Segunda-feira, Junho 17, 2024
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O que não gostamos nos Açores?

Por Fernando Assis Coelho

Era uma segunda-feira, aquele dia de merecido descanso semanal da família Saraiva. A coroa do Espírito Santo ilumina e ganha destaque na sala de jantar, marcando a presença do divino, num constante evocar de proteção que a incerteza de um imponente vulcão estromboliano e todos os sofrimentos da atividade sísmica e vulcânica deixam no inconsciente de todas estas populações. O queijo de pasta mole do Pico e o mel de incenso estão entre outras iguarias destacadas no canto da sala. Os Verdelhos e Arintos dos Açores antecipam o desafio gastronómico que o afamado Caldo de Peixe da Fernanda nos irá proporcionar. Com o mínimo de três variedades de peixe local fresco e pão de pelo menos quatro dias, como exigem, facilmente conseguimos recuar no tempo e entender o porquê desta simplicidade, que se criou em tempos idos com o que era possível confecionar.

Avançamos e sobe à mesa um daqueles extraordinários licorosos não fortificados que só aquela ilha consegue criar. Facilmente, e envolvidos por uma doçura equilibrada numa acidez e mineralidade surpreendente, navegamos no tempo e imaginamos a dureza de 600 anos a moldar uma paisagem de currais. Libertando a terra da pedra, empilhando-a em muros, e encontrando na rocha espaço para que as videiras pudessem prosperar. É neste momento que nos questionamos: o que não gostamos dos Açores? Pergunta difícil, para a qual ninguém conseguiu apresentar uma resposta imediata. Voltaremos aqui mais à frente.

Em 2017, estive na singular Fajã de Santo Cristo na Ilha de São Jorge, ainda a eletricidade não tinha chegado e esperávamos pelas 13h00 para se ligar o gerador e assim poder preparar a sopa da minha filha mais velha. Repeti a experiência este ano, agora electrificada e com substanciais melhorias a nível de serviços e do património construído, um notório e visível impacto positivo que o turismo consegue gerar. No intemporal café “O Borges” é percetível o entusiasmo e motivação dos locais com esta nova dinâmica. Comentava o Sr. José, “picaroto” a viver por São Jorge: “Depois do terramoto de 1980, ninguém quis voltar a viver aqui, ficou apenas uma família. Hoje qualquer pedaço vale ouro”.

Nos últimos sete anos, os Açores transformaram-se, assim, numa nova fronteira para o turismo. O ano de 2015 foi marcado por uma decisão histórica para esta região, até então excluída da legislação liberalizadora do espaço aéreo em vigor na União Europeia. Abrindo espaço a novos operadores, o Governo português multiplicou as possibilidades de as ilhas se tornarem um destino turístico cobiçado, na lógica da procura permanente do lugar novo, original e desconhecido que caracteriza a tendência e cultura turística moderna. As companhias “de baixo custo” perceberam a oportunidade e começaram a oferecer voos baratos com destino a esta nova fronteira turística natural. Com um fluxo de visitantes a rondar os 300 – 400 mil por ano entre 2004 e 2014, logo em 2015 estes subiram para 506 mil e, a partir daí, a progressão foi imparável: 626 mil em 2016, 768 mil em 2017, 840 mil em 2018 e 972 mil em 2019. A pandemia de COVID-19 em 2020 interrompeu, naturalmente, esta ascensão, com apenas 293 mil visitantes, mas logo em 2021, e apesar da situação sanitária ainda incerta, a recuperação foi evidente, com 613 mil visitantes. O turismo bate recordes a cada ano, o que assevera para a região a necessidade de conseguir encontrar o equilíbrio entre o progresso e a proteção dos ecossistemas naturais. Património extremamente frágil e que impõe reflexão e uma adaptação constante aos novos desafios criados pela pressão turística, num destino com limitações claras que resultam muito da sua insularidade.

