NO SILÊNCIO DAS PEDRAS
Esta é uma viagem pela memória de uma das mais importantes estâncias termais portuguesas. Entre águas minerais, arquitetura e uma paisagem de árvores centenárias, revela-se a evolução de um lugar onde natureza, ciência e cultura se cruzam. Desde o século XIX, Pedras Salgadas construiu uma identidade ligada à terapia, ao turismo e à contemplação. Os seus balneários, fontes, hotéis e jardins testemunham diferentes épocas de um património único. Mais do que uma estância termal, é uma paisagem viva onde a história permanece inscrita na pedra, na água e na memória.
Pedras Salgadas é um daqueles lugares que ultrapassam a geografia e entram numa dimensão mais funda da memória. Uma paisagem onde a natureza, a história e a presença humana se encontram, formando um território moldado pelas águas minerais, pelo parque termal e por uma identidade construída ao longo de gerações.
Dirigimo-nos para um lugar que parece existir fora do espaço e do tempo. Deixamos para trás as primeiras casas e avançamos por uma grande avenida. Ao fundo, um muro anuncia a chegada. Por detrás dele, um portão de ferro forjado, de desenho Belle Époque, ostenta a inscrição “Pedras Salgadas, 1914”. É a entrada do parque, uma extensão de mais de vinte hectares onde a natureza parece ter sido desenhada para receber o homem sem nunca deixar de ser natureza.
Continuamos alguns metros ao longo do muro até ao balneário, esse antigo refúgio da realeza europeia, num tempo em que o turismo termal e balnear começava apenas a afirmar-se como prática de distinção, de saúde e de lazer.
Quem chega sente imediatamente a singularidade do lugar. A alameda, as árvores, as fontes, os edifícios e os caminhos compõem uma paisagem onde o tempo parece ter outra velocidade. Há qualquer coisa de intemporal naquele espaço, como se cada árvore, cada pedra e cada fonte conservasse uma parcela da vida que ali passou.
Pedras Salgadas não se oferece apenas como paisagem. Revela-se como memória. Uma memória feita de águas que brotam da terra, de pessoas que aqui chegaram em busca de cura ou de repouso, de encontros e de rituais, de arquiteturas que atravessaram décadas e de um modo de viver que o tempo não conseguiu inteiramente apagar.
No início do século XXI, quando a memória das grandes termas parecia suspensa entre o passado e a necessidade de um novo futuro, Pedras Salgadas encontrou uma nova forma de dialogar com a sua própria paisagem. Já não eram os grandes edifícios a marcar o horizonte, mas pequenas arquiteturas pousadas entre árvores centenárias, como se tivessem nascido da própria floresta.
As Eco Houses chegaram ao parque como casas de silêncio. Não quiseram dominar a natureza, mas escutá-la. Ergueram-se entre troncos e sombras, preservando as raízes profundas da terra onde durante décadas correram as águas minerais. Cada uma delas procurou um lugar próprio, uma pequena clareira de intimidade, onde a arquitetura se confundisse com o ritmo lento das estações.
Desenhadas pelos arquitetos Luís Rebelo de Andrade e Diogo Aguiar, estas habitações trouxeram uma nova linguagem ao velho parque termal. A pedra escura da ardósia recordava a terra transmontana; a madeira aproximava o homem da floresta; o vidro abria as paredes para que a paisagem entrasse e se tornasse parte da casa.
Foram construídas como quem toca uma árvore sem a ferir. Suspensas sobre o solo, apoiadas em estruturas discretas, respeitaram a vida invisível das raízes e a memória natural do lugar. Ali, onde antes os visitantes procuravam a cura da água, passaram a procurar também a cura do silêncio.
As Eco Houses representam uma nova idade de Pedras Salgadas. Depois da época dos hotéis elegantes, dos salões de conversa e dos rituais termais, nasceu uma arquitetura mais próxima da natureza, onde o luxo deixou de estar na grandiosidade e passou a encontrar-se na simplicidade: acordar entre árvores, ouvir a floresta e sentir que a casa não está dentro do parque, mas que pertence ao próprio parque.
Depois de um século de sonhos, construções, ruínas e renascimentos, Pedras Salgadas reencontrou na floresta uma nova forma de escutar a sua própria história.
Ao cair da noite, quando o parque adormece e as sombras descem sobre os caminhos, há ainda uma outra história que começa a ser contada. Entre as copas das árvores, os pássaros noturnos desenham no ar os seus sons breves e misteriosos, porque são vozes vindas da escuridão da floresta, pequenos sinais de vida que se elevam sobre um lugar onde, muito mais fundo, nas entranhas da terra, corre outro murmúrio: o da água mineral que atravessou séculos escondida nas profundezas.
Há uma estranha harmonia entre esses dois mundos invisíveis. O canto dos pássaros nasce da noite e a água nasce da escuridão da pedra. Um sobe para o céu, outro desce para o interior da terra. Um é feito de asas e de vento e outro é feito de tempo e de silêncio. Ambos guardam segredos antigos, ambos anunciam a presença de uma natureza que nunca deixou de falar.
Talvez seja esse o verdadeiro mistério de Pedras Salgadas, ou seja, uma paisagem onde a vida se revela tanto à superfície como no abismo oculto das suas origens. Antes das fontes, antes dos hotéis, antes dos jardins desenhados pelo homem, já a água percorria lentamente as profundezas minerais, preparando a sua longa viagem até à luz.
