Há história no Palácio do Governador – Lisboa Hotel & Spa | Por Jorge Mangorrinha

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Um lugar com 2000 anos de história

Erigida sobre estruturas romanas, a casa do governador da Torre de Belém tem-se afirmado como uma estrutura em constante transformação, passando de residência ligada à defesa do Tejo e governação militar a espaço de habitação nobre e representação do poder. Ao longo do tempo tem acompanhado as mudanças políticas do país, sendo sucessivamente adaptada a novos usos, incluindo funções públicas e formativas associadas ao mar. Já no século XXI, é profundamente intervencionada e reconvertida, culminando na sua integração na malha urbana contemporânea como hotel boutique de 5 estrelas, num processo contínuo em que a arquitetura se vai reescrevendo pelo uso e pela necessidade.

Imaginemos que, sentado na sua secretária e com uma luz ténue para não despertar por completo a realidade e o tempo, está o governador, sobre os séculos que passaram e os séculos que virão. Sempre com a Torre de Belém no horizonte.

Estas são palavras de uma história contada pelo próprio Palácio do Governador – Lisbon Hotel & Spa, para cativar os atuais e futuros hóspedes. E continua a história.

Com a postura de quem aguarda alguém a qualquer instante, a figura imponente do governador veste um casaco azul-cobalto, de onde escapam punhos e colarinhos, literalmente imaculados, metaforicamente livres. Sobre o colarinho paira um rosto sorridente. Com a humildade de quem esquece os ornamentos que pesam no peito, que o fazem viver ligeiramente inclinado para a frente; com a curiosidade pelo futuro e pelo desconhecido de cada segundo e de cada centímetro do mundo por explorar, e que o fazem inclinar-se ainda mais para diante.

É esse sorriso que anuncia o que dirá ao aproximar-se de um hóspede:

— Que honra tê-lo na minha casa, que também é sua. E chegou no momento certo. Este nosso espaço, onde a história permanece para o futuro, é perfeito para partilhar uma aventura. Aconteceu-me ainda ontem. Ou acontecerá amanhã? Primeiro, tomemos um gin com pimenta-rosa no sossego do jardim, como sei que aprecia, enquanto preparam o nosso sushi, ainda mais fresco do que na Terra do Sol Nascente.

Só que, na minha entrada neste hotel, não me esperava um governador, desses que chegam primeiro ao gesto e só depois ao nome, nem a diretora Joana Pintéus, por compromissos profissionais perfeitamente compreensíveis.

No tecido da hospitalidade contemporânea o nome de Joana Pintéus desenha-se como uma arquitetura silenciosa de decisões, um equilíbrio entre rigor e delicadeza. Nomeada General Manager do Palácio do Governador – Lisbon Hotel & Spa pela Highgate Portugal, traz consigo mais de uma década de experiência onde a hotelaria não é apenas operação, mas linguagem feita de pessoas, tempo e pormenor. Da sofisticação do Bairro Alto Hotel à luz atlântica da Areias do Seixo, da energia da Noah Surf House à serenidade do Immerso, até à liderança do Marriott Residences Salgados Resort no Algarve, a sua trajetória desenha-se como um mapa de lugares que aprendem a respirar melhor depois da sua passagem.

Formada em Gestão de Empresas, com pós-graduação em Gestão Hoteleira, um master em Gestão do Turismo e da Hotelaria pela Universidade Europeia e formação executiva no INDEG-ISCTE, a sua preparação académica não é ornamento, mas estrutura. Um alicerce onde a visão estratégica encontra a exigência operacional sem perder o gesto humano.

E há uma imagem que lhe pertence como metáfora mais justa do que qualquer cargo: a de uma diretora invisível que, mesmo ausente de Lisboa, permanece presente em tudo o que funciona sem falha. Nesses dias em que não esteve fisicamente no hotel, como quem se desloca sem abandonar o edifício que criou por dentro, a orgânica da casa não a deixou mal. Pelo contrário, o hotel comportou-se como um corpo que reconhece o seu próprio pulso, porque já aprendeu o ritmo que ela lhe ensinou.

A entrada no hotel faz-se pelo pátio, onde permanecem à vista algumas cetárias, como se o primeiro passo fosse, inevitavelmente, um mergulho no passado. Descobertas aquando da escavação para o Spa e no sentido da salvaguarda e visibilidade do património arqueológico, o projeto de arquitetura adaptou-se, sendo necessário cobri-las, através de uma estrutura metálica ligeira, integrando-as e tornando-as visíveis em parte, tanto na entrada, como na piscina interior, nos corredores e na sala de conferências do piso -1.

Antes, a pedra de lioz respirava à vista em toda a área, numa linguagem mineral que não precisava de voz. Agora, parcialmente, estende-se a madeira flutuante e domesticada. Um véu contemporâneo que suaviza o contacto, que abafa o eco, que troca a permanência pelo conforto. Entre o que foi exposto e o que agora se cobre, há um diálogo silencioso, porque a madeira acolhe, mas a pedra sustenta. E neste pátio de entrada, onde antes o chão dava continuidade à história e era mais sóbrio, agora murmura-se uma outra escolha mais cortante.

Ao entrar no edifício, espera-me um espaço pequeno de receção que se prolonga na contiguidade da antiga capela barroca de invocação mariana, com duplo pé-direito, coro alto, painéis figurativos de azulejo a meia altura e enquadrados com guarnecimentos de madeira, bem como a inclusão da instalação “Feixes de Luz”, da autoria do arquiteto Jorge Cruz Pinto, feita em tubos de aço inox — em substituição do retábulo de altar desaparecido —, numa alusão aos órgãos de tubos e aos raios de luz do Espírito Santo representados nos azulejos existentes do século XVIII. Falta, porém, uma placa identificativa do autor, merecedor pelo empenho que teve em criar uma peça contemporânea icónica em vez de um plasma como era desejo do primeiro investidor. Nesta antiga capela, o sagrado foi convertido em acolhimento.

