Entrevista | Grupo Alexandre de Almeida vê 2026 em linha com 2025, mas deixa alertas para Lisboa

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O Grupo Alexandre de Almeida acredita que “2026 deverá encerrar com resultados globalmente semelhantes aos de 2025”, mas deixa um alerta para o futuro de Lisboa enquanto destino turístico. Em entrevista ao TNews, Pedro Mendes, diretor de Vendas dos Hotéis Alexandre de Almeida, manifesta preocupação com o crescimento da oferta hoteleira na capital, num contexto em que continuam por concretizar projetos estruturantes como o novo aeroporto e a alta velocidade, sem que tenham surgido novas atrações turísticas capazes de acompanhar o aumento da capacidade instalada.

O primeiro semestre de 2026 “decorreu num contexto marcado pela instabilidade económica e geopolítica internacional, fatores que influenciaram a confiança dos consumidores e os padrões de compra das viagens”, afirma o responsável. “Verificou-se igualmente uma maior sensibilidade ao preço e uma tendência crescente para decisões de reserva mais próximas da data de estadia e de uma escolha de última hora assente no residual de confiança e valor dos destinos disponíveis”, aponta.

Segundo o responsável, o aumento do preço da aviação comercial e a incerteza quanto à viabilidade de algumas rotas tradicionais, nomeadamente para o sudoeste asiático devido à crise no Médio Oriente, também condicionaram a procura.

A nível nacional, as condições meteorológicas adversas registadas na região Centro, onde o grupo opera três unidades hoteleiras, bem como os incêndios registados recentemente, tiveram igualmente impacto no negócio.

Apesar deste enquadramento, o grupo conseguiu manter um desempenho global relativamente estável, com resultados em linha com os registados em 2025, embora “ligeiramente abaixo das expectativas inicialmente traçadas para este ano”.

Verão marcado pelas reservas de última hora

A época de verão tem sido caracterizada por uma forte concentração da procura em reservas efetuadas com menor antecedência, “o que reduz a visibilidade sobre os resultados finais e obriga a uma gestão comercial mais dinâmica”, constata Pedro Mendes.

“Temos observado níveis de ocupação globalmente estáveis, acompanhados por algum ajustamento da ADR em determinados períodos. O principal desafio passa por encontrar o equilíbrio entre a manutenção dos níveis de ocupação e a proteção da rentabilidade, num mercado cada vez mais competitivo”, refere.

Em termos de mercados emissores, o Grupo Alexandre de Almeida continua a registar um melhor desempenho do mercado nacional, seguido dos Estados Unidos, Alemanha, Espanha e França.

EUA, Espanha e Japão são mercados estratégicos

O grupo pretende agora reforçar a sua presença no mercado nacional, sobretudo nos períodos de maior procura interna, ao mesmo tempo que consolida o seu posicionamento em mercados considerados estratégicos.

“Pretendemos continuar a reforçar a nossa presença no mercado nacional, particularmente durante os períodos de maior procura interna, bem como consolidar o posicionamento em mercados estratégicos como os Estados Unidos, Espanha e Japão”, revela Pedro Mendes.

Segundo o diretor de Vendas, estes mercados apresentam características particularmente interessantes para o grupo. “São mercados que apresentam potencial de crescimento, boa conectividade aérea e uma procura alinhada com o posicionamento das nossas unidades, representando oportunidades interessantes para diversificar e fortalecer a nossa base de clientes.”

Fundado em 1917, o Grupo Alexandre de Almeida é o mais antigo grupo hoteleiro português e destaca-se por ser o único, a nível mundial, a deter e gerir ininterruptamente quatro hotéis centenários desde a sua fundação.

Nos últimos anos, o grupo investiu na remodelação integral do Hotel Métropole, no Rossio, e na renovação do Carcavelos Beach Hotel, mantendo uma estratégia centrada na valorização dos seus ativos e na melhoria contínua da experiência proporcionada aos hóspedes.