É preciso, por isso, regressar ao princípio. Voltar ao tempo em que este lugar era apenas uma clareira entre montanhas, uma terra de silêncio onde a natureza guardava uma riqueza ainda desconhecida. Antes de haver termas, havia a nascente. Antes de haver arquitetura, havia a paisagem. Antes de haver história escrita, havia a memória secreta das águas.
E é dessa escuridão fecunda, onde a água dormiu durante séculos, que começa a história de Pedras Salgadas.
A vocação termal afirmou-se no século XIX. Em 1871 surgiu o primeiro edifício da Fonte do Penedo, iniciando uma relação entre arquitetura e águas minerais que se consolidaria nas décadas seguintes. Em 1876, o engenheiro Manuel José do Couto Guimarães projetou o primeiro balneário, inspirado nas grandes estâncias europeias, sobretudo em Vichy, oferecendo tratamentos de banhos e inalações com recurso às propriedades terapêuticas das nascentes.
Manuel José do Couto Guimarães foi um engenheiro e projetista portuense com uma obra diversificada, que cruzou engenharia, arquitetura, urbanismo e paisagismo. Projetou a estrada de acesso ao Bom Jesus do Monte, em Braga, o Passeio Público de Braga, participou em projetos de cartografia e obras viárias e desenhou a Igreja de Nespereira, em Guimarães. A sua trajetória revela um profissional ligado à modernização urbana, à valorização da paisagem e à renovação dos espaços de saúde e lazer no Portugal oitocentista. Para o Pavilhão da Nascente D. Fernando, teve a preciosa ajuda do cientista José Júlio Rodrigues.
Em 1871, José Júlio Rodrigues e Bernardino António Gomes publicam “Breve notícia sobre a composição chimica e propriedades therapeuticas das aguas mineraes das Pedras Salgadas”. Rodrigues esteve ligado às Pedras Salgadas desde a fase científica inicial da exploração das águas. Mais tarde, uma das nascentes passou a ter o seu nome. Há uma faceta extraordinária, porque ele foi também um pioneiro da fotografia científica portuguesa. Desenvolveu processos de reprodução fotomecânica aplicáveis à cartografia e à impressão e dirigiu uma das estruturas fotográficas científicas mais avançadas do país: chefe da secção fotográfica da Direção-Geral dos Trabalhos Geográficos de Portugal.
Na história de Pedras Salgadas, porém, poucas figuras assumem uma importância tão decisiva como Henrique Antero de Sousa Maia, nascido no Porto, em 3 de janeiro de 1844, de quem se mostra um retrato no estúdio de Emílio Biel (1908). Formado na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, iniciou a carreira como médico da Armada, tendo servido em África. Regressaria posteriormente ao Porto, onde estabeleceu uma importante clínica, vindo ainda a exercer funções como Delegado de Saúde do Distrito do Porto e no Conselho de Saúde Pública do Reino.
A sua ligação a Pedras Salgadas viria, contudo, a marcar profundamente a sua trajetória. Henrique Maia foi fundador, administrador e um dos principais acionistas da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, assumindo igualmente a direção clínica da estância. Sob a sua orientação, o primitivo espaço termal foi progressivamente transformado num estabelecimento de maior dimensão, organização e prestígio, no qual a exploração das águas passou a articular-se com uma conceção mais moderna de medicina, administração e turismo.
A preocupação com a fundamentação clínica dessa atividade encontra expressão num documento particularmente significativo, “Estatística dos resultados clínicos obtidos no estabelecimento das Pedras Salgadas, durante a estação de 1882”, publicado por Henrique Maia. O estudo demonstra que a utilização terapêutica das águas já era acompanhada por uma metodologia clínica sistemática, com registo das doenças tratadas e dos resultados observados. A estância começava, assim, a afirmar-se não apenas como lugar de cura, mas como espaço onde a prática termal procurava apoiar-se na observação médica e na sistematização dos seus resultados.
Figuras médicas contribuíram para a afirmação de Pedras Salgadas. Entre elas destaca-se António Teixeira de Sousa, na foto, que foi diretor técnico do estabelecimento termal entre 1894 e 1897 e de quem se mostra um retrato no mosaico de imagens.
A sua carreira médica acompanhou também uma trajetória militar. Em 1895, foi nomeado cirurgião-ajudante do Exército, sendo considerado, segundo os documentos científicos e literários então apresentados, o mais antigo dos trinta médicos nomeados na mesma ocasião. A sua passagem por Pedras Salgadas inscreve-se, assim, numa fase em que a estância procurava reforçar a sua credibilidade através da presença de médicos e da produção de conhecimento científico sobre as águas.
A figura de António Teixeira de Sousa ganharia posteriormente uma dimensão política excecional, porque viria a tornar-se o último presidente do Conselho de Ministros da Monarquia Constitucional, encerrando uma trajetória que ligou a medicina, a administração termal, a carreira militar e a política portuguesa.
A ação de Henrique Maia não se limitou, porém, à dimensão médica. A transformação física da estância constituiu outra das suas grandes realizações. Sob a sua direção foram desenvolvidos parques e jardins, ocupando e valorizando terrenos anteriormente considerados incultos. A paisagem passou a ser parte integrante do projeto termal: o parque, os espaços de passeio e a vegetação contribuíam para criar um ambiente de repouso, sociabilidade e distinção, inseparável da nova imagem de Pedras Salgadas.