O sistema de transporte aéreo dentro e para a Região Autónoma dos Açores vindo do Continente é incompleto e complexo. Para entendê-lo, procurei a ajuda do Pedro Castro, conhecedor da matéria, ciente da necessidade de criação sustentável de benefícios de longo prazo. Enquanto residente no Continente, viajar para outras ilhas que não São Miguel e Terceira – estas já com espaço aéreo liberalizado – torna-se sempre uma viagem com menos opções, mais longa em escalas e onerosa. A liberalização do espaço aéreo ocorrida em 2015 nas ligações Continente-Açores, chegou apenas às ilhas de São Miguel e Terceira, ficando programada para mais tarde para as restantes ilhas. Situação que, oito anos volvidos, continua sem resultado até agora. Os voos para as ilhas de Santa Maria, Faial e Pico foram transformados numa OSP (Obrigação de Serviço Público) estando atualmente presos a um concurso e caderno de encargos manifestamente restritivos, aparentemente mais vocacionados a servir a SATA do que a atrair concorrência e novas companhias. A questão repete-se: estamos perante um regime protecionista, por se achar que essa é a melhor forma de se servir o interesse público, acabando na prática por prejudicá-lo. Enquanto o Estado – central e regional – for simultaneamente promotor, candidato e árbitro de concursos isto tem tudo para correr mal.

Deparamo-nos com uma altíssima concentração de voos nacionais e internacionais apenas em Ponta Delgada, o que representa um grave problema por concentrar o turismo aí, por entupir as ligações inter-ilhas para os açorianos e por tornar as viagens para outras ilhas pouco atrativas – para negócio ou lazer – e limitar a mobilidade e coesão territoriais. É certo que algumas ilhas têm infraestruturas pequenas (Corvo, Graciosa, Flores, São Jorge), mas noutros casos, como o aeroporto do Pico, que está fora da alçada da ANA-Vinci, e da Horta, que sob a concessão da Vinci, necessita obras de pista urgentes, tantas vezes prometidas, mas sempre adiadas.

A recente pandemia, a crise climática, energética e os conflitos bélicos que infelizmente começam a dominar geografias tão próximas de nós, vem reforçar que um modelo desestruturado, inconsistente e mal regulado, conduz à sobrelotação, com fortes consequências para a destruição do património natural e vidas das populações locais. Não quero com isto dizer que devemos limitar o crescimento do turismo. Longe disso, pois não tenho dúvida que existem ainda muitas mais oportunidades de crescimento e desenvolvimento do nosso turismo, e não só. No entanto, é imperioso orientar os fluxos turísticos, evitando a sobrelotação de São Miguel e Terceira, e repensar o atual sistema de transporte aéreo para a região.

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, afirmou recentemente que “o mundo é composto de mudança e temos de saber organizar a sustentabilidade e outros aspetos do negócio para garantir que continuamos a produzir e a existir”. É esta existência que me preocupa. Sob o rótulo inofensivo de “turismo de natureza”, os Açores estão a enfrentar um processo de turistificação massivo e que pode replicar as experiências negativas de outros arquipélagos onde a valorização mercantil da paisagem e da cultura pode acabar por ser um presente envenenado para as populações locais e no futuro próximo perder aquilo que tanto o identifica e diferencia.

Em janeiro, o Governo dos Açores revogou o pagamento da taxa turística na região que tinha como base um euro por dormida (até quatro noites) e dois euros por desembarque em portos. O valor, acredito, até pela experiência de outros destinos nacionais não teria um impacto negativo na procura, e poderia até ser uma oportunidade de aplicação de uma receita extraordinária em obras de melhoria das infraestruturas do turismo de cada concelho. Talvez por falta de informação, mas não conheço nenhum relatório governamental que precise ou mesmo considere a capacidade de carga do arquipélago, instrumento que entendo fundamental na planificação do território turístico.

Enquanto Geógrafo, manterei alguma curiosidade e atenção à elaboração do novo Plano de Ordenamento Turístico da Região Autónoma dos Açores. O anterior, elaborado em 2017, deixou de estar disponível, em maio do ano passado, argumentando-se a sua desatualização devido ao impacto da pandemia, à situação do tráfego aéreo internacional, à crise sísmica e vulcânica na ilha de São Jorge e à guerra na Ucrânia. Esta linha de acontecimentos testemunham a volatilidade e imprevisibilidade dos tempos e quão frágil e exposta pode ser a indústria do turismo, a que se acrescenta agora o recente despoletar conflito no Medio Oriente.

O novo plano deve ser visto como uma grande oportunidade para o estabelecimento de um modelo turístico e económico sensível às condições de insularidade, com ambientes naturais de grande valor, mas também de grande vulnerabilidade ecológica. Não nos faltam aos dias de hoje experiência de outros territórios que nos ajudem a evitar os erros e as dinâmicas do turismo de massas e seus impactos ambientais e sociais, infelizmente já bem conhecidos e estudados.

