Há história no Palácio Ludovice Wine Experience Hotel | Por Jorge Mangorrinha

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“LISBOA EM TAÇAS DE LUZ”

No coração de Lisboa, onde o Chiado, o Bairro Alto e o Príncipe Real se encontram num abraço de ruas estreitas e miradouros, ergue-se o Palácio Ludovice, que não apenas resistiu ao tempo como se tornou testemunha viva da memória da cidade. Johann Friedrich Ludwig, ou João Frederico Ludovice, arquiteto do rei João V, aqui desenhou sonhos que, séculos depois, ainda nos contam histórias. Construído em 1727, sobreviveu ao grande terramoto de 1755, quando tanto desmoronou, e tornou-se inspiração para os edifícios pombalinos, que reconstruíram Lisboa com solidez e beleza, como se cada pedra carregasse o sopro da esperança e do engenho humano. Esse edifício histórico transformou-se em hotel de 5 estrelas, celebrando a paixão antiga do vinho.

No alto da cidade, onde o olhar se abre sobre Lisboa, uma casa palaciana reaprende a dizer o seu nome. Há edifícios que não se limitam a existir, porque atravessam o tempo como se tivessem memória própria. Este, erguido pela mão de um arquiteto alemão que trouxe de longe uma ciência do equilíbrio e da resistência, aprendeu cedo a arte de ficar de pé quando tudo em redor desabava. Sobreviveu à fúria da terra e, nessa quieta obstinação, ensinou a cidade a reconstruir-se. A sua ossatura discreta tornou-se lição, modelo, promessa de futuro.

Miguel Câncio Martins sempre quis um hotel em Lisboa como quem deseja um gesto definitivo: algo simbólico, enraizado, capaz de dizer a cidade sem a sublinhar em excesso. Adquiriu a propriedade em 2016 e no Palácio Ludovice Wine Experience Hotel esse desejo encontrou forma, não pelo apagamento do passado, mas pela sua escuta atenta, de que a parceria com Jacques Chahine, fundador e presidente do JAJ Investment Group, sediado no Luxemburgo, veio tornar possível. O mantra do arquiteto — recuperar tudo quanto fosse possível recuperar — tornou-se método e ética. Assim permaneceram os corrimões, a escadaria em mármore, os frisos sobreviventes e o tijolo de burro exposto, num delicado jogo de equilíbrios com as exigências do Estado, como se cada decisão fosse uma peça de Tetris colocada entre a vontade contemporânea e a memória coletiva. Antes de qualquer obra, vieram os estudos, ou seja, da arquitetura, da pintura, dos azulejos e da estrutura íntima do edifício, e também os arqueológicos, de cujos trabalhos emergiu um dos esqueletos mais antigos de Lisboa, com cinco mil anos, lembrando que ali o tempo não se acumula, mas sobrepõe-se, só que ao ser retirado se desfez em pó.

Luís Santos é o diretor-geral desde a obra, o cuidador atento de tudo o que respira neste lugar. Conta uma experiência em diferentes hotéis: Lapa Palace Hotel, Le Méridien Hotel (depois, Intercontinental Lisboa Hotel), Metropolitan Hotel (Sana Metropolitan Hotel), Four Seasons Hotel Ritz, VIP Executive Art’s Hotel, Hotel  Corinthia Lisboa, Grande Real Villa Itália Hotel & Spa, Tivoli Victoria Vilamoura, Evidência Belverde Hotel, Praia D’El Rey Marriott Golf & Beach Resort e Internacional Design Hotel. Disse-me que há clientes que quando chegam já trazem o conhecimento mínimo da história do edifício, sendo este hotel o adequado “para o tipo de cliente que gosta de ouvir uma boa história, que se interessa e vem com tempo”. E deixou uma nota particular em relação à família Ludovice: “O primeiro cliente que reservou na data de chegada, que seria a primeira chegada do hotel, é também descendente de João Frederico Ludovice, mas vive no Brasil.” Porém, a obra não foi concluída antes dessa data. Esse cliente alojou-se noutro hotel e viu o estado adiantado da obra, mas impossível para abrir como unidade hoteleira. O diretor ofereceu-lhe duas noites para uma outra deslocação a Portugal. O que aconteceu no ano seguinte.

O edifício ergue-se imponente, como se o barroco tivesse sido esculpido no próprio ar de Lisboa. Cada linha da fachada principal parece dançar com a luz, numa dinâmica que Ludovice sabia criar. A residência dos proprietários era nos segundo e terceiros andares e a dos empregados no piso acima destes. As carruagens e os cavalos estavam no piso térreo. A antiga residência privada da família Ludovice foi o primeiro palacete a ocupar um quarteirão inteiro em Lisboa. No topo do Elevador da Glória, uma parte era casa própria, outra arrendada, num equilíbrio entre intimidade e abertura que hoje se prolonga na vocação hoteleira.

A casa mudou de vozes e de funções, como mudam os habitantes de uma rua antiga. Foi lugar de ensino, de autoridade, de diplomacia e também templo laico do vinho, onde o tempo envelhecia em garrafas e a cidade aprendia a saborear-se. Cada uso deixou marcas invisíveis, uma camada de respiração sobre outra, até que a vocação adormecida encontrou nova forma, ou seja, acolher. Não como gesto utilitário, mas como experiência de pausa, de escuta, de deleite.

