Há história no Vidago Palace Hotel | Por Jorge Mangorrinha

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O RITUAL DO REGRESSO

Erguido como sentinela do luxo, o Vidago Palace Hotel é um ícone de elegância onde a história ecoa. O prestígio das águas termais exigia mais do que um lugar de cura, porque reclamava um hotel capaz de acolher o mundo com a mesma distinção. O seu parque transformou-se num refúgio de harmonia, onde a brisa entre as árvores se mistura ao canto dos melros e ao murmúrio das águas do lago. A natureza envolve o campo de golfe, rodeado de árvores centenárias. No final da visita, permanece um ritual: dar três voltas à fonte do repuxo e guardar, na última, o desejo de regressar a este recanto de rara beleza.

Vinte anos depois de ter pernoitado neste hotel — dias antes de fechar para obras —, regressei para encontrar a sua beleza sublimada pela contemporaneidade. A trajetória do edifício confunde-se com a própria evolução da indústria das águas minerais em Portugal: a sua génese remonta a 1870, dando início a uma linhagem de sucessões societárias que atravessou todo o século XX. Entre fusões e reestruturações, nomes como a Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas e a Companhia Portuguesa das Águas Salus marcaram décadas de atividade, culminando, já no novo milénio, na integração no Grupo UNICER, que desde 2002 consolida a gestão destas marcas históricas.

É o lugar que nos recebe.

O carro imobilizou-se diante da cancela. Eu disse apenas que vinha para ficar. O segurança perguntou-me o nome. Naquele instante, o nome deixou de ser uma formalidade administrativa para se tornar numa palavra-passe, como se, por breves segundos, a entrada no Vidago exigisse a mesma delicadeza com que se atravessa a porta de um paraíso discreto. A cancela ergueu-se lentamente e o caminho abriu-se até à imponência da escadaria.

Mal-estacionei, o bagageiro Carlos Santos surgiu com a naturalidade de quem conhece a liturgia da hospitalidade. As boas-vindas vieram antes das palavras. Entreguei-lhe a chave do automóvel, confiando-lhe também as malas, esses pequenos cofres onde cada viajante transporta mais memórias do que roupa. Enquanto elas subiam para o quarto, eu subia de condição, porque deixava de ser visitante para passar a ser hóspede.

Os passos detêm-se num diálogo silencioso com o passado. No alto da fachada, o brasão sem o cunho régio é a prova de que o regime mudara na hora prevista para a inauguração.

Logo à entrada, o novo para-vento, executado em riga velha e com vidros gravados artesanalmente, recupera o desenho de um antigo biombo do salão nobre. O pavimento hidráulico, de fabrico inglês, foi cuidadosamente aplicado. Na receção, o pequeno e novo “pagode” verde-escuro e lacre, destacado da “boiserie” em “chinoiserie”, introduz o visitante num universo onde a memória é sempre reinterpretada.

Na receção, Rui Marques entregou-me o cartão do quarto, um simples retângulo de plástico que, afinal, abria muito mais do que uma porta. Fazem parte desta equipa Adriana, Alexandre, Ana, André e Daniel. Ausente em férias estava o “concierge” Ângelo Botelho, uma figura icónica, tal como o trintanário Mário Fernandes, já falecido.

Esperava-me um quarto num dos cantos superiores daquele vasto edifício, lugar privilegiado para contemplar a geometria da arquitetura, o verde dos jardins e a passagem do tempo com a serenidade que só os grandes hotéis conhecem. Rui recebeu-me com discrição e conduziu-me pelos primeiros espaços do Palace, numa apresentação entre quem chega e quem sabe receber.

Depressa se percebe que o Palace não vive apenas de mármores, madeiras, mosaicos e memórias. Vive também de uma banda sonora própria. Um cool jazz derrama-se pelos corredores, acompanhando o tilintar dos copos e misturando-se com o murmúrio das conversas. Não reclama atenção, mas acaba por fazer parte da experiência.

A escadaria monumental em riga, um dos raros elementos originais conservados, conduz ao salão nobre. Ali, o restauro dos capitéis, o douramento e a nova paleta cromática devolveram luminosidade ao espaço. O grande tapete de Beiriz, com 9 por 26 metros e inteiramente executado à mão a partir da reinterpretação de um desenho do século XVIII, reforça a dimensão cenográfica do conjunto. Nos nichos, o papel de parede pintado à mão acrescenta uma nota de luxo quase teatral. Não se procurou simplesmente reconstruir o passado, mas devolver-lhe uma coerência que o tempo havia fragmentado.

Antigamente, a antiga magnificência do Palace revelava-se também no mobiliário de carvalho, nas baixelas Krupp e Christofle e nos candelabros alimentados pelo sistema elétrico próprio, que podia manter 400 lâmpadas acesas durante cinco horas. Os telefones instalados nos quartos e salões, ligados a uma estação central, procuravam acompanhar a modernidade do seu tempo. O quotidiano obedecia a um ritual cosmopolita. Enquanto os homens jogavam golfe e conviviam, as senhoras tomavam o chá das cinco e preparavam o jantar, de vestido comprido e joias, ao som do pianista. O Palace funcionava como um mundo autónomo, dotado dos serviços necessários à vida dos seus hóspedes: médico, administração, correios, telefones, barbeiro, cabeleireiro, leitura, jogos e salões de convívio. A cozinha revelava a escala desse organismo hoteleiro, com um fogão capaz de servir 500 pessoas, caldeiras de pressão, um trem de cobre de 300 quilos e um sistema de refrigeração destinado a alimentos, bebidas e gelo.

Hoje, esse legado convive com intervenções contemporâneas. Na sala de pequenos-almoços, as fotografias de Mariana Viegas introduzem uma linguagem atual; na sala “Quatro Estações”, os tecidos, os tapetes de Beiriz e os candeeiros de seda pintada criam uma atmosfera de elegância mais íntima; no bar e na sala de fumos, materiais e desenhos contemporâneos reinterpretam a tradição. O Palace não tenta parecer intocado. A sua força está precisamente em fazer dialogar entre si tempos diferentes.

É também essa capacidade de acumular histórias que torna o lugar singular. Em 1982, o Palace serviu de cenário ao filme português “Fim de Estação”, realizado por Jaime Silva, produzido por Paulo Branco e protagonizado por Natália Luísa, Ávila Costa e David Carvalho. Mas muito antes do cinema, no outono de 1913, já ali se cruzavam portugueses e estrangeiros — escritores, artistas, financeiros, militantes — num ambiente de luxo e inquietação, quando a Europa parecia ainda não suspeitar da rutura que se aproximava.

