Portugal, país antigo, começa lentamente a falar como um catálogo de aeroporto. (…) O problema não está nas palavras inglesas. As palavras são aves migratórias; atravessam fronteiras desde sempre. O problema começa quando o idioma deixa de acrescentar e passa a disfarçar, quando o estrangeirismo funciona como maquilhagem para esconder que parecemos demasiado portugueses.
Por Jorge Mangorrinha
Em Portugal, há praias onde o mar continua a chamar-se mar, mas já ninguém o ouve assim. Agora é “ocean view experience”. As ondas deixaram de rebentar, porque fazem “wellness sounds”. E o pescador da esquina, homem de mãos salgadas e voz de nevoeiro, transformou-se discretamente em “local storyteller”.
O país mudou de idioma sem precisar de tradução.
Nas aldeias, as tabernas tornaram-se “wine spots”.
O pão com chouriço virou “smoked sausage artisan bread”. E há qualquer coisa de profundamente moderno em pagar 9 euros por uma “traditional portuguese snack reinterpretation” que, afinal, continua a ser uma bifana cansada, servida numa tábua de madeira suficientemente rústica para justificar o preço.
Portugal descobriu que o turista contemporâneo não quer apenas dormir: quer fazer “check-in” emocional. Não procura uma casa: procura um “concept stay”. Não visita uma aldeia ou uma vila: vive uma “authentic immersion”. E ninguém bebe vinho, mas faz “wine tasting journeys”.
Até o silêncio rural ganhou sotaque internacional. Já não há sossego; há “slow living”.
Os hotéis aprenderam rapidamente esta nova liturgia linguística. O pequeno-almoço, outrora honesto desfile de papos-secos e café forte, tornou-se “brunch experience”. O empregado deixou de dizer “bom dia” para perguntar, com brilho corporativo no olhar:
— “How was your stay experience?”
Experiência.
Tudo é experiência.
Dormir é experiência.
Comer é experiência.
Olhar para uma oliveira durante três minutos é uma experiência sensorial imersiva de conexão ancestral.
Portugal, país antigo, começa lentamente a falar como um catálogo de aeroporto.
Há algo comovente neste esforço nacional para parecer internacional. Uma espécie de ansiedade elegante, quase enternecedora, que leva um alojamento no país profundo a chamar-se “Moon Valley Eco Retreat & Nature Suites”, apesar de continuar ao lado da oficina do senhor Armando e de três galinhas emocionalmente indiferentes ao conceito.
O problema não está nas palavras inglesas. As palavras são aves migratórias; atravessam fronteiras desde sempre. O problema começa quando o idioma deixa de acrescentar e passa a disfarçar, quando o estrangeirismo funciona como maquilhagem para esconder que parecemos demasiado portugueses. Porque talvez ainda não tenhamos percebido uma coisa simples: o turista atravessa continentes precisamente para encontrar aquilo que não existe no país dele.
Ninguém viaja milhares de quilómetros para descobrir um “food court”. Viaja para ouvir o tilintar dos copos numa tasca. Para aprender a palavra “saudade” dita por alguém que nunca a estudou em “marketing”. Para ver roupa estendida entre janelas. Para comer peixe grelhado sem redução balsâmica de absolutamente nada.
Persistimos, heroicamente. Abrimos “concept bakeries” em aldeias onde as avós continuam a fazer melhor pão sem página de Instagram. Criamos “premium sunset sessions” para assistir ao mesmo pôr-do-sol que os pescadores observavam gratuitamente desde o século XVI.
Talvez um dia o exagero atinja o sublime absoluto. Talvez alguém inaugure finalmente o inevitável:
“Authentic Soulful Portuguese Heritage Lifestyle Hub.”
E lá dentro estará apenas um homem de bigode a jogar sueca, sem perceber porque é que lhe chamam “cultural facilitator”.
O alojamento turístico já não tem corredores, tem “hospitality flow areas”. As empregadas de limpeza desapareceram discretamente do vocabulário e renasceram como “housekeeping staff”. A receção transforma-se em “front desk”, embora continue exatamente no mesmo sítio onde antes havia um balcão, um sino metálico e uma senhora chamada Dona Lucinda a perguntar se a viagem tinha corrido bem.
Agora pergunta-se:
— “Did you enjoy the welcome experience?”
O hóspede português, que apenas quer a chave do quarto e talvez saber a password do Wi-Fi, é conduzido por uma sucessão de palavras tão sofisticadas que parece estar a entrar num congresso internacional de almofadas decorativas.
O quarto não tem varanda. Tem “private outdoor lounge concept”.
A cama deixou de ser cama. É “premium sleep solution”.
E o sabonete minúsculo, embrulhado num papel reciclado de aparência escandinava, anuncia-se, solenemente, como “eco-friendly wellness ritual item”.
No armário há um cartão:
“Dear Guest, enhance your stay through our curated pillow menu.”
Portugal chegou finalmente ao momento histórico em que uma almofada precisa de curadoria.
No pequeno-almoço, uma torradeira comum ocupa discretamente o centro da sala, mas ao lado um letreiro informava:
“Artisan Bread Toasting Station”
O sumo de laranja passou a chamar-se “fresh citrus experience”. O fiambre torna-se “smoked protein selection”. E a máquina de café faz um ruído suficientemente dramático para justificar o estatuto de “barista corner”.
Os hóspedes circulam em silêncio cerimonial, equilibrando taças de iogurte com sementes misteriosas, como participantes de um retiro espiritual financiado pelo LinkedIn.
Entretanto, o empregado do bar — homem de bigode sólido e décadas de serviço — persiste heroicamente no seu português intacto:
— Quer uma imperial?
Ele rapidamente alguém corrige:
— Uma “craft beer moment”, faz favor.
Até os avisos simples ganharam ambições internacionais. Já não se lê “Não incomodar”.
Lê-se: “Mindful Privacy Mode Activated”.
A piscina do hotel, rectangular e modesta, promove-se como: “water relaxation environment”.
E há sempre uma atividade impossível de compreender totalmente: “Sunset Mindfulness & Local Flavours Networking Session”. Ninguém sabe exatamente o que é, mas custa quarenta e cinco euros por pessoa e inclui duas azeitonas.
No fundo, o hotel moderno torna-se uma espécie de teatro linguístico onde tudo precisa de soar maior do que é, como se o turista pudesse morrer de desilusão ao descobrir que o “chef experience advisor”, afinal, apenas traz pão à mesa.
Às vezes, porém, a verdade escapa-se.
Quando falta luz durante cinco minutos.
Quando o elevador faz um barulho estranho.
Quando alguém diz “chefe!” em vez de “sir”.
Quando a cozinheira aparece à porta com um tacho fumegante e grita:
— Sai uma sopa!
Nesse instante raro e glorioso, desaparece o “concept”, o “premium”, o “wellness” e o “immersive hospitality ecosystem”.
Fica apenas Portugal. Despenteado, barulhento, genuíno e incomparavelmente mais memorável do que qualquer “guest experience package”.
O calor aperta a língua, sobretudo ao turismo interno, face à metáfora da língua de fora. E o que talvez importe mesmo é que o turista estrangeiro encontre o sentido etimológico desta palavra: Saudade.
E volte…
Por Jorge Mangorrinha Pós-doutorado em Turismo