Neste espaço de receção, há um rinoceronte — pintura do artista Lopez Herrera, à semelhança do representado na guarita do baluarte da Torre de Belém voltado a poente e que morreu num naufrágio na embaixada do rei D. Manuel I ao Papa — e mais duas presenças humanas que, com a leveza de quem sabe receber, governam melhor do que qualquer título: o rececionista Vítor Horta, com o olhar atento de quem lê pessoas como se fossem reservas abertas, e o bagageiro Alexandre, que carrega malas como quem transporta histórias ainda por contar.

A relações públicas Inês Alves acompanhou-me ao quarto com uma postura coreografada. Inês entrou com a naturalidade de quem pertence àquele espaço. Há hotéis, pensei então, onde certas memórias começam antes mesmo de a mala ser aberta.

Construído na antiga casa do governador da Torre de Belém, primorosamente recuperada sobre vestígios romanos, o denominado Palácio do Governador – Lisbon Hotel & Spa é um lugar de todos os tempos. Mais do que um hotel, é um legado da nossa história e está preparado para uma nova etapa, convidando-nos a viver um presente único e em sua honra. Coube-me a Suíte do Infante, cujo quarto tem teto em abóbada com tijolo à vista, mas que no projeto inicial era para ser uma entrada do Spa autónoma do hotel. Sobre a mesa da sala, um cartão personalizado da assistente de direção Margarida Costa dá as boas-vindas, acompanhado por pastéis de nata e um licor de ginja com rótulo do hotel:

Estimado Professor
Jorge Mangorrinha

Bem-vindo ao seu palácio em Lisboa!
Esperamos que desfrute da sua estadia e se inspire em cada detalhe do nosso hotel.
Disponha em qualquer necessidade.
Felizes pela oportunidade de o receber.

Margarida Costa
[Assistente de Direção Geral]

Direi que este é um exemplo de que há casas que são mapas. Não de ruas, mas de camadas, como se cada parede fosse uma página e cada silêncio uma nota de rodapé. Diante do Tejo, com a Torre de Belém a impor a sua vigilância de pedra, ergue-se assim uma dessas casas que nunca aceitaram ser apenas uma coisa.

Embora não haja muitas imagens isoladas desta antiga casa militar, denominada, talvez exageradamente, de palácio, ela surge em gravuras de Belém e em vistas da Torre de Belém e do Tejo. Nessas imagens, o edifício aparece como parte do complexo defensivo e administrativo ribeirinho, muitas vezes discreto face à torre.

Revelações recentes confirmam que o local teve uma ocupação desde pelo menos o século I. Depois de abandonada a produção durante séculos, o edifício tem a sua origem em 1519, quando os religiosos do mosteiro de Santa Maria de Belém aforam um terreno a Gaspar de Paiva, figura ligada ao aparelho militar da Torre de São Vicente de Belém e primeiro capitão daquele ponto estratégico de defesa ribeirinha. Nesse lugar, entre o domínio espiritual e a necessidade de vigilância marítima, ergueu-se a primeira construção de carácter residencial sobre as estruturas romanas, ou seja, uma casa que nasce já condicionada pela geografia do poder, voltada ao Tejo e à lógica da fortificação. A construção desta casa coincidiu com a fundação da Companhia das Índias (1520).

Pouco depois, esse mesmo espaço conhece uma estranha deslocação de destino. A propriedade passa para Francisco da Costa e, mais tarde, para Diogo Póvoas, nomes que se afastam do universo militar que lhe dera origem. Ainda assim, o edifício não perde a sua ligação simbólica à torre nem à margem defensiva de Belém: apenas muda de mãos, mantendo a função implícita de acompanhar a autoridade instalada junto ao rio.

Em 1677, a casa volta a reencontrar o seu eixo institucional ao ser ocupada por Luís Manoel de Távora, 4.º conde da Atalaia, então governador da Torre de Belém. A presença deste representante da alta nobreza reforça o carácter oficial do lugar, que se afirma como extensão habitacional da própria estrutura militar. A residência passa, assim, a integrar o quotidiano da governação da fortaleza, num tempo em que a administração do território e a vigilância do estuário permanecem intimamente ligadas.

O edifício é enriquecido com azulejos setecentistas aquando da sua recuperação após o Terramoto de 1755, passando a pertencer a João Manoel de Noronha, 1.º marquês de Tancos e 6.º conde de Atalaia.

Já no século XIX, o edifício volta a ser atravessado por momentos de tensão política e militar. Em 1832, durante o contexto das guerras liberais, instala-se ali parte das tropas dos regimentos realistas de Vila Viçosa, transformando a antiga residência em espaço de ocupação militar. Pouco depois, em 1834, com a reorganização do poder e o fim do conflito, o duque da Terceira, António José de Sousa Manuel de Menezes Severim de Noronha, é nomeado governador da Torre de Belém, passando também a habitar o edifício, devolvendo-lhe novamente uma função de comando e representação.

Em 1851 o território envolvente conhece uma transformação significativa com a inauguração do chafariz de Pedrouços, instalado no largo criado em terrenos da antiga horta da propriedade, a oeste da casa. Este gesto introduz uma nova dimensão pública ao espaço: a água passa a servir a população local e o antigo domínio fechado começa a abrir-se à comunidade, redefinindo a relação entre o edifício e o território. Pedrouços torna-se um local de veraneio para príncipes e corte.

Em 1862 o próprio rei D. Luís escolhe esta casa como residência, quando a moda dos banhos se estabelece na praia de Pedrouços, elevando-a a um estatuto de proximidade régia e consolidando a sua importância simbólica na paisagem de Belém e Pedrouços. O edifício torna-se, nesse momento, não apenas espaço administrativo ou militar, mas também casa de representação do poder monárquico junto ao estuário.