Talvez nenhum restauro consiga restituir inteiramente um hotel ao seu passado. Mas histórias como esta fazem algo diferente: devolvem-lhe a vida. Porque, neste Palace, a memória não está apenas nos objetos que sobreviveram. Está também nas pessoas, nos gestos, nos rituais e nas histórias que continuam a passar de boca em boca.

Os rostos acabam por fazer parte da arquitetura. Álvaro Pipa, Américo Cabenco, Carlos Martins, Catarina, Hugo Silva, Luís Sousa, Soraia Lopes, Tiago Fernandes, por ordem alfabética, foram aparecendo entre pequenos-almoços, almoços e jantares, talvez aprendendo que não se servem apenas refeições, mas um modo antigo de entender a hospitalidade: a presença atenta sem ser invasiva, a simpatia sem excesso, a elegância sem esforço. Entre a equipa, algumas jovens estagiárias vindas da Turquia, ao abrigo do programa Erasmus, sorriam muito mais do que falavam. E, afinal, há idiomas que dispensam tradução quando o sorriso é genuíno.

A carta, desenhada pelo “chef” Vítor Matos, confirma que a gastronomia também pode contar histórias. Cada prato parece equilibrar tradição e contemporaneidade, como se o passado e o presente encontrassem finalmente uma mesa comum.

A minha permanência coincidiu com o meu aniversário. Descobri, então, que um hotel pode lembrar-se daquilo que tantas vezes o mundo esquece. Ao pequeno-almoço chegou um bolo de cortesia. Ao jantar, outro momento inesperado esperava-me no Salão Nobre. Não era apenas um gesto comercial. Era a delicadeza de transformar uma data pessoal numa memória coletiva da casa.

No Quarto 219, a elegância clássica encontra-se com uma paleta de tons quentes e serenos. A funcionalidade integra-se na estética através de uma extensa parede de armários embutidos em branco lacado, que oculta discretamente a transição para a casa de banho, ou seja, é um espaço que se revela como uma extensão natural, exibindo azulejos de padrão clássico e mobiliário de madeira escura.

Este quarto é um refúgio onde o tempo suspende a sua marcha, um convite silencioso ao repouso onde a elegância encontra a cultura. Sobre a secretária, um cartão de boas-vindas assinado pela diretora-geral, Maria José David, aguarda a minha leitura, acompanhado por águas frescas que purificam o espírito da viagem. Noutro canto de paz, os livros tornam-se metáforas vivas da estada: o catálogo da Fundação Calouste Gulbenkian age como um mapa que guia o olhar pelo colecionismo do tempo e pela curadoria do bem-viver; “Noites Brancas”, de Julião Sarmento, assume-se como o véu que cobre o quarto ao cair da tarde, uma metáfora para a claridade que o silêncio proporciona e para a entrega ao descanso que só a calmaria de um hotel de luxo permite; e a fotobiografia de Amadeo de Souza-Cardozo é um convite para que o próprio hóspede pinte a sua história. Enquanto isso, sobre a mesa de centro, o bloco de notas personalizado do hotel aguarda, paciente, como uma promessa de que as ideias e as memórias da estada ali ficarão, finalmente, registadas.

A marca visível nos sanitários Devon & Devon é sinónimo de luxo clássico e de um design de casa de banho que evoca o estilo vitoriano, eduardiano e a elegância Belle Époque. A presença de loiça sanitária Devon & Devon no Palace não é apenas um pormenor funcional, mas sim um complemento perfeito à narrativa histórica e aristocrática do próprio hotel. A marca, de origem italiana, é especializada em recriar o ambiente das casas de banho mais refinadas do início do século XX, combinando o charme do passado com as tecnologias de ponta de hoje.

As comodidades (“amenities”) disponibilizadas nos quartos incluem produtos da marca Molton Brown. A oferta destes artigos de higiene pessoal de luxo é transversal às diversas tipologias de alojamento do hotel, desde os quartos clássicos até às suítes. É importante notar que, embora o hotel utilize os produtos Molton Brown como parte das suas comodidades de quarto, os tratamentos realizados no Thermal Spa baseiam-se em marcas de cuidados corporais distintas, tendo sido associados historicamente a produtos de marcas como Aromatherapy Associates ou Clarins. Neste spa, as terapeutas Cláudia Sousa, Júlia Costa e Rosana Henriques são simpáticas na receção ao cliente e, em particular, foi a Júlia quem me ofereceu a experiência de um duche Vichy retemperador.

Houve tempo para conversar longamente com Maria José David, diretora-geral dos parques termais e hoteleiros de Pedras Salgadas e de Vidago, que conheço há cerca de um quarto de século. Entre a experiência acumulada e a formação em Gestão, complementada por uma pós-graduação em Direção Hoteleira, vive dividida entre Pedras Salgadas, Vidago e Sabroso, como quem distribui a própria vida entre diferentes formas de cuidar de um património. Falou-me, sem romantismos, dos elevados custos de exploração de um hotel desta dimensão. Explicou-me que, hoje, o bem-estar atrai mais visitantes do que o termalismo médico tradicional e que as curas mais curtas de três dias procuram criar hábitos de prevenção e de regresso. O diretor clínico é o médico João Transmontano, e Maria José David explicou como a saúde continua a fazer parte da identidade da casa, embora em novos formatos.

Quando a conversa chegou às obras de recuperação, compreendi melhor o milagre da renovação. Conservaram-se as fachadas, a escadaria monumental, o inesquecível Salão Nobre. Mas o interior foi profundamente reconstruído. Estuques e fingidos a folha de ouro renasceram pelas mãos dos artesãos. A arquitetura de interiores ficou a cargo da Bastir, através de Diogo Goulain e José Pedro Vieira, devolvendo ao hotel o esplendor sem o aprisionar ao passado.

A diretora-geral explicou-me ainda outra realidade menos visível aos olhos do hóspede. Os eventos são o que sustentam grande parte da vida económica do hotel, e as águas engarrafadas continuam, como desde há décadas, a ajudar a financiar esta casa centenária. Os meses de julho e agosto enchem-se de famílias que regressam, ano após ano, quase por tradição hereditária. E continuam a aparecer figuras conhecidas, porque certos lugares nunca deixam de ser discretamente exclusivos.

No final da conversa contou-me um episódio que talvez explique tudo melhor do que qualquer relatório de gestão. Há hóspedes com pedidos muito particulares, todos satisfeitos com naturalidade. E há uma senhora que, sempre que se aloja, repete a mesma frase: “Eu chego aqui e sinto-me em casa, não me sinto num hotel.”

Talvez seja esse o verdadeiro luxo. Não o dourado dos salões, nem a imponência da arquitetura, nem o rigor do serviço. O verdadeiro luxo acontece quando um hotel deixa de ser destino e passa a ser pertença. Quando já não somos apenas hóspedes. Quando, sem darmos por isso, também passamos a fazer parte da memória da casa. O convívio entre hóspedes é importante.