No início do século XX, essa transformação já não passava despercebida. Pedras Salgadas começava a afirmar-se para além da sua condição de lugar de águas: era já uma estância, um destino, uma paisagem cuidadosamente construída em torno da promessa de saúde, repouso e distinção.
Em 1902, um inspetor das Águas Minerais do Reino chegou a este recanto do norte de Portugal. Trazia consigo a parcimónia própria de quem estava habituado a percorrer quilómetros e a avaliar, com olhos administrativos, as virtudes de cada nascente. Não esperava grandes surpresas, mas encontrou-as.
O que viu parece tê-lo impressionado a ponto de abandonar, por momentos, a linguagem burocrática. No seu relatório, escreveu que, pelo conjunto das suas “belezas naturais, importância terapêutica e magnificência de artifícios”, Pedras Salgadas devia ser considerada “a mais bela estância termal portuguesa”.
Não era uma afirmação inteiramente inesperada. Desde o final do século XIX, a estância conquistara a preferência de visitantes ligados às elites e à aristocracia. Chegar até aqui, a partir do vizinho Porto, era já uma pequena viagem em busca de outro tempo: o tempo das águas, do passeio, do repouso e dos rituais de uma temporada termal.
Em 1907, a revista “Occidente” confirmava a reputação que a estância de Pedras Salgadas, entretanto alcançara, apresentando-a como um estabelecimento de grande prestígio, tanto em Portugal como no estrangeiro. A direção superior estava então confiada ao “sr. conselheiro Henrique Maia”, cuja competência era destacada pela forma como conduzira o estabelecimento a um elevado grau de perfeição e prosperidade. Nesse mesmo período, a “Gazeta dos Caminhos de Ferro” atribuía aos seus esforços a transformação de Pedras Salgadas num dos “primeiros” estabelecimentos termais do país. Eram já destacadas as diferentes nascentes, entre as quais Penedo e D. Fernando, bem como as múltiplas aplicações terapêuticas então atribuídas às suas águas. Eram indicadas para doenças renais e digestivas, afeções respiratórias, gota, diabetes e outras patologias. A água deixava, assim, de ser apenas um fenómeno natural para se converter no centro de um complexo terapêutico e turístico em crescente expansão.
Entre as águas que brotavam da terra e a vontade dos homens em transformá-las em destino, nascia assim uma nova paisagem. Pedras Salgadas deixava de ser apenas um lugar onde existiam águas minerais. Tornava-se uma ideia de lugar — e essa ideia haveria de atravessar o século.
Henrique Maia surge, portanto, numa segunda etapa da história de Pedras Salgadas: aquela em que o recurso natural é integrado num projeto organizado de medicina, empresa e turismo. O seu papel foi transformar o valor terapêutico das águas numa estrutura termal capaz de atrair doentes e visitantes, dotando a estância de organização, equipamentos, espaços de lazer e uma imagem pública cada vez mais prestigiada.
O final da vida de Henrique Maia encontra-se diretamente ligado a esse processo de modernização. Morreu, no Porto, em 9 de outubro de 1908, quando Pedras Salgadas atravessava uma fase particularmente importante da sua transformação.
Este facto é essencial para compreender a passagem da liderança para João Manuel Lopes de Oliveira. Henrique Maia não deixou uma obra concluída, mas deixou uma estrutura em pleno desenvolvimento e um projeto de modernização que teria continuidade depois da sua morte. A sucessão administrativa não representou, por isso, uma rutura, mas antes a passagem de uma geração para outra.
No verão de 1912, quando a jovem República Portuguesa ainda dava os primeiros passos, a Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar e a Companhia das Águas de Pedras Salgadas celebraram um acordo que viria a marcar a história local. A 26 de julho desse ano, reunidos na secretaria municipal, os representantes do município e da empresa formalizaram a venda de parcelas de uma estrada municipal e de dois caminhos vicinais situados na envolvente da estância termal de Pedras Salgadas.
Para o município, a operação representava uma oportunidade de promover o desenvolvimento económico do concelho. Em troca da cedência daqueles terrenos e caminhos públicos, a Câmara recebeu quatro contos de réis, uma quantia apreciável para a época. Mais importante ainda, garantiu uma contrapartida que procurava salvaguardar os interesses da população local: a Companhia comprometia-se a permitir, de forma perpétua e gratuita, a entrada dos habitantes do concelho nos seus parques, tanto durante a época termal como ao longo do restante ano.
O documento revela também muito das mentalidades vigentes no início do século XX. O acesso aos parques, embora gratuito, estava sujeito ao cumprimento de regras de comportamento e à apresentação de identificação em determinados casos. Certos grupos sociais, considerados indesejáveis pelos padrões da época, poderiam ver a entrada recusada. Estas disposições, hoje incompatíveis com os princípios de igualdade e não discriminação, refletem a preocupação das estâncias termais em preservar uma imagem de ordem e respeitabilidade junto da clientela burguesa que as frequentava.