Em 1864 a casa passa para residência de D. João Manoel de Menezes, 2.º marquês de Viana, a quem o Estado tinha vendido a propriedade. Em 1890 torna-se palco da sua morte. A sua viúva, D. Maria do Carmo da Cunha Quintela, permanece no local com as filhas Maria do Carmo (falecida em 1908) e Ana (falecida em 1910), mantendo a continuidade familiar num espaço que começa a fragmentar-se entre herança e dispersão. A propriedade passa para as mãos de D. Maria Isabel de Lemos e Roxas Carvalho e Menezes de La Rue Saint-Léger, condessa e marquesa de Rio Maior, que a deixa em testamento a D. José Luís de Saldanha Oliveira e Sousa. Este, por sua vez, transfere-a para o seu filho, o Dr. José Luís da Câmara de Saldanha, prolongando a linha de transmissão familiar através de sucessivas gerações.

Em 1893 a ala oriental do edifício fora destacada e atribuída à família Perry Vidal, sinal claro da divisão funcional e da crescente compartimentação do conjunto arquitetónico.

A história do edifício ganha uma dimensão mais fragmentada e técnica, marcada por intervenções sucessivas de adaptação ao uso quotidiano e comercial. Em 1922, procede-se à construção de um piso intermédio numa das lojas voltadas para a Rua da Praia do Bom Sucesso, sinal de densificação do espaço interior. Na década de 1930, multiplicam-se as alterações pontuais, com beneficiações gerais (1932), modificações de vãos e portas (1937-1939), bem como ajustes de compartimentação interna e acabamentos, revelando uma ocupação cada vez mais funcional e adaptativa. Nos anos seguintes, continuam as intervenções de manutenção e melhoria: em 1941 realizam-se reparações no sistema de drenagem do alçado voltado ao Largo da Princesa e em 1949 regressam obras gerais de beneficiação. A década de 1950 marca uma intensificação do uso comercial, com abertura de montras, alterações interiores e reconfiguração de espaços de loja (1955–1957), coincidindo com a instalação de uma bomba de gasolina associada à Escola Profissional de Pesca de Lisboa, refletindo a ligação do conjunto às atividades marítimas e logísticas da época. A Escola Profissional de Pesca permanece até à década de 1970, sendo que seria reaberta, em 1977, como estabelecimento do ensino profissional (Decreto-Lei n.º 407/77 de 26 de setembro).

Nessas décadas, portanto, o edifício recebeu uma mudança profunda: o espaço aristocrático converte-se em espaço administrativo e de formação técnica, ligado diretamente às atividades marítimas e à economia do mar. E até se conta que a última proprietária antes da reconversão para hotel tinha um pombal no interior do corredor de acesso ao seu quarto (atual Suíte da Princesa).

Já em 7 de fevereiro de 1991 é emitido despacho de abertura do processo de classificação pelo presidente do IPPC – Instituto Português do Património Cultural, reconhecendo o valor patrimonial do conjunto e iniciando um processo de proteção formal, posteriormente suspenso.

Durante a obra, em 2006, surge uma descoberta inesperada: uma antiga unidade de produção de preparados de peixe, desde molhos (“garum”) a eventualmente pastas (“allec”), com a identificação de cetárias (tanques) de calcário, com argamassa e material impermeabilizante, que fazem parte das cerca de 500 que provavelmente existiam em toda esta zona.

Estas cetárias têm em média 40 a 50 centímetros de espessura, com blocos de calcário paralelepipédicos ligados com argamassa (“opus incertum”), que quase parece um “opus vitatum” pela qualidade de execução (fiadas de blocos isónomos) e seleção cuidada dos materiais. O revestimento seria em “opus signinum” nas paredes internas rematado com uma camada de argamassa de cal para garantir a impermeabilização. No interior das cetárias foram encontradas ânforas, algumas das quais aproveitadas para restauro, mas não integradas no hotel. Este achado testemunha uma ocupação muito anterior à construção moderna do edifício e revela camadas arqueológicas de grande relevância histórica, ou seja, uma das maiores estruturas do género no Estuário do Tejo, trabalhada pela ERA Arqueologia, S.A., no contexto do projeto do hotel, sob coordenação da arqueóloga Iola Filipe.

Junto aos vestígios, lemos uma placa identificativa: “A presença de importantes vestígios romanos neste edifício inspirou a arquitetura e o ambiente da piscina e do spa desta unidade hoteleira. As termas desempenhavam um importante papel na vida quotidiana dos romanos, tanto em termos sanitários e higiénicos, como em termos sociais. Eram um espaço de lazer e convívio e, por vezes, local onde se tratava de negócios. Estavam organizadas em áreas distintas como a entrada, os vestiários, as salas de massagens, as saunas, as piscinas de água quente, de água morna e de água fria, muito semelhantes às do atual espaço.”

Houve um tempo em que o Tejo não era apenas paisagem, mas instrumento; e cada margem, uma extensão do trabalho humano. A descoberta desta unidade de produção surge como um sobressalto na memória do baixo Tejo, inesperada, mas profundamente coerente com um território que vivia do que o rio e o mar concediam.

Desde a década de 1980 que outros sinais emergiram, como fragmentos de um mapa antigo: em Cacilhas, sob camadas de silêncio; e na Casa dos Bicos, escondida no subsolo urbano. Essas presenças são incompletas, quase sussurros arqueológicos, porque lhe faltam as linhas inteiras do tempo, os ciclos claros de fundação, uso e abandono. Ainda assim, bastam para revelar o essencial: em ambas as margens, a mesma vocação, o mesmo labor persistente, a mesma economia feita de sal, peixe e engenho. E mais acima, a montante, o barro ganhava forma. As olarias moldavam ânforas como quem prepara o futuro: recipientes de viagem, de comércio, de expansão. Cada uma delas carregava não só o preparado de peixe, mas a própria respiração económica da região.

Houve um tempo em que o ar era salgado de trabalho e persistência e a terra respirava peixe, mar e império. Fora dos limites de “Olisipo” — “Felicitas Julia Olisipo” após alcançar o estatuto de capital de município romano —, quando a urbe ainda se desenhava entre colinas e promessas, erguia-se uma fábrica de vida intensa, retangular, vasta, pulsante, onde mãos anónimas transformavam o mar em sustento e comércio e o tempo em permanência.