A estrutura é hoje parte essencial do encanto, porque é marca de um edifício que resistiu ao terramoto e que, sobrevivendo ao abalo, se tornou referência para a reconstrução pombalina da cidade, ordenada pelo Marquês de Pombal. Nada ali é acaso, mas tudo é cicatriz transformada em carácter.

Na construção do edifício, o palacete teve que ficar suspenso, desafiando a gravidade e reafirmando a ideia de que, o passado não pesa, mas sustém. Na renovação, não houve pressa em apagar o passado. Antes, um cuidado quase devocional em tocar o que já lá estava: azulejos que contam histórias em azul e frescos que ainda murmuram cenas antigas e tetos que guardam a gravidade do barro, do gesso e da luz. O novo nasceu sem romper, como se o luxo fosse a capacidade de fazer coexistir séculos na mesma frase. Um edifício que já ensinou a cidade a resistir ensina agora a ficar, a ficar um pouco mais, a ouvir melhor, a provar com atenção o que o tempo, paciente, soube guardar.

Antes de eu entrar, manifestou-se a simpatia do Alexandre, acompanhando-me ao estacionamento, gesto, aliás, que se repetiu na partida. De volta à entrada do hotel conforto-me com este edifício palaciano, que carrega o barroco tardio, as “lascas” de Mafra, a força da gaiola antissísmica, o riso de inquilinos antigos, o som firme das botas da polícia, o brilho dos vinhos do Porto, o sussurro de cineastas e o espanto de viajantes modernos. É um palácio, mais um palacete nobre, que nunca foi apenas um palácio, mas sim um fio contínuo da própria Lisboa, fiel ao seu estatuto de Imóvel de Interesse Público (1938) e ainda assim sempre vivo, sempre novo, sempre aberto ao que o futuro lhe quiser acrescentar.

A fachada principal, de feição palaciana, nasce voltada a oriente, onde a manhã primeiro pousa. A sua articulação vertical acentuada faz lembrar o impulso de ascensão que atravessa toda a arquitetura do século que o viu nascer. Quatro pisos compõem esta face maior, e ao centro abre-se o vão principal, porta de entrada e de intenção, guarnecido por pilastras que o seguram como colunas humanas de um ritual antigo. A fenestração, ordenada como uma pauta musical, distribui-se simetricamente pelo corpo do palacete, cada janela uma pausa, uma respiração. A maioria ergue-se em verga reta, emoldurada a cantaria, guardando nos seus limites a geometria clara do mundo. E sobre tudo isto, a cornija percorre o edifício inteiro, firme linha horizontal que sustenta o beiral saliente, ligeiramente destacado no pano central, como se ali, nesse mínimo avanço, o edifício deixasse entrever um sorriso antigo. Nas fachadas Norte e Sul, a regularidade repete-se como um mantra arquitetónico: nove vãos por piso, sempre as janelas de sacada no 3.º, sempre as janelas de peito a dominar os andares superiores. A fachada posterior, voltada a ocidente, observa o pôr do sol com os seus oito vãos, ecoando a mesma linguagem das restantes faces, porque o edifício, inteiro, fala num só dialeto de pedra.

No interior, o acesso faz-se através de um átrio transformado em 1945, onde a história se dobra e reformula, mas nunca se apaga. Da esquerda do átrio nasce a escadaria, subindo com a serenidade de quem conhece cada destino, que antes servia para conduzir os convidados até ao salão de festas (atual suíte 204) e respetivas salas de repouso e conversação, uma para cavalheiros, outra para senhoras. A escadaria é guarnecida por corrimão de mármore da primeira época do palacete, testemunha fiel do gesto inicial que ergueu o edifício, e revestida de azulejos, num diálogo entre eras. Cada lance ascende iluminado sempre por um vão orientado a sul, a luz que percorre as escadas como uma companheira constante. No andar nobre, a capela guarda o íntimo e o sagrado, pequena constelação de silêncio no centro com desenho de pavimento vindo de Mafra e em que o teto consagra o Grande Arquiteto do Universo e o pavimento tem o monograma com as iniciais J.F.L., duplicadas em simetria inversa e representando a dualidade do espírito e da matéria.

No fim de cada lanço de escadas, à direita, há uma sala de estar, também ela vestida pelos mesmos azulejos que revestem a subida, como se quisesse prolongar esse caminho de cor e brilho.

Antes Solar do Vinho do Porto em Lisboa, o palacete mantém viva essa tradição numa loja do Instituto do Vinho do Douro e do Porto, que conecta hóspedes e visitantes aos melhores rótulos, permitindo que cada garrafa se torne uma lembrança líquida. Degustações privadas, escolhas do escanção, vinhos servidos em taça, cada pormenor convida a um ritual lento, quase litúrgico, que transforma a estada numa celebração de aromas, sabores e memórias.

O vinho não se limita às garrafas, porque ele espalha-se pelo hotel e entra nos tratamentos de vinoterapia da Caudalie. O corpo e a alma misturam-se ao aroma das uvas, e cada gesto, cada toque, lembra-nos que o Palácio Ludovice não é apenas um hotel, mas um espaço de deleite total. Catarina Furtado fez promoção a estes produtos, pelo que também experienciou o conforto do hotel.

Todo o conjunto foi concebido por Miguel Câncio Martins, num exercício de equilíbrio raro, ou seja, reavivar elementos do século XVIII e casá-los com o mais luxuoso conforto contemporâneo, criando uma experiência simultaneamente sensorial, histórica e profundamente atual, em pleno coração de Lisboa. Nada aqui é decorativo por acaso; tudo tem intenção, memória e função.