Mais de um século depois, este contrato constitui um testemunho precioso da história de Pedras Salgadas e de Vila Pouca de Aguiar. Nele cruzam-se os interesses do poder local, as estratégias de expansão de uma empresa que se tornou uma referência nacional e as transformações sociais e económicas de uma região que encontrou nas águas minerais um dos principais motores do seu desenvolvimento. O documento preserva, assim, a memória de um momento em que o progresso, o turismo termal e a administração municipal procuraram caminhar lado a lado, moldando a paisagem e a vida da comunidade que ainda hoje reconhece em Pedras Salgadas uma das suas mais importantes referências históricas.
Na época, João Manuel Lopes de Oliveira assumiu um papel decisivo na história de Pedras Salgadas. Sob a sua administração, Pedras Salgadas consolidou-se como uma das principais estâncias termais portuguesas das primeiras décadas do século XX. A antiga exploração das águas evoluiu para um conceito mais amplo de estância, no qual se articulavam balneário, hotéis, parque, casino, lazer e acessibilidades ferroviárias. A cura termal passou a integrar-se numa experiência turística e social mais sofisticada, dirigida a uma clientela que procurava simultaneamente tratamento, descanso, convívio e distinção.
Lopes de Oliveira esteve também ligado ao meio empresarial e publicitário portuense, num período em que a promoção das águas minerais e das estâncias termais adquiria uma importância crescente. A construção da imagem pública de Pedras Salgadas acompanhou esse processo: fotografia, postais, publicidade, arquitetura, paisagismo e novas formas de comunicação contribuíram para projetar a estância para além do seu território imediato.
A importância que lhe foi atribuída pela própria comunidade termal ficou consagrada depois da sua morte. Em 1947, Pedras Salgadas ergueu no parque uma estátua de bronze em sua homenagem, com a inscrição: “J. M. Lopes de Oliveira seu grande animador — Pedras Salgadas agradecido”. Existe igualmente um busto seu, realizado pelo escultor Rodolfo Pinto do Couto. A sua memória também permanece na Avenida Lopes de Oliveira, em Pedras Salgadas.
A trajetória de Lopes de Oliveira representa, deste modo, a consolidação de uma transformação iniciada na geração anterior, ou seja, a passagem de uma exploração termal centrada essencialmente nas propriedades medicinais das águas para uma estância moderna de saúde, turismo, lazer e sociabilidade.
A história de Pedras Salgadas não pode, portanto, ser atribuída exclusivamente a uma única personalidade. O seu desenvolvimento resultou de uma continuidade de saberes, iniciativas e investimentos, em que diferentes protagonistas desempenharam funções distintas.
Pedras Salgadas tornou-se, assim, muito mais do que o lugar onde brotavam águas minerais. Tornou-se numa paisagem construída em torno delas — uma paisagem de ciência, medicina, arquitetura, natureza, negócio e lazer, cuja identidade resultou da ação continuada de homens que compreenderam que o valor de uma água termal dependia também da capacidade de criar, à sua volta, uma verdadeira estância.
Entre 1908 e 1915, o parque atingiu um dos seus momentos de maior esplendor, com uma paisagem cuidadosamente desenhada, onde árvores, lago, arquitetura e vida social formavam um cenário de elegância e repouso. Os edifícios termais representaram a modernização dos tratamentos, com equipamentos de hidroterapia e instalações comparáveis às grandes estâncias europeias. Ao redor dos hotéis, os cafés e as pequenas lojas e bancas comerciais reforçavam a atmosfera cosmopolita, oferecendo postais, doces, chocolates e objetos vindos do estrangeiro. Entre tratamentos, passeios pela região, concertos e encontros sociais, Pedras Salgadas afirmou-se como mais do que uma estância termal, porque se tornou num lugar onde a cura, o lazer e a contemplação da paisagem se uniram numa experiência única.
«Pensamos então o grande número de dispépticos, que antes vinha a Pedras Salgadas, dentro da primitiva mala-posta, ameaçando desconjuntar-se, com molas de duvidosa elasticidade, e que engolindo o pó, que as patas dos cavalos levantavam ao som do guisalhar monótono e das pragas do bolieiro, percorria essas dezenas de quilómetros» (“Excursões Médicas”, Porto, Tip. a vapor da “Enciclopédia Portuguêsa”, 1913, p. 17).
«É a estância de Pedras Salgadas. Tudo se prepara para o desembarque, as malas saem das redes, os pés batem o pavimento da carruagem tentando desentorpecer as pernas obrigadas a algumas horas de imobilização forçada», (“Excursões Médicas”, Porto, Tip. a vapor da “Enciclopédia Portuguêsa”,1913, p. 21).
A vida nas termas de Pedras Salgadas era uma combinação singular de medicina, lazer, sociabilidade e prestígio social.
Durante a chamada época termal, que decorria sobretudo entre a primavera e o início do outono, chegavam a Pedras Salgadas famílias de Lisboa, Porto, Braga, Guimarães e de muitas outras localidades. Alguns procuravam tratamento para problemas digestivos, hepáticos ou renais; outros vinham simplesmente desfrutar do ambiente saudável, do clima e do convívio social. Ir às termas era simultaneamente um ato terapêutico e um acontecimento social.
