IA para hotéis, experiências gastronómicas e nómadas digitais alimentam o sonho de fazer de Portugal a capital universitária do Turismo

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Três minutos. Era esse o tempo que os cinco estudantes, divididos em três equipas, tinham para convencer o júri de que as ideias em que trabalharam nas últimas semanas mereciam sair do papel.

Entre inteligência artificial para hotéis independentes, uma aplicação para transformar refeições em experiências e uma plataforma que quer levar nómadas digitais para o interior do país, os projetos apresentados esta terça-feira no Tech & Tourism Pitch acabaram por impressionar o júri, que decidiu premiar as três equipas com uma viagem à conferência A World for Travel, em Paris, nos dias 19 e 20 de outubro.

Promovida pela NOVA Turismo e Hospitalidade, a iniciativa desafiou alunos da Universidade NOVA de Lisboa e da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE) a desenvolver soluções tecnológicas para o Turismo. Pelo caminho, os projetos beneficiaram de um programa de mentoria assegurado pelo NEST – Centro de Inovação do Turismo.

Mas antes dos pitches, Ana Mendes Godinho, diretora estratégica de Turismo da Universidade NOVA de Lisboa, deixou uma ambição clara: “Portugal tem de afirmar-se como a capital universitária do Turismo”.

“Hoje estamos aqui para quebrar silos”, afirmou. “O turismo não é um setor, é uma constelação de áreas que precisam umas das outras. A academia tem de entregar mais e as empresas têm de utilizar mais a academia, a inovação e o conhecimento.”

A responsável destacou ainda a importância da entrada da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril no universo NOVA e defendeu que a tecnologia continua subaproveitada pelo setor.

“Temos gente espetacular que sabe como, através da transformação tecnológica, podemos dar saltos que ainda não imaginamos”, afirmou.

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Ana Mendes Godinho, diretora estratégica de Turismo da Universidade NOVA de Lisboa

IA para ajudar hotéis independentes

O primeiro projeto apresentado foi o Atlas, desenvolvido por John Eke, estudante nigeriano do mestrado em Business Analytics da NOVA SBE. Apaixonado por hotelaria e turismo, explicou ao TNews que a ideia nasceu das conversas com diretores e revenue managers de hotéis, onde identificou um problema comum: a dispersão da informação e a dificuldade em transformar dados em decisões.

A solução passa por uma plataforma baseada em inteligência artificial capaz de integrar informação de diferentes sistemas e ajudar hotéis independentes a definir estratégias comerciais. “Quero criar uma empresa de tecnologia especializada em inteligência artificial aplicada ao turismo e hospitalidade”, revelou ao TNews.

Uma aplicação para vender experiências e não apenas refeições

Da ESHTE chegou a equipa mais numerosa. David Fernandes, Ludovina Fonseca e Gonçalo Teixeira, estudantes de Gestão do Lazer e Animação Turística, apresentaram a FoodSwipe, uma aplicação que pretende transformar a forma como turistas e residentes descobrem restaurantes e experiências gastronómicas.

A ideia surgiu no âmbito de uma unidade curricular e rapidamente o grupo percebeu que podia ter potencial para crescer.

“O turista perde-se no meio de tanta informação e acaba por escolher sempre os sítios do costume. Queremos criar um elo entre quem procura experiências e quem as pode proporcionar”, explicou David Fernandes.

Inspirada nas aplicações de dating, a FoodSwipe aprende os gostos dos utilizadores através dos seus swipes e recomenda restaurantes, eventos gastronómicos e até experiências imersivas.

“Nós queremos vender experiências. Queremos que as pessoas apanhem a uva, façam o vinho e o bebam enquanto olham para o produtor”, resumiu David durante a apresentação.

No futuro, todos se imaginam ligados ao Turismo. “Somos um povo hospitaleiro. Gosto muito de receber pessoas e fazer com que tenham um bom dia”, confessou.

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David Fernandes, Ludovina Fonseca e Gonçalo Teixeira, estudantes de Gestão do Lazer e Animação Turística da ESHTE, apresentaram o projeto Food Swipe

Levar os nómadas digitais ao interior e combater a desertificação

A terceira apresentação da manhã foi protagonizada por Filipa Carreiró, estudante de Gestão Hoteleira da ESHTE, que trouxe ao palco uma preocupação bem portuguesa: o despovoamento do interior.

A ideia do Nomad Motion nasceu precisamente da observação de uma realidade cada vez mais evidente: a concentração populacional nas grandes cidades e a perda gradual de habitantes em muitos territórios do interior.

“Motivou-me perceber que cada vez mais pessoas saem do interior e que as grandes cidades estão a ficar sobrelotadas”, explicou ao TNews.

A solução passa por criar uma plataforma que liga nómadas digitais a comunidades locais, através de estadias temporárias, experiências autênticas e integração na vida dos territórios.

Durante o pitch, Filipa apresentou Vouzela como projeto-piloto da iniciativa. A escolha não foi aleatória. O concelho reúne várias das características procuradas por este perfil de viajante: qualidade de vida, património natural, autenticidade, custos de vida mais baixos e uma comunidade local capaz de acolher novos residentes temporários.

Através do Nomad Motion, os utilizadores poderiam não só encontrar alojamento, mas também aceder a experiências locais, atividades culturais e contactos com a comunidade, promovendo uma maior permanência nos territórios e um impacto económico mais distribuído.

“O objetivo é criar uma relação de benefício mútuo. Os nómadas digitais procuram autenticidade e qualidade de vida, enquanto os territórios ganham dinamismo económico e visibilidade”, explicou.

A estudante acredita que o modelo poderá ser replicado noutras regiões do país.

“Espero mesmo que este projeto consiga ir avante e que não fique apenas em Vouzela. Gostava de o ver crescer para outras zonas de Portugal e, quem sabe, para outros países”, afirmou.

Segundo os cálculos apresentados, a permanência regular de nómadas digitais em territórios de baixa densidade poderá representar uma fonte relevante de receita para negócios locais, ajudando simultaneamente a combater a sazonalidade e a desertificação.

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Filipa Carreiró, estudante de Gestão Hoteleira da ESHTE, apresentou o projeto Nomad Mood

“Surpreendeu-nos a maturidade dos projetos”

Antes de subirem ao palco, as três equipas passaram por um programa de mentoria conduzido pelo NEST – Centro de Inovação do Turismo. Ao longo de várias sessões, os estudantes foram desafiados a testar as suas ideias e a transformá-las em projetos com potencial de mercado.

No final, Francisco Brandão, coordenador de Inovação do NEST e mentor dos projetos, não escondia a satisfação.

“Surpreendeu-nos bastante a maturidade dos três projetos. Estamos a falar de escolas diferentes, percursos diferentes, mas a qualidade das ideias e das apresentações mostrou bem o potencial que existe”, afirmou ao TNews.

Para Francisco Brandão, esta iniciativa demonstra a importância de aproximar a inovação das escolas de turismo.

“O turismo é muito mais do que hotelaria e restauração. Hoje falamos de tecnologia, dados, experiências e empreendedorismo. Isto está totalmente alinhado com a missão do NEST, que é promover a inovação e a adoção de tecnologia em toda a cadeia de valor do turismo”, sublinhou.

E deixa uma esperança para o futuro: “Espero continuar a ver iniciativas como esta nos próximos anos.”

“Temos aqui diamantes”

No final das apresentações, os elogios do júri foram unânimes.

Nuno Fernandes, da DIGin, destacou que os três projetos partiram de problemas reais e elogiou a ambição dos estudantes. “Os problemas que identificaram existem mesmo. Agora é preciso não subestimar os desafios e estar preparados para trabalhar muito”, afirmou.

Pedro Mello Breyner, do NEST, deixou um conselho: pensar desde o primeiro dia na internacionalização e assumir que tudo demora mais do que o previsto.

Já Márcia Vilarigues, da NOVA School of Science and Technology, confessou esperar vir a ser utilizadora das soluções apresentadas e sublinhou a importância do papel das universidades no apoio ao empreendedorismo.

Mas foi Ana Mendes Godinho quem melhor resumiu o sentimento geral. “Estamos todos surpreendidos com a qualidade dos vossos projetos, dos vossos sonhos. Temos aqui diamantes”, afirmou.

A diretora estratégica de Turismo da Universidade NOVA de Lisboa destacou que esta foi a primeira iniciativa a juntar estudantes da NOVA e da ESHTE e que a diversidade de competências ficou bem patente nos projetos apresentados.

“Se cruzarmos tecnologia, experiência, gestão de dados, hospitalidade e gastronomia, vamos criar coisas únicas. Isto é apenas o começo.”

Face à qualidade das propostas, o júri — composto por Márcia Vilarigues, da NOVA School of Science and Technology, Pedro Mello Breyner, do NEST, Nuno Fernandes, da DIGin, e Ana Mendes Godinho — tomou uma decisão pouco habitual: atribuir o prémio às três equipas.

“Foi muito difícil para nós. Os vossos projetos são realmente surpreendentes”, anunciou Ana Mendes Godinho.

Assim, Atlas, FoodSwipe e Nomad Motion vão marcar presença na conferência internacional A World for Travel, em Paris, nos dias 19 e 20 de outubro.

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