“nem tudo o que hoje é vendido como IA, o é de facto. No turismo, onde a confiança e a experiência são tudo, confundir tecnologia com marketing pode sair caro”.
Hoje, quase tudo é “Inteligência Artificial”.
Um chatbot? IA.
Um sistema de recomendações? IA.
Um algoritmo que organiza e-mails? IA.
Mas será mesmo?
A sensação que tenho é simples: estamos a usar o termo “IA” mais como marketing do que como definição técnica. E isso não é um detalhe, é um risco.
1. O que mudou realmente (e o que não mudou)
Durante anos, utilizámos ferramentas baseadas em:
- Regras pré-definidas;
- Automações simples;
- Algoritmos que respondiam a inputs específicos.
Um chatbot antigo respondia com base em árvores de decisão. Um sistema de reservas sugeria opções com base em filtros e regras. Isto era programação. Nunca foi chamado de inteligência artificial. Hoje, muitas dessas mesmas ferramentas, com melhorias incrementais, são apresentadas como IA.
Porquê? Porque o termo vende. Simplifica. Impressiona. Mas convém separar:
- Automação ≠ Inteligência Artificial
- Algoritmo ≠ Inteligência Artificial
A verdadeira IA implica aprendizagem contínua, adaptação e alguma capacidade de generalização. Nem tudo o que automatiza é inteligente.
2. O problema: quando o marketing ultrapassa a realidade
Chamar IA a tudo cria três problemas imediatos:
- Expectativas inflacionadas
Clientes esperam soluções “inteligentes” e recebem automações básicas. - Perda de confiança
Quando a promessa não corresponde à experiência, a credibilidade da marca cai. - Decisões erradas
Empresas investem em “IA” sem perceberem o que estão realmente a comprar.
Este último ponto é fundamental, porque com tanta publicidade, e tanta utilização do termo “AI” causa, muitas vezes, ansiedade de não estar a acompanhar os processos e de estar a perder mercado.
3. O impacto no turismo
No turismo, isto torna-se ainda mais sensível, porque estamos a falar de experiências, expectativas e decisões emocionais. Se a tecnologia falha, a promessa falha, a perceção do destino ou da marca falha também.
Perigos reais
- Desumanização da experiência
Automatizar tudo pode retirar o fator humano que é central no turismo. - Experiências genéricas
Se todas as plataformas usam as mesmas “IAs”, as sugestões tornam-se iguais para todos. - Dependência tecnológica mal compreendida
Empresas podem delegar demasiado em sistemas que não são assim tão inteligentes. - Ruído no mercado
Todos dizem que usam IA. Poucos explicam como. O cliente deixa de diferenciar.
4. Mas há benefícios, obviamente, claros
Nem tudo é negativo. Quando bem aplicada, a inteligência artificial pode trazer ganhos reais. Personalização de experiências, apoio à decisão e escalabilidade.
O ponto não está em evitar a inteligência artificial, nem em resistir à sua adoção por receio ou desconhecimento. Está, sim, em compreender com clareza o que ela é, onde acrescenta valor real e em que medida deve ser integrada nos processos. A utilização de IA exige critério, leitura estratégica e, acima de tudo, consciência do impacto que tem na experiência final do cliente. Não basta implementar tecnologia, é necessário perceber o seu papel dentro do negócio e garantir que a sua presença melhora, e não dilui, aquilo que torna uma marca relevante.
4. O que as marcas de turismo devem fazer agora
Para as empresas, isto traduz-se numa mudança de abordagem. Mais do que adquirir “IA” como conceito abstrato, é fundamental identificar problemas concretos e implementar soluções específicas para os resolver. A decisão deve partir da necessidade e não da tendência.
Ao mesmo tempo, torna-se essencial comunicar com transparência. Num setor como o turismo, onde a confiança é determinante, o cliente deve perceber claramente o que é automatizado e onde existe intervenção humana. Essa distinção não enfraquece a marca: reforça-a.
Por fim…
A inteligência artificial é real. O impacto também. Mas nem tudo o que hoje é vendido como IA, o é de facto. No turismo, onde a confiança e a experiência são tudo, confundir tecnologia com marketing pode sair caro. No fim, não é sobre ter IA. É sobre saber quando usar, como usar e, acima de tudo, quando não usar.
O importante é continuar a ser real, e por vezes, não ignorar o artificial. Boas reservas!
Por Miguel Estorninho
Cofundador da Agência Digital Natives


