O Chip

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“A tecnologia chegou, entretanto, ao setor hoteleiro. (…) Tudo começou com pequenos chips colocados discretamente nos atoalhados. A ideia é simples: seguir o percurso da toalha desaparecida”

Durante décadas, o hóspede furtivo viveu em liberdade. Entrava num hotel de duas, três, quatro ou cinco estrelas e saía com uma recordação: um sabonete, uma caneta, um roupão, uma toalha de bidé ou, nos casos mais ambiciosos, um cinzeiro que misteriosamente cabia sempre na mala.

A tecnologia chegou, entretanto, ao setor hoteleiro. Os hotéis já não se limitam a contar toalhas. As toalhas contam histórias.

Tudo começou com pequenos chips colocados discretamente nos atoalhados. A ideia é simples: seguir o percurso da toalha desaparecida. O que ninguém previu foi a quantidade de informação sociológica que uma simples toalha de bidé pode fornecer.

A governanta pergunta:

— Gostou da estada?

O cliente responde:

— Excelente. Posso levar esta toalhinha como recordação?

A governanta sorri.

— Claro que sim, senhor. Tenha uma boa viagem.

O cliente sai triunfante. Julga ter obtido autorização oficial para o saque. Nem imagina que a toalha contém mais tecnologia do que o automóvel que a transporta.

Três meses depois, o departamento de inteligência hoteleira sabe que a toalha passou um fim de semana em Badajoz, acompanhou uma peregrinação a Fátima e foi vista pela última vez numa churrasqueira da Moita, servindo de proteção para uma cadeira periclitante.

Os hotéis mais avançados já chipam candeeiros. Um gerente contou-me que um candeeiro desaparecido de um resort do Algarve foi localizado seis anos depois numa casa em Trás-os-Montes. O sistema registou ainda que o objeto iluminava regularmente torneios de sueca às quintas-feiras.

A inovação não ficou por aí.

Imagine-se que há hotéis que ponderam instalar chips nas almofadas decorativas. Outras unidades estudam a colocação de sensores nos quadros dos corredores. Um estabelecimento particularmente traumatizado com desaparecimentos considera marcar eletronicamente as flores artificiais.

Os resultados são extraordinários.

Uma jarra decorativa desaparecida foi detetada numa sala de estar onde os proprietários a apresentavam aos convidados como “uma peça artesanal adquirida numa viagem cultural”. Outro sistema identificou um roupão que, após abandonar discretamente um hotel de luxo, frequentou durante anos três praias, dois parques de campismo e uma associação recreativa.

O futuro promete ainda mais.

Especialistas do setor já falam em chips incorporados nos pequenos frascos de champô. Assim, quando um cliente retirar vinte e sete embalagens numa única vez no seu quarto e no carrinho de limpeza do corredor, o hotel poderá acompanhar a epopeia logística daqueles recipientes durante anos até ao centro de reciclagem.

Há mesmo rumores de um projeto-piloto para monitorizar colheres de sobremesa, pilhas do comando da televisão e até os famosos lápis dos quartos.

O objetivo não é recuperar os objetos. É estudar o comportamento humano. Porque, afinal, o verdadeiro património que sai dos hotéis não são as toalhas.

São as histórias.

E nenhuma é tão fascinante como a daquele respeitável cidadão que jurava nunca ter levado nada de hotel nenhum, enquanto secava as mãos numa toalha com o logótipo bordado e lia o jornal à luz de um candeeiro desaparecido de um hotel no Porto.

E quando todos pensavam que o sistema de rastreamento tinha atingido o auge da sofisticação, surgiu a grande inovação: o Programa de Fidelização Involuntária.

Ao fim de dez objetos identificados fora das instalações, o cliente passa automaticamente à categoria de “Hóspede Embaixador”. Aos vinte objetos, recebe o estatuto de “Colecionador Premium”. Aos cinquenta, é considerado uma sucursal não oficial do hotel.

Foi assim que, numa pequena aldeia, os inspetores descobriram uma situação extraordinária.

Uma moradia continha duas toalhas de banho, quatro toalhas de rosto, três almofadas decorativas, um secador de cabelo, um candeeiro de mesa, seis copos gravados, um quadro do corredor do terceiro piso e um tapete que desaparecera misteriosamente durante uma convenção de contabilistas.

Ao analisar os dados, verificou-se que o proprietário não visitava aquele hotel há dez anos.

Dez anos!

A direção decidiu então fazer-lhe uma visita de cortesia.

O homem abriu a porta.

Atrás dele via-se claramente metade do inventário desaparecido.

O diretor do hotel sorriu cordialmente.

— Boa tarde. Venho agradecer a sua fidelidade.

— Desculpe?

— Segundo os nossos registos, o senhor é atualmente o maior depositário externo do nosso património.

— Eu não percebo…

— Percebe, percebe. Tecnicamente, esta casa é já a nossa unidade hoteleira mais bem equipada.

O homem empalideceu.

— Vão apresentar queixa?

— Pelo contrário. A administração reuniu e decidiu atribuir-lhe quatro estrelas.

— Quatro estrelas?!

— Sim. Falta apenas devolver o minibar de 2010 para obter a quinta.

Nesse momento, a mulher dele apareceu à porta.

— Querido, então este é o senhor do hotel?

— Sim.

— Ótimo. Pergunta-lhe se podemos levar o relógio da receção quando voltarmos lá no verão.

O diretor tomou uma nota.

— Excelente iniciativa. Já o tínhamos chipado.

E foi então que o casal percebeu a verdade mais aterradora de todas.

Não eram eles que levavam recordações dos hotéis.

Eram os hotéis que, discretamente, andavam há anos a mobilar a casa deles.

O pior é que, no dia seguinte, receberam um e-mail da cadeia hoteleira:

“Caro cliente, devido ao volume de bens nossos atualmente existentes na sua residência, informamos que o seu endereço passou oficialmente a constar do nosso inventário patrimonial.”

E, em letra mais pequena:

“O senhor dispõe de pequeno-almoço incluído, desde que o sirva na sala de jantar, que também é nossa.”

Por Jorge Mangorrinha, pós-doutorado em Turismo

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