Dentro destas paredes, o tempo não é linha reta, mas dobra-se. Até o chão participa dessa narrativa. As alcatifas, fabricadas pela Decorpisus na Ege Carpets, através do sistema Colortec – 80/20, não são mero revestimento, porque são paisagem. O desenho, inspirado no Douro vinhateiro, evoca socalcos, ritmos e profundidades, transportando para o interior a cadência de um território moldado pela mão humana e pelo tempo. A assinatura, a técnica e a visão artística caminham juntas.

O hotel tem 61 alojamentos distribuídos com rigor e diversidade, como se cada quarto fosse uma variação sobre o mesmo tema. Cozy, Classic, Superior e Deluxe respondem a diferentes formas de estar e de ficar; as suítes — Junior Suite, Suite e Ludovice Prestige — ampliam a escala e aprofundam a sensação de abrigo, deixando que a luz e a serenidade respirem com mais tempo. Cada tipologia é única, mas todas partilham uma língua comum, ou seja, elegância sem ostentação, conforto sem ruído.

Na intimidade de cada alojamento, existem sete modos de habitar a noite, sete respirações diferentes dentro do mesmo corpo. Do recolhimento quase secreto do Cozy Room à solenidade serena do Ludovice Prestige, os quartos desenham-se como pequenas narrativas íntimas, onde o espaço não se impõe, mas convida. Três deles são suítes, pensadas para um tempo mais lento, onde a luz se estende nas diferentes cores — bege, azul, rosa ou verde-água — como se cada tom fosse uma estação emocional, um estado de espírito a que se regressa. Os quartos 210 e 310 da categoria Classic instalaram-se nas antigas cozinhas que serviam os pisos respetivos, plenos de azulejaria e ainda com os fornos. Em todos, porém, há uma mesma sensação de continuidade — entre o que foi e o que é, entre a memória e o presente —, como se dormir aqui fosse também uma forma de escutar o tempo.

A mobília, desenhada pelo arquiteto do edifício e produzida em Portugal, não procura protagonismo, ou seja, sustém o gesto, acompanha o corpo, respeita a história. Tudo parece ter sido colocado com a exata medida entre o útil e o belo. E depois há as janelas, esses olhos atentos, umas voltam-se para o jardim vertical que sobe no átrio interior, fresco e suspenso e outras espreitam o pulsar da cidade. Mesmo no coração urbano, o ruído fica do lado de fora de portas fechadas e a cidade transforma-se em rumor distante, quase memória.

E há a suíte que me coube, Ludovice Prestige 304, ampla e sóbria, aberta ao horizonte, uma das mais elegantes deste lugar singular. Não será por acaso que neste mesmo quarto pernoitou em novembro passado o vocalista da banda de pop-rock norte-americana OneRepublic, Ryan Tedder, cantor, compositor e produtor musical, conhecido por liderar a banda e por escrever sucessos para artistas como Adele, Beyoncé e Taylor Swift, além de ser um multi-instrumentista premiado com o Grammy. Neste quarto nomes famosos entram pela porta e Lisboa entra pela janela como um privilégio silencioso. Presentemente, os vinhos Vale da Mó Tinto 2021 e Vila das Rainhas Licor de Ginja são cortesia. Os produtos de Portus Cale dão perfume ao corpo e ao ambiente. As fotografias da faina do Douro relacionam-se com a temática do hotel. E os livros são um apontamento.

Nesta suíte, eles estão numa estante à espera de quem os leia. O volume XIX da “História de Portugal” abre-se como uma janela onde a democracia ainda cheira a tinta fresca e a ruas cheias; cada página lembra que o país aprendeu a discutir consigo próprio sem medo, como quem troca a espada pela palavra e aceita o risco do diálogo. Ao lado, em “Ficção e Outras Prosas”, Almeida Garrett levanta-se da cadeira invisível e ensina que a prosa pode ser pátria portátil, capaz de conter saudade e futuro no mesmo parágrafo. John Grisham entra apressado, com um dossiê debaixo do braço: “The Pelican Brief” espalha recortes, murmúrios de tribunais, a justiça como um jogo de nervos em corredores mal iluminados. Frederick Forsyth responde com “O Negociador”, voz fria e cálculo preciso, lembrando que há sempre alguém disposto a trocar vidas por silêncio e princípios por vantagens. Entre eles, Campos Junior sussurra “A Filha do Polaco”, e a história muda de tom: agora há um rosto, uma herança, a delicadeza das identidades que sobrevivem às fronteiras e às perdas. Henry Denker traz “Horowitz e Mrs. Washington” como quem oferece um duelo de consciências, ou seja, o poder e a ética sentados à mesma mesa, tentando decidir se o mundo avança por convicção ou por compromisso. Robin Cook, inquieto, abre “A Epidemia” e o ar da suíte altera-se: o perigo não vem de fora, cresce invisível por dentro, recordando que a fragilidade humana é o verdadeiro protagonista de qualquer época. E, de repente, surge Robert F. Leslie com “Ringo, o Larápio”, leve como um assobio num beco, lembrando que até o crime pode ter humor, e que a astúcia também é uma forma de sobreviver.

