em causa”, salienta.
O presidente da Turismo Centro de Portugal recorda ainda a capacidade do evento para projetar Portugal internacionalmente e gerar retorno nos territórios onde é realizado. “O nosso país acolhe e apoia muitos acontecimentos desportivos, mas alguns têm uma dimensão absolutamente diferenciadora. O Rally de Portugal é um deles. Em 2027 não perdemos apenas uma prova de automóveis: perdemos economia, perdemos dormidas, perdemos promoção internacional e perdemos, durante um ano, uma das grandes marcas de Portugal no mundo”, afirma.
Perante este cenário, Rui Ventura defende que o processo deve ser esclarecido e que deve ser preparado desde já o futuro regresso da prova ao Mundial. “Agora é tempo de explicações e, sobretudo, de garantir que esta ausência não se transforma numa perda definitiva. O Rally de Portugal tem um valor demasiado importante para o turismo, para os territórios e para a imagem internacional do país para que esta decisão seja encarada com resignação”, conclui.
Turismo do Porto e Norte: “não é um mero contratempo, é um desastre”
Também o Turismo do Porto e Norte de Portugal reagiu esta terça-feira à saída do Rali de Portugal do calendário do WRC em 2027, considerando que se trata de “uma péssima notícia para os territórios do interior”. Em comunicado, Luís Pedro Martins, presidente do TPNP, garante que “o Norte não se conforma, esta ausência não se pode tornar definitiva”.
“A exclusão do Rally de Portugal do Mundial de 2027 não é um mero contratempo, é um desastre. Para as regiões do Norte e do Centro, berço histórico da prova e onde o Rally consolidou a sua identidade, esta decisão é um golpe direto na economia, no turismo e na nossa projeção internacional”, considera.
O responsável questiona ainda as circunstâncias que levaram à saída da prova do calendário mundial. “Como permitimos que uma das maiores marcas de Portugal seja descartada do calendário global? O que falhou? A notícia de um possível regresso em 2028, em nada tranquiliza todos aqueles que ao longo dos anos investiram milhares de euros no Rally de Portugal – municípios, Turismo de Portugal e Entidades Regionais”, sublinha.
“Perder o Rally é perder território, economia, emprego e prestígio. Exigimos saber do ACP o que falhou. Esta ausência não se pode tornar definitiva. O Norte não se conforma”, afirma Luís Pedro Martins.
Realizado pela primeira vez em 1967, o Rali de Portugal integrou o WRC desde a sua criação, em 1973, ano em que foi a terceira prova do calendário. Ao longo das décadas, afirmou-se como um dos eventos mais reconhecidos da modalidade, tendo sido eleito por cinco vezes como o melhor rali do mundo.
Entre 2002 e 2006 esteve ausente do WRC, regressando em 2007 com uma edição disputada no Algarve. Desde 2009, mantém-se de forma ininterrupta no calendário mundial, sob organização do ACP.




