A Valpi Rent antecipa um período de ajustamento no setor de rent-a-car em Portugal, marcado por excesso de oferta e pressão sobre preços, podendo levar à saída de alguns operadores. “Há uma saturação no segmento de rent-a-car que vai obrigar a que grandes frotas sejam comprimidas e, eventualmente, alguns players vão ter que sair do mercado”, afirma o diretor-geral, Ricardo Ramos, em entrevista ao TNews.
Segundo o responsável, o crescimento registado no pós-pandemia atraiu novos concorrentes. “O grande desafio neste momento é o excesso de oferta concorrencial pouco profissionalizada, (…) que distorce um bocado as regras do mercado”, refere, acrescentando que este fenómeno deverá ser corrigido com o tempo.
Neste contexto, a empresa – que integra o grupo Valpi, – mantém uma estratégia centrada no segmento empresarial, afastando-se do modelo dominante no setor, mais orientado para o turismo internacional e aeroportos. “Não estamos estruturados para o tradicional, que são empresas focadas no cliente turístico. Estamos mais vocacionados para o cliente nacional e para utilização frequente, sobretudo empresarial”, explica.
A Valpi Rent foi criada em 2008 no âmbito da expansão do grupo Valpi, que celebra este ano o seu centenário e integra também a Valpi Travel, com três agências de viagens na região norte. Ricardo Ramos recorda que o projeto começou praticamente do zero. “Pegámos numa página em branco, sem know-how prévio, o que nos permitiu abordar o negócio de forma mais livre”, afirma.
“O grande desafio neste momento é o excesso de oferta concorrencial pouco profissionalizada, (…) que distorce um bocado as regras do mercado”
Expansão sustentada e foco no cliente empresarial
Atualmente, a empresa opera 40 balcões em 40 concelhos distintos, maioritariamente no Norte do país, tendo expandido a sua presença para a Grande Lisboa em 2018. A rede cobre o território entre Viana do Castelo, Bragança e Sines, não estando presente no Algarve, uma opção estratégica alinhada com o foco no cliente empresarial. A empresa conta atualmente com 65 colaboradores dedicados exclusivamente à operação de rent-a-car.
Questionado sobre a escolha de Águeda e Guimarães para a recente abertura de novos balcões, Ricardo Ramos explica que a decisão resultou da retirada de operadores concorrentes, criando oportunidades para ocupar espaços deixados livres no mercado.
“Neste momento estamos a preparar uma expansão na zona Oeste, nomeadamente em Torres Vedras e Caldas da Rainha”, refere. Estão ainda em análise novas aberturas na Margem Sul, com localizações como Almada e Seixal em estudo. A empresa admite também regressar a Viseu.
“Não estamos estruturados para o tradicional, que são empresas focadas no cliente turístico. Estamos mais vocacionados para o cliente nacional e para utilização frequente, sobretudo empresarial”
Em termos de procura, a maior dinâmica tem-se registado na região de Lisboa e em Sines. “Há muita coisa a acontecer em Sines, com novos investimentos e projetos internacionais, e temos sentido uma grande procura”, refere, sublinhando também o peso de empresas do Norte com atividade naquela região.
O crescimento da empresa tem sido sustentado. Após um período de forte expansão entre 2020 e 2023, em que mais do que duplicou a frota, a Valpi Rent continua a crescer a dois dígitos. Em 2025, registou um aumento de 19% no volume de negócios face ao ano anterior, ultrapassando os 15 milhões de euros em receitas de aluguer.
Ricardo Ramos explica que o contexto pandémico acabou por favorecer o segmento empresarial. “As empresas adiaram a compra de viaturas e recorreram mais ao aluguer, o que nos permitiu crescer de forma muito significativa”, afirma. Atualmente, o mercado regressou a níveis mais próximos do período pré-pandemia, com rentabilidades mais equilibradas.
A estratégia da empresa assenta na proximidade ao cliente e na especialização. “As empresas procuram um atendimento personalizado, disponibilidade e acompanhamento. Muitas vezes o preço não é o principal fator de decisão”, diz, destacando a existência de uma equipa comercial corporate composta por oito gestores de conta dedicados ao acompanhamento das empresas clientes.
“Neste momento estamos a preparar uma expansão na zona Oeste, nomeadamente em Torres Vedras e Caldas da Rainha”

Frota diversificada e aposta no serviço personalizado
Ao nível da frota, a Valpi Rent mantém uma forte aposta em viaturas a combustão, sobretudo a gasóleo, contrariando a tendência do mercado. Atualmente, cerca de 40% da frota é composta por viaturas comerciais ligeiras e 60% por viaturas de passageiros, com destaque para os utilitários a gasóleo e para uma oferta diversificada de tipologias profissionais. “Não sentimos uma procura por elétricos que justifique a atenção mediática”, afirma.
A empresa investe também em híbridos plug-in e dispõe de uma oferta abrangente, que inclui desde viaturas comerciais especializadas até modelos de passageiros com diferentes configurações. Uma das particularidades do modelo passa pela disponibilização destas tipologias em toda a rede, incluindo localizações fora dos grandes centros urbanos.
Para sustentar a renovação contínua da frota, a empresa criou a Valpimotor, uma plataforma digital dedicada à venda de viaturas usadas. “Temos de vender carros para conseguir renovar continuamente a frota”, refere.
Inteligência artificial e digitalização marcam próximos investimentos
“As empresas procuram um atendimento personalizado, disponibilidade e acompanhamento. Muitas vezes o preço não é o principal fator de decisão”
No plano da inovação, a Valpi Rent está a desenvolver um sistema de gestão de frota com recurso a inteligência artificial, num investimento estimado em cerca de um milhão de euros. O projeto, em parceria com o Instituto Superior de Engenharia do Porto, pretende otimizar a logística da empresa e melhorar a capacidade de resposta da rede. “Queremos um sistema preditivo que nos permita saber que viaturas devemos ter, onde e quando”, explica.
Apesar da aposta na digitalização, o responsável rejeita um modelo totalmente automatizado. A empresa testou soluções de aluguer integralmente digitais em 2025, mas concluiu que o mercado continua a valorizar o contacto humano. O futuro, defende, passa por um modelo híbrido: “Ter o máximo de digitalização possível, mas sempre com intervenção humana”.
No segmento turístico, a empresa mantém uma posição prudente, evitando a concorrência direta nos canais mais massificados. Segundo o responsável, a crescente presença de operadores low cost e a pressão sobre preços têm reduzido a rentabilidade média do negócio, sobretudo nos canais online e aeroportuários. Ainda assim, a Valpi Rent pretende reforçar a colaboração com agências de viagens, apostando em ferramentas digitais que facilitem reservas e pricing.
Entre as iniciativas previstas está o lançamento de um novo site com funcionalidades de reserva mais automatizadas e a instalação de quiosques multilingue nos balcões, com o objetivo de facilitar o atendimento a clientes internacionais e a parceiros intermediários.
Perante um mercado em transformação, Ricardo Ramos afirma que a Valpi Rent pretende manter o seu posicionamento estratégico. Segundo o gestor, a empresa continuará “fiel ao modelo que nos trouxe até aqui, com foco no segmento empresarial” e, simultaneamente, procura explorar o turismo através de inovação. No entanto, ressalva que essa abordagem não passará pelo incoming nem pelo segmento dos brokers online. Em vez disso, a aposta será feita “através de uma abordagem concreta com agências de viagens que tratam o produto de forma híbrida, ou seja, com algum aconselhamento pessoal”, conclui.