As cetárias alinham-se em torno de um pátio central, cúmplices entre si, guardando segredos de salmoura e fermentação. Nos corredores, onde hoje o silêncio seria de repouso, fervilhava outrora a azáfama: água, peixe, sal e o gesto repetido que sustenta mundos inteiros sem nunca os nomear. Estruturas circulares purgavam excessos, como se até o trabalho precisasse de respirar para continuar.

Durante séculos, aquele lugar foi mais do que espaço, porque foi pulso económico da Lusitânia, nervo discreto do estuário do Tejo, onde a riqueza não brilhava, mas maturava. E, como tudo o que é humano, também ali o ritmo cedeu. A produção abrandou, o sal assentou e as ânforas deixaram de partir. Ficou o eco. Ficou o lugar. Ficou o tempo suspenso entre o que foi feito e o que ainda se tenta compreender.

Parte desse passado permanece visível. Não como ruína, mas como memória inscrita na matéria. Caminhar ali é atravessar camadas, do peixe à casa militar, da indústria ao descanso, do labor ao luxo. Porque antes de ser casa de hóspedes, este lugar foi casa de mundo. A narrativa expande-se, porque a casa deixa de começar no século XVI e passa a inscrever-se numa linha temporal que atravessa, sucessivamente, Roma, o império marítimo português e a modernidade.

Assim sendo, o projeto de reabilitação para unidade hoteleira ajusta-se, não para esconder, mas para integrar. As ruínas tornam-se presença visível, quase respiração subterrânea do edifício. A reconversão do edifício em unidade hoteleira encerra assim um ciclo de transformação que atravessa quase cinco séculos de usos distintos, de residência militar e nobre a espaço educativo e, finalmente, de acolhimento turístico.

O processo de classificação, contudo, não se estabilizou.

Em 23 de outubro de 2009, o procedimento caduca nos termos legais do Decreto-Lei n.º 309/2009. Mais tarde, em 30 de dezembro de 2010, é proposta a revogação do despacho de abertura pela antiga Direção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, surpreendentemente, encerrando formalmente essa tentativa de enquadramento patrimonial e levando a que o proprietário de então quisesse a demolição do edifício para surgir um pastiche e a desmontagem total das cetárias conforme propunha o então presidente do Instituto Português de Arqueologia, o que não se verificou por pedagogia dos arquitetos projetistas.

Antes da reconfiguração para hotel, o edifício já se apresentava com planta em U, como um abraço de pedra ao tempo, ou seja, um corpo que respira em dois ritmos, dois núcleos que dialogam sem nunca se confundirem.

A volumetria subia e descia em degraus de luz, articulada como um pensamento antigo, enquanto os telhados repousavam como mãos pousadas sobre a memória. A poente, a casa primeira erguia-se em três pisos, feita de volumes que se atravessavam e se insinuavam, cada cobertura afirmando a sua vontade própria, como vozes distintas numa mesma história. A nascente, mais recolhido, o espaço organizava-se em torno de um pátio retangular. A antiga capela e as dependências de serviço guardavam um silêncio funcional, quase devoto, distribuído em dois andares de vida contida. Os alçados animavam-se como quem respira: janelas de peito ao nível do chão, portas que prometiam passagem, e acima, no piso nobre, janelas de sacada com guardas de ferro forjado — verticais como notas de uma pauta — desenhavam a música do olhar. Tudo terminava num beirado simples, discreto, como quem sabe que o excesso seria ruído. A norte, a regularidade dos vãos marcava, e marca, o compasso, mas é a capela que rompe a cadência: ergue-se num pano sineiro, coroado por um frontão triangular que se eleva acima da linha do beirado, como um gesto de fé ao culto mariano a furar o quotidiano. A sul, no ponto onde os dois mundos se tocam, o portal afirma-se. Pilastras delimitam-no, vestidas de enrolamentos vegetalistas que parecem crescer da própria pedra, enquanto fogaréus coroados de concheados se erguem acima, como chamas imóveis: ornamento e vigília, pormenor e permanência.

E assim o edifício permaneceu, não apenas construído, mas composto, como se cada linha fosse palavra de uma frase longa, dita em pedra, onde o tempo aprende a demorar-se.

As obras foram morosas, mas chegou finalmente o novo Palácio do Governador, primeiro pelo investimento do empresário Carlos Saraiva e, depois da insolvência da sua empresa, como primeiro novo hotel sob a insígnia da NAU – Hotels & Resorts, com a sua entidade gestora ECS – Capital. Atualmente, cabe à já referida Highgate Portugal a gestão desta unidade hoteleira.

Este foi um renascimento que não apaga, mas acumula.

O edifício quinhentista, profundamente recuperado e modernizado, passou a oferecer 60 quartos, cada um com identidade própria, como se cada divisão fosse uma interpretação distinta da mesma história. Os quartos recusam a repetição. Há a Suite do Governador (130 m2), a Suite da Princesa (91 m2) e a Suite do Infante (58 m2), cada uma com escala e identidade próprias, quase narrativas autónomas dentro do edifício. E há outras tipologias — Deluxe, Club Room, Mansarda, Júnior Suite, Studio Suite —, com áreas variáveis e onde tetos de madeira e azulejos antigos dialogam com o conforto moderno.

Nestes quartos e noutras dependências do hotel, os produtos Eau Impériale da Guerlain de Paris deixam cheiro no corpo como quem deixa uma assinatura discreta, porque não se impõem, permanecem. Há neles qualquer coisa de antigo e cerimonial, como se cada nota tivesse atravessado salões, espelhos altos e corredores onde o tempo se penteia devagar. O aroma instala-se na pele com a mesma naturalidade com que a luz entra pelas janelas: primeiro tímido, depois cúmplice, por fim indispensável. Entre o fresco cítrico e a elegância quase invisível que se prolonga, o corpo torna-se extensão do espaço. Já não é apenas quarto, nem apenas hóspede, mas matéria habitada por um rasto, uma memória olfativa que se mistura com o tijolo exposto, com o silêncio cuidado, com o gesto de fechar a porta devagar. E assim, como quem atravessa um limiar que nunca chegou a ser entrada de Spa, fica-se suspenso entre o que foi pensado e o que se vive: perfumado, inteiro e levemente deslocado no tempo.

