À medida que fenómenos meteorológicos extremos se tornam cada vez mais recorrentes, as alterações climáticas emergem como uma ameaça existencial para um setor que contribui com cerca de 8% do PIB mundial. Gloria Guevara, Conselheira Especial Chefe do Ministério do Turismo da Arábia Saudita e líder do Centro Global de Turismo Sustentável (STGC), insta os governos e as empresas a “agir com urgência para mitigar as alterações climáticas e, ao mesmo tempo, reforçar a resiliência à medida que os fenómenos meteorológicos extremos se vão sucedendo”.
Num artigo do Euronews, Guevara destacou as consequências cada vez mais evidentes das alterações climáticas, apontando para o verão de 2023 que já bateu recordes de temperaturas extremas, e mencionou a ocorrência mais frequente de eventos climáticos extremos, como ondas de calor e incêndios florestais em várias partes do mundo. A responsável citou estudos que revelam que as alterações climáticas tornaram esses eventos 50% mais prováveis.
A indústria do turismo tem sido particularmente afetada por esses eventos extremos, resultando em cancelamentos e interrupções nas férias. Guevara observou que os pedidos de reembolso de férias já aumentaram quase 18%. Além disso, relembrou que a pandemia de covid-19 causou um impacto significativo na indústria, com uma redução de 4 mil milhões de euros no PIB global do setor das viagens e turismo e a perda de 62 milhões de empregos.
“Hoje, apesar do aumento das chegadas internacionais, a indústria ainda está em recuperação pós-pandemia, com chegadas globais abaixo dos níveis de 2019 em algumas partes do mundo”, frisou.
A preocupação de Gloria Guevara não é apenas com os danos atuais, mas também com a ameaça a longo prazo que as alterações climáticas representam para a indústria. A conselheira enfatizou que a indústria do turismo é responsável por cerca de 8% das emissões globais de gases de efeito estufa e destacou os riscos associados a continuar com abordagens tradicionais.
“Eventos climáticos extremos continuarão a ocorrer”
Na Grécia e em Itália, países que estão a sentir os impactos dos eventos climáticos extremos, o turismo representou quase 19% e 10% do PIB em 2022, respetivamente. Dados recentes da Comissão Europeia de Viagens mostram que o turismo no Mediterrâneo já diminuiu 10% neste verão em comparação com o ano passado.
Em toda a Europa, a indústria do turismo inclui mais de 2 milhões de empresas, principalmente pequenas e médias empresas (PMEs), empregando cerca de 12,3 milhões de pessoas. “Com milhões de pessoas dependentes da indústria para o seu sustento, os governos e as empresas devem agir com urgência para mitigar as alterações climáticas, ao mesmo tempo que reforçam a resiliência perante eventos climáticos extremos”, defende Guevara.
Não se trata de parar de viajar,trata-se de fazer as coisas de forma diferente
Em relação a soluções, Guevara destacou exemplos de países que estão a adotar abordagens inovadoras para desenvolver um turismo resiliente às alterações climáticas, mencionando o caso da Costa Rica, que gera quase 100% da sua energia a partir de fontes renováveis e está a investir em transportes eletrificados e gestão sustentável de resíduos. Outro exemplo citado é o Projeto do Mar Vermelho na Arábia Saudita, que se concentra na sustentabilidade regenerativa e na conservação da biodiversidade.
“A indústria precisa de um esforço conjunto para uma ação coordenada de alto impacto para atingir emissões líquidas zero, proteger a biodiversidade e os recursos naturais, bem como as muitas comunidades economicamente dependentes das viagens e do turismo”, sustentou.
Gloria Guevara enfatizou que a resposta não é parar as viagens, mas sim repensar a forma como a indústria opera, destacando a importância da colaboração entre os setores público e privado para atingir emissões líquidas zero e implementar regulamentações necessárias. “Isto não significa parar as viagens, mas sim fazê-lo de forma diferente, tanto no fornecimento como na procura”, clarifica.
A conselheira concluiu com um apelo para proteger as comunidades e destinos vulneráveis. “A resiliência deve ser prioritária em destinos turísticos vulneráveis às alterações climáticas e pode incluir iniciativas para impactar e restaurar a natureza de forma positiva, como a Baía de Maya, na Tailândia, que viu até 80% dos seus recifes de coral locais destruídos por lixo, poluição de barcos e protetor solar”, recorda.
Gloria Guevara concluiu o artigo, enfatizando que a indústria do turismo deve inovar e colaborar para prosperar num futuro sustentável.