Os dias passam e os livros continuam a falar. Democracia e conspiração, memória e suspense, ética e urgência, doença e ironia: tudo cabe nestas noites. A suíte 304 é um país em miniatura, um tribunal sem toga, uma enfermaria de ideias, um palco onde a ficção negoceia com a história e uma mesa com petiscos, vinhos (tinto e Moscatel). Ao amanhecer, quem dormiu ali acorda com a sensação de ter vivido muitas vidas, porque os livros, quando se cruzam, não contam histórias: ensinam-nos a habitar o mundo com mais atenção.

Nesta suite, portanto, o mundo não para, mas gira. A televisão rotativa descreve órbitas lentas, como um planeta doméstico, e cada volta sua é um fuso horário que se ajusta ao meu descanso. Sentado ou deitado, vejo continentes de imagens a passarem, mares de luz a contornarem as paredes, e percebo que não preciso viajar, porque o mundo é que dá a volta até mim. Aqui, as horas rodam como globos mansos, e as notícias perdem a pressa, porque a pressa não sabe dançar em círculos. Quando o televisor completa mais uma rotação, faz-se trocadilho do destino, ou seja, não sou eu que dou a volta ao mundo, é o mundo que me dá a volta, polido e luminoso, dentro desta suite. Cada giro é um regresso, cada regresso um começo; a noite aprende a mover-se e o silêncio acompanha, cúmplice, essa coreografia de ecrã. No centro, eu — ponto fixo — descubro que viajar também é permanecer, desde que o mundo aceite rodar.

No fim, sai-se diferente, entre escritas, leituras e imagens televisivas. Não porque se viu mais, mas porque se sentiu melhor. A experiência não se mede apenas em categorias ou tipologias, mas na forma como o tempo abranda e a cidade, por um instante, parece pertencer-nos.

No coração do palacete, onde o claustro respira em silêncio e os jardins verticais sobem pelas paredes como um murmúrio verde, encontra-se o restaurante Federico. A claraboia está quase invisível pela instalação artística de peças desenhadas por Câncio Martins, com produção feita na Indonésia. O antigo pátio abre-se à noite como um segredo revelado, iluminado por candeeiros caídos do céu, suspensos entre a memória e o presente. A parede vestida de verde vivo deixa trepar a vegetação com um vigor sereno, como se a natureza tivesse aprendido a linguagem da arquitetura antiga. Cada folha parece escutar as conversas, cada sombra prolonga o tempo. O espaço respira — não apenas ar, mas história — e convida a permanecer, a falar mais baixo, a saborear com lentidão. Há livros presentes na estante, junto às faianças da Bordalo Pinheiro e aos desenhos de Câncio Martins.

No Federico, o silêncio não é ausência, é companhia. A luz acaricia as mesas, o verde amacia a pedra, e o palacete, outrora fechado sobre si, abre-se agora em gesto hospitaleiro. Ali, comer é também habitar, ou seja, um intervalo de beleza onde o passado se senta connosco e aceita, finalmente, ser presente. O tempo abranda e a mesa torna-se lugar de encontro, de pausa e de partilha. É neste espaço que se servem os pequenos-almoços, mas o Federico não se fecha aos hóspedes. Pelo contrário, abre-se à cidade, com a vocação clara de chamar a comunidade local para almoços demorados e jantares que se prolongam em conversa. Cada cadeira guarda um segredo: o silêncio que deseja ser respeitado. As suas pernas, desnudas de proteção, arrastam-se pelo chão e ensaiam pequenos sussurros que pedem atenção. Se for colocada uma borracha, acontecerá algo quase mágico, ou seja, o arrasto torna-se melodia contida, uma nota suave que embala a conversa, sem a pressa de se tornar barulho. É como se cada assento aprendesse a dançar sem tropeçar, e o chão, aliviado, devolvesse o eco do gesto em silêncio. As vozes dos que comem e riem tornam-se então instrumento principal, e o tempo, dentro destas paredes, flui com uma cadência própria, de respiração, deleite e ritmo pausado. E eu, sentado, sinto que o tempo se faz mais lento, saboreando o instante em que o cuidado e a arte se encontram, noite adentro.

A mesa abre-se como um palco de sabores.

Os talheres de Robert Welch repousam como se soubessem que foram pensados para durar mais do que a refeição. Há neles uma contenção elegante, uma disciplina do traço que não abdica da emoção. O aço polido reflete a luz com a mesma serenidade com que reflete o tempo: não grita, não se impõe, permanece, porque são objetos que conhecem o valor do silêncio e da permanência, no melhor aço inoxidável. Neste restaurante e desde o primeiro momento, cada talher é tratado com respeito colocado com luvas brancas, como quem reconhece que o objeto não é apenas utensílio, mas resultado de rigor, cuidado e tradição. Cada faca, cada garfo, cada colher parece nascer de um gesto contínuo, como se a mão do designer tivesse seguido uma linha inevitável, sem hesitação. A ergonomia não se anuncia; revela-se quando os dedos encontram o seu lugar natural. Comer com talheres de Robert Welch é aceitar que o quotidiano merece desenho, cuidado e intenção. É reconhecer que o design pode ser uma forma de civilidade, ou seja, um acordo silencioso entre a mão, o objeto e o tempo que partilhamos à mesa.

A gastronomia fala em verso livre. A tradição portuguesa surge com respeito e profundidade. Há também ecos de França, discretos, mas presentes, que afinam os sabores sem os desvirtuar. Mais de trezentos rótulos nacionais aguardam escolha, servidos a copo ou em garrafa, como se cada decisão abrisse uma nova paisagem sensorial.

