Uma varanda aquém dos montes
O Casal de Palácios está localizado no Parque Natural de Montesinho, na aldeia de Palácios, numa região planáltica, fronteiriça e localmente denominada Alta Lombada. Dista 15 quilómetros da cidade de Bragança e 10 quilómetros do aeródromo. Uma estada neste alojamento permite que se desfrute de um acolhimento personalizado, com disponibilidade de vários tipos de programas, entre os quais as provas de azeites, de vinhos e de mel, encontros micológicos e percursos pedestres. Nesta unidade hoteleira, que já alcançou o Guest Review Award, usufrui-se do ar puro e de um ambiente hospitaleiro, confortável e tranquilo, graças à arte de bem-receber e à reabilitação bem conseguida, a partir da reconversão de uma casa de agricultores em turismo, feita pela quarta geração de proprietários.
Procuro uma aldeia recôndita a noroeste da cidade de Bragança. Chegado lá, a casa que procuro é visível por se situar num espaço largo e pela sua configuração arquitetónica. Estou na Rua de Cima, talvez haja uma de Baixo. Destaca-se um edifício que, na sua parte supostamente mais antiga, é branco, com sete janelas no piso superior, número cabalístico. A fachada prolonga-se, à esquerda, na frente em pedra à vista e, à direita, na continuidade do telhado sobre uma ala lateral que se desenvolve para as traseiras. Ao passar o portão cinzento, com o número 28, o casal proprietário recebe-me com um largo sorriso. Estou numa casa centenária, cujas paredes guardam histórias. Os espaços convidam ao convívio e à boa gastronomia. Rui Ferreira Rodrigues e Maria Helena Chéu são os guardadores e contadores dessas lembranças.
Este é um dos alojamentos insólitos de Portugal. O Casal de Palácios mantém-se na família Ferreira Rodrigues há quatro gerações. O edifício foi remodelado profundamente, mas manteve a traça, para fins hoteleiros. Os materiais e algumas particularidades garantem a manutenção da sua identidade original: o pátio com tanque de água onde os animais bebiam, o forno de cozer o pão e o soalho em madeira de castanho.
A transformação resultou na criação desta unidade de turismo de habitação com todas as comodidades, que possui quartos de diferentes tipologias até 30 pessoas, todos eles com varanda e virados ao nascente, aproveitando os primeiros raios de sol. A vista não pode ser mais bucólica: lameiros com cercas em pedra, árvores diversas e até um pombal, que faz parte desta propriedade com cinco hectares. Nas áreas de convívio, a casa conta com um salão de jogos e biblioteca e uma sala de refeições. Servem-se pequenos-almoços e organizam-se festas e eventos. Há ainda um pequeno bar, com quadros e fotografias que contam histórias, desde logo da própria casa, onde já decorreram gravações para cinema e televisão. Há registos das aventuras pelos Caminhos de Santiago dos proprietários que se orgulham destes conteúdos imateriais, das memórias e valores que a casa guarda e que fazem dela um lugar com alma e forte identidade.
Abri-la ao turismo foi uma forma de a partilhar e de contribuir para a valorização da própria aldeia, que recebe os turistas sempre com entusiasmo. Em sentido contrário, a inserção da unidade hoteleira na comunidade local também é incentivada pelos proprietários, através da realização de jantares-convívio. Os espaços de interior estão sempre floridos, porque o campo vem cumprimentar quem os visita. Há, ainda, um pequeno espaço dedicado à promoção dos produtos regionais de alta qualidade. O azeite com marca própria (Casal de Palácios), mas também alguns vinhos, mel e compotas, produtos que os visitantes podem degustar, comprar e levar consigo o sabor de Trás-os-Montes.