Do departamento de “housekeeping” (limpeza e higienização), Paula Milheiro e Arine Veiga são rostos simpáticos que não se limitam a passar, mas permanecem quando lhes peço uma curta conversa. Há nelas uma delicadeza quase invisível, como quem arruma o mundo sem fazer barulho, devolvendo ordem ao que foi vivido. Nos gestos medidos, no cuidado com o pormenor, existe uma forma silenciosa de hospitalidade que não se anuncia, mas se sente. Elas são guardiãs do conforto discreto, aquelas que entram no quarto quando ninguém vê e saem deixando tudo como se fosse sempre assim: limpo, sereno, à espera. E, no entanto, cada quarto traz um pouco delas, na dobra perfeita do lençol, na luz filtrada pela cortina, no perfume leve que não se explica. Há profissões que se exibem; outras, como a delas, revelam-se na ausência de falhas. E talvez por isso sejam tão essenciais, porque fazem do invisível um lugar habitável.

A arquitetura do renascimento contemporâneo ficou a cargo dos arquitetos Jorge Cruz Pinto e Maria Cristina Mantas, enquanto o interior recebeu o gesto das mãos da designer Nini Andrade Silva. O objetivo não foi recriar o passado de forma literal, mas evocar o refinamento da época dos Descobrimentos, cruzando-o com conforto e contemporaneidade. Surgiu uma requintada unidade hoteleira sob o tema da Companhia das Índias.

Em relação ao projeto geral e de execução da arquitetura para Hotel-Spa, os arquitetos Jorge Cruz Pinto e Maria Cristina Mantas referem: “A intervenção arquitetónica na antiga Casa do Governador da Torre de Belém em Lisboa (exemplo sóbrio de Arquitetura Portuguesa Chã, do início do séc. XVI ao séc. XVIII) define o que entendemos por Projeto Sincrónico: a coexistência de diferentes espaços-tempos, através da recuperação e integração dos vários estratos históricos existentes no edifício: dos achados arqueológicos das cetárias romanas dos séc. I e III d.C.; da fundação manuelina; à caracterização do período barroco; à renovação arquitetónica contemporânea.”

Este ateliê expressa-se na arquitetura, no desenho urbano, na reabilitação e no design. Os projetos nascem de processos experimentais e criativos, cruzando disciplinas e abrindo-se a diferentes programas, ou seja, da habitação aos equipamentos culturais, escolares, religiosos ou turísticos. Procuram uma arquitetura integrada, onde forma, tecnologia e ecologia se equilibram, valorizando soluções bioclimáticas, energias renováveis e a combinação entre materiais contemporâneos e tradicionais, respeitando a identidade dos contextos. Deste pensamento nasceu o conceito Para-Arquitecturas: espaços entre o real e o imaginado, onde arquitetura, pintura, escultura e instalação se fundem numa experiência expandida do habitar.

Nos diferentes pisos do edifício, o valor histórico revela-se em pormenores: tetos de masseira em caixotão, portal dos fogaréus e outras cantarias originais, fogões de sala, arcos e abóbadas de tijolo originais dos espaços do piso do embasamento, lambris de azulejos setecentistas restaurados pela empresa Cerâmica Artística de Carcavelos, ruínas que surgem inesperadamente como lembranças que recusam desaparecer. Isso é visível em muitos dos espaços interiores. O Salão das Naus é disso exemplo, um espaço de luz refletida nos azulejos para reuniões e eventos de empresas que o alugam e que retrata a época mais esplendorosa da história de Portugal. O último piso é um corpo contínuo, revestido a zinco, pautado por vãos envidraçados que enquadram as perspetivas exteriores desde o seu interior. Segundo os seus autores, “este volume intercepta a cobertura prismática do corpo alongado, criando no seu interior uma atmosfera mista de casco de navio e sótão com as escotilhas de canhoeiras troncocónicas, que enquadram trechos da paisagem urbana exterior.” Porém, a madeira deu lugar ao gesso cartonado, por decisão do primeiro proprietário, porque “não houve respeito pelo trabalho do revestimento de madeira dos arquitetos e do carpinteiro”, explica o arquiteto Jorge Cruz Pinto.

A designer portuguesa, por seu turno, tem um lema para os seus projetos: “Não sigo tendências, procuro criá-las” e “Inspiro-me no local, no vento e na terra, investigando a história e falando com as pessoas para compreender as raízes de cada destino ou lugar.”

Nini Andrade Silva é uma das mais reconhecidas designers de interiores portuguesas a nível internacional, nascida no Funchal, cuja obra cruza arte, design e identidade cultural com forte projeção global. Formada no IADE e marcada por experiências em várias cidades do mundo, desenvolveu uma linguagem própria — o Ninimalismo — que junta simplicidade, intemporalidade e emoção, sempre com ligação às raízes madeirenses. A sua carreira destaca-se por projetos de hotéis de luxo e design de autor em vários continentes, presença em publicações internacionais e mais de 50 prémios, incluindo distinções do Estado português e da Colômbia, onde também exerce funções diplomáticas. A sua criação ultrapassa o design funcional, assumindo-se como narrativa emocional e cultural. Figura híbrida entre artista e designer, assume uma identidade múltipla — Nini, Isabel e “Garouta do Calhau” — esta última ligada à memória da infância na Madeira e transformada em marca criativa e social. O símbolo do “X”, associado à sua dislexia, tornou-se assinatura estética e identitária. Defende um design com alma, sustentável e humanista, onde a inclusão, a multiculturalidade e a experiência das viagens alimentam o processo criativo. A sua obra integra também escultura funcional e mobiliário artístico. Apesar do reconhecimento internacional, mantém uma visão inquieta e em permanente evolução: quer continuar a criar projetos onde o design se reinventa, deixando sempre uma marca emocional e duradoura para além do tempo e da própria autora.

