Há cerca de um mês à frente da Visit Azores, Nuno Leandro inicia um novo ciclo na promoção turística do arquipélago, assente numa identidade “coesa, premium e autêntica”. Em entrevista ao TNews, o presidente da entidade traça como prioridades para o mandato o combate à sazonalidade, o reforço da ligação ao setor privado e a captação de novos mercados, num momento em que decorre a privatização da Azores Airlines, processo do qual espera resultar uma companhia “forte e competitiva”.
Com mais de duas décadas de experiência na hotelaria, Nuno Leandro regressa agora aos Açores depois de ter liderado o Pestana Bahia Praia Nature & Beach Resort, em São Miguel. Mais recentemente, desempenhava funções como diretor do Arribas Sintra Hotel.
“O regresso aos Açores é um privilégio pessoal e uma enorme responsabilidade profissional”, afirma, em entrevista ao TNews, assegurando ter aceitado o desafio com grande motivação. “É um desafio: sair da nossa zona de conforto e desempenhar estas funções. É uma missão e tem tudo para dar certo”, garante.
Embora reconheça que o seu percurso está “fortemente” ligado à hotelaria, sublinha que a sua experiência profissional “não se esgota” apenas na vertente operacional do setor. “Durante toda a minha carreira, assumi funções de gestão estratégica e, sobretudo, de promoção ativa. Tive a oportunidade de viajar para vários mercados internacionais com o propósito de captar negócio e promover as unidades hoteleiras que representava”, afirma.
“Foi exatamente essa bagagem prática – o saber gerir, promover e conhecer o mercado no terreno – que me motivou a aceitar este desafio. Significa colocar esta experiência internacional e de gestão ao serviço de uma região que me é particularmente especial, liderando a promoção dos Açores com um conhecimento real das exigências da procura”, acrescenta Nuno Leandro.
Questionado sobre o posicionamento da Visit Azores nesta nova fase, defende uma entidade “ágil, profissional, analítica e focada em resultados”, capaz de atuar como “uma verdadeira ferramenta de inteligência de mercado para o destino, baseando as nossas ações promocionais em dados concretos”.
“Acima de tudo, queremos uma Visit Azores que funcione lado a lado com os agentes do setor, comunicando uma identidade “Açores” coesa, premium e autêntica”, salienta Nuno Leandro. ”São nove ilhas e todas trabalham em simultâneo. Temos de comunicar os Açores como um todo e não cada ilha per se, ou seja, promovermos uma coesão acima de tudo”.
“Queremos uma Visit Azores que funcione lado a lado com os agentes do setor, comunicando uma identidade “Açores” coesa, premium e autêntica”
Prioridades passam por “esbater” sazonalidade e reforçar ligação ao setor privado
“As nossas grandes prioridades passam por valorizar e reposicionar o destino num segmento de maior qualidade e rentabilidade”, explica Nuno Leandro, acrescentando que a Visit Azores pretende “atenuar a sazonalidade através da promoção de produtos específicos que podem ser consumidos durante todo o ano”, diversificar mercados emissores “para não estarmos dependentes de uma ou duas geografias” e consolidar os Açores “como a referência mundial em turismo de natureza e sustentabilidade”.
Para isso, a Visit Azores está a preparar “campanhas muito direcionadas e segmentadas”, com foco no reforço do marketing digital e no desenvolvimento de parcerias com operadores especializados e companhias aéreas, visando “impulsionar a captação de rotas e fluxos nas chamadas épocas baixas”.
“Existem muitas atividades turísticas que podem ser feitas durante o período de inverno. As boas temperaturas que as ilhas têm são propícias para que as pessoas nos visitem nessa altura”, aponta. “Não precisamos de colocar mais pressão turística em alturas como julho e agosto, porque já estão vendidas. Temos é de conseguir captar para os restantes meses”.
Neste sentido, a entidade pretende promover “nichos com alto valor acrescentado, como o turismo de aventura, o turismo de bem-estar e a nossa oferta cultural e gastronómica, que complementam de forma perfeita a nossa oferta de natureza”, indica.
“Não queremos um turismo massificado. Queremos um turismo sustentável e que quem visite os Açores leve um pouco da sua experiência [no destino]”, sublinha o responsável.
Outro dos pilares da estratégia passa por uma maior proximidade ao setor privado. Nuno Leandro considera esta ligação “absolutamente vital”, lembrando que “o turismo não se decreta; constrói-se diariamente por quem investe, gera emprego, opera no terreno e recebe os visitantes”.
Tendo passado grande parte do seu percurso profissional no setor privado, acredita que “qualquer estratégia de promoção só terá sucesso se for construída em diálogo com os empresários”. “Eles conhecem os desafios das vendas e as dificuldades da operação”, refere, salientando que a co-criação de estratégias permite garantir que as campanhas “não são apenas bonitas, mas sim eficientes e convertem-se em negócio real para as empresas locais”.
Questionado sobre o que falta aos Açores para reforçarem a sua competitividade, aponta a qualificação da oferta e a formação como fatores decisivos. “Para continuarmos competitivos a nível global, temos de apostar incessantemente na qualificação da nossa oferta e na formação dos nossos recursos humanos”, defende.