A rotina diária dos aquistas era bastante organizada. O dia começava cedo com a ingestão das águas minerais diretamente das fontes. Médicos da Companhia prescreviam quantidades específicas de água e horários rigorosos para os tratamentos. Muitas pessoas passeavam lentamente pelos parques enquanto bebiam a água, pois acreditava-se que o exercício moderado potenciava os seus efeitos terapêuticos.
Os parques constituíam o centro da vida quotidiana. Os visitantes percorriam avenidas arborizadas, jardins cuidadosamente desenhados e caminhos ladeados de vegetação exótica. O contacto com a natureza era considerado parte integrante da cura. A expressão “ir a banhos” significava muito mais do que receber um tratamento médico; representava uma temporada de repouso físico e mental.
Ao final da manhã e durante a tarde, os hóspedes encontravam-se nos hotéis, nos salões de convívio e nas esplanadas. Realizavam-se concertos, bailes, saraus literários, jogos e encontros sociais. As termas eram também locais privilegiados para estabelecer relações pessoais, contactos profissionais e até futuros casamentos. Para muitas famílias abastadas, a presença anual em Pedras Salgadas fazia parte do calendário social.
A alimentação dos hóspedes das termas era considerada parte integrante do tratamento. Em Pedras Salgadas, tal como nas principais estâncias termais europeias da época, os médicos não prescreviam apenas a ingestão das águas minerais; recomendavam também regimes alimentares adaptados às necessidades de cada doente.
O pequeno-almoço era normalmente leve. Incluía pão, manteiga, leite, café ou chá, embora muitos aquistas começassem o dia por beber a água mineral em jejum, seguindo rigorosamente as indicações médicas. Após a toma da água, realizavam-se passeios pelos parques antes da primeira refeição substancial.
O almoço e o jantar eram servidos nos hotéis e pensões da estância. A cozinha refletia os hábitos da burguesia portuguesa do início do século XX: sopas, carnes cozidas ou assadas, aves, peixe de rio ou transportado das cidades, legumes da época e fruta fresca. Os pratos excessivamente condimentados eram frequentemente desaconselhados aos doentes submetidos a cura hidropínica.
Muitos hóspedes seguiam dietas específicas. Para pessoas com problemas digestivos, hepáticos ou metabólicos, os médicos recomendavam refeições simples, com pouca gordura e reduzido consumo de álcool. As águas de Pedras Salgadas eram particularmente associadas ao tratamento de perturbações do aparelho digestivo e urinário, pelo que a alimentação era ajustada para potenciar os efeitos terapêuticos.
Nas mesas dos grandes hotéis encontravam-se igualmente produtos considerados requintados para a época: vinhos selecionados, doces conventuais, compotas, queijos e frutas de qualidade. Durante a época alta, os jantares podiam assumir um carácter social elegante, aproximando-se dos ambientes dos hotéis termais franceses ou espanhóis frequentados pela elite.
Para os visitantes mais abastados, a refeição era também um momento de sociabilidade. Os salões de jantar funcionavam como espaços de encontro onde se conversava sobre política, negócios, literatura ou as novidades da estação termal. Muitas amizades e ligações familiares eram construídas à mesa.
Contrariamente ao que hoje se imagina, a cozinha termal não era necessariamente austera. O ideal médico da época procurava conciliar alimentação nutritiva e prazer gastronómico, desde que respeitadas certas regras de moderação. O excesso era visto como inimigo da cura, mas a boa mesa continuava a fazer parte da experiência de veraneio.
Assim, um hóspede de Pedras Salgadas poderia começar o dia com a ingestão da água mineral, passear pelos jardins, almoçar um caldo, peixe ou carne assada com legumes, passar a tarde entre os parques e os salões da estância e terminar o dia com um jantar servido num ambiente elegante, acompanhado pela animação social.
Contudo, a vida termal não era igual para todos. Havia uma clara distinção social entre hóspedes, empregados, população local e visitantes ocasionais. O próprio contrato de 1912 que se transcreveu reflete esta realidade ao prever limitações de acesso a determinados grupos considerados indesejáveis pela moral da época. Os parques eram espaços de convivência, mas também de afirmação social e de representação do estatuto económico dos frequentadores.
Para os habitantes de Pedras Salgadas e das aldeias vizinhas, a estância era simultaneamente uma fonte de emprego e um elemento de orgulho local. Hotéis, restaurantes, jardins, manutenção dos parques, transportes e serviços médicos criavam oportunidades de trabalho e dinamizavam a economia do concelho.
Vista à distância de mais de um século, a vida nas termas de Pedras Salgadas correspondia a uma espécie de pequena sociedade sazonal: médicos, empresários, aristocratas, burgueses, funcionários, trabalhadores locais e visitantes partilhavam um espaço concebido em torno da água mineral, do contacto com a natureza e da crença de que o bem-estar físico e social caminhavam lado a lado. Foi esse ambiente que transformou Pedras Salgadas numa das mais emblemáticas estâncias termais portuguesas.
Em novembro de 1919, a evolução empresarial consolidou-se com a união das explorações de Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas sob uma mesma organização: Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas. A associação entre estas três referências termais criou uma das mais importantes estruturas portuguesas ligadas às águas minerais, reunindo diferentes territórios, fontes e tradições numa mesma visão estratégica.
O balneário revelava uma imagem de modernidade e rigor técnico. Possuía 20 quartos equipados com banheiras de ferro esmaltado, sistemas de esterilização por vapor, instalações para engarrafamento, caldeiras destinadas ao aquecimento da água e equipamentos elétricos que demonstravam a adaptação da estância às novas exigências do século XX.