Uma nota de reconhecido louvor ao projeto «Marca Açores», excelente iniciativa de valorização dos produtos desta região e importante promotor do consumo local destes produtos pelas unidades hoteleiras e de restauração e do Programa de Apoio à Restauração e Hotelaria para a aquisição de Produtos Açorianos que comparticipa em 10 a 15%, a compra dos produtos abrangidos, com um limite global anual de 15 mil euros por empresa, considerando taxas majoradas de 40% para produtos de certificação comunitária (IGP, DOP ou DOC) ou que beneficiem de um reconhecimento regional de “Artesanato dos Açores”. Um excelente exemplo de incentivo ao consumo local, para além de inequívoco apoio e estímulo ao desenvolvimento de uma economia diversificada, alavancada na produção dos setores primário e secundário, essenciais para encontrar um modelo sustentável de desenvolvimento económico. Temos todos bem presentes as debilidades que a pandemia veio evidenciar nas economias com elevada dependência do turismo.

Voltando a São Jorge, mantivemo-nos na costa norte e fomos visitar o “Amílcar” na Fajã do Ouvidor. Queríamos reaver o sabor daquelas amêijoas que crescem nas areias basálticas da caldeira. A refeição inicia-se sempre com a identificação dos peixes que estão no menu, tarefa sempre interessante pela variedade, e termina com o orgulhoso licor de canela que nos motiva a descer até às naturais piscinas “Simão Dias”. O jantar teria de ser por outro sítio, uma vez que, por falta de pessoas para trabalhar, o Sr. Amílcar não consegue manter a porta aberta nesse horário. Este é outro tema a que já nos habituamos pelo Continente, mas que nos Açores vem assumindo uma dimensão preocupante. Enquanto as dinâmicas demográficas se mantêm mais estáveis por São Miguel e Terceira, que concentravam 80% da população do arquipélago, entre 2011 e 2021, e o número de visitantes crescia, as ilhas perdiam mais de 10 mil habitantes, 4,1% da sua população.

Quanto à pergunta que serve de epígrafe, e antes de responder, quero reforçar o meu respeito e afeto por este território e estas gentes. Conheci os Açores pela primeira vez em 2003. Foi fácil apaixonar.

Fui, desde então, regressando e a cada regresso somos mais e vou partilhando esta paixão com quem me acompanha. Os meus dois filhos mais velhos de 7 e 4 anos conhecem 7 das 9 ilhas. Graciosa e Santa Maria, ainda não nos foi possível apresentar. E o meu Duarte, de 6 meses, cumpriu recentemente o batismo no triângulo açoriano. Os Açores marcam, sobretudo, pela genuinidade das relações humanas, onde ainda é fácil criar amigos e em cada lugar, deixarmo-nos surpreender pela generosidade e amabilidade deste povo. Sempre rodeados de uma paisagem e natureza singular, num território com uma multiplicidade de recursos naturais, históricos e culturais que o tornam único e exigem ser preservados.

E “o que não gostamos?” Mantém-se a pergunta! Acreditem que nos é difícil encontrar uma resposta, talvez movidos pela emoção e tranquilidade regeneradora que estas ilhas nos provocam. Talvez possamos encontrá-la na imprevisibilidade do tempo, que frequentemente nos obriga a agilizar e adiar planos. Ironicamente, talvez seja o mau tempo e a falta de praias de areia fina, tão procurados nos destinos mais “sexy”, que muito tem contribuído para a preservação da autenticidade deste território. Assim se mantenha, que aqui por casa, qual Rick Blaine, “We’ll always have Azores”.


*Por Fernando Assis Coelho
É licenciado em Geografia pela Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Turismo, com formações executivas na Porto Business School, SDA Bocconi e AESE Business School. Estreou-se como assistente de direção no grupo hoteleiro escocês Brudolff, tendo exercido funções como diretor de hotel no grupo Pestana, Royal Óbidos Spa & Golf Resort e Hotel Cidnay. Desempenhou funções com responsabilidade no turismo do grupo Symington e atualmente lidera a primeira unidade hoteleira do grupo espanhol Hotelatelier em Portugal.

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