Neste restaurante, a noite abre-se como um convite sussurrado. Nadine recebe-me com um sorriso que antecipa a promessa de sabores e cuidado. O “chef” Ricardo Simões compõe pratos que são quase música em cada garfada, enquanto Leonardo, empregado de mesa de primeira, sugere e serve o jantar com a graça de quem conhece o ritmo silencioso da perfeição e que me diz no final: “Obrigado por ter confiado”. E há Bruna, escanção de verde uva, que antes na prova de vinhos apresentou a coleção Alento de Estremoz e no jantar também distribui as águas como pequenos rios de frescura pelo espaço, cada gesto medido, elegante e natural. Ricardo, com olhos atentos e mãos que dominam a alquimia dos “cocktails”, serve-me a bebida como se cada copo contivesse um segredo da noite. Na última refeição, surge Miguel Ventura, serpenteando entre mesas com lenço na lapela.

O prato principal surge como pintura viva. A garoupa, firme e luminosa, repousa sobre um leito de espinafre verde profundo, onde a luz se detém nas nervuras das folhas. Pinhões dourados cintilam como pequenas estrelas dispersas pelo cosmos do prato, e os tomates “cherry”, rubis minúsculos, explodem em doçura a cada toque. O “chutney” de manga e a malagueta serpenteia entre eles, como um rio de fogo e mel, aquecendo o coração do paladar com seu doce ardor. Cada garfada é um passeio lento por mundos que se entrelaçam: a frescura da terra, a intensidade do mar, o calor da especiaria, o perfume do sol. O vinho Marquês de Marialva Rosé desliza pelo conjunto como um véu transparente, rosa-pálido que acaricia a língua e liberta notas de frutos vermelhos e flores silvestres, como se o próprio vento tivesse sido engarrafado. Para o final, a sobremesa chega como um poema em tons dourados e cítricos. O “crème brûlée”, coroado por sua crosta estaladiça, oferece um interior cremoso que se dissolve lentamente, enquanto o gelado de tangerina irrompe em frescura, vibrando como raios de sol sobre um campo de inverno. Alternativamente, a manga cortada em fatias delicadas brilha como pequenos sóis tropicais, cada pedaço uma promessa de doçura pura, fugaz e intensa. E assim, a refeição transforma-se em dança de cores e texturas, aromas e silêncios, uma sinfonia que se lê com os olhos, se toca com a língua e se sente com o coração. A acompanhar o jantar, esteve o D.J. a passar a música apropriada ao ambiente específico.

De manhã, o Federico acorda com delicadeza. O pequeno-almoço, servido com a atenção própria dos cinco estrelas portugueses, traz laranjas do Algarve, ovos beneditinos, sumos “detox” e doçaria artesanal. É um despertar suave, pensado para alinhar corpo e espírito antes de mais um dia de descoberta por Lisboa ou, como eu, dedicado à escrita no balcão do bar, desenhado por Miguel Câncio Martins, que capta o olhar antes mesmo de se perceber o gesto: aproxima-se, impõe-se com naturalidade, quase como uma escultura que se habita, mais do que se observa. Há nele um convite silencioso, uma promessa de pausa, de conversa, de tempo suspenso. Ele ocupa o lugar de um antigo cofre, guardião de outros valores, agora transfigurados. A prateleira vertical, também desenhada à medida, ergue-se como eixo do espaço, conduzindo o olhar até aos tetos de tijolo que construíram as abóbadas. O pé-direito altíssimo exige essa verticalidade, essa respiração ampla, onde a matéria se revela sem disfarce. O tijolo exposto sustém a memória do lugar, enquanto a luz desenha sombras lentas, quase cerimoniais. A acompanhar, discreta, mas afirmativa, há uma garrafeira vertical embutida na parede, como um arquivo sensorial, porque cada garrafa guarda uma história e um gesto por cumprir e cada “cocktail” alude a uma canção famosa, cujo título é adaptado à evocação ao vinho.

Abertos ao público, portanto, o Restaurante e o Wine Bar são pontos de encontro de amantes do vinho e dos “cocktails”, viajantes curiosos, mentes criativas e locais sofisticados. À mesa, os aromas, as cores e os sabores constroem uma celebração contínua, transformando a refeição numa experiência memorável. Tal como o próprio palacete, estes espaços são feitos de camadas — história, luxo e paixão, servidos sem pressa — e de diferentes nacionalidades a servirem.

Neste particular, há figuras que sustentam a experiência sem nunca a dominar. Os originários do Bangladesh trazem para a hotelaria uma forma de estar que é feita de contenção, respeito e atenção genuína ao outro, qualidades que encontram no serviço de mesa um palco silencioso, mas essencial. Masud é empregado de mesa no restaurante do Palácio Ludovice Hotel, depois de ter cumprido a formação na Escola Profissional de Hotelaria e Turismo de Lisboa e ter feito o seu estágio neste hotel. Ele move-se entre as mesas com passo leve, quase como se pedisse licença ao chão. Observa antes de agir, escuta mais do que fala, e quando intervém fá-lo com precisão e gentileza. Cada prato servido carrega não só técnica, mas consideração; cada gesto é limpo, pensado, honesto. Há nos seus modos uma hospitalidade que não se aprende em manuais. Vem de longe, de uma cultura onde servir é um ato de respeito e não de subserviência. O sorriso é contido, mas verdadeiro. A postura é discreta, mas segura. Masud não procura protagonismo, mas procura que o outro se sinta confortável, acolhido, em paz.

