Segunda-feira, Fevereiro 6, 2023
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Estará o turismo a fazer tudo no combate às alterações climáticas?

Nos últimos anos tem-se assistido a um aumento exponencial do número de desastres naturais, que surgem como consequência das alterações climáticas. Verificam-se inundações um pouco por todo o planeta, desde o Paquistão ou da Indonésia, até aos países mais próximos da nossa realidade a nível Europeu. Em simultâneo, incêndios florestais de cariz histórico ocorrem quer na Europa Mediterrânea, quer na costa do Pacífico dos EUA. As secas sem precedentes causaram limitações nas linhas de cruzeiros fluviais da Europa, revelando em contrapartida, fenomenais segredos arquitetónicos.

As consequências de um planeta em constante aquecimento estão à vista de todos e já não é possível ignorá-las. Embora díspares na sua concretização, em quase todos os lugares do nosso planeta é visível o efeito negativo das alterações climáticas, e a previsão é de que esta situação se agrave ao longo do próximo século.

A indústria turística procura diminuir a sua pegada ecológica através da compensação das emissões de carbono e realizando investimentos em tecnologias mais verdes e amigas do ambiente.

Contudo, resta questionarmo-nos: estará a indústria disposta a fazer tudo o que é possível?

Trata-se de uma questão complexa. A Organização Mundial de Turismo acredita que 5% de todas as emissões de dióxido de carbono geradas no planeta advêm da indústria turística. Dessa percentagem, cerca de 40% serão da responsabilidade das companhias aéreas, o que se traduz em 2% de todas as emissões globais. Neste âmbito, o segmento dos cruzeiros e alojamento representam ainda 1% das emissões globais produzidas.

Desde a criação da Declaração de Glasgow durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, COP26, muitas associações e empresas do setor turístico, aderiram ou criaram os seus próprios planos de sustentabilidade. As medidas incluem o compromisso da redução para metade das emissões de carbono até 2030 e o alcance de emissões de carbono zero em 2050.

De acordo com as projeções atuais das Nações Unidas, o aquecimento global levará a um aumento de 3,2 graus Celsius até o ano 2100, colocando em risco a preservação de grande parte do mundo como o conhecemos à data presente.

O plano da COP27 manteve as resoluções previstas no encontro anterior, tendo por base projeções científicas para o próximo século de forma a proibir um aumento de 1,5 graus celsius da temperatura global. A este ritmo, e se não se adotarem estratégias de mudança, testemunharemos a destruição e a morte catastrófica dos recifes de coral, um aumento drástico do nível do mar estimado entre 0,4 a 2,5 metros e o aumento da volatilidade dos padrões climáticos globais.

No entanto, a indústria do turismo responde apenas por 5% de todas as emissões globais. Comparativamente, os 10 maiores governos emissores mundiais englobam 68% do total das emissões produzidas. Conclui-se que o turismo é apenas responsável por uma pequena parte do impacto ambiental negativo gerado, sendo notória a evolução e o empenho na sustentabilidade em comparação com as outras indústrias.

Acredito que uma indústria como o turismo deve promover a sustentabilidade em todos os componentes inerentes ao ato de viajar. Mas estará alguém imune à influência negativa das viagens? Administradores, engenheiros, enfermeiros, funcionários públicos, professores, investigadores … o que partilham todas estas pessoas? Todas elas viajam.

A minha convicção é de que o turismo possa ser uma fonte essencial de mudança para as pessoas. A indústria turística abrange tudo e todos, e é única neste aspeto. Embora a tendência atual de consumo passe por um interesse crescente na sustentabilidade dos produtos, todos os intervenientes na indústria têm o dever de não seguir apenas tendências, mas também implementar mudanças duradouras.

A questão permanece: estará a indústria a fazer o suficiente para combater as mudanças climáticas?

Apesar de não ter uma resposta para a questão anterior, penso que a afirmação prestada pelo Secretário-Geral das Nações Unidas poderá contribuir para a sua resolução: “Não há tempo a perder. Repensemos e reinventemos o turismo e, juntos, proporcionemos um futuro sustentável, próspero e resiliente para todos.”.

Por Miguel Carvalhido Ferreira

Doutorando em Turismo e assistente convidado na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar.

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