Arquitetonicamente, ao centro, há um grande pátio, com varandim, que é uma das marcas desta casa. Ao nível do piso superior, entra-se num salão com teto trabalhado em madeira, mesa ao centro, mural pintado numa das paredes e pontuada com estatuetas. O salão distribui para a cozinha e para a sala de refeições. Esta tem uma larga e comprida varanda alpendrada, que convida ao descanso, à leitura e à contemplação da natureza. Na sala de bilhar, salta à vista a grande e moderna chaminé em forma de cone invertido.
O Casal de Palácios disponibiliza, portanto, 10 espaços de alojamento: 5 quartos duplos com varanda, 1 quarto triplo com varanda e 4 quartos familiares com galeria no interior e varanda. O quarto familiar tem capacidade para quatro pessoas, está equipado com uma cama de casal de grande dimensão e um sofá-cama, sanitário privado e ar condicionado, sendo ideal para famílias com filhos menores. O quarto triplo acomoda confortavelmente três pessoas, possuindo uma cama de casal de grande dimensão, sanitário privado, ar condicionado e um sofá-cama, sendo ideal para casais com um filho. O quarto duplo deluxe pode ter duas camas individuais ou de casal, sanitário privado e ar condicionado. Todos os quartos têm varandas com vista para a natureza, propícios ao lado sonhador do poeta, a que me atrevo.
Em cada quarto uma varanda
Em cada sol uma manhã
Em toda a casa se demanda
Um amigo para amanhã
A imagem da envolvente da aldeia de Palácios é caracterizada pela mescla de áreas de cultivo e matas de carvalhos, freixos, negrilhos e castanheiros. É pautada pela presença dos cerca de vinte pombais e outras estruturas e edifícios de relevante valor histórico e arquitetónico, com um peso muito representativo na cultura da região.
Segundo os mais idosos, houve em Palácios grandes construções em madeira, além dos referidos pombais, das capelas votivas, das fontes de mergulho, dos lagares, dos cabanais, dos palheiros, dos currais e do conjunto unitário das formas irregulares que estruturam as habitações que caracterizam as aldeias. Este enquadramento abrange todo o vale e as encostas, desdobrando-se em outeiros marcados pelos ribeiros da bacia do Sabor, desde Caravela até à Réfega, com alguns castros celtas a encimar os montes, como o de Castragosa, Carrascal, Outeiro e Castrelicos. Este é um território classificado pela UNESCO, pela sua biodiversidade e pela simbiose conseguida entre a ação do homem e a natureza. A Reserva da Biosfera da Meseta Ibérica é o chapéu que encerra muitas outras classificações que distinguem o território.
A história destas terras a norte de Bragança passa por um dos factos que tem passado de geração em geração, ou seja, o cenário de um dos mais representativos episódios da história de Portugal. Em 26 de março de 1387, neste sítio, foi assinado o Tratado de Babe, entre D. João I de Portugal e John of Gaunt, duque de Lencastre, filho de Eduardo, rei de Inglaterra, que defendia para si o título de rei de Castela, mas desiste a favor da coroa portuguesa de todo e qualquer direito que tivesse ou pudesse vir a ter. Este tratado de enorme importância no contexto histórico de conturbados episódios que caracterizaram o início da dinastia de Aviz envolveu o casamento do rei de Portugal com D. Filipa de Lencastre e o ajuste do casamento da outra filha do duque inglês com o filho do rei de Castela. Este episódio significou a ocupação temporária das terras da Lombada, pelos respetivos e numerosos exércitos, assim como pelas mais importantes figuras e acompanhantes dos reinos envolvidos. Foi neste lugar e nesta data que D. Filipa de Lencastre se despediu do seu pai e se ultimaram os preparativos de uma invasão conjunta a Castela, que terminaria, sem glória, semanas depois em Ciudad Rodrigo. No local onde se instalou D. João I e os 5000 lanceiros comandados por Nuno Álvares, surgiria uma aldeia que ficou a denominar-se Palácios.