A hotelaria revela-se, então, como aquilo que deve ser, ou seja, um encontro humano sustentado por quem sabe que a elegância maior está na simplicidade bem feita. Cada passo é um passeio pelo tempo, cada olhar perde-se em frescos, azulejos e tetos restaurados. Há uma teatralidade subtil, como se cada corredor pudesse ser cenário de um filme antigo, cada varanda, um palco para a cidade que se estende abaixo. Lisboa, vista do palacete, torna-se poesia em movimento, ou seja, telhados vermelhos, fachadas pombalinas, o Tejo a refletir a luz do entardecer, o som distante do elétrico e das vozes da cidade. Mesmo na cave encontramos uma surpresa, onde hoje se instala o ginásio sob tetos abobadados em tijolo, “o mais bonito de Lisboa”, nas palavras de Joana Soares, supervisora de relações públicas diretamente com os hóspedes.

O Palácio Ludovice ergue-se sobre o Miradouro de São Pedro de Alcântara como quem observa Lisboa desde sempre, guardando no corpo cúbico as memórias de séculos que se foram sucedendo como camadas de luz sobre a pedra. A sua história começa no século XVIII, num gesto quase inesperado: João Frederico Ludovice, arquiteto-mor do reino e autor-mor de Mafra, decide construir a sua residência lisboeta com as sobras da obra monumental que o ocupava. As “lascas” rejeitadas de Mafra, pedaços de mármore, fragmentos de cantaria, pedras imperfeitas, mas resistentes, tornaram-se o alicerce de um palacete nobre que se quis menos opulento do que os do rei, mas dotado de uma identidade própria. Contava-se entre os artífices que Ludovice, nas visitas à pedreira, guardava mentalmente certos fragmentos com falhas “belas”, como se cada imperfeição carregasse um futuro possível. Essas mesmas pedras acabariam por compor janelas, cantos, ombreiras, quase como um puzzle de restos que adquiriam novo sentido. As obras foram concluídas em 1747, mas, devido à adiantada idade do seu proprietário e arquiteto, não chegou a residir no edifício. O seu filho João Pedro Ludovice foi o primeiro a habitá-lo.

A inovação estrutural não lhe ficou atrás, porque, no interior dos seus muros, Ludovice integrou o sistema de gaiola de madeira antissísmica, técnica apreendida com o seu mestre e tio materno e depois ensinada por ele na Escola do Risco em Mafra, muito antes de Lisboa imaginar que viria a precisar dela. Há uma pequena história que se conta ainda hoje: dizem que, durante o sismo, uma das largas janelas do andar nobre rangeu com tal intensidade que uma das criadas gritou, julgando ouvir a casa partir-se ao meio. Quando a terra sossegou, descobriram que a janela tinha apenas deslocado um único prego. A criada, contudo, passou anos a repetir que “foi o prego que segurou Lisboa”.

Os primeiros dias do palacete foram marcados por vida familiar e artística. A família Ludovice habitou ali até ao início do século XIX. O palacete, com a sua volumetria cúbica tão distinta do habitual, tornara-se lugar de estudo: artesãos subiam as escadas para observar técnicas de talha, visitantes estrangeiros ficavam maravilhados com a fusão entre disciplina germânica e exuberância mediterrânica. Houve mesmo quem dissesse que o palacete parecia ter sido desenhado para se mover ligeiramente com o sol, tal era a dinâmica da sua fachada barroca, com varandas onduladas que pareciam suspirar ao vento. O prédio foi vendido ao 1.º Barão da Costa Veiga e passou, sucessivamente, para os seus herdeiros até meados do século XX.

Em 1828, quando Lisboa se tornara um palco de sombras e proclamações, o pianista e compositor João Domingos Bomtempo viu a música calar-se diante do fragor da política. Ele conquistara a estima de D. João VI e conduzira, com solenidade e dor, as exéquias de D. Maria I à chegada dos seus restos mortais à cidade. Encontrava-se cercado por um tempo adverso. Sonhara alto ao fundar a Sociedade Filarmónica, em agosto de 1822, abrindo as portas a concertos periódicos onde a arte respirava liberdade. A Rua Nova do Carmo fechou-se-lhe ao som das ordens miguelistas e nem o refúgio improvável do velho palacete do duque de Cadaval, onde hoje o Rossio recebe viajantes, resistiu à maré negra dos acontecimentos. Com a proclamação de D. Miguel e o regresso do Absolutismo, a música tornou-se suspeita, e o homem, vulnerável. Houve um tempo em que não era apenas a obra que estava em risco, mas o próprio corpo, a integridade ameaçada pela intolerância. Foi então que Bomtempo se recolheu no Consulado da Rússia, como quem entra num silêncio forçado, protegido por paredes estrangeiras enquanto o país se rasgava em guerras liberais. Ali permaneceu cinco longos anos, vivendo entre partituras e espera, até que Lisboa voltou a ouvir passos de mudança com a chegada das forças liberais de D. Pedro. E nesse intervalo suspenso, entre o medo e a esperança, a música resistiu, invisível, mas intacta, aguardando o momento de regressar à cidade que um dia voltaria a escutá-la.