“Os nossos hotéis, pela sua singularidade e carácter, detêm todos eles um posicionamento bem claro, que vai além da oferta de mero alojamento, permitindo uma perfeita estratégia de diferenciação, fator crítico e muito apreciado numa oferta generalizada de propostas hoteleiras muito estandardizadas”, sublinha Pedro Mendes.

À semelhança da generalidade do setor, o recrutamento e a retenção de talento continuam a ser uma das principais preocupações do grupo. “Temos procurado melhorar progressivamente as condições oferecidas aos colaboradores, não apenas ao nível remuneratório, mas também através da valorização profissional, da formação contínua e da criação de oportunidades de desenvolvimento de carreira”, explica.

O responsável defende ainda a necessidade de promover modelos de gestão mais participativos e ambientes de trabalho mais estimulantes. “Entendemos ser necessário evoluirmos para um contexto de trabalho com estruturas hierárquicas achatadas, que promovem a proatividade e o contributo pessoal de cada colaborador para o bem comum”, ou seja, “a criação de ambientes de trabalho nos quais é estimulante desenvolver capacidades e assumir responsabilidades de perfeito empowerment”

“Pretendemos continuar a reforçar a nossa presença no mercado nacional, particularmente durante os períodos de maior procura interna, bem como consolidar o posicionamento em mercados estratégicos como os Estados Unidos, Espanha e Japão”

Lisboa cresce, mas as empresas podem perder rentabilidade

Apesar de manter uma perspetiva moderadamente positiva para o segundo semestre, Pedro Mendes admite alguma apreensão relativamente ao futuro da atividade turística em Lisboa.

“Temos naturalmente receio que Lisboa, por conta do atraso verificado em termos de ferrovia de alta velocidade e aeroporto, e ainda pela inexistência de novas atrações turísticas na cidade, possa perder a pujança obtida na captação de turistas.”

O responsável alerta ainda para o facto de o crescimento da oferta hoteleira na capital não estar a ser acompanhado por novos fatores de atração. “Pela quantidade de hotéis instalados, as receitas macroeconómicas da cidade podem crescer globalmente, mas, também a par da subida dos custos de contexto, num registo microeconómico, as empresas podem ficar aquém dos resultados obtidos em 2025.”

Para Pedro Mendes, a combinação entre o aumento dos custos operacionais, a crescente concorrência e a ausência de investimentos estruturantes poderá condicionar a rentabilidade das empresas nos próximos anos, apesar do bom desempenho global do destino.

“Temos naturalmente receio que Lisboa, por conta do atraso verificado em termos de ferrovia de alta velocidade e aeroporto, e ainda pela inexistência de novas atrações turísticas na cidade, possa perder a pujança obtida na captação de turistas”

Olhando para os próximos anos, o diretor de Vendas dos Hotéis Alexandre de Almeida acredita que a hotelaria portuguesa “continuará a evoluir no sentido de uma maior personalização da oferta, suportada pela utilização de dados, pela digitalização e pela inteligência artificial”.

Ao mesmo tempo, considera que a sustentabilidade continuará a ganhar relevância nas decisões dos consumidores, enquanto a eficiência operacional, a gestão da distribuição e a capacidade de atrair e reter talento serão fatores determinantes para a competitividade das empresas.

“Os turistas são hoje mais informados, mais exigentes, mais sensíveis ao preço e ao valor, e procuram experiências diferenciadoras, o que exigirá uma maior capacidade de segmentação e adaptação por parte dos operadores hoteleiros.”

Factos

Grupo Alexandre de Almeida

Presente em Lisboa, Bussaco, Coimbra e Curia.

Seis hotéis.

Primeiro grupo hoteleiro português.

Mais de 100 anos de atividade.

Único grupo hoteleiro do mundo a gerir ininterruptamente quatro hotéis centenários desde a sua fundação.

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