A melhoria das acessibilidades, tanto entre ilhas como para o exterior, é outra das áreas prioritárias, a par da inovação e da transição digital. Ainda assim, o responsável deixa claro que o objetivo não passa apenas por aumentar o volume de visitantes. “O desafio não é trazer mais pessoas a qualquer custo, mas atrair o turista certo, que valoriza o que temos para oferecer e contribui positivamente para o território”, frisa.
“A expectativa é que seja um processo rápido (…). Precisamos de uma Azores Airlines forte e competitiva, capaz de responder de forma ágil às oportunidades de novos mercados”
Privatização da Azores Airlines pode reforçar conectividade e atrair novas rotas
A Visit Azores olha para a privatização da Azores Airlines como uma oportunidade para reforçar as acessibilidades do destino. “Numa região arquipelágica, a conectividade aérea é a espinha dorsal de todo o desenvolvimento turístico”, afirma Nuno Leandro. A expectativa, refere, “é que seja um processo rápido” e que “traga maior robustez financeira à companhia e uma visão estratégica e eficiente na gestão de rotas e na conectividade global do destino”.
“Precisamos de uma Azores Airlines forte e competitiva, capaz de responder de forma ágil às oportunidades de novos mercados. O sucesso do turismo nos Açores continuará sempre fortemente interligado com a capacidade e o sucesso da operação aérea”, acrescenta.
Paralelamente, a entidade pretende continuar a trabalhar na captação de novos mercados para o arquipélago. Sem identificar mercados prioritários, aponta como exemplo “os países nórdicos, que durante o pico do inverno atingem 15 a 20 graus negativos e, nos Açores, a temperatura está fantástica”.
Nuno Leandro destaca ainda a localização estratégica dos Açores. “Estamos apenas a quatro horas de distância de avião dos Estados Unidos, a cinco horas de distância do Canadá e entre duas a cinco horas da Europa”, indica, defendendo que estas vantagens devem ser mais promovidas junto das companhias aéreas e dos mercados internacionais. “Se conseguirmos com estes argumentos de peso criar um awareness, é muito importante”.
Hotelaria deve apostar mais na valorização dos recursos humanos
Apesar de considerar que os Açores dispõem atualmente de uma oferta hoteleira “de qualidade”, Nuno Leandro acredita que “pode ainda ser feita uma aposta na valorização dos recursos humanos – algo que é transversal”.
“Lanço aqui um repto ao Turismo de Portugal para fazer uma formação em época baixa”, afirma. “Sabemos que existe uma contratação sazonal, tal como noutras regiões do país. Se conseguirmos que as empresas tenham este tipo de apoio, pode ser bom para todos. Em primeiro lugar, vamos conseguir diminuir a rotatividade e, em segundo lugar, vamos conseguir qualificar mais os nossos recursos humanos”.
O responsável destaca ainda o investimento que tem vindo a ser realizado na renovação e valorização da oferta turística açoriana. “Se queremos continuar a aumentar os nossos ADRs e a termos bons desempenhos, o cliente tem de sentir o denominado value for money, ou seja, o valor que está a pagar está a corresponder à experiência que vai ter”.
Instabilidade geopolítica: “A estratégia será ajustar a nossa comunicação para sublinhar fortemente a perceção de segurança, exclusividade e bem-estar”
Perspetivas positivas apesar da instabilidade internacional
Num contexto marcado por incertezas geopolíticas, Nuno Leandro diz olhar para o futuro do turismo açoriano com “otimismo realista”.
“Os desafios globais são evidentes e afetam o comportamento dos consumidores a nível mundial. No entanto, os Açores possuem um “refúgio natural” que responde exatamente ao que o turista contemporâneo procura em tempos de incerteza: um destino seguro, sustentável, sem os problemas do turismo de massas e com um contacto íntimo com uma natureza intocada”, afirma.
Para o presidente da Visit Azores, estas características reforçam a “resiliência” do destino, defendendo que a estratégia da entidade passará por “ajustar a nossa comunicação para sublinhar fortemente esta perceção de segurança, exclusividade e bem-estar”.
Ainda assim, garante que a entidade acompanha atentamente a evolução do contexto internacional. “Estamos atentos a tudo o que se tem estado a passar. Temos de manter confiança nos nossos decisores. Não nos podemos focar só nisso, porque senão estamos a despender os nossos esforços para algo que não controlamos”, refere.
No final do mandato, Nuno Leandro sublinha que “gostaria de deixar uma Visit Azores altamente profissionalizada, próxima do tecido empresarial e reconhecida como um modelo de excelência na promoção turística em Portugal”.
“Mais importante ainda, o meu objetivo é deixar o destino Açores num patamar de maturidade onde a rentabilidade para as empresas seja consistente, a sazonalidade seja uma questão minimizada, e onde a população local sinta e reconheça o turismo como uma força verdadeiramente positiva e regenerativa para a sua qualidade de vida”, conclui.