A Casa Grande de Palácios foi edificada, entre 1875 e 1882, por iniciativa de Manuel António Ferreira e sua mulher Ana Maria Barreira, bisavós do atual proprietário e gestor. O casal teve 8 filhos. Uma das filhas, Joaquina de Jesus Ferreira casou com António Maria Rodrigues, sendo a única filha que casou e foi viver para casa do seu marido, no outro lado da aldeia. Ela foi professora primária na aldeia de São Julião de Palácios. Depois de enviuvar, regressou à casa dos seus pais, atual Casal de Palácios.
Maria Ermelinda Ferreira, irmã de Joaquina de Jesus Ferreira, foi professora primária na aldeia de Babe, por despacho de 26 de dezembro de 1894, e provida definitivamente em 1898. Entre várias publicações, escreveu um livro de sonetos intitulado “Entardecer”. Das várias colaborações destaca-se a estabelecida com Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal) na recolha em Palácios de “Romanças”, as quais estão publicadas nas “Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança”. Como prova de reconhecimento foi atribuído o seu nome a uma rua da cidade de Bragança. Os restantes irmãos, dois rapazes e três raparigas, trabalharam na agricultura e na pecuária, atividades principais do Casal de Palácios, com uma área de cerca de 300 hectares. A outra irmã também foi professora do ensino primário.
Pelo elevado grau de erudição da herdeira, poetisa Maria Ermelinda Ferreira, com significativos contributos nas publicações regionais da época e várias obras editadas, cultivaram-se afinidades intelectuais com diferentes ilustres figuras da cultura transmontana e uma cumplicidade amiga com o Abade de Baçal, arqueólogo, historiador, etnógrafo e genealogista, figura incontornável do Nordeste Transmontano e que se tornou visita frequente desta morada. Na “Revista do Bem – Publicação Ilustrada Quinzenal, de Propaganda Moral e Educativa” (Lisboa, 15 de dezembro de 1905), refere-se a Maria Ermelinda Ferreira, professora na freguesia de Babe do concelho de Bragança, como escritora dos problemas da educação e do feminismo. Maria Ermelinda Ferreira também deu forma na escrita epistolar ao que era uma prática comum em diversos correspondentes: a exaltação das qualidades intelectuais do Abade.
Essa dinâmica social na Casa Grande de Palácios teve continuidade por ação do seu sobrinho Manuel Ferreira, que, graças ao seu entusiasmo pela caça, pesca e, principalmente, pela arte, foi proporcionando que a casa fosse cenário de encontros e estadas de figuras tão importantes como Miguel Torga, Viana de Lima, Lúcio Costa ou António Quadros. O arquiteto Manuel Ferreira nasceu na aldeia de Palácios, a 6 de julho de 1927, e licenciou-se em Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde também estudou no curso de Pintura. Além de se ter dedicado à docência em várias escolas e ter sido presidente da Câmara Municipal de Bragança, foi autor profícuo de projetos de moradias, habitação coletiva e bancos, bem como de vasta obra pictórica. Aliás, o Casal de Palácios tem uma sala de exposição, onde estão algumas aguarelas da autoria do arquiteto Manuel Ferreira.
Os realizadores de cinema António Reis e Margarida Cordeiro selecionaram a Casa Grande de Palácios para ali rodarem duas longas-metragens: ”Trás-os-Montes” (1976) e “Ana” (1982), em que participaram vários habitantes da aldeia de Palácios. No primeiro caso, o filme é protagonizado por um conjunto de atores não-profissionais, habitantes, que interpretam versões ficcionadas de si mesmos e dos seus antepassados. No segundo caso, um etnólogo relaciona os antigos costumes de Trás-os-Montes com os da antiga Mesopotâmia, o que contribui para olhar interno sobre um terreno cujos habitantes são depósitos geológicos e cujas paisagens são filmadas como se fossem cidades.
Esta morada foi durante muito tempo a referência da região, recebendo visitas de amigos e desconhecidos que a admiraram, frequentaram e deram a conhecer. Para tal, muito contribuiu o carácter dos diferentes membros da família e o reconhecimento de toda uma comunidade pelo trabalho dedicado das professoras que, durante anos, fizeram da sua casa a escola até à data da construção da escola primária de São Julião, já na década de 1940, e incutiram com sucesso a importância de todas as crianças frequentarem a escola nestas aldeias, quando, nessa data, apenas algumas meninas o faziam, porque os rapazes desde cedo auxiliavam os pais na lavoura. Porém, mais recentemente e durante muitos anos, a casa esteve praticamente abandonada, pelo que sofreu uma forte degradação, até ao início das obras de recuperação no início do milénio.
O edifício foi guardando muito da história da própria aldeia, mas correu o risco de cair em ruínas, uma vez que a atividade agrícola foi abandonada e a família vive, toda ela, fora da localidade.
Com dois arquitetos na família, em 2001, partiu-se para a necessidade de reconstruir o imóvel. O arquiteto Luís Ferreira Rodrigues, com a colaboração de seu pai, arquiteto Manuel Ferreira, foi o autor do projeto de arquitetura. O casal Rui Ferreira Rodrigues e Maria Helena Chéu decidiram assumir o projeto hoteleiro, idealizando para o espaço a criação de uma unidade de turismo, mesmo sem experiência no sector, por amor ao edifício e à sua história e por ambos serem apaixonados pelo turismo de natureza, um interesse que já transmitiram aos filhos. Eles têm acolhido os hóspedes e amigos com visível hospitalidade e generosidade.
Os pequenos-almoços são excelentes, com produtos locais. Com os proprietários e com alguns dos seus amigos, comi refeições deliciosas e caseiras, desde galo e javali no pote e vários tipos de enchido na brasa, tais como alheira e chouriça, e cogumelos da época, acompanhados com vinhos de Trás-os-Montes. De sobremesa, queijo com compotas variadas.
Em termos de animação cultural, promovem-se os Caminhos de Santiago difundidos na cultura europeia. A Via da Prata entra no concelho de Bragança por Quintanilha. A Porta Jacobeia é a mais antiga de Portugal, passando por diversas aldeias do concelho, entre as quais a aldeia de Palácios, e pelo interior da cidadela de Bragança. A animação no Casal de Palácios é muito presente quando se juntam diferentes casais com predisposição para o convívio. Em particular, a Passagem de Ano anima-se e torna quente o frio de fora. Refere Rui Ferreira Rodrigues que a quadra natalícia guarda a tradição de um grupo de amigos se juntar há vários anos para viverem a viragem de ano. Há casais de amigos que ficam neste alojamento, regularmente, nessa época. Alojam-se com os filhos, os netos e os amigos dos amigos para uma noite de festa.
Na partida, a vontade é voltar, como já aconteceu. A simpatia dos anfitriões desvanece qualquer ideia de lonjura. E o escritor feito poeta deixa o seu registo, sossegado e sentado naquele alpendre de vistas largas e com “preguiça de não fazer simplesmente nada”, apenas uma justa homenagem.
Eu vejo desta varanda
A nuvem que de outra banda
Águas traz das tuas fontes
E também uma canção
Que nos prende o coração
À varanda atrás dos montes
À varanda atrás dos montes
Espero eu que me contes
Por onde o teu olhar anda
Porque eu já vi tanto mundo
Mas nada de tão profundo
Como o olhar nesta varanda
*Jorge Mangorrinha é pós-doutorado em Turismo, doutorado em Urbanismo, mestre em História Regional e Local (especialização em Património) e licenciado em Arquitetura. Autor multifacetado recebeu o Prémio José de Figueiredo 2010 da Academia Nacional de Belas-Artes. Com experiência no planeamento turístico, em Portugal e no estrangeiro, exerceu, também, como gestor técnico na Parque Expo’98 e como presidente da Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal (1911-2011). Colabora com o TNews, tendo sido o autor da rubrica “A Biblioteca de Jorge Mangorrinha”, a que se seguiu “Há História no Hotel”.



