Quinta-feira, Setembro 29, 2022
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Entrevista: “Se assumíssemos todos os aumentos de combustível, nesta altura já não estávamos aqui”

A pandemia trouxe mais cautela quando se trata de fazer projeções e falar de resultados. No entanto, o ano está a correr bem, em termos de vendas, ao operador Solférias. Já quanto à rentabilidade, é um “assunto completamente diferente” e há que trazer à equação o aumento dos combustíveis, uma das maiores dores de cabeça durante o verão. Em entrevista, o diretor-geral da Solférias fala dos desafios da operação. O Senegal, destino no qual a Solférias apostou este ano com voos charters, destacou-se e já alcançou o segundo lugar nas vendas do operador.

Qual é o balanço da operação de verão?

Este é um ano um pouco atípico. Normalmente, começamos a nossa planificação sensivelmente um ano antes e havia, realmente, a perspetiva de que, ao fim de dois anos da pandemia, este ano iria ser extraordinário em todos os aspetos. Digo que foi atípico, porque houve vários ‘timings’. O final do ano e o início de 2022 não foram nada fáceis. Depois, aconteceu o tal fenómeno a nível mundial, foi como um interruptor. Houve um disparo total nas vendas a partir de fevereiro e entrámos num ritmo excecional. A 24 de fevereiro, quando começou a guerra, as coisas começaram a ficar confusas, mas foi bom em termos de vendas. Em suma, o balanço é francamente positivo, mas tivemos vários problemas no meio da operação que não facilitaram as coisas. Em termos globais, foi um ano bastante positivo, mas ainda não está fechado.

Qual é o destino que se destacou?

O Senegal.

Ao dia de hoje consideram que foi uma aposta ganha?

Claramente. Aliás o Senegal é um fenómeno. Já vendemos o Senegal há muitos anos, mas numa bitola muito baixa. Quando surgiu a oportunidade de lançarmos os charters para o Senegal, foi um grande desafio. Não era fácil colocar no mindset das pessoas o Senegal como um destino apelativo. Mas correu-nos muito bem. Na altura da BTL, fizemos uma aposta muito forte de marketing na TV e rádio e, de um momento para o outro, as vendas dispararam. Hoje, se olhar para a projeção, o Senegal vai ser o destino número dois da Solférias este ano, com vendas a partir de abril, nem sequer é a partir de janeiro, o que ainda impressiona mais. A grande vantagem é que temos uma capacidade de vender tanto em voos regulares como em charters. Estamos a entrar em fase final, mas as vendas continuam a grande ritmo, com os voos regulares da TAP.

“a rentabilidade vai ficar claramente abaixo em termos percentuais, até porque temos dois problemas em simultâneo: por um lado, o aumento dos combustíveis, por outro a valorização do dólar em relação ao euro”

Já voltaram aos níveis de vendas de 2019? E quanto à receita?

Em termos de vendas, sim. Não tenho dúvidas de que este vai ser um bom ano de vendas. Todos os indicadores apontam para que, aparentemente, vamos bater 2019.

A rentabilidade é uma coisa completamente diferente. E é diferente, porque quando contratamos operações, contratamos ao câmbio daquele momento –  e atenção que os combustíveis são calculados em dólares – e ao valor do ‘fuel’ daquela altura. Isso é uma grande confusão, porque os contratos não são celebrados todos na mesma altura e são celebrados com companhias aéreas diferentes. A partir de fevereiro começaram os aumentos dos combustíveis e a situação não foi fácil de gerir. Existiram problemas de toda a ordem. Percebo perfeitamente a questão dos clientes finais não estarem à espera de aumentos, assim como os agentes. Mas, sinceramente, nós também não os queríamos. A verdade é essa. O aumento dos combustíveis tornou tudo muito cardíaco, estava sempre tudo a mudar, e a gestão, mesmo em termos de equipa, foi muito, muito difícil. Foi dos anos mais complicados, em termos de trabalho, que alguma vez vivi.

Respondendo à pergunta, a rentabilidade vai ficar claramente abaixo em termos percentuais, até porque temos dois problemas em simultâneo: por um lado, o aumento dos combustíveis, por outro a valorização do dólar em relação ao euro. Temos muitos destinos em que a moeda de contratação é o dólar. Só mexemos no ‘fuel’, nem sequer entrámos na alteração de preços em pacotes como as Maldivas, Dubai.

Quais foram os principais desafios na época de verão? O caos no aeroportos, o aumento nos combustíveis, falta de recursos humanos?

Tivemos vários desafios. Tivemos problemas, porque a regra dos 21 dias em que podemos informar quanto à questão dos preços não se aplica às companhias aéreas. Ou seja, tivemos situações em que as companhias aéreas informaram-nos fora desse prazo. Houve subidas enormes e nós nem as conseguimos repassar, tivemos que as assumir. Depois, é preciso ter ferramentas tecnológicas que permitam informar quase de imediato. Felizmente, a Solférias está bem preparada. Só que o desgaste foi grande. Passávamos a vida a mexer no mesmo. Por outro lado, a lei dos pacotes turísticos prevê que os aumentos possam ir até aos 8%, ou seja, até aos 8% o cliente não tem o direito de cancelar. O problema, principalmente em agosto, é que o os aumentos eram superiores a 8%.

