No arranque do 35.º Congresso da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), que decorre de 11 a 13 de fevereiro no Porto, Luís Pedro Martins, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, deixou críticas à TAP, defendendo que a companhia aérea tem de cumprir as promessas feitas à região, “porque todas as promessas feitas até hoje não foram cumpridas”. O responsável alertou ainda para a necessidade de uma nova pista no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, considerando que a infraestrutura se aproxima do limite operacional.
A região atingiu 14,7 milhões de dormidas em 2025, das quais 5,4 milhões correspondem ao mercado interno, que cresceu 4,5% e colocou o Porto e Norte na liderança nacional entre janeiro e dezembro. No total, as receitas ultrapassaram 1,1 mil milhões de euros, com um crescimento próximo dos 9%.
Num momento de conversa informal com jornalistas que antecedeu o congresso, Luís Pedro Martins explicou que este desempenho resulta de uma estratégia assumida no pós-pandemia de valorização do mercado nacional, sem perder a ambição internacional. “Conseguimos crescer no mercado interno e simultaneamente diversificar mercados externos, o que é uma garantia de sustentabilidade”, sublinhou.
O responsável destacou a inversão parcial do perfil de procura. Se antes a região dependia fortemente de Espanha e de mercados de proximidade, hoje os Estados Unidos são já o segundo mercado externo e continuam a crescer, tendo aumentado 6,4% face a 2024.
A aposta em mercados de longo curso está também a refletir-se na distribuição territorial, com o Douro a beneficiar particularmente da procura norte-americana. Ainda assim, Trás-os-Montes continua a enfrentar limitações, sobretudo ao nível da oferta hoteleira qualificada, o que dificulta a fixação de turistas de maior poder de compra.
Grande parte do crescimento é explicado pela dinâmica do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, que atingiu 17 milhões de passageiros em 2025 e opera cerca de 130 rotas.
Nos últimos anos, o Porto atraiu companhias como Air Canada, United Airlines, Delta, Azul e JetBlue, consolidando ligações diretas aos Estados Unidos, Canadá e Brasil. Está ainda anunciada a entrada da American Airlines em 2027, com ligação a Filadélfia.
Para Luís Pedro Martins, o momento é decisivo. O presidente do Turismo do Porto e Norte defende que a infraestrutura está a aproximar-se do limite operacional e voltou a pedir a apresentação do Master Plan. Considera necessária uma nova pista que permita transformar a atual em taxiway, aumentando o número de movimentos por hora. “O aeroporto cresceu muito acima do que era projetado. Passámos de 400 mil passageiros há 35 anos para 17 milhões. É evidente que precisamos de planeamento para continuar a crescer”, afirmou.
TAP tem “última oportunidade” na região
Sobre a TAP, Luís Pedro Martins foi direto. Disse esperar que esta seja “a última oportunidade” para a companhia provar que quer apostar de forma consistente na região, “porque todas as promessas feitas até hoje não foram cumpridas”.
Ainda assim, reconheceu sinais positivos da atual liderança, nomeadamente a ligação Boston-Porto, que passou a regular, e o anúncio de quatro novas rotas de longo curso para 2027, direcionadas ao Brasil e aos Estados Unidos.
Questionado sobre a capacidade de carga da cidade, Luís Pedro Martins foi claro ao afirmar que o centro histórico do Porto dificilmente terá margem para mais unidades hoteleiras. No entanto, defendeu que existe “muitíssimo espaço” noutras zonas da cidade e, sobretudo, no restante território da região.
Bernardo Trindade reforçou a necessidade de mais investimento hoteleiro qualificado, destacando a força de trabalho da região e o efeito multiplicador do turismo na economia. “O sucesso do turismo alimenta um vasto conjunto de outras atividades e este congresso é também um marketplace onde procura e oferta se encontram”, afirmou.
A região cresceu 4,5% em 2025, alinhando-se com os parâmetros considerados sustentáveis pela Organização Mundial do Turismo. Para Luís Pedro Martins, o desafio passa agora por gerir o “sucesso” e não apenas a “pressão”.
O responsável defendeu que “melhor turismo” não significa necessariamente “mais turismo”, mas sim melhor perfil de mercados e maior valor acrescentado. Como exemplo, comparou os resultados do Porto e Norte com os da Galiza, sublinhando que, com o mesmo número de hóspedes, a região portuguesa apresenta receitas significativamente superiores devido à composição dos mercados emissores.
Hotelaria mobilizada para o programa Portugal Acolhe
A conversa pré-congresso abordou ainda o impacto das recentes tempestades noutras regiões do país. Até ao momento, não há registo de danos significativos no Porto e Norte, mas a hotelaria está a participar no programa Portugal Acolhe, lançado esta terça-feira pelo Turismo de Portugal.
Bernardo Trindade, presidente da AHP, confirmou que a associação foi contactada e que os hoteleiros estão a aderir de forma voluntária, disponibilizando unidades para acolher pessoas que perderam as suas casas e, numa segunda fase, trabalhadores envolvidos na reabilitação das zonas afetadas.
Cristina Siza Vieira explicou que algumas unidades reabriram propositadamente para responder às necessidades, mesmo antes da formalização da comparticipação financeira. O programa estabelece um teto máximo de preço de 60 euros ou, em alternativa, 10 por cento abaixo da melhor tarifa disponível, mediante enquadramento formal das situações.
Os responsáveis consideram, contudo, que ainda é prematuro avaliar eventuais prejuízos na indústria hoteleira, uma vez que os efeitos das tempestades continuam a evoluir.



