“A inflexibilidade oferece uma sensação imediata de controlo. Mas, a médio prazo, cobra um preço elevado: reduz a confiança, limita a iniciativa, aumenta o desgaste emocional e transforma o medo numa ferramenta de gestão”
Julho e agosto chegam com um ritmo diferente. Para muitos, representam férias, descanso e tempo em família. Para quem lidera equipas no turismo, representam exatamente o contrário: pressão, decisões rápidas, imprevistos constantes e a responsabilidade de garantir que cada experiência corresponde às expectativas de quem nos visita. E é precisamente nos momentos de maior exigência que a liderança revela a sua verdadeira natureza.
Durante anos, associámos liderança à capacidade de controlar, antecipar e manter tudo sob domínio. Mas o turismo ensina-nos, ano após ano, outra realidade: nenhum plano resiste intacto à imprevisibilidade de uma operação viva, feita de pessoas, emoções, culturas diferentes e necessidades que mudam de um momento para o outro. Talvez por isso a flexibilidade seja, hoje, uma das competências mais exigentes para quem lidera.
Mas importa esclarecer um equívoco. Flexibilidade não significa ausência de critérios. Não significa dizer sempre “sim”, baixar padrões ou evitar conversas difíceis. Significa conseguir adaptar a forma sem perder a essência. Significa distinguir aquilo que é negociável daquilo que representa os valores da organização.
Na prática, a diferença sente-se todos os dias. Há líderes que, perante um erro, procuram primeiro compreender antes de julgar. Outros procuram imediatamente um culpado. Há líderes que reconhecem que uma equipa cansada precisa de ser ouvida para continuar a entregar excelência. Outros acreditam que a pressão permanente é sinónimo de compromisso. Há líderes que entendem que as pessoas não deixam os seus desafios pessoais à porta do trabalho. Outros continuam a esperar um desempenho impecável, independentemente da realidade de cada colaborador.
A inflexibilidade oferece uma sensação imediata de controlo. Mas, a médio prazo, cobra um preço elevado: reduz a confiança, limita a iniciativa, aumenta o desgaste emocional e transforma o medo numa ferramenta de gestão. A flexibilidade, pelo contrário, exige coragem, escuta ativa, inteligência emocional e capacidade para decidir com base no contexto, e não apenas nas regras. Curiosamente, é essa capacidade que permite construir equipas mais autónomas, mais responsáveis e mais disponíveis para cuidar dos outros. E, no turismo, cuidar dos outros é o centro de tudo.
Os líderes têm hoje uma oportunidade silenciosa, mas profundamente transformadora. Podem continuar a gerir pessoas como recursos de uma operação ou podem escolher liderá-las como o principal ativo da sustentabilidade da organização. Porque a verdadeira sustentabilidade não começa apenas nas políticas ambientais ou nos relatórios ESG. Começa na forma como cada decisão de liderança influencia a saúde das equipas, a cultura organizacional e a capacidade de criar ambientes onde as pessoas permanecem porque se sentem respeitadas, valorizadas e capazes de crescer.
No turismo, onde cada interação humana deixa uma marca, talvez a experiência mais memorável que um líder possa construir seja aquela que acontece antes mesmo de o cliente chegar: a experiência de pertencer a uma equipa onde a flexibilidade não é sinal de fraqueza, mas uma expressão consciente de maturidade, confiança e humanidade.
Por Susana Garrett Pinto
Fundadora e CVO by THF | @ byTHF.pt