Em relação a este edifício, Nini Andrade Silva diz:

“Tendo em conta o elevado valor histórico-patrimonial em que se encontra construído o Hotel, o projeto de Design de Interiores foi cuidadosamente desenvolvido com a intenção de valorizar a herança cultural do mesmo e, em jeito de homenagem à presença portuguesa no oriente, recorremos à utilização de faianças inspiradas na Companhia das Índias, destacando um dos períodos mais prósperos de Portugal – os Descobrimentos Portugueses. Com o desenvolvimento do conceito incidiu também sobre os lindíssimos painéis de azulejos existentes no Palacete, cujas principais temáticas são a expansão marítima portuguesa, a iconografia religiosa e diversos elementos decorativos.”

No livro monográfico da designer, intitulado “Nini Andrade Silva” (Uzina Books, 2020), este hotel surge com o seguinte texto: 

“Tendo em conta o elevado valor histórico-patrimonial do edifício no qual se encontra construído o Hotel Palácio do Governador, o projeto de design de interiores foi cuidadosamente desenvolvido com a intenção maior de valorizar a herança cultural do mesmo.

Construído no mesmo ano em que a Torre de Belém foi concluída, em 1520, o conceito criativo foi beber inspiração à época dos Descobrimentos Portugueses, estabelecendo uma relação direta com a Companhia das Índias, curiosamente também estabelecida neste mesmo ano. Em jeito de homenagem à presença portuguesa no Oriente, recorremos à utilização de faianças, honrando o espaço e enaltecendo o programa de interiores em alusão à história de um dos períodos mais prósperos de Portugal.

Com o desenvolvimento do conceito, a nossa inspiração incidiu também sobre os lindíssimos painéis de azulejos existentes no palácio, cujas principais temáticas são, a expansão marítima portuguesa, a iconografia religiosa e diversos elementos decorativos. O azulejo é um elemento identificativo da cultura portuguesa, daí o seu natural destaque, como é o caso das instalações sanitárias sociais, do spa e ainda, a reprodução dos seus padrões nas carpetes e tapeçarias de todo o hotel.

Para completar o programa de interiores, fazemos referência à peça Dune Sofa na zona da capela, cuja forma depurada contrasta em equilíbrio com os ricos painéis de azulejos e com o seu órgão, uma magnífica escultura projetada pelos arquitetos autores do projeto de recuperação.”

A Dune Sofa está atualmente no exterior, junto à entrada, agora com uma nova cor. Realce, também, para a seda transformada em papel de parede azul em parte das paredes, nomeadamente em instalações sanitárias públicas, para realçar o conceito da Companhia das Índias. Com este seu projeto, alcançou o Oscar do Turismo 2016, o Prémio da Inovação Hoteleira de Portugal 2018, o World Best Design for Dune Sofa by The Design Et Al Awards 2011 e a Menção Honrosa de Arquitetura de Interiores nos BLT Built Design Awards 2024. Estes prémios reconhecem os projetos de excelência de profissionais do setor do design interiores, arquitetura e construção.

O que também se distribui pelo edifício é a pintura contemporânea dos quadros do pintor peruano Jorge Valdivia Carrasco, escolhido pelo presidente do Conselho de Administração da NAU – Hotels & Resorts, Pedro de Almeida, como proposta para a decoração do hotel.

A obra de Jorge Valdivia Carrasco caracteriza-se por um diálogo entre passado e modernidade: o pintor recria e transforma modelos renascentistas e clássicos, unindo fidelidade técnica a uma imaginação ousada. As suas pinturas fundem referências de mestres antigos com uma linguagem própria, marcada por forte cromatismo, rigor formal e um sentido humanista. A crítica destaca o seu domínio técnico — visível no uso de veladuras, na composição cuidada e no pormenor dos trajes — e a capacidade de reinventar o legado histórico, colocando figuras em cenários inesperados e simbólicos. Inspirando-se em artistas como os mestres italianos e flamengos, Valdivia não apenas homenageia o passado, mas também o questiona e transforma. Há na sua pintura um virtuosismo formal aliado a uma dimensão visionária e onírica, onde tradição e inovação se fundem numa expressão estética singular.

Na gastronomia, que também é arte, o Bar-Restaurante afirma-se como núcleo sensorial.

Sob a direção do “chef” André Santos (“chef” executivo) e com o “chef” Manuel Maria, a cozinha de autor transforma tradição em experiência contemporânea. O Kan.Jō Bar & Restaurant é, acima de tudo, energia, partilha e intensidade. Inspirado nas cozinhas comunitárias da Ásia, combina “street food”, tradição, cozinha de “wok” e espírito de aventura numa experiência vibrante e acessível. A comida é pensada para partilhar, o ambiente para desfrutar. O Kan.Jō é a Ásia num cenário social.

O barman Gonçalo anota as refeições e faz de tudo um pouco, como me confessou. No primeiro dia durante a tarde, experienciei coxas de frango “Karaage” e maionese de “wasabi nori”, bao de bacalhau em tempura com picles asiáticos, hambúrguer coreano de novilho com molho BBQ e brioche de batata-doce, servidos pelo Emanuel, com educação extrema. No final, Rui Silva, manager do Bar, trouxe um estaladiço e apetitoso pastel de nata a acompanhar um café em chávena Domo White da Vista Alegre. Perfeito, para começar. No jantar de cortesia, a Dina foi uma competente empregada de mesa, com elegância no gesto e um sorriso cativante, a servir “ribeye” de novilho grelhado e molho “bulgogi” acompanhado com “broccolinis” grelhados com manteiga de lima e “matcha”, finalizando com mousse de chocolate crocante de sésamos e chantili de pimenta “sichuan”.

Os pequenos-almoços servem-se ao nível do piso de embasamento na Sala Bartolomeu, espaço multifuncional para grupos e eventos. Antes restaurante, a falta de claridade foi a razão pela qual o restaurante passou para o andar de cima. Com o primeiro acolhimento por parte da Ana, “hostess” e empregada de mesa, e com esmero do Alex, supervisor de bar e subchefe, o pequeno-almoço tem uma carta à mesa muito apreciável, como por exemplo um sumo “detox” de beterraba e outros ingredientes, ovos estrelados com funcho e limão confitado à maneira turca e a mais bela panqueca (banana, mirtilos e morango) de chorar por mais.

