Nomad: quase 20 anos a “construir viagens de aventura autênticas” sem ir atrás das modas

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Há quase duas décadas, a Nomad foi uma das primeiras agências em Portugal a especializar-se em viagens de aventura com programas próprios e uma equipa dedicada. Hoje conta com cerca de 1.500 viajantes e mantém a missão de “construir viagens autênticas” sem se deixar reger pela procura, explicou Tiago Costa, coordenador do departamento de viagens de montanha e outdoor, em entrevista ao TNews.

Criada em 2007, a Nomad nasceu da vontade dos cofundadores Pedro Gonçalves e Eurico Costa de criar uma plataforma que permitisse às pessoas explorar o mundo de uma forma diferente. Tiago Costa, que integra a empresa desde a fundação, recorda que, na altura, “só havia duas agências de viagens de aventura em Portugal, mas nenhuma tinha os seus próprios programas”.

“A grande motivação foi criar uma agência que tivesse uma equipa própria e que desenvolvesse as suas próprias viagens do início ao fim”, explica. O objetivo passava por criar experiências “muito orientadas para o público português”, uma adaptação que, segundo o responsável, faz toda a diferença. “Por exemplo, nós damos uma importância gigante à gastronomia”.

Os programas desenhados internamente e a existência de uma equipa especializada continuam a ser os dois pilares da operação. Atualmente, a agência integra cerca de 27 colaboradores, da equipa de apoio e logística aos profissionais no terreno, incluindo líderes de viagem e guias de montanha.

“Desde 2007 temos trazido rigor e profissionalismo, mas sem nunca perder a criatividade e a paixão por aquilo que fazemos”, afirma Tiago Costa. “Uma grande jornada que a Nomad tem liderado no mercado nacional tem sido a profissionalização” de um segmento que, no início, era muitas vezes encarado apenas como um hobby.

As viagens decorrem em grupos com uma “dimensão média de 12 pessoas” e têm, geralmente, duração entre uma e duas semanas, sendo sempre acompanhadas por um líder de viagem ou por um guia de montanha, consoante o tipo de experiência. Quanto ao perfil dos clientes, a faixa etária situa-se sobretudo entre os 30 e os 50 anos e cerca de 70% são mulheres. “Felizmente temos uma taxa de repetição muito elevada”, destaca ainda.

“A grande motivação foi criar uma agência [de turismo de aventura] que tivesse uma equipa própria e que desenvolvesse as suas próprias viagens do início ao fim”

Uma programação pensada além da procura

Com presença em vários continentes, a Nomad soma atualmente “dezenas” de programas distribuídos por diversos países. Entre os destinos mais procurados está o Japão, impulsionado não apenas pelo interesse crescente no país, mas também pelo desenho específico do programa da agência. “Esta viagem tem cerca de dois anos de lista de espera”, revela Tiago Costa.

“O turismo tem uma desvantagem: é muito suscetível de modas e, com o crescimento das redes sociais, isso tem tido cada vez mais impacto”, acrescenta o responsável.

Ainda assim, a agência garante que não estrutura a oferta em função de tendências ou da procura imediata. “Planeamos o nosso calendário e a nossa oferta pelas viagens que queremos oferecer e pelas experiências que queremos proporcionar”, frisa. “Nunca lançamos um produto indo atrás da procura”.

Tiago Costa sublinha que cada nova proposta precisa de ter identidade própria: “queremos que cada viagem tenha um conceito, uma espinha dorsal, uma narrativa e uma experiência-chave”.

A organização é feita com grande antecedência e a agência lança programas entre um a dois anos antes da partida. “A nossa relação com a procura é muito específica. Temos lugares limitados ao longo do ano, rapidamente atingimos o máximo e não abrimos mais”, afirma.

Entre os próximos lançamentos previstos estão uma viagem à Coreia do Sul, descrita como “um produto que acreditamos que vai mostrar uma realidade que não é visível”, e outra à Nova Guiné.

Nomad
Tiago Costa, coordenador do departamento de viagens de montanha e outdoor (ao centro)

“Não estamos muito interessados em cavalgar a onda do aumento do turismo. Estamos focados em continuar a construir viagens autênticas”

Turismo de aventura deixa de ser nicho e entra no mainstream

Desde a fundação da empresa, o perfil do mercado também sofreu alterações. Se antes as viagens de aventura eram vistas como um segmento muito específico, Tiago Costa considera que a realidade atual é bastante diferente.

“Isto era um nicho, algo específico que poucas pessoas faziam, e agora sentimos que está entrar no léxico normal do turismo”, afirma. “Hoje em dia, muitas pessoas que querem viajar já não o fazem indo para um resort e procuram uma experiência mais autêntica”.

Ainda assim, o crescimento do segmento não altera a estratégia da empresa. “Não estamos muito interessados em cavalgar a onda do aumento do turismo. Estamos focados em continuar a construir viagens autênticas e alinhadas com o nosso ADN”.

A própria definição do conceito mudou ao longo dos anos. “Aquilo que era considerado turismo de aventura há quase 20 anos hoje não o é”, refere Tiago Costa. “Hoje uma pessoa marca um hotel em Nova Deli através da Airbnb, chega ao aeroporto e apanha um Uber. Há duas décadas só aterrar em Nova Deli era uma aventura”.

Para a Nomad, o desafio passa por continuar a encontrar novas formas de proporcionar descoberta e ligação entre pessoas e culturas. “Estamos sempre muito atentos à reflexão sobre o que é o turismo de aventura e qual é o nosso papel, como podemos ajudar os nossos viajantes a explorar o mundo e a estabelecer pontes entre culturas”, sublinha.

“Para nós tem sido apenas mais um ano. A instabilidade geopolítica é algo que faz parte do nosso dia a dia constante”

Criar novas viagens entre conceito, autenticidade e incerteza

Na construção de novas experiências, o conceito surge como critério central. A ideia inicial “define toda a viagem”e tem de estar alinhada com o posicionamento da agência.

Tiago Costa dá como exemplo a recém-lançada viagem de inverno à Gronelândia, onde “o objetivo é passar uma semana com uma cultura que está a desaparecer”. O programa inclui proximidade com uma família inuíte e procura demonstrar como as alterações climáticas afetam comunidades locais.

Mas desenhar viagens deste tipo implica lidar com múltiplos desafios, sobretudo em destinos remotos ou menos acessíveis: “condições políticas instáveis, condições meteorológicas, infraestruturas inexistentes, preparação dos viajantes para lidar com adversidades”, enumera.

A preparação dos clientes varia consoante a natureza da experiência. “Temos viagens mais tranquilas e outras muito instáveis. Por exemplo, a viagem no Expresso do Oriente vai de Viena a Istambul e raramente algo corre fora do planeado. Depois temos viagens no arquipélago dos Bijagós [na Guiné-Bissau], onde quase nada funciona”, explica.

Para isso, os viajantes têm acesso a documentação específica, apoio personalizado e sessões preparatórias com os líderes e guias que acompanham o grupo.

Sobre o atual contexto geopolítico, marcado por conflitos e instabilidade internacional, Tiago Costa admite que a imprevisibilidade faz parte do dia a dia da operação. “Para nós tem sido apenas mais um ano. Como operamos permanentemente no mundo inteiro, estamos sempre a sentir as dores de terceiros. A instabilidade geopolítica é algo que faz parte do nosso dia a dia constante”, afirma.

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