Sexta-feira, Agosto 12, 2022
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Falámos com Davide G. Martins: o chef português que apresenta a Europa aos americanos

Davide G. Martins, “o chef português que apresenta a Europa aos americanos”. É assim que é conhecido desde que decidiu embarcar na aventura de se mudar para os Estados Unidos, há 10 anos, para desempenhar o cargo de chef de cozinha na Embaixada de Portugal, em Washington D.C. É sob este cognome que o português dá a provar aos americanos o que de melhor a gastronomia europeia tem para oferecer, atualmente como chef de cozinha da Embaixada da União Europeia nos Estados Unidos.

Depois do curso de formação de cozinha e pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, Davide G. Martins ingressou na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa para tirar o curso de Produção e Gestão de Cozinha. O amor pela gastronomia fervilha já desses tempos, mas o verdadeiro despertar deu-se nos Estados Unidos, quando percebeu que podia criar emoções e sensações aos convidados com aquilo que cozinhava. “Isso era, e continua a ser, o meu desafio”.

Expectativas baixas, sonhos altos

Mas entre a parte da história escrita em Portugal e aquela que posteriormente se contou em solo americano, tem ainda de haver um momento-chave, que sirva de pretexto para o início desta aventura.

Davide G. Martins conta que, em fevereiro de 2011, as duas turmas que finalizaram os cursos na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, a uma das quais pertencia o chef, receberam um email do Ministério dos Negócios Estrangeiros a informar que havia uma vaga para ser chef de Cozinha na Embaixada de Portugal, em Washington D.C.

“candidatei-me, sem saber muito o que era e sem grandes expectativas, mas a verdade é que, em junho do mesmo ano, já estava a trabalhar na Embaixada”, recorda o Chef.

Como chef de Cozinha na Embaixada, em Washington D.C., Davide G. Martins é o responsável por cozinhar para o Embaixador e para a sua família, assim como para todos os eventos oficiais organizados. “Tenho de planear os menus, comprar os produtos, confecionar e empratar, exatamente como se estivesse a trabalhar num restaurante, com a diferença de que sou só eu. Não há mais colegas na cozinha”.

Num cargo desta envergadura, o chef ressalta que o maior desafio é escolher e confecionar menus dos quais a maior parte das pessoas goste.

“A única informação que tenho das pessoas são as suas restrições alimentares. Com esses dados, que são muito poucos, tenho de elaborar um menu, de 3 ou 4 pratos, que seja do gosto do maior número de pessoas possível, o que às vezes se torna bastante difícil”.

Davide G. Martins consegue superar estes desafios através daquela que diz ser uma das suas maiores virtudes:

“Não sou um cozinheiro excelente, mas sou um excelente Chef”

Para não criar confusão, Davide G. Martins esclarece, “Podia ser só um cozinheiro que confecionava grandes pratos, mas então era só isso. Não digo que seja algo mau, mas para mim não é interessante. Gosto de saber quem é o convidado de honra e, se possível, descobrir de onde vem e o que gosta de comer, de forma a fazer algo que chame a sua atenção quando se sentar à mesa. Isso sim é especial”.

Davide G. Martins traz à memória uma ocasião em que a qualidade de chef se sobrepôs à de cozinheiro. “O momento aconteceu com um dos conselheiros do Presidente Obama, que tinha raízes portuguesas. Eu e o Embaixador sabíamos que ele gostava muito de carne de porco à portuguesa e, apesar de ser um evento buffet para 100 pessoas, fiz esse prato à parte, e, no final, veio abraçar-me enquanto chorava, a dizer que aquele prato o tinha feito recordar a infância”.

“São estas sensações que me tornam um melhor chef do que um melhor cozinheiro, estou atento ao detalhe”, declara Davide G. Martins.

Além dos pratos que confecionou para Embaixadores de renome, há ainda outras personalidades que marcaram o percurso do chef.

Ivanka Trump e Barack Obama são dois dos nomes que se fazem sobressair dessa lista. “Quando cozinhei para a Michelle e para o Barack Obama tive mesmo de pôr os nervos de parte. Estava realmente muito ansioso com esse evento. Mas, uma vez mais, tentei fazer uma pesquisa do que gostavam, e, felizmente, correu tudo bem”, lembra Davide G. Martins.

Servir a cultura europeia aos americanos

As raízes europeias não passam despercebidas nas suas confeções como chef de Cozinha na Embaixada da União Europeia, por isso, na hora de preparar pratos com cheiros e sabores da Europa, Davide G. Martins tenta “procurar ao máximo os produtos que melhor representem cada país, para criar os menus a partir daí”. Se falarmos em cozinha portuguesa, o chef tem algumas preferências, “pastéis de nata, migas e bacalhau. Além disso tento sempre juntar um toque mais pessoal aos pratos tradicionais portugueses, para os os tornar mais apelativos ao público em questão”.

“A gastronomia é um dos veículos mais fantásticos para juntar pessoas e pôr as nossas diferenças de parte”, acrescenta.

Quando presenteia os seus convidados com comida portuguesa, dá por certo que é do agrado de todos. “Aqui apreciam muito a nossa gastronomia, visto que é algo que não é tão comum como a italiana, mexicana ou chinesa. Alguns produtos mais específicos, muito nossos, como o bacalhau, os enchidos, o azeite, os pastéis de nata ou as bolas de berlim, são sempre um grande sucesso”.

Turning Chickens and Breaking Dishes

Com o início da pandemia, e o consequente confinamento imposto um pouco por todo o mundo, cresceu em Davide G. Martins uma necessidade muito grande de continuar a falar com as pessoas, tendo, por isso, decidido criar um podcast sobre comida, no qual falava com personalidades ligadas à área. Assim nasceu o Turning Chickens and Breaking Dishes, com agora um ano de idade. De acordo com o chef “a aceitação tem sido muito boa, tem corrido bastante bem!”.

Esta última temporada deteve o seu foco em autores, chefes de cozinha e chefes que participam em programas de televisão. Davide G. Martins afirma que, com a variedade de convidados que trouxe ao podcast, tentou refletir sobre “como a comida está ligada a muitas das nossas atividades diárias e sobre como, muitas vezes, nos define enquanto pessoas e culturas”. Mas na próxima temporada, com estreia em setembro, o chef quer tentar desviar-se um pouco deste caminho, dando “mais voz a pessoas ligadas a organizações, agricultores e produtores”.

“E claro, quero muito – finalmente – falar com alguém sobre o vinho do Porto ou vinho da Madeira, e tentar trazer outro chef português”, acrescenta Davide G. Martins, que já trouxe ao podcast Henrique Sá Pessoa e Chakall.

E se nunca tivesse ido para os Estados Unidos?

Tudo indica para que estivesse a trabalhar em Bruxelas. “Em 2010 fiz um estágio de 5 meses na Bélgica e, curiosamente, no dia em que fui aceite para vir para os Estados Unidos, o Hotel onde trabalhei fez-me uma proposta de trabalho para voltar. Na altura já tinha tudo acordado para vir para Washington D.C., caso contrário Bruxelas estaria no meu caminho”, revela o chef.

Em qualquer um dos casos, Portugal não seria a primeira opção. Pelo menos para já.

O café com leite e torradas é um ritual português do qual nunca abdicou. O fado também ganhou espaço no seu dia-a-dia, um hábito que apenas adquiriu em solo americano. Estes são pequenos momentos que diz fazerem “lembrar casa”, casa essa que mantém as portas abertas para o chef que ainda sonha, “num futuro próximo, voltar ao nosso país”.

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