Há salas onde o tempo passa. E há salas onde o tempo para, senta-se connosco e convida-nos a jogar.

No Vidago Palace Hotel, a sala de jogos é um pequeno refúgio onde as gerações se encontram sem necessidade de tradução. Ali, o estalar das bolas no jogo de matraquilhos mistura-se com o silêncio concentrado de uma partida de xadrez. O toque seco das pedras de dominó acompanha as inevitáveis negociações de um “Monopoly”, enquanto o riso espontâneo de um “Sem Palavras” ecoa entre as paredes, como se a infância tivesse decidido regressar por algumas horas. Talvez seja esse o maior encanto da sala. Não é apenas um espaço para jogar. É um lugar onde se colecionam momentos. Onde avós e netos descobrem que ainda sabem formar equipa. Onde amigos esquecem os relógios. Onde desconhecidos se tornam companheiros de uma partida.

Por tudo isto, a história deste complexo termal e hoteleiro é, indubitavelmente, uma das mais interessantes do turismo português.

Nas terras de Trás-os-Montes, onde o tempo corria ao ritmo das estações, o ano de 1863 inscreveu o nome de Vidago na história pela mão simples de um lavrador. Manuel de Sousa, ao regressar do seu labor, encontrou numa poça esquecida — que nem para regar servia — um segredo da terra. Ao beber, sentiu a água picante, quase viva, que logo lhe apaziguou o estômago rebelde. O achado, partilhado com D. Júlia de Vaz Araújo e levado ao conhecimento do médico Domingos Vieira Ribeiro, em Chaves, haveria de despertar o olhar da ciência.

Quando Agostinho Vicente Lourenço, químico de renome, analisou os espécimes enviados, o veredito ecoou como uma revelação: a água de Vidago era das melhores do continente, digna de ser chamada “Vichy Portuguesa”. O relatório, publicado em 1865, colocou a Câmara Municipal de Chaves na posse da nascente, iniciando uma saga de projetos e sonhos.

A história do Palace é, por isso, também a história dos homens que imaginaram, desenharam, construíram, transformaram e preservaram este extraordinário território. A grandiosidade do complexo termal e hoteleiro não nasceu de um único gesto criador, mas da sucessão de projetos, visões, obras e intervenções que, ao longo dos tempos, fizeram de Vidago um dos mais notáveis conjuntos arquitetónicos e paisagísticos portugueses.

As primeiras tentativas de valorização destas águas remontam a 1869, quando a Câmara Municipal de Chaves encomendou ao engenheiro Bartolomeu Aquiles Déjante um projeto para o engarrafamento. Embora não tenha sido aprovado pela Junta Consultiva de Obras Públicas, constituiu o primeiro passo de uma ambição que rapidamente ganharia forma. Bartolomeu Déjante formou-se engenheiro civil mecânico na Bélgica e trabalhou em obras públicas, caminhos de ferro, hidráulica e urbanismo. Em 1870 era engenheiro das Obras Públicas do Distrito de Lisboa e esteve associado ao primeiro projeto da futura Avenida da Liberdade. Existe igualmente documentação municipal relativa aos seus trabalhos em Vizela, onde foi responsável por intervenções hidráulicas nas águas de Vizela em 1860 e 1866.

Em 1870, o condutor de obras públicas Júlio César Augusto Guedes Vaz apresentou um novo projeto para o edifício de engarrafamento. Apesar de considerado incompleto, foi aprovado, embora nunca chegasse a ser executado em obra. Em 1873, outro condutor de obras públicas, João Eduardo da Rocha Soares, concebeu um conjunto integrado que incluía balneário, jardim, “buvette” e oficina de engarrafamento. Também estes projetos obtiveram aprovação oficial, mas permaneceram no papel.

O primeiro marco construído surgiu em 1874, com a inauguração do Grande Hotel de Vidago, prenunciando a vocação turística da estância. Em 1875, o rei D. Luís I honrou as termas com a sua estada. O prestígio internacional consolidou-se através de sucessivas medalhas obtidas nas exposições de Filadélfia (1876), Viena (1878), Madrid (1883), Rio de Janeiro (1888) e Paris (1889). Já em 1886, Severiano Monteiro anunciava a marca vitoriosa de 300 mil garrafas consumidas, tornando aquele ano um marco oficial de uma comercialização que não mais pararia.

Na época, escrevia-se assim, respeitando a caligrafia: “Sempre que temos sido grandes, o havemos devido às aguas. Mas agora já seria caturreira querermos ser heroes por ter andado ao de cima d’ellas; façamos melhor: bebâmo-las!…” (Júlio César Machado, “Introdução”, Ramalho Ortigão, “Banhos das Caldas e Águas Minerais”. Porto, Livraria Universal, 1875).

O ocaso do século XIX marcou a entrada de Vidago na sua idade de ouro. Com o alvará das nascentes (1893) e o regulamento publicado no ano seguinte, a estância ganhou uma organização exemplar. Tudo obedecia a regras precisas: das inalações de ácido carbónico aos duches vaginais, dos tratamentos termais às carreiras de tiro, passando pelos jogos e pelos passeios, a vida quotidiana desenrolava-se segundo um modelo de bem-estar onde a medicina, o lazer e a sociabilidade se entrelaçavam. O parque deixava de ser apenas um enquadramento paisagístico para se afirmar como o verdadeiro palco da vida termal.

O novo século trazia novas dádivas. Em 1903, a descoberta da Fonte de Vidago n.º 2, classificada pelo químico Ferreira da Silva como alcalina-gasosa, renovou o ímpeto da captação, dirigida pelo engenheiro G. Rodrigues Pacheco em 1904 e 1905. Mas a década ficaria também marcada por uma nova geração de arquitetos e engenheiros que haveria de transformar radicalmente a imagem da estância. Em 1903, o engenheiro civil de obras públicas Olívio Nunes Malheiros projetou o Pavilhão da Fonte Vidago e, no ano seguinte, o engenheiro João Teixeira Queirós dedicou-se ao Pavilhão da Fonte Vidago II. Por fim, em 1907, o apito do comboio na estação de Vidago veio cortar o silêncio do vale, trazendo consigo o progresso que ligava, finalmente, as águas de cura ao coração do mundo. É indubitável que a via-férrea entre a Régua, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas, Vidago e Chaves veio dar uma vida nova e acelerar o desenvolvimento social e económico de toda a região termal do Vale do Tâmega. Pode ler-se nas publicações da época que os aquistas chegados às Pedras Salgadas e ao Vidago tinham de aguardar o embarque daqueles que partiam depois de cumprido o período da terapia termal para poderem ocupar o alojamento reservado normalmente de ano para ano. Antes da abertura da linha ferroviária, a ligação Régua-Chaves era feita pelas diligências, que chegavam a demorar 12 horas de viagem.

Na mesma altura foi concluída a atual Avenida Teixeira de Sousa, estabelecendo uma linha reta entre a estação de Vidago e o parque termal.

O crescente prestígio das águas de Vidago, distinguido em sucessivas exposições internacionais, depressa tornou exíguo o antigo Grande Hotel. A afluência de aquistas exigia uma resposta à altura da reputação alcançada pela estância, dando origem ao ambicioso projeto de um novo hotel que viria a afirmar-se como um dos mais notáveis da Europa.

Em 1907, o arquiteto Miguel Ventura Terra apresentou a primeira versão do projeto do Grande Hotel do Monte, o que viria a ser o Palace. Previsto para o cimo da encosta e ligado às nascentes por “tramways” elétricos de funcionamento permanente, apresentava uma longa ala simétrica de 130 metros articulada com um majestoso corpo central. Marcado pela sólida formação parisiense do arquiteto, o desenho introduzia em Portugal uma nova visão da hotelaria de luxo, conciliando elegância arquitetónica, racionalidade funcional e elevado conforto.

Embora nunca tenha saído do papel, este projeto definiu o rumo das propostas que se seguiram. Em 1908, José Cristiano de Paula Ferreira da Costa reformulou a proposta, e seria a sua solução aquela que efetivamente viria a ser construída pela Empresa Construtora do Porto, mantendo a escala e a ambição do empreendimento, mas transferindo-o para o sopé do monte.

Sobre José Ferreira da Costa, um dos mais notáveis arquitetos portugueses do alvorecer do século XX, o tempo foi-lhe menos generoso do que a obra, relegando-o para um esquecimento que a história dificilmente justifica. Formado na Academia de Belas-Artes de Lisboa e enriquecido pelo contacto com a cultura artística de Paris, soube conciliar o ecletismo da sua época com um apurado sentido de funcionalidade. Nas suas mãos, a arquitetura transcendia a simples construção: cada edifício procurava alcançar um equilíbrio raro entre beleza, harmonia e utilidade. Pintor de sensibilidade refinada, via a criação arquitetónica como uma arte total, onde formas, volumes e estilos dialogavam numa linguagem comum, capaz de conferir identidade e alma aos espaços. A sua carreira estendeu-se por Portugal, Angola e Moçambique, territórios onde exerceu importantes responsabilidades técnicas e deixou uma marca profunda no urbanismo e na arquitetura do seu tempo. Entre as obras que perpetuam o seu talento contam-se o antigo Hotel Internacional de Lisboa, o acompanhamento das derradeiras fases da construção do Palácio Valle Flor, a Estação de Caminhos de Ferro de Lourenço Marques, o edifício do Banco Nacional Ultramarino, o Teatro Gil Vicente e diversos edifícios públicos da atual Maputo. Cada projeto testemunha uma visão arquitetónica onde a elegância nunca se separa da função e onde a modernidade se alia ao respeito pela monumentalidade. Hoje, apesar da dimensão do seu legado, José Ferreira da Costa permanece surpreendentemente pouco estudado. A propósito desta história de Vidago, talvez tenha chegado o momento de lhe restituir o lugar que merece na memória coletiva: o de um criador que desenhou cidades, moldou paisagens e deixou inscrita na pedra uma obra que continua a desafiar o esquecimento.

As obras do novo hotel tiveram início em março de 1908, tirando pleno partido da beleza natural circundante. Erguido com um investimento de 250 mil escudos, abriu as suas portas em agosto de 1910. Embora a inauguração oficial estivesse agendada para 6 de outubro, com a presença do rei D. Manuel II, o evento acabou por nunca ocorrer, devido à revolta republicana que eclodiu na véspera.

A abertura do Palace representou o nascimento do grande símbolo de Vidago.

O Palace distinguia-se pela fachada de 100 metros, pela composição rigorosamente simétrica e por uma planta organizada em torno de dois pátios interiores, destinados, respetivamente, aos jardins e aos espaços de recreio. O vestíbulo, o salão de festas e a ampla sala de jantar, iluminada por imponentes lustres e enriquecida por galerias, constituíam os principais cenários da vida social do hotel. Salas de leitura, de jogos e de visitas, gabinete médico, correios, barbeiro e diversos serviços complementavam um programa pensado para satisfazer uma clientela cosmopolita e exigente. Os pisos superiores acolhiam os quartos, muitos deles dotados de sala privativa e instalações sanitárias, enquanto as caves concentravam toda a complexa infraestrutura de apoio: cozinhas, adegas, despensas, frigoríficos, lavandarias, instalações técnicas, refeitórios e até uma ampla garagem sob o salão de festas. Os mais de oito mil metros quadrados de construção, trinta e dois mil metros cúbicos edificados e doze quilómetros de vigamentos revelavam a extraordinária dimensão da obra. O recheio foi confiado às melhores casas do Porto e de Lisboa, e cada elemento — da escadaria ao mobiliário, dos salões à baixela — exprimia um requinte plenamente alinhado com os mais prestigiados hotéis europeus e norte-americanos da época.

Ainda que a execução final tivesse sido mais contida do que a visão inicial de Ventura Terra, o Palace impôs-se como um dos maiores e mais sofisticados hotéis termais do país. As suas 365 janelas, abertas sobre o parque e correspondendo simbolicamente aos dias do ano, deixavam entrar a luz, a paisagem e o espírito romântico da estância, consolidando Vidago como referência internacional do termalismo e da hotelaria de luxo. O seu legado arquitetónico e conceptual prolongar-se-ia, anos mais tarde, noutras grandes estâncias portuguesas, entre elas o Estoril.

Em 1911, a Empresa Águas de Vidago estendia já o seu domínio pelas nascentes de Vidago, Vidago 2, Sabroso Novo, Vila Verde e Oura. A paisagem, antes apenas reconhecida pela sua beleza e pela abundância das águas, começava a ser lida à luz da ciência. O que a terra escondia deixava de ser apenas mistério: podia agora ser medido, classificado, nomeado.

Foi nesse encontro entre a natureza e o laboratório que surgiu Hugo Mastbaum.

Nascido em Breslau, em 1859, doutorado em Química pela Universidade de Berlim em 1882, Mastbaum pertencia a uma geração para quem a ciência começava a penetrar nos territórios que durante séculos haviam pertencido à crença, à experiência e à tradição. Chegado a Portugal em 1889, trouxe consigo a disciplina dos laboratórios alemães e uma maneira nova de interrogar a matéria. Viria a dirigir o Laboratório Químico da 7.ª Região Agronómica e a participar em algumas das mais relevantes questões científicas e médico-legais do seu tempo. Em 1912, Mastbaum realizou a primeira análise conhecida da água da Fonte Salus. Sob a aparente transparência daquele líquido, encontrou uma estrutura mineral complexa: uma água fortemente gasocarbónica, bicarbonatada, sódica, cálcica e magnesiana. A nascente deixava assim de ser apenas uma dádiva da natureza. Passava a possuir uma identidade científica, uma composição, uma assinatura que podia ser escrita no papel e compreendida pelo conhecimento. O projeto para o pavilhão de engarrafamento da Fonte Salus traduzia em arquitetura aquilo que a química acabava de revelar. O edifício organizava-se com a precisão de uma máquina: de um lado, o vidro era lavado e esterilizado; do outro, recebia a água, já preparada para a viagem. Nada parecia deixado ao acaso. A pureza que brotava naturalmente do subsolo era agora submetida à disciplina da indústria. O vapor, levado aos 120 graus, purificava as garrafas. Depois, as rolhas fechavam-nas, uma a uma, como se aprisionassem no interior não apenas uma água mineral, mas a própria promessa de saúde que a terra oferecia.

Havia qualquer coisa de profundamente moderno naquele gesto.

A nascente permanecia antiga — subterrânea, silenciosa, paciente —, mas tudo à sua volta começava a pertencer a outro tempo. A ciência analisava aquilo que a natureza criara; a engenharia organizava o seu percurso; a arquitetura dava-lhe uma casa; a indústria preparava-a para partir.

Vidago entrava assim no século XX pela porta da ciência.

O horizonte termal expandiu-se com José Maria Pereira Bastos, responsável por novas licenças e projetos de captação submetidos ao Conselho Superior de Minas. A sua empresa, Bastos & Azeredo, fundada em 1913, tornou-se a principal rival da Empresa Águas de Vidago, dando origem a uma disputa judicial em torno dos rótulos e das denominações comerciais. Em 1914, o alvará da Fonte Vidago n.º 3 confirmava o avanço da empresa. Entretanto, o Palace afirmava-se como estabelecimento modelar, com 170 quartos e telefone, embora alguns hóspedes continuassem a preferir as tradicionais palmas no corredor para chamar o serviço.

Entre 1909 e 1916, António Rodrigues da Silva Júnior dirigiu as obras e concebeu o balneário e os pavilhões de nascente.

A Fonte de Vidago n.º 1, a mais rica em minerais, recebeu um edifício assente em oito colunas e coroado por uma ampla cúpula hemisférica. A luz, filtrada pelos vitrais belgas, incidia sobre a água, enquanto os azulejos de Júlio César da Silva, alusivos à Vitória, à Força e à Glória, conferiam ao conjunto uma dimensão simbólica. Na Fonte de Vidago 2A, conhecida como Fonte Salus, a planta circular concentrava a composição em torno do ponto de captação. A cobertura cónica de ardósia, rematada por um lanternim inspirado nas cúpulas de Johannesbad, em Baden bei Wien, dava verticalidade ao espaço. No interior, os azulejos e o painel de Júlio César da Silva, com ninfas bebendo e banhando-se, evocavam a pureza e a renovação proporcionadas pela água.

Estes edifícios compõem uma singular arquitetura da água, onde engenharia, arte e natureza se articulam com equilíbrio. De escala relativamente contida, constituem ainda assim um dos mais notáveis conjuntos da arquitetura termal portuguesa, concebido não para se impor ao lugar, mas para nele se integrar.

A “Gazeta dos Caminhos de Ferro” sugeria, em 1914, que a grandiosidade merecia uma galeria coberta, unindo o hotel ao passeio, protegendo os aquistas do sol e da chuva. Ali, onde a honestidade administrativa se orgulhava de não acolher o jogo ilícito, a vida corria ao ritmo das águas, das consultas e dos concertos que, por vezes, ecoavam nos salões ou nos jardins. Apesar dos preços dos transportes, que faziam dos cavalos e dos automóveis luxos para poucos, pairava no ar a promessa de progresso: novas camionetas que, em breve, trariam o mundo até àquelas termas, onde a terra, em cada nascente, continuava a escrever a sua história líquida e perene.

Vidago atingia um dos momentos altos da sua afirmação termal. O balneário abria as portas, em 1916, transformando a ciência da cura em arquitetura. A simetria do edifício traduzia ordem e confiança: um corpo central acolhia a farmácia e o consultório médico, enquanto as alas laterais, rigorosamente espelhadas, distribuíam os espaços destinados a homens e mulheres, entre banheiras, duches e massagens subaquáticas. A água começava, assim, a organizar não apenas os tratamentos, mas toda uma cultura de saúde e bem-estar.

À volta das nascentes surgia, entretanto, uma constelação de pequenos pavilhões. Entre eles destacava-se o antigo pavilhão de venda de águas minerais, originalmente chamado Chantecler, nome herdado do galo em relevo que lhe servia de catavento. Construído em alvenaria de perpianho, madeira e pequenas placas de ardósia, combinava a simplicidade dos materiais com uma subtil policromia de tons e meios-tons, procurando, segundo o seu autor, fundir a arquitetura com a paisagem. O antigo Pavilhão do Golfe, com a sua cobertura de ardósia em escama, lembrava um pequeno chalé nórdico implantado no coração de Trás-os-Montes. A iluminação zenital do lanternim acentuava o carácter reservado do interior. E, ainda, o Pavilhão de Fotografia e Bazar, coberto por telha de Marselha, prolongava-se numa galeria de ferro e vidro onde se cruzavam comércio, curiosidade e memória. Por ali passou também Artur Patrício, alfarrabista em Lisboa e fotógrafo que, durante os quatro meses de verão, se instalava em Vidago, hospedando-se em diferentes pensões. Fotografava, declamava e vendia livros que transportava numa maleta de cartão castanha. Ele foi um dos primeiros fotógrafos amadores de paisagem, depois de viver em Angola, regressara a Portugal para percorrer o país.

Em 1918, era construído o Hotel-Balneário Salus, que, após remodelações posteriores, daria origem ao futuro Hotel do Golf. Com 100 quartos com luz direta, água canalizada e os confortos de um hotel de luxo, comunicava com o balneário através de elevadores, aproximando o tratamento do repouso.

A década de 1920 foi um tempo de desafios e metamorfoses. A tecnologia do vapor esterilizava tinas e garrafas, a necessidade de ordem ditava a geografia do terreno.

O tempo e o mundo exterior — esse mundo de materiais, rolhas de cortiça, cápsulas de estanho e salários — forçavam o ritmo da empresa. Entre 1921 e 1927, as tabelas de preços de Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas contam a história dessa inflação da vida. Se em 1921 um banho de imersão custava 1$20, a pressão dos custos — o milheiro das rolhas que subia de preço, a etiqueta que se tornava mais cara, o combustível das caldeiras que não perdoava — ditava que, em 1924, o valor saltasse para 5$50.

Havia, nestes documentos, uma contabilidade quase poética da cura. Distinguiam-se os banhos de água mineral dos de água comum; a irrigação vaginal ou intestinal e outras práticas terapêuticas eram rigorosamente tabeladas com o peso de uma necessidade clínica. Havia também a sensibilidade de se reservar o mês de junho para as “classes menos abastadas”, um gesto social que se traduzia em preços mais brandos, num convite para que todos pudessem beber da mesma nascente.

Com a morte do diretor clínico Joaquim Tenreiro Sarzedas, em 1923, e a chegada do professor e médico António de Moraes Sarmento, a ciência e a gestão da estância consolidaram-se num pacto de ferro. O balneário e a fonte não eram apenas destinos de veraneio; eram indústrias de bem-estar onde cada toalha de felpo, cada lençol e cada gota de água mineral eram contabilizados com a precisão de um relógio, enquanto o mundo lá fora se movia ao ritmo do vapor e da moeda.

Entre 1928 e 1931, realizaram-se importantes melhoramentos no parque, incluindo o revestimento azulejar do Pavilhão da Fonte Salus. Em 1928, o ribeiro de Reigaz, tantas vezes indócil em inundações, viu o seu destino traçado: seria desviado e, em parte, ocultado sob galerias subterrâneas. Onde antes havia o capricho das águas, a Companhia desenhava um novo parque, um pulmão de lazer com campos de ténis e croquet, rodeado por novas arborizações e caminhos que uniam, num gesto harmonioso, as diferentes construções.

Houve, pelo caminho, o sobressalto das inspeções. Porém, o golpe de mestre chegaria na década seguinte.

Entre 1934 e 1936, o arquiteto paisagista escocês Philip Mackenzie Ross desenhou o campo de golfe, harmoniosamente integrado na paisagem, acompanhado pela plantação de numerosas árvores que enriqueceram o parque. O terreno da Quinta das Bolas e do antigo parque rendeu-se à relva. Não se tratava de um projeto rígido, mas de uma arte irregular e natural, onde a topografia ditaria o jogo. O trabalho contou ainda com o saber botânico de Luiz Witnich Carrisso. Paralelamente, o britânico George Mowatt, ligado à empresa Sutton & Sons, assumiu a direção das obras, contribuindo decisivamente para a concretização deste novo ciclo de valorização paisagística. A inauguração do campo de golfe coroou a transformação. O antigo Salus-Hotel, numa reverência ao novo triunfo desportivo, reclamava para si o nome de Hotel do Golf. Nesse mesmo ano foi igualmente construída a placa de betão armado sobre a Fonte Vidago n.º 3.

Estavam concluídos vinte anos. O que começara apenas como o uso das águas era agora um complexo onde a medicina, a engenharia e o desporto de elite conviviam sob o ar puro de Vidago. O tempo, afinal, provara que a terra não apenas curava; ela inspirava a construção de um legado. Se a década de 1930 selou a maturidade de Vidago com o golfe, os anos que se seguiram foram de consolidação, ajustamento e, por fim, o despertar para as novas exigências da modernidade. Vidago vivia entre duas margens invisíveis. De um lado, os aquistas, chegados das cidades, trazendo nos gestos a elegância do tempo livre, nos trajes a distinção de quem podia partir para férias e procurar a cura nas águas. Do outro, os vidaguenses, enraizados na terra, observando esse mundo próximo e, ainda assim, distante. Não havia muros declarados, mas havia fronteiras silenciosas. Bastava atravessar os portões do parque para sentir que se entrava noutro universo. O Palace erguia-se como um reino próprio. As suas salas iluminadas, os seus jardins cuidados e o brilho discreto dos hóspedes pareciam pertencer a uma realidade paralela. Ninguém proibia o povo de entrar, mas a distância social bastava para manter as portas fechadas. A vergonha, o receio de não pertencer, pesavam mais do que qualquer ordem escrita. O esplendor fazia-se ritual. Quartetos de cordas acompanhavam os jantares, enquanto os hóspedes, vestidos de gala, davam vida a uma encenação elegante de luxo e refinamento. Mais tarde, sextetos de jazz e pequenos conjuntos musicais trouxeram novos ritmos, sem nunca quebrar a aura de distinção. E, quando chegava a festa de despedida da estação termal, o Palace brilhava como o derradeiro palco de uma época.

Vidago dividia-se entre dois mundos que raramente se cruzavam.

À entrada do hotel, porém, por vezes a música servia de ponte. Consta que um rapaz invisual, vindo da Freixeda, se sentava numa cadeira simples e deixava o acordeão falar por si. Tocava de ouvido as melodias que corriam o país, enquanto os hóspedes passavam e retribuíam com moedas e notas. Em poucas horas, aquele som humilde podia render tanto quanto um mês inteiro de trabalho de um homem da terra. Entre as teclas do acordeão revelava-se, sem palavras, a dimensão das desigualdades.

Mais adiante, o coreto espalhava a música pelos caminhos das termas. Primeiro pertencera à vila; depois, transferido para o espaço do Palace, tornou-se símbolo de uma apropriação que muitos nunca aceitaram. Também ali se desenhavam as linhas subtis da separação, transformando o que era de todos em algo reservado a alguns. Perto do lago, a música voltava a surgir, pairando no ar como um sussurro. Vinha de altifalantes escondidos entre as árvores, alimentados por velhas bobines que giravam longe dos olhares. Ninguém distinguia claramente a melodia, mas a sua presença bastava para criar uma atmosfera de sonho, romance e gentileza. Era uma música que não se ouvia verdadeiramente, mas sentia-se.

A estância termal do Vidago já não era apenas o refúgio das águas e da convivialidade, porque se transformara num laboratório de vanguarda, onde a medicina se fundia com a tecnologia da luz e do calor.

A tabela de preços de 1938 é um inventário de uma sofisticação que pouco devia aos grandes centros europeus: por 50$00 de taxa de inscrição, o aquista entrava num universo de cuidados que iam muito além da simples imersão. A oferta era vasta, quase febril. Para os males do corpo, prescreviam-se banhos de luz azul ou vermelha, banhos carbogasosos, diatermia, alta frequência e o rigor técnico das sondagens duodenais. A massagem — seja ela manual, parcial ou a complexa subaquática — era agora elevada à categoria de tratamento de elite, custando 30$00 por sessão avulsa. A modernidade também se infiltrava na ortopedia e no diagnóstico: radiografias e radioscopias, com valores que podiam subir até aos 250$00, traziam para o interior do parque a precisão dos raios-X, desvendando o que o olho humano não alcançava. A este catálogo de tratamentos somavam-se as novas propostas: as massagens vibratórias elétricas e o acompanhamento das análises clínicas, num esforço contínuo de adaptação. Até o ato de beber a água, o ritual mais simples da estância, foi submetido ao escrutínio da higiene: em 1937, a Companhia desenhara um novo copo, “sanitas”, rolhado e selado no enchimento, para evitar o contacto do líquido com o ar viciado. Como salientava o médico inspetor Armando Narciso, este gesto não era apenas estético; era terapêutico, potenciando a cura da diurese, tal como se fazia na Curia ou em Luso.

O Vidago era, portanto, uma engrenagem de precisão onde o conforto dos hotéis e a quietude dos jardins eram apenas a moldura para uma prática médica tecnologicamente avançada. A inscrição e a série — 6 ou 10 tratamentos — não eram apenas transações comerciais; eram bilhetes de acesso a um ritual de purificação onde cada escudo investido em duches de agulheta ou banhos de bolha de ar servia a um único propósito: restaurar o equilíbrio do corpo sob a égide da ciência.

A partir da década de 1930 sucederam-se novos contributos de alguns dos mais relevantes arquitetos portugueses. Em 1938, também, o arquiteto Januário Godinho elaborava um estudo para um novo Hotel do Parque. Em 1942, o balneário acolhia 1410 inscrições, enquanto centenas de milhares de litros de Salus viajavam engarrafados para fora daquelas fronteiras. O prestígio crescia e, em 1943, o arquiteto António Janeira desenhava a ampliação do balneário termal, elevando a qualidade arquitetónica do conjunto. Em 1946, no pós-guerra, as inscrições saltavam para 1840 e a produção de água atingia números expressivos, com mais de um milhão de litros engarrafados. Paralelamente, o balneário instalado no Hotel do Golf consolidava o seu nicho com 325 fiéis utilizadores. Em 1951, surgiu ainda um projeto atribuído a Raul Lino, cuja identificação permanece incompleta.

Consultor da VMPS desde 1958, o arquiteto Jorge Moreira da Costa foi responsável pelos projetos da estalagem, da piscina e pela beneficiação do Palace, obras efetivamente concretizadas e que modernizaram significativamente o complexo entre 1961 e início dos anos 70. Apesar da aspereza das contas, o património não foi abandonado. O Palace, como símbolo máximo da aristocracia das águas, via a sua própria pele mudar. Após os estudos pioneiros de Moreira da Costa, o edifício atravessou uma década de constantes tentativas de reinvenção. Entre 1969 e 1972, o hotel oscilou entre a prancheta e o carimbo oficial, até que, em novembro de 1971, a Direcção-Geral do Turismo abriu alas para a ampliação e remodelação que o destino exigia.

O 25 de Abril de 1974 trouxe um vento de mudança que alterou o clima da nação, mas, no coração da VMPS, a modernização industrial apenas acelerou o passo. Os anos seguintes conheceram sucessivos estudos e projetos de renovação.

Quando o ano de 1982 abriu as portas à entrada de José Sousa Cintra no capital da empresa, um novo alento percorreu o Parque. O otimismo de um novo patrão traduziu-se num esforço renovado para devolver ao Palace a sua aura de glória. Em 1983, a empresa, investindo mais de dez milhões de escudos em obras, conseguiu ver reconhecido o grau de relevância turística de 1.º grau, um selo que validava a dignidade da sua recuperação. O renascimento arquitetónico tornou-se, então, um mantra. Após o incêndio que encerrou o Grande Hotel, em 1985-86, João Filipe Vaz Martins elaborou um projeto de remodelação que nunca chegou a concretizar-se. As candidaturas aos apoios para as estâncias termais em 1987 e o desenho do novo balneário, assinado por António Azevedo em 1988 — e sucessivamente melhorado, primeiro com aditamentos em 1989 e, depois, com a intervenção de Álvaro de Carvalho em 1993 — foram capítulos dessa busca por uma identidade perdida.

Na década de 1990 iniciou-se uma nova visão estratégica para o futuro da estância, com o projeto de remodelação e expansão do Palace concebido, em 1999, por Gastão da Cunha Ferreira, da MC Arquitectos, mas não concretizado em obra. Em 1997, Francisco Silva Dias desenvolveu o plano de remodelação e expansão do complexo termal e, em 2000, juntamente com Tiago Silva Dias, dos Silva Dias Arquitectos, assinou o projeto do Centro de Congressos, instalado no antigo balneário, bem como o balneário provisório que assegurou a continuidade da atividade termal.

O final do século XX foi, contudo, um tempo de transações globais. O capital social foi reforçado em 1989, mas foi a década seguinte que trouxe a mudança definitiva. Em 1997, o Grupo Jerónimo Martins assumiu o comando, conduzindo a empresa, em 1998, a uma cisão-fusão que engendrou a EMPOA. Foi também o ano em que o Parque Termal de Vidago, através do gabinete IMOVIPE, candidatou a sua história ao reconhecimento público. Esse reconhecimento chegaria, solene, a 6 de outubro de 1999: o Diretor-Geral do Turismo declarava o conjunto de Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas um bastião de valor histórico-cultural. Estava protegida a alma da água.

A transição para o novo milénio trouxe a nomenclatura VMPS – Engarrafamento e Distribuição de Bebidas, S.A., em 2000, e um volume de produção que atingiu os 8 milhões de litros, sinal de uma escala sem precedentes. O ciclo encerrou-se a 20 de março de 2002, com a aquisição total pelo Grupo Unicer, que fundiu, sob uma única bandeira, o peso da história, a técnica do engarrafamento e a visão do futuro.

O culminar deste longo percurso de criação, preservação e modernização teve início em 2006, com o plano global de intervenção dirigido pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, acompanhado por Marco Rampulla, Carlos Leite Pereira, César Escudero, Cristina Ferreirinha e José Carlos Nunes de Oliveira.

Em paralelo, foi desenvolvido o projeto de ampliação do campo de golfe pela equipa Cameron & Powell Golf Design, empresa especializada em arquitetura de campos de golfe, fundada pelos arquitetos Ross Cameron e Colin Powell, reforçando a dimensão internacional do empreendimento:

“O Campo de Golfe Vidago Palace de 18 buracos é um campo de contrastes marcantes, projetado com cuidado e respeito especial pelo ambiente natural e apresentando várias características marcantes, incluindo o uso extensivo do granito rosa local em todas as cercanias, paredes da ribeira e paredes de delimitação do campo de golfe; a preservação de praticamente todas as árvores centenárias do parque; e a integração de espetaculares pavilhões vitorianos de água mineral. A influente e altamente respeitada revista americana Architectural Digest classifica-o como ‘um dos oito campos de golfe mais bonitos do mundo’.” (Cameron & Powell Golf Design)

Vidago nunca foi uma obra acabada. Foi uma construção contínua, onde cada geração recebeu edifícios, jardins, águas e memórias, acrescentando o seu tempo sem apagar o anterior.

À porta do Palace, dois mundos encontravam-se sem se misturarem. O acordeão de um menino invisual, vindo da Freixeda, trazia a voz da terra; lá dentro, entre salões, vestidos e casacas, o tempo vestia-se de seda. A música dos quartetos, ouvida entre árvores e salões, prolongava a ilusão de que as noites podiam não terminar. O Palace foi cenário de festas, bailes, casamentos e encontros, um lugar onde a arquitetura parecia suspender o tempo. No inverno, enquanto o hotel dormia, mãos pacientes restauravam madeiras, gessos e frisos, e as caves devolviam, de quando em quando, objetos esquecidos, pequenas relíquias de outras épocas. Ali, adultos cumpriam o ritual das águas e as crianças inventavam o seu reino nos jardins e na piscina. Gerações diferentes partilhavam a mesma certeza: Vidago guardava qualquer coisa que o tempo não conseguia levar. Depois chegou a modernidade, com a discoteca, as luzes e outra música. Uns viram decadência; outros, liberdade.

Vidago mudava. O Palace deixava lentamente de pertencer apenas a uma elite e começava a tornar-se memória de muitos. A majestade permanecia, apenas mudava a maneira de a viver.

No final de 2006, o hotel silenciou-se. Uma semana antes, eu próprio senti o descanso nos espaços antigos deste hotel, que encerrou as portas para uma hibernação profunda, um retiro necessário onde, entre o pó das obras e o eco das memórias, se preparava o despertar para a excelência. No mosaico fotográfico, também estão as imagens dessa estada, que antecedem as que refletem este meu regresso e a atual configuração do hotel, com uma década de intervalo.

O culminar deste percurso não consistia, portanto, em construir um hotel novo, mas em devolver ao antigo a capacidade de voltar a ser novo sem deixar de ser antigo. Na gestão, a Unicer confiou essa missão à GLA Hotels, empresa fundada em 1985 por Grace Leo, com sede em Paris e especializada na implementação, gestão, marketing, comercialização e comunicação de hotéis de luxo. Em Portugal, a empresa já se distinguira pelo lançamento do Bairro Alto Hotel, em Lisboa, em 2005, experiência que reforçava a confiança depositada no projeto de Vidago. Para Grace Leo, participar na renovação do Palace representava simultaneamente uma grande honra e um desafio de exceção. Não se tratava apenas de restaurar um edifício notável, mas de restituir-lhe a alma, preservando a memória de um lugar cuja história continuava viva naqueles que o tinham conhecido e vivido.

Em paralelo, o trabalho de Álvaro Siza Vieira e da equipa que o acompanhou procurou estabelecer um diálogo entre a preservação do património e as exigências contemporâneas da hotelaria de luxo. A intervenção não podia ignorar a história, mas também não podia transformar o Palace num simples museu. O desafio estava precisamente em permitir que o edifício continuasse a viver.

Foi esse equilíbrio entre permanência e mudança que acompanhou todo o processo de recuperação. Vidago não precisava de abandonar o século XX para entrar no século XXI; precisava de transportar consigo o melhor da sua história.

Hoje, quando caminho dentro e fora do parque, por entre as árvores que viram tudo, resta-me o eco. O eco do acordeão esquecido, o eco do sexteto de jazz e o silêncio daquela linha invisível que, durante décadas, dividiu o céu da terra. O Palace permanece, monumental e altivo, guardando a memória dos mundos que ali se cruzaram, sem nunca, verdadeiramente, se conhecerem.

Seguindo a tradição dos grandes hotéis aristocráticos, o Palace conserva ainda um dos seus mais belos rituais de despedida: antes da partida, é imperativo dar três voltas à fonte — a primeira, em agradecimento pela estada; a segunda, pedindo uma viagem feliz; e a terceira, exprimindo o desejo sincero de regressar um dia a este lugar singular.

A água continua a brotar com a mesma serenidade de há mais de um século, indiferente ao tempo e às gerações que por aqui passaram. Talvez seja esse o verdadeiro segredo de Vidago: não prender quem parte, mas deixar em cada visitante uma discreta saudade, daquelas que um dia acaba sempre por encontrar o caminho de volta.

A história do Palace pode, então, ser lida como uma longa sucessão de gestos humanos diante de uma força natural. Primeiro, houve a descoberta da água. Depois, a ciência procurou compreendê-la. A engenharia tentou captá-la e protegê-la. A arquitetura construiu lugares onde pudesse ser bebida, aplicada e celebrada. A hotelaria criou o conforto necessário para aqueles que chegavam. A paisagem ofereceu o cenário. O golfe introduziu uma nova forma de lazer. A indústria levou a água muito para além do parque. E, finalmente, a preservação patrimonial procurou impedir que a passagem do tempo destruísse aquilo que tantas gerações haviam construído.

Vista deste modo, a história de Vidago é também uma história de continuidade.

De Bartolomeu Aquiles Déjante a Álvaro Siza Vieira, passando por engenheiros, arquitetos, paisagistas, médicos, empresários, operários, jardineiros, artistas e hoteleiros, existe uma cadeia humana que atravessa o tempo. Uns desenharam o que nunca chegou a construir-se; outros construíram aquilo que parecia impossível; outros ainda restauraram o que o tempo ameaçava destruir.

O que hoje se contempla não é, por isso, a obra de um único autor. É uma obra coletiva. Uma obra em que a água foi princípio, a arquitetura foi linguagem e o tempo foi matéria. E o Palace permanece como um testemunho vivo de um compromisso secular com a excelência, onde a história da engenharia e da arquitetura se funde com a pureza das águas que lhe deram origem.

A visita a este microcosmo chegou ao fim. Resta o ritual inevitável da partida, o instante em que o hóspede devolve a chave, fecha a conta e atravessa, pela última vez, os espaços que durante algum tempo foram seus. Ana Sampaio faz o “check-out” que antecede a partida. Mas há lugares de onde nunca se parte por completo. Lugares que permanecem na memória muito depois de se fecharem as portas e de a estrada nos levar para longe. O Vidago Palace Hotel é um deles.

Por Jorge Mangorrinha, escritor de viagens. No TNews, presentemente, com a rubrica mensal Há História no Hotel.

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