Um piso abaixo, no subsolo, estende-se o Wellness Hub (1200 m2) como um sussurro longo, onde os muros romanos permanecem à vista, não como ruína, mas como memória firme, lembrando que o cuidado do corpo sempre foi uma forma de conversar com o tempo. Cada pedra de lioz parece dizer que o presente não passa de uma continuação bem iluminada do que já foi. Trata-se do “reverso da estrutura romana sob o rasgo zenital que coroa e ilumina a parede da piscina interior, produzindo atmosferas de água e luz que evocam as culturas termais mediterrânicas, sob uma nova expressão contemporânea”, segundo os arquitetos projetistas.

A piscina interior promete calor, essa promessa essencial de conforto e entrega. Supostamente aquecida, dizem. Porém, a água, talvez mais fiel à história do que ao termóstato, ofereceu-me antes uma submersão arqueológica (fria, lúcida, quase romana na disciplina). Entre jatos dinâmicos, cromoterapia, sauna e banho turco, tudo conspirava para suspender o ritmo, exceto a temperatura, que decidiu manter-me acordado, atento, inequivocamente vivo. As salas de tratamento alinham-se como capítulos de um livro sensorial, enquanto o ginásio oferece ao corpo a ilusão de controlo sobre o tempo que, lá fora, continua a escorrer com elegância antiga. Talvez porque se sabe que o verdadeiro luxo não está apenas no que aquece, mas também no que, inesperadamente, nos faz estremecer.

Neste piso, situam-se também as áreas técnicas, o armazém e o parque de estacionamento subterrâneo, mas as portas melhor serviriam a estética geral se fossem de pedra de lioz em continuidade com os paramentos, tal como foi projetado, embora a funcionalidade esteja presente. E atrás do balcão da receção do Spa há uma porta secreta que leva a uma outra que conduz ao elevador

No exterior, duas piscinas — uma para adultos, outra para crianças — e jardins com espelho de água desenham um cenário quase idílico, um intervalo improvável dentro da cidade. Há uma serenidade construída, medida, quase perfeita, que não só serve os hóspedes como alguns dos residentes mais endinheirados usuários durante o fim de semana.

O endereço fixa-se na Rua da Praia do Bom Sucesso, na Travessa da Saúde, no Largo da Princesa, coordenadas urbanas de um lugar que é, simultaneamente, geografia e tempo.

O hotel foi inaugurado a 30 de junho de 2016, acolhendo o lançamento mundial de uma marca automóvel de luxo. Durante semanas, encheu-se de especialistas e jornalistas vindos de todo o mundo. Um novo tipo de navegação, não marítima, mas mediática. E, depois, entrou em “soft opening”, como quem respira fundo antes de começar verdadeiramente a viver. Porém, talvez o mais importante não esteja em datas nem em números. Está na capacidade de conter tudo. Roma e Portugal, poder e ensino, abandono e renascimento. Onde outrora se produzia “garum” para o mundo romano, onde governadores vigiavam o Tejo, onde jovens aprendiam a enfrentar o mar, ergue-se agora um lugar que não esquece nenhuma dessas vidas. Porque há edifícios que não são feitos de pedra, mas de tempo. E este, mais do que qualquer outro, aprendeu a habitá-lo.

Sabemos como há lugares que se visitam e há lugares que nos recebem como se já nos conhecessem. A prova disso foi a demorada visita com Noélia Barradas. A antiga casa militar quis tornar-se esse segundo tipo de lugar, não um destino, mas um regresso.

O desafio não era pequeno para a Nors, uma agência criativa independente que respondeu ao desafio da Highgate Portugal, gestora desta unidade, para integrar este hotel no seu portefólio. O tempo, fiel à sua natureza inquieta, exigiu mais. Uma renovação profunda. Uma nova ambição. Uma pertença reforçada a um universo onde o pormenor define tudo, o da Small Luxury Hotels of the World.

O “rebranding” não começou por fora. Começou por dentro, com estas perguntas. Como transformar uma antiga casa militar num gesto de intimidade? Como fazer de um lugar histórico uma segunda casa para quem chega? A resposta voltou a encontrar-se numa figura antiga, mas agora reinventada: o governador. Não o homem concreto que ali viveu, mas o símbolo que atravessa o tempo. Um arquétipo feito de todos os governadores, passados e futuros, que compreendem que governar não é impor, mas acolher. Que a verdadeira autoridade está na atenção, no cuidado, na capacidade de antecipar o outro sem o invadir.

Este governador não vigia. Observa. Não ordena. Recebe.

E é nessa figura que o espaço encontra a sua nova identidade. Uma identidade que não escolhe entre tradição e contemporaneidade, mas vive da tensão entre ambas. Como uma respiração: inspira o passado, expira o presente.

A tradição está nas paredes, nos gestos silenciosos, na memória que não se vê, mas sente-se. A contemporaneidade está na leveza, na clareza, na forma como o espaço se adapta a quem o habita. E entre essas duas forças nasce algo raro: um equilíbrio que não pesa, que não impõe, que simplesmente existe.

É nesse equilíbrio que surge a promessa: “Honoring You.”

Não como fórmula, mas como princípio. Honrar cada visita como única. Honrar cada presença como central. Honrar não apenas quem chega, mas também o lugar que acolhe, a cidade que envolve, as histórias que continuam a ser escritas. Porque Lisboa não é apenas o cenário, mas parte da experiência. E o hotel, ao assumir-se como segunda casa, não compete com a cidade. Amplifica. Traduz. Oferece-a com cuidado.

A nova identidade visual nasceu dessa mesma lógica. Simples, elegante, sem excesso. Um símbolo que une as letras P e G e se transforma numa chave. Não uma chave de posse, mas de convite. Uma chave que não fecha, mas abre. Que diz, sem palavras: entra, fica, pertence. E assim, o “rebranding” tornou-se mais do que uma mudança estética. Tornou-se um reposicionamento emocional. Um reencontro entre o que o lugar sempre foi e aquilo que agora escolhe ser. Porque há olhares que impressionam. E há espaços que ficam.

