Profissionais mais cautelosos para 2026, mas confiança no médio prazo recupera

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O aumento dos custos tornou-se a principal preocupação dos profissionais do turismo em 2026, num ano em que as expectativas para o desempenho imediato do setor abrandaram, mas a confiança no médio prazo voltou a crescer.

As conclusões constam do Barómetro 2026, uma iniciativa do IPAM, da Área de Turismo e Hospitalidade da Faculdade de Ciências Sociais e Tecnologia da Universidade Europeia, com o apoio do TNews. O questionário, que decorreu entre os meses de junho e julho de 2026, pretendeu avaliar o sentimento dos profissionais do setor do turismo e potenciais constrangimentos.

Apesar de sete em cada dez profissionais (67%) manterem uma perspetiva positiva para o turismo este ano, o sentimento é menos otimista do que nos anos anteriores. Apenas 3% classificam as perspetivas como “muito boas”, quando em 2025 essa percentagem era de 18%. Em sentido inverso, as avaliações negativas aumentaram de 12% para 30%, evidenciando uma maior prudência perante o contexto atual.

Segundo o estudo, esta evolução sugere que os profissionais deixaram de antecipar ritmos elevados de crescimento, refletindo um contexto económico e geopolítico mais desafiante.

Se o curto prazo inspira maior cautela, a perspetiva muda quando o horizonte é alargado para três anos.

Cerca de 86% dos inquiridos acredita que o setor terá uma evolução boa ou muito boa até 2029, uma melhoria face aos 76% registados em 2025. Paralelamente, a percentagem de respostas negativas desceu de 25% para 15%, invertendo a tendência observada no ano passado.

Para os autores do estudo, esta diferença demonstra que os profissionais consideram que muitas das dificuldades atuais têm um caráter conjuntural e poderão ser ultrapassadas nos próximos anos.

Tnews

Custos tiram o sono ao setor

Entre os fatores de preocupação, o aumento dos custos destaca-se claramente. Noventa por cento dos profissionais afirmam que este fator os faz “dormir mal” ou “perder totalmente o sono”, um aumento expressivo face aos 57% registados em 2025 e o valor mais elevado desde que o barómetro é realizado.

Seguem-se a instabilidade no cenário internacional (75%) e a falta de mão de obra (70%), enquanto a imprevisibilidade legislativa (57%), a instabilidade política nacional (53%) e a evolução da economia (52%) também figuram entre os principais constrangimentos identificados pelos participantes.

Em contrapartida, a segurança do emprego, as oportunidades de carreira profissional e o aumento da concorrência parecem gerar níveis de preocupação mais reduzidos. Nestes fatores, a maioria dos participantes afirma dormir de forma satisfatória. “Os resultados mostram, assim, que os principais constrangimentos da indústria do turismo estão sobretudo associados às condições externas de funcionamento das empresas — custos, contexto internacional”, constata o estudo.

Agravamento das preocupações face a 2025

A comparação com os resultados dos anos anteriores mostra um agravamento generalizado das preocupações dos profissionais do turismo. Em 2026, nove dos dez fatores analisados registam níveis de preocupação superiores aos observados em 2025.

O aumento dos custos foi o fator que mais se agravou, passando de 57% para 90% dos profissionais que afirmam “dormir mal” ou “perder totalmente o sono” com esta questão — uma subida de 33 pontos percentuais e o valor mais elevado da série histórica. Também a falta de mão de obra (70%), a imprevisibilidade legislativa (57%), a evolução da economia (52%) e o aumento da concorrência (35%) registaram aumentos significativos face ao ano passado.

A instabilidade no cenário internacional mantém-se entre as principais preocupações, afetando 75% dos inquiridos, enquanto a instabilidade política nacional permanece praticamente inalterada (53%). Em sentido contrário, fatores como a segurança do emprego e as oportunidades de carreira continuam a suscitar menor apreensão entre os profissionais.

No global, o barómetro revela que os profissionais estão hoje mais preocupados com fatores externos e estruturais — como os custos, o contexto internacional e a escassez de mão de obra — do que com questões relacionadas com a sua situação profissional individual.

Durmo mal2023202420252026
Aumento dos custos73%65%57%90%
Instabilidade no cenário internacional72%75%
Falta de mão de obra61%65%65%70%
Imprevisibilidade legislativa50%45%42%57%
Instabilidade na politíca nacional52%53%
Evolução da economia51%44%43%52%
Incerteza fiscal40%43%34%39%
Oportunidade de carreira profissional33%32%36%36%
Aumento da concorrência12%25%26%35%
Segurança do emprego30%34%29%33%
Evolução dos fatores de constrangimento — participantes que “dormem mal”

Empresas travam novos investimentos

O estudo mostra ainda uma mudança na estratégia de investimento das empresas.

A intenção de aumentar o investimento continua a diminuir, passando de 61% em 2023, ano em que o barómetro foi realizado pela primeira vez, para 38% em 2026. Em sentido inverso, mais de metade das empresas (54%) prevê manter os atuais níveis de investimento, enquanto apenas 8% admite reduzi-los. É a primeira vez, desde o arranque do estudo, que a opção de manter o investimento reúne a maioria das respostas.

Os investigadores sublinham que estes dados não apontam para uma retração do investimento, mas antes para uma postura mais prudente. “A passagem de uma maioria que afirmava aumentar os seus investimentos em 2023 para uma maioria que pretende apenas manter o nível atual em 2026 sugere uma atitude mais cautelosa perante as condições económicas, os custos e a incerteza no cenário internacional que afeta a atividade turística.”

Turismo continua a ter dificuldade em atrair talento

O Net Promoter Score (NPS), indicador que mede a predisposição para recomendar uma carreira no turismo, mantém-se em terreno negativo. Em 2026, o indicador caiu para -43 pontos, o pior resultado desde o início da série. Apenas 8% dos profissionais recomendariam uma carreira no setor, enquanto cerca de metade integra o grupo dos detratores.

Na leitura dos autores, o bom desