O adeus de Pedro Costa Ferreira à APAVT como “presidente que nunca se escondeu”

-PUB-

O atual presidente da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, Pedro Costa Ferreira, fez esta quinta-feira o seu último discurso num congresso da associação, durante a sessão oficial de encerramento da 50.ª edição, em Macau.

Depois de cinco mandatos à frente da APAVT, Pedro Costa Ferreira despediu-se da presidência naquela que descreveu como “a última comunicação num congresso” da associação, sublinhando a importância simbólica de o fazer em Macau – “uma circunstância absolutamente feliz e especialmente agradável”.

Sublinhou que, ao longo de “cerca de 15 anos”, não fez “mais do que o cumprimento de um dever”, garantindo que a APAVT “foi sempre a prioridade” e que, no fim, será “apenas mais um presidente que por lá passou”. Ainda assim, reconhece ter sido “um presidente que nunca se escondeu”, sobretudo “durante a pandemia, quando o setor perdeu 77% da faturação, tudo pareceu impossível”.

Pedro Costa Ferreira definiu-se como “um presidente que preferiu ser líder em vez de megafone dos outros, que preferiu construir em vez de apenas protestar, que tentou unir onde outros só tentaram afastar”, mas também alguém que “tantas vezes preferiu estar do lado da razão do que ter razão”. Acrescentou ainda ter procurado “sempre conciliar os interesses do setor com os objetivos de quem nos rodeia”.

Cedo percebeu, disse, que “só tem capacidade de unir um universo multifacetado” e “quem tem em conta os interesses dos mais fortes, para melhor estar livre para defender os mais fracos”.

O atual presidente destacou igualmente ter construído “uma APAVT financeiramente capaz de não se vergar aos interesses de ninguém”, defendendo que é quando não é preciso “vergar” que se está “mais apto a construir e a trabalhar em conjunto”. 

Apesar de admitir que “aqui e ali” se fez “notar”, considera que tal aconteceu por dever de “representação dos interesses do setor”. E deixa um desejo: ser recordado como “alguém que fez crescer a APAVT, que desenvolveu acordos e relações duradouras, que abraçou sempre aquilo que nos dá vida — o turismo — e que sai agora de cena como pessoa credível e confiável”.

No final do discurso, não escondeu que a despedida deixa marcas: “dizem que a saudade é a memória do coração. Claro que vou ter imensas saudades vossas”.

Pedro Costa Ferreira deixa recado aos políticos sobre futuro “empolgante” e “angustiante”

Durante a sua intervenção, Pedro Costa Ferreira fez uma reflexão sobre “um futuro empolgante” e, ao mesmo tempo, “angustiante”, a começar pelo impacto da inovação tecnológica. A inteligência artificial, disse, “vai mudar tudo a uma velocidade nunca vivida” e colocar em causa “a estabilidade macroeconómica, toda uma estrutura social, e até um propósito de vida”.

Apesar das “dúvidas e naturais receios”, tem a “certeza” de que, ao nível empresarial e setorial, “não há melhor via de saída do que a introdução metódica e estratégica da inteligência artificial nas nossas empresas”.

O presidente da APAVT aproveitou também para deixar um conjunto de alertas ao poder político, não escondendo o “desejo” que saibam “resolver os problemas de um país que precisa de imigrantes”, mas que “atingiu nesta matéria o pior de dois mundos, não conseguindo nem controlar a sua entrada, nem acolhê-los como merecem”.

Enumerou desafios estruturais, afirmando que Portugal “precisa de crescimento económico, mas não o quer discutir nem planear”; que “precisa de integrar colaboradores” nas empresas, mas “os amarra a centrais sindicais que não representam ninguém e a uma lei laboral que os trai, sugerindo que os defende enquanto estimula o trabalho precário e a dificuldade de mudar de emprego e de vida”.

Sobre infraestruturas, lamentou que Portugal “precisa de infraestruturas aeroportuária e ferroviária e se perdeu no labirinto das decisões, tentando apenas agora acertar o passo”, além de carregar as novas gerações “com os fardos dos atuais erros e omissões”. Criticou ainda o país que “planeou um aeroporto para daqui a dez anos e não consegue colocar polícias nas boxes do que ainda existe”.

“Sabemos bem o que queremos e para onde vamos”

Pedro Costa Ferreira assegurou ainda que, “no setor, sabemos bem o que queremos e para onde vamos”. Na cultura, disse, o objetivo é ser reconhecido como “instrumento de progresso e não ostracizado por falsas elites”; nas cidades, reivindica “um papel importante na organização da mobilidade, que corresponda à mais-valia que aportamos, no mínimo que corresponda às taxas turísticas que os nossos clientes pagam, sem qualquer controlo, escrutínio ou regra, não queremos ser vistos como intrusos”.

No lazer, defendeu “uma clarificação do mercado”, para garantir “o acesso de todos a todos os modelos de negócio”, acreditando que “melhores mercados fabricam melhores empresas, que desenvolvem ainda melhores mercados”. Já no segmento corporate, deixou um recado às companhias aéreas, pedindo o fim da “insuportável discriminação” dos cartões de crédito das agências. 

“De uma vez por todas, aceitem antes que o consumidor é quem escolhe”, acrescentou. “Enquanto mantiverem esquemas enganadores de acesso ao consumidor, manterão as fragilidades de competitividade que há muito os agentes de viagens ultrapassaram”.

Reforçou ainda a importância da defesa do consumidor, garantindo a continuidade da “trajetória de cooperação com a DECO, a ASAE e a ANAC”, sublinhando que empresas e tutelas “estão do mesmo lado”.

No plano europeu, afirmou que a APAVT quer “manter a importante intervenção atual” na ECTAA, bem como “preparar novas formas de colaboração”.

Pedro Costa Ferreira anunciou ainda a inauguração de uma nova sede. “Fizemos questão que não nos fosse oferecida pelo Estado. Foi comprada com o nosso dinheiro. Estaremos com isso mais próximos dos nossos associados e mais efetivos na defesa dos interesses do setor”, frisou.

Destacou ainda o lançamento do primeiro programa de inovação aberta no turismo liderado por uma associação empresarial.

O relembrar de uma história construída com “trabalho, inteligência e inovação”

Pedro Costa Ferreira recordou a “história de 50 anos de congressos e de 75 anos de vida” da APAVT, cujas raízes remontam a 1840, “data da fundação da agência mais antiga do mundo, a nossa associada Agência Abreu”.

Falou de “uma história de altos e baixos”, feita de “mar calmo e grandes tormentas”, mas “sempre vencidas com trabalho, inteligência e inovação” – elementos que “construíram um setor que vive atualmente os melhores números económicos de sempre” e que “demonstra pujança económica, capacidade de liderança e modernidade”.

Assinalou ainda que 2025 foi um ano de “momentos emocionantes” no âmbito das comemorações do 75.º aniversário da associação, em que “os representantes do extraordinário legado da APAVT reencontraram os que hoje lideram a mudança e os que amanhã construirão o futuro”.

51.º Congresso da APAVT ruma a Marraquexe

Pedro Costa Ferreira deixou um agradecimento final a Macau e projetou o futuro do congresso: “se este é o momento de dizermos obrigado a Macau, a melhor maneira de interiorizarmos que a vida não para é que, assim que regressemos às nossas empresas, teremos de voltar aos nossos desafios diários, é dizer ‘olá Marraquexe’”, destino que acolherá o 51.º Congresso da APAVT, em 2026.

Afirmou que Marrocos é “um destino rico e diversificado”, marcado por “experiências turísticas extraordinárias”, sublinhando que Marraquexe se destaca como “cidade cosmopolita, onde a tradição e a modernidade convivem, enriquecendo-se mutuamente, excelente exemplo de como deveriam ser todos os lugares do mundo”.

O presidente da associação sublinhou ainda a convicção de que os marroquinos, “pessoas extraordinárias, próximas e amigas”, serão “a melhor companhia do nosso congresso”.

DEIXE A SUA OPINIÃO

Por favor insira o seu comentário!
Por favor, insira o seu nome aqui