Na época, foi instalado o parque de artilharia no local das cocheiras e cavalariças. Em regime de inquilinato, tornou-se cenário de encontros improváveis: estudantes que alugavam quartos e enchiam o átrio de vozes noturnas; uma modista francesa que trabalhava junto às janelas viradas a sul, lançando retalhos coloridos ao varandim; e até um relojoeiro que, instalando a sua oficina num dos pisos superiores, utilizava como referência o repicar preciso das horas no convento vizinho. Há um episódio curioso sobre este relojoeiro: certa vez, ao ajustar um relógio especialmente complicado, ergueu a cabeça para ouvir melhor as badaladas, distraindo-se tanto com a vista sobre o Tejo que deixou o mecanismo cair, e dizem que o relógio só voltou a funcionar décadas depois, recuperado das mãos de um seu aprendiz.

O ano de 1890 trouxe outra vida ao edifício, porque se tornou quartel-general da Polícia. O ambiente mudou radicalmente. O que antes eram ecos suaves de conversas e passos ficaram preenchidos por ordens, botas, papéis, interrogatórios e vigias. Um agente mais sentimental, segundo as histórias que sobreviveram, tinha o hábito de tocar piano ao final da tarde numa das antigas salas nobres, talvez sem saber que estava a devolver música a um lugar habituado a ela desde tempos mais leves. Reza a lenda que uma vez o comandante interrompeu a pequena sessão dizendo que “um quartel não é salão”, mas dias depois foi visto, sozinho, a tentar tocar as mesmas teclas.

Já no século XX, o Palácio Ludovice acolheu o organismo oficial de cinema em Portugal, o que o liga diretamente à história do cinema no país. Com o Instituto Português de Cinema, o edifício ganhou um espírito quase boémio. Realizadores discutiam argumentos ao pé das janelas de sacada, jovens cineastas tomavam notas frenéticas sob a claraboia do pátio interior, e, em certas noites, improvisavam projeções numa parede onde outrora se penduravam tapeçarias. Alguns diziam que, nas sombras das projeções, era possível distinguir os contornos dos antigos frescos, como se as imagens da modernidade dialogassem com fantasmas do passado.

Em 1941, Catarina Correia de Brito, herdeira da família Costa Veiga, vendeu a propriedade à Companhia de Seguros Tranquilidade, empresa que já estava na posse de José Ribeiro Espírito Santo Silva, cuja sede se manteve neste edifício até 1968, ano em que foi inaugurada a nova sede na Avenida da Liberdade. Em 1944-1945, sob a orientação do arquiteto Jorge Segurado, o antigo pátio nobre foi remodelado para acolher o Solar do Vinho do Porto, sendo a escadaria nobre demolida. A instituição trouxe histórias saborosas: uma delas conta que, na inauguração, o aroma dos vinhos era tão intenso que um crítico estrangeiro escreveu ter sentido “o Douro inteiro” ao subir as escadas; outra diz que um barril de prova, mal apertado, deixou escorrer vinho durante toda a noite, impregnando a sala de um perfume tão doce que, durante semanas, quem passava jurava sentir um rasto invisível de fruta madura.

No final do século XX, o palacete começou finalmente a ser olhado com o cuidado merecido: a Carta de Risco analisou cada fragilidade da estrutura e em 2011 redefiniu-se a sua zona de proteção, reconhecendo oficialmente aquilo que Lisboa sempre soube, ou seja, que o Palácio Ludovice é um dos grandes guardiões do barroco lisboeta.

O século XXI trouxe o seu renascimento. Em 2022, o edifício transformou-se no Palácio Ludovice Wine Experience Hotel. As obras revelaram pequenos tesouros, ou seja, fragmentos de desenhos de Ludovice escondidos atrás de painéis, inscrições quase apagadas nos soalhos, vestígios de tinta que comprovaram a existência de frescos mais antigos do que se imaginava.

Neste edifício, a cidade tem visto, desde há séculos, o seu reflexo mais contínuo, que agora o hotel revela. O seu primeiro dono dá-nos as boas-vindas à chegada, através de um retrato em grandes dimensões colocado sobre a receção feito pelo fotógrafo francês Antoine Duhamel.

A concluir é justo sintetizar a vida do patrono e arquiteto deste edifício. Nasceu no Castelo de Honhardt, Suábia, a 19 de março de 1673, entre torres silenciosas e corredores onde a infância se mesclava ao eco das pedras ancestrais. Filho mais novo de Peter Ludwig e de Elisabetha Rosina Engelhardt, Johann cresceu entre irmãos e histórias, num tempo de juventude breve, pois a vida cedo lhe exigiu engenho e coragem. Aos oito anos, a família mudou-se para Schwäbisch Hall, e aos quatorze a perda do pai lançou-o nas mãos do tio construtor, Johann Wilhelm Engelhardt, que acendeu nele a centelha da arquitetura, da forma e da beleza que se tornariam sua assinatura.

Ele aprendeu o ofício de ourives com Kienle de Ulm, entre metais que reluziam sob o martelo e a paciência do mestre. Jovem militar na guerra do Palatinado, Johann atravessou campos de batalha, fundiu conhecimento com a precisão da engenharia, e descobriu, entre pólvora e canhões, o ritmo silencioso da disciplina e da ordem. Quando a guerra terminou, partiu para a Itália, Roma a acolheu, e ali, entre esculturas e catedrais, o seu nome transformou-se em Ludovici.