Como é que fizeram?

Tivemos que aumentar, não tínhamos forma de aguentar.

Como foi a resposta?

A resposta foi positiva. As pessoas ficaram um pouco chateadas, como é possível imaginar, mas a verdade é que não tínhamos alternativa. Se assumíssemos todos os aumentos de combustível, nesta altura já não estávamos aqui. Vínhamos de dois anos difíceis e agora estamos completamente sós, ou seja, não há apoios, neste momento, estamos por nossa conta. Tentamos gerir o melhor possível, para que possamos dar uma boa resposta ao mercado e mantermos a confiança. É preciso dizer também que fizemos acertos quando os combustíveis começaram a descer em setembro. Para sermos o mais corretos possível com o mercado, deixámos de emitir documentação charter a menos de 21 dias. A partir de 21 dias é que enviámos a documentação. A grande diferença é que, enquanto que nos voos regulares a partir do momento em que emitimos o bilhete não há mais nenhum aumento de preço, a verdade é que nos charters o cálculo é feito uma semana antes da partida, pagamos o avião inteiro, não há nenhuma proteção. Com toda a humildade, fizemos o melhor que podíamos.

Em Porto Santo, este ano havia uma oferta maior de voos regulares da easyJet. Isso pode afetar a operação turística no futuro, porque não há muito mais oferta hoteleira?

A oferta de alojamento em Porto Santo é extremamente limitada. Se não conseguirmos assumir os compromissos de alojamentos que viabilizem as operações, claro que ficam completamente em risco. Até hoje não temos tido problemas. Claro que não é tão fácil de gerir, quando a pressão é muito maior por parte dos voos regulares. Apesar do mercado nacional se focar essencialmente no regime tudo incluído, há muitos turistas que não querem tudo incluído. Este ano, sentimos que as unidades mais pequenas estiveram completamente cheias, quase que não havia como as comercializar. Com os hotéis com os quais temos compromisso, só temos de contratar o número de quartos que necessitamos. Se julgo que a operação pode crescer da nossa parte? Acho difícil. As companhias regulares têm o mesmo problema. Podem ter a pretensão de colocar muitos voos regulares, mas se não houver disponibilidade de alojamento e se o passageiro não conseguir comprar o hotel, também não vai comprar o avião. É extremamente arriscado colocar muitos aviões num destino onde a oferta de alojamento é extremamente limitada.

“O ano de 2022 para a Solférias é um ano excecional no produto Disney. Se há destino que tenho a certeza que vamos bater os números de 2019 é a Disney”.

A grande oferta para as Caraíbas pode ter pressionado os preços dos pacotes turísticos. Isso teve impacto na procura e nos preços para os destinos de médio curso que a Solférias opera?

Algum impacto deve ter sempre, principalmente nas partidas mais fracas. A verdade é que a nossa operação foi boa. Todas as nossas operações são partilhadas com outros operadores, à exceção do Egito e do Senegal. Mas é claro que, quando os preços das Caraíbas estão muito baixos, há um efeito quase de dominó. Realmente a oferta para as Caraíbas era muito elevada e tinha que fazer mossa em algumas operações. No caso das nossas, o único impacto que posso medir é através das ofertas que tivemos de fazer e, sinceramente, apesar de reconhecer que são destinos de grande qualidade e que tiveram preços bombásticos, em termos médios passámos muito ao lado desse excesso de oferta.

“Foi dos anos mais complicados, em termos de trabalho, que alguma vez vivi.”

Relativamente à operação em voos regulares para as Caraíbas, como correu este verão?

Correu-nos muito bem. Era um produto que não tínhamos e, francamente, as nossas vendas foram extremamente interessantes. Normalmente, o maior volume que a Solférias tem para as Caraíbas é para Cuba, só que Cuba começou num processo muito tardio. Esse é outros dos problemas deste ano – nem todos os países abriram ao mesmo tempo. A verdade é que Cuba teve alguma dificuldade, está agora num processo de recuperação. A verdade é que, Cuba para nós, em voo regular, é uma operação de grandes dimensões e será um dos destinos que vai ficar muito aquém de 2019. No próximo ano, não teremos a linha Punta Cana, mas Cancun vai continuar e naturalmente acredito que Cuba vai crescer.

Surpreendeu-vos que a TAP fechasse a rota para Punta Cana?

Não tenho dados que me permitam fazer uma conclusão. Como operador, sim, porque estávamos a vender bem. Mas a TAP é que conhece os números e pode justificar a sua decisão.

Este foi o ano em que a Disneyland comemorou o seu 30º aniversário. Como correram as vendas?

Faltam-me os adjetivos em relação à Disney. Ao longo dos dois anos de pandemia, sempre que as medidas eram aliviadas a Disney começava logo a vender. Até para mim foi uma grande surpresa, porque o cliente português é cauteloso. Em setembro, outubro e novembro tivemos momentos de venda excecionais, depois houve um abrandamento com a subida dos números da covid-19. O ano de 2022 para a Solférias é um ano excecional no produto Disney. Se há destino que tenho a certeza que vamos bater os números de 2019 é a Disney.

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