A antiga casa militar decidiu ser o segundo. Não um hotel que se atravessa, mas uma casa que se habita, mesmo que apenas por alguns dias. O próprio presidente Marcelo Rebelo de Sousa pernoitou muitas vezes, quando os dias eram muito preenchidos, de uma educação, simpatia e empatia extremas, reconhecida pelos anfitriões, conhecendo todas as colaboradoras de ‘housekeeping’, porque estava sempre a pedir coisas. Como não podia deixar de ser, deixou testemunho para leitura.

Na despedida, além de pagar a conta, ainda houve tempo para duas fotografias, uma com os arquitetos Jorge Cruz Pinto e Maria Cristina Mantas, que por gentileza me visitaram no espaço da sua autoria, e com os rececionistas Vítor Horta, Alexandre Palma, Filipa de Oliveira e Ana Rosa, bem como para registar o meu apreço no Livro de Visitas:

O BELO NO HOTEL DO GOVERNADOR
Há lugares onde o tempo não segue ordem, mas insinua-se. Neste hotel, o belo revela-se em fragmentos: azulejos que lembram mares antigos, fragrâncias que evocam o Oriente, ecos de viagens que nunca partem nem chegam.
Tudo se cruza sem cronologia — a capela encontra o descanso, a dúvida torna-se escultura, o silêncio ganha forma e o azulejo tem hoje uma identidade que se sente mais do que se explica.
O espaço suspende-se: é instante.
O belo não está só na arquitetura.
O belo são os olhos de quem nos olha.
1.5.2026
JORGE MANGORRINHA

Num cruzamento de linguagens, o Palácio do Governador – Lisbon Hotel & Spa transformou-se em saudade, porque é uma verdadeira experiência sensorial e narrativa, onde a dimensão expandida das Para-Arquitecturas encontra a simplicidade, a intemporalidade e a emoção do Ninimalismo. O espaço deixa de ser apenas construído para ser vivido como obra total, onde habitar é atravessar uma narrativa entre memória e invenção, entre matéria e emoção, entre silêncio e intensidade, entre o edifício e a sua envolvente.

As imagens que nos ficam servem de memória, seja no meu simples olhar, ou nas reportagens fotográficas de Joaquín Bérchez (amigo dos arquitetos do hotel), nas dispensadas pelo grupo hoteleiro e nas do meu próprio clique.

E escrever sobre este edifício é ceder à arquitetura invisível e aceitar: que as palavras também têm chão, paredes e teto; que os parágrafos se erguem como alas e corredores; que cada frase procura, à sua maneira, uma luz certa onde repousar; e que um corrimão de escada é gesto e linguagem: a mão que desliza e a mão que escreve.

Como a madeira sobre a pedra, também o texto veste uma pele. Há o que se mostra — superfície polida, tom afinado — e há o que fica por baixo, nervo antigo, matéria densa, memória que sustenta. A pele do texto aquece, aproxima, convida ao toque; mas é o corpo — esse lioz, ou outro — que lhe dá peso, que o ancora no tempo presente e futuro. E assim, entre a epiderme e a estrutura, escreve-se e habita-se. As palavras ganham poros, respiram; o espaço ganha voz, murmura. E nós, escritor, leitor e habitante, percorremos esse interior com a mesma delicadeza com que tocamos uma parede antiga como a mais jovem e sensual, sabendo-se que, por baixo da pele, há sempre uma história inteira à espera de ser sentida. Porque a paixão, quando escreve, não descreve, mas percorre. Não enumera, mas respira.

Escrever assim é perder a distância crítica e ganhar proximidade sensorial. É tocar o espaço com linguagem, como quem passa a mão por uma textura antiga e sente nela não apenas a superfície, mas o tempo inteiro. E talvez seja isso o mais difícil, ou seja, manter a lucidez dentro do encantamento e dizer o lugar sem o trair, ao mesmo tempo que nos transforma. Porque há hotéis que se visitam. E há outros que, subtilmente, nos escrevem de volta.

Há sempre um hóspede que, pela sua fama internacional, pode merecer atenções acrescidas, como é o caso de Chiara Ferragni, “influencer” italiana, que já esteve em Lisboa várias vezes, nomeadamente para a conferência ICON e também em férias.

Um cliente não termina quando se despede. E, por sinal, um cliente-escritor que escreve sobre este espaço precisa de algumas respostas às dúvidas. Um escritor nunca abandona verdadeiramente o lugar onde esteve. Leva-o consigo, como quem transporta um rumor dentro do vestuário. Ao contrário da estrela de cinema, cuja presença pode terminar quando se apagam os holofotes, do desportista que encerra o jogo no apito final, do artista que desce do palco ou do CEO que fecha a porta da reunião, o escritor continua em permanência no interior daquilo que viu. Não existe “check-out” para quem escreve. Há apenas uma lenta decantação do mundo. Cada gesto observado no hotel prolonga-se muito para além da estada.

O escritor não trabalha apenas com aquilo que vê. Trabalha sobretudo com aquilo que estranha, como por exemplo uma ausência, porque tudo isso regressa mais tarde, já longe do hotel, do restaurante ou da cidade, como pequenas pedras dentro do sapato da memória.

Porque a escrita não vive apenas de acontecimentos. Vive de fissuras. E quando a hospitalidade oferece apenas encenação, instala-se uma inquietação silenciosa: a sensação de que houve qualquer coisa por detrás do cenário que nunca chegou a revelar-se completamente. A literatura começa muitas vezes no espaço entre o gesto cordial e a sombra que ele não consegue esconder.

O escritor continua a trabalhar. Trabalha ainda mais na pergunta permanente que ficou a aguardar, porque até isso me motiva a voltar.

Por Jorge Mangorrinha, escritor de viagens. No TNews, presentemente, com a rubrica mensal Há História no Hotel.

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