Roma viu Johann converter-se à fé católica, unindo-se a Chiara Agnese Morelli, filha de linhagem trabalhadora e honrada, e a sua arte começou a cantar entre metais, esculturas e riscos de arquitetura. A cidade eterna reconheceu nele o talento invulgar, mas foi Lisboa que haveria de receber o brilho pleno de sua genialidade. Chegou à cidade à beira do Tejo no final de 1700, e logo o som do seu génio percorreu ruas e igrejas, sacralizando o Sacrário de Santo Antão, a Capela do Carmo, e tantos altares que ainda hoje falam da sua mão invisível.

A vida em Lisboa não foi apenas obra; foi confronto, mediação e encontro com reis e ordens religiosas. D. Pedro II defendeu-o, D. João V confiou-lhe o Palácio Convento de Mafra, onde o barroco português se tornou num majestoso poema de pedra, madeira e luz, coroando uma visão que unia o sacro e o profano, a ciência e a arte, o sonho e a engenharia. Ludovice construiu bibliotecas que guardavam não apenas livros, mas futuros, escolas de risco que formaram discípulos, palácios que respiravam sob o sol e as brisas do Tejo, soluções que fizeram a água chegar a Lisboa através do Aqueduto das Águas Livres.

Entre sucessos e glórias, o aportuguesado João Frederico Ludovice navegou pelas contradições da vida: o amor, os filhos, os casamentos, a distância da terra natal e a tensão com a família. Tornou-se cidadão português, arquiteto-mor do Reino, brigadeiro do génio que transforma sonhos em estruturas e marcas eternas do engenho humano.

Faleceu em Lisboa, na Rua Larga de São Roque, a 18 de janeiro de 1752, deixando o rasto de uma vida tecida entre metais, pedras e papéis de risco, uma obra que atravessaria séculos, reconhecida em 2019 pela UNESCO, quando Mafra se tornou Património Cultural da Humanidade, lembrando que um homem da Suábia pôde, numa outra terra, tornar-se eternidade. E a sua obra a manter-se perene.

Ficou-me na memória a frase que a angolana Tiara me disse, com especial gentileza: “Quem abre a porta, não volta, por isso é que nós abrimos a porta para a visita poder voltar”.

E dentro dos que têm voltado está Jade Sheena Jezebel Jagger, ex-modelo, designer de joias e casas, filha do vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, e da ex-modelo e defensora dos direitos humanos, Bianca Jagger. Nada como recordar “Gimme Shelter” (Rolling Stones), que fala de um mundo à beira do caos e da urgência de encontrar abrigo, físico e emocional, antes que seja tarde demais.

O Palácio Ludovice Hotel é um abrigo onde o tempo não se limita a passar, mas respira. Entre paredes que aprenderam a ouvir, cada passo deixa um eco distinto, como se a casa recolhesse vozes para as guardar num mesmo silêncio nobre. Aqui, a história não se impõe, mas acolhe.

Neste antigo palacete – neste hotel – o tempo dobra-se. Sente-se o passado e o presente simultaneamente. Lisboa inteira parece inclinar-se para dentro do hotel: a arquitetura, o vinho, a gastronomia, a luz. Cada quarto, cada salão, cada pormenor restaurado, cada taça de vinho servida é uma ode à cidade, à memória e ao prazer. Quem atravessa as suas portas não apenas se hospeda, mas participa de uma narrativa viva, em que cada passo, cada gole, cada olhar, é uma experiência que se guarda, como vinho precioso, na memória. O edifício permanece como um monumento vivo, à história, à elegância, à arte de viver com todos os sentidos despertos. Cada visita é uma viagem entre séculos, uma prova de vinhos da alma da cidade, um brinde ao passado e ao presente que se encontram, na luz dourada dos azulejos, na madeira entalhada e no brilho das garrafas que guardam a essência de Portugal.

Passam atores que vivem de dar corpo a outras vidas: Glynn Turman, trazendo nos gestos a densidade do palco e do ecrã; Naomi Ogawa, com a precisão serena de quem transforma palavra em presença; Michael Emerson, mestre dos intervalos e das sombras; Jimmy O. Yang, onde o riso também pensa e observa. Cada um entra como quem ensaia, e sai como quem deixa uma cena suspensa no ar do palacete. Passam músicos que sabem que o som também habita as paredes: Lenny Kravitz, com a liberdade crua de quem carrega o ritmo no corpo; OneRepublic, onde a voz coletiva se torna memória partilhada. As notas não ficam, mas o lugar aprende-as.

E passa também quem não vem com nome gravado em cartaz algum, mas traz consigo o essencial, ou seja, a capacidade de olhar, de sentir, de pertencer por instantes. Gente anónima, gente inteira. Todos igualmente hóspedes de um mesmo intervalo de vida. E passo eu. Não para competir com o brilho, mas para o reconhecer. Não como exceção, mas como continuidade. Neste palacete, ser famoso ou desconhecido é apenas uma circunstância, porque ser humano é a verdadeira distinção. A estada é um encontro entre o que fomos e o que ainda ecoa. Uns deixam arte, outros deixam silêncio, outros apenas um rasto de presença ou uma escrita, e todos importam. É nessa igualdade rara, quase invisível, que o lugar se torna maior do que a soma dos seus nomes.

Por Jorge Mangorrinha, escritor de viagens. No TNews, presentemente, com a rubrica mensal Há História no Hotel.

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