A água deixava, então, de ser apenas um elemento natural associado à cura tradicional para assumir uma nova dimensão, científica e industrial. Passava a ser objeto de estudo, submetida a controlo técnico e a processos de conservação progressivamente mais rigorosos. Paralelamente aos espaços destinados aos tratamentos, desenvolviam-se as estruturas de captação e engarrafamento, acompanhando a expansão comercial de uma marca que começava a ultrapassar os limites da região e a afirmar-se num mercado mais amplo.
Em 13 de maio de 1928, pelo Decreto n.º 1963, foram institucionalizadas as Comissões de Iniciativa e de Turismo, pondo termo à designação de Sindicato de Iniciativa. Como previsto, a Administração Central procedeu à nomeação dos respetivos dirigentes. Em Pedras Salgadas foi designado Acácio Santos Ribeiro, médico-adjunto da direção clínica da estância e médico permanente do pessoal da exploração. A sua nomeação traduzia também a importância crescente que a organização e a promoção da estância termal assumiam numa época em que o termalismo começava a articular, de forma mais evidente, as dimensões terapêutica, turística e económica.
Foi também neste contexto de crescente afirmação de Pedras Salgadas como destino termal e turístico que a fotografia ganhou uma presença particular na vida da estância. Henrique Manuel Ferreira de Miranda Botelho, nascido em Vila Pouca de Aguiar, em 1909, iniciou a sua atividade fotográfica na década de 1930 e viria a estabelecer uma relação duradoura com Pedras Salgadas. No mosaico de imagens, revela-se um retrato seu desenhado a grafite e pertencente à família (1935). Durante a época termal, Henrique Manuel Botelho instalava no parque o Bazar-Fotográfico do Parque, espaço onde a fotografia se tornava simultaneamente serviço, memória e registo da vida social da estância.
Ele desenvolveu a sua atividade fotográfica, dedicando particular atenção ao retrato, à paisagem e à representação de ambientes ligados às estâncias termais. A sua presença em Vidago assume especial importância, sobretudo pela exposição realizada em 1937 no Vidago Palace, onde apresentou 50 fotografias acompanhadas por um pequeno catálogo. O acontecimento foi acolhido com interesse pela imprensa e pela crítica, tendo a revista “Ilustração” destacado a qualidade do seu trabalho ao qualificá-lo como um “inspirado poeta fotográfico”. Esta exposição constituiu um momento relevante na afirmação da sua obra e precedeu a participação em importantes iniciativas de divulgação da fotografia artística, reveladora do interesse que dedicou à arquitetura, à paisagem e à atmosfera social das estâncias. Através de uma linguagem próxima da expressão pictórica, explorava ainda figuras humanas, jardins, flores e cenários naturais, recorrendo a técnicas como o bromóleo e a coloração a óleo. Na ligação a Pedras Salgadas, manteve atividade profissional ligada à fotografia e, em 1952, apresentou novamente o seu trabalho. O conjunto destas referências evidencia a importância que o eixo Vidago–Pedras Salgadas assumiu no percurso de Henrique Manuel Botelho, tanto enquanto espaço de criação e exposição como enquanto cenário privilegiado da sua produção fotográfica.
A presença de Botelho acrescenta, assim, uma outra dimensão à história de Pedras Salgadas. Para além da água, dos tratamentos, da arquitetura e do movimento dos visitantes, a fotografia passou a fixar rostos, encontros e momentos de uma sociedade termal em transformação. O Bazar-Fotográfico do Parque não era apenas um lugar onde se tiravam retratos, era também um ponto de contacto entre a experiência efémera da estada e a memória que dela permanecia.
A investigação sobre as nascentes prosseguia paralelamente. Em 1930, através do trabalho do técnico Arsénio da Fonseca e do engenheiro Joaquim Gaudêncio Rodrigues Pacheco, a nascente Maria Pia foi objeto de novas intervenções destinadas a melhorar a captação e a exploração da água. Era mais um capítulo de uma longa relação entre geologia, engenharia e conhecimento científico, uma tentativa permanente de compreender as profundezas invisíveis que alimentavam a superfície. Essa década trouxe também uma nova organização administrativa. Em 1938, o “Diário do Governo” publicou o novo Regulamento da Estância, estabelecendo normas para o funcionamento do complexo termal e definindo uma nova fase de enquadramento institucional.
Com a entrada na década seguinte, a modernização de Pedras Salgadas ganhou novo impulso. Em 1940, segundo projeto de António Janeira, foram construídas novas estruturas de apoio ao estabelecimento hidrológico, entre as quais a casa da caldeira, o depósito de combustíveis e a oficina de serralharia, essenciais ao funcionamento de uma infraestrutura termal cada vez mais complexa. Nesse mesmo ano, o setor feminino do balneário foi profundamente remodelado, segundo projeto de Carlos Freire Andrade, com análise técnica de Armando Narciso. A intervenção melhorou a ventilação e a iluminação, ampliou as cabines de duche subaquático de três para cinco e introduziu novos equipamentos, como o duche Vichy, além de salas de massagem, vestiários e outros espaços de apoio. Os interiores foram igualmente renovados com azulejos, mosaicos, esmaltes brancos e materiais mais adequados às exigências sanitárias.
Em 1941, novas obras reforçaram esta modernização, com a utilização de mármore nos pavimentos e paredes, embora se tenham preservado as antigas banheiras, numa interessante combinação entre memória e renovação. Em 1943, António Janeira interveio novamente, desta vez na ala masculina. As antigas instalações, marcadas por cabines de madeira, iluminação insuficiente e problemas de ventilação, foram reorganizadas. A sala central de duches recebeu mais luz e ventilação, os equipamentos subaquáticos foram ampliados e criaram-se espaços para massagens, repouso e acompanhamento médico.
A renovação estendeu-se aos materiais e acabamentos, com novos pavimentos, revestimentos cerâmicos e soluções destinadas a garantir maior higiene, conforto e durabilidade. A modernização dos balneários consolidava, assim, uma nova conceção da experiência termal, onde o tratamento se articulava cada vez mais com o conforto e o bem-estar.
O tempo começava também a revelar fragilidades. Em 1953, o “Diário Popular” publicou reclamações sobre o estado do engarrafamento das águas de Pedras Salgadas, levando a novos estudos científicos e intervenções técnicas. Entre 1954 e 1955, foram aprofundados os conhecimentos sobre as nascentes e melhorado o sistema subterrâneo de captação.
Na década de 1960, a preocupação com a qualidade e a sustentabilidade das reservas aquíferas intensificou-se, com novos estudos hidrogeológicos e projetos de modernização da área de engarrafamento. Em 1969, Gonçalo Ribeiro Telles apresentou o Plano Geral e Programa de Remodelação do Parque das Pedras Salgadas, introduzindo uma visão integrada do conjunto. O parque passava a ser entendido não apenas como cenário do termalismo, mas como um espaço vivo, onde arquitetura, vegetação, circulação e memória histórica deveriam coexistir em equilíbrio.
Pedras Salgadas entrava, assim, numa nova etapa, procurando conciliar a preservação da sua identidade com as exigências de modernização e de futuro.
A partir da década de 1970, Pedras Salgadas entrou numa fase de adaptação a novos hábitos turísticos e desafios económicos, procurando preservar o património construído e a identidade do parque. Em 1978, a abertura do furo de pesquisa AC-17 e a renovação da “buvette” central revelaram a preocupação em modernizar as estruturas ligadas às águas, enquanto a aprovação da ampliação e remodelação do Grande Hotel das Termas reforçava o seu valor histórico.
Durante os anos 1980 e início dos 1990, sucederam-se projetos para renovar o parque, o balneário e os espaços de apoio, procurando recuperar o prestígio perdido. Apesar de várias propostas arquitetónicas e investimentos previstos, muitos projetos não chegaram a concretizar-se, evidenciando as dificuldades financeiras e administrativas de uma intervenção de grande escala.
A mudança começou a afirmar-se no final dos anos 1990. Em 1999, foi apresentada uma nova proposta de remodelação e ampliação do estabelecimento termal, com pareceres favoráveis das entidades competentes. Nesse mesmo ano, o conjunto de Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas foi oficialmente reconhecido como património de relevante valor arquitetónico e histórico-cultural, consolidando a importância da estância para além da sua função termal.
Fez-se uma fábrica nova de engarrafamento, porque as termas nunca deram lucro. O que sempre deu — e continua a dar — é a fábrica. A Água das Pedras pagava tudo, pagava as termas, pagava os hotéis, pagava o parque, pagava as piscinas, pagava a vida que se fazia à volta da água. Uma água que saía da terra e, de certa maneira, sustentava tudo o que estava à sua volta. Era uma espécie de milagre económico com sabor a água mineral: a fábrica trabalhava para que as termas pudessem existir. Era um tempo em que a água não era apenas água. Só que dizem que faltou o dinheiro prometido.
Sob a copa dos pinheiros e ao som do murmúrio das águas que brotam da terra, permanece viva a memória da minha visita anterior a Pedras Salgadas, em 2006, porque foi o encontro com um lugar onde o tempo parecia obedecer a uma dimensão própria, inscrito nas paredes, nas árvores, nas fontes e nos sinais deixados por sucessivas gerações de visitantes. A paisagem revelava uma arquitetura profundamente ligada ao território. Os edifícios surgiam entre a vegetação com uma elegância discreta, marcada pelos telhados de quatro águas, pela telha de Marselha, pelos beirados de madeira e pelos pormenores ornamentais que caracterizaram as grandes estâncias termais do final do século XIX e das primeiras décadas do século XX.
Nesse ano, todos os edifícios de origem ainda permaneciam como o coração histórico do parque. No seu interior, a luz atravessava a claraboia de vidros polícromos, revelando pinturas marmoreadas, estuques e elementos decorativos que transformavam a arquitetura num verdadeiro lugar de memória. Ali permanecia o eco dos médicos, dos aquistas e de todos aqueles que, ao longo de décadas, procuraram tratamento, repouso e contacto com a natureza. Ao percorrer o parque, surgiam pequenos pavilhões entre as árvores, como guardiões das fontes e da história termal. O Pavilhão da Fonte D. Fernando, a Gruta da Fonte Maria Pia, a Fonte Grande Alcalina, a Fonte do Penedo, o Pavilhão de Enchimento da Fonte Pedras Salgadas e a Fonte Preciosa revelavam diferentes formas de proteger e valorizar a água, através de uma arquitetura onde a pedra, o ferro, o vidro e a decoração conviviam em harmoniosa relação com a paisagem. E havia o Casino, que perdura, e os famigerados Hotel Avelames, Grande Hotel e Hotel do Norte, que evocavam uma época em que as estâncias termais funcionavam como pequenas sociedades temporárias, onde se cruzavam famílias, artistas, empresários e viajantes, unidos pelo ritual das águas e pela procura de descanso. O percurso terminava junto à Casa de Chá, onde o granito se abria para a paisagem através dos seus arcos. Ali tornava-se particularmente evidente uma das grandes qualidades do parque: a capacidade de criar edifícios que não competem com a natureza, mas procuram integrar-se nela, como se sempre tivessem pertencido àquele lugar.
Recuando a outros tempos, o Parque Termal de Pedras Salgadas transformava-se também num espaço de música. O maestro Miguel Graça Moura distribuía os seus alunos pelos recantos do Parque, cada um com o seu instrumento, como se semeasse notas entre as árvores. De longe chegavam os sons dos instrumentos, misturados com o chilrear das aves. Por momentos, era difícil saber onde terminava a música e começava a natureza. O Parque parecia transformar-se numa enorme sala de concertos, sem paredes nem teto, onde a pauta era escrita pelo vento, pelas árvores e pela água.
Talvez seja essa uma das memórias mais bonitas de Pedras Salgadas: a música não vinha apenas dos instrumentos. Vinha também da paisagem. E, entre uma nota e outra, eram as aves que pareciam fazer o acompanhamento.
A cerca de 580 metros de altitude, presentemente, Pedras Salgadas ainda oferece uma paisagem de rara serenidade. Há lugares onde a natureza parece falar em voz baixa, e este é um deles. As alamedas convidam à contemplação, o verde prolonga o olhar e o silêncio nunca é absoluto: é povoado pelo chilrear das aves, pelo movimento delicado das folhas e pelo murmúrio da água subterrânea, que percorre, invisível, os caminhos da terra antes de regressar à superfície.
O verdadeiro valor de um lugar histórico está na capacidade de permanecer vivo sem perder a sua identidade. Dizem que Pedras Salgadas encontrou esse equilíbrio entre memória e futuro, preservando as fontes, os edifícios e a paisagem, enquanto acolheu novas formas de habitar e experimentar o parque.
As Eco Houses e o Spa Termal representam essa continuidade. A arquitetura contemporânea surge de forma discreta, integrada na floresta, estabelecendo um diálogo sereno com a natureza, sem a dominar. O novo não apaga o antigo, mas acrescenta-lhe uma nova camada de tempo.
É talvez essa continuidade que melhor define Pedras Salgadas: um lugar onde a água, a arquitetura e a floresta permanecem ligados por uma mesma história; um lugar que mudou, mas não deixou de ser reconhecível; um lugar que encontrou novas formas de receber sem renunciar à memória das que o tornaram único.
O Certificado Biosphere 2026 emitido para o Pedras Salgadas Spa & Nature Park é um diploma que atesta que a estância termal e parque natural cumpriu com sucesso as ações do programa Biosphere Sustainable, estando em plena consonância com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda das Nações Unidas para 2030. O texto sublinha o envolvimento dos colaboradores num projeto comum e o reconhecimento positivo por parte dos clientes.
Hoje, os caminhos, lagos, fontes e jardins continuam a convidar a uma experiência lenta. Beber diretamente da nascente mantém o gesto que uniu gerações de visitantes: o contacto com uma água que nasce da terra e guarda uma história invisível.
Talvez seja essa a palavra que melhor define Pedras Salgadas: permanecer.
A sua beleza revela-se no tempo, na luz que atravessa as árvores, no silêncio demorado do entardecer e nessa relação simples e quase secreta entre o homem e a natureza. Quem parte leva consigo mais do que imagens. Leva uma sensação difícil de explicar: a de ter reencontrado, por breves instantes, um ritmo perdido.
Porque o bilhete de ida e volta de 1919, que um colecionador particular generosamente disponibilizou e que se publica, não é apenas um pedaço de papel antigo. É uma pequena passagem para outro tempo. Nele ficaram impressos o percurso, a viagem e a promessa do regresso, como se, há mais de um século, alguém já soubesse que Pedras Salgadas não era apenas um destino, mas um lugar a que se podia voltar.
Voltar à água, às árvores, ao silêncio. Voltar a si próprio.
E talvez seja essa a verdadeira viagem, ou seja, aquela que começa num comboio, numa estrada ou num simples bilhete, mas que só termina quando o tempo nos devolve aquilo que julgávamos perdido.
Como a própria água que, durante milhares de anos, percorreu secretamente a pedra antes de regressar à luz, também o visitante atravessa este lugar para reencontrar uma ligação profunda entre tempo, natureza e existência.
Em Pedras Salgadas, partir nunca é verdadeiramente partir. Há sempre qualquer coisa que permanece — e que, silenciosamente, nos chama de volta.
Por Jorge Mangorrinha, escritor de viagens. No TNews, presentemente, com a rubrica mensal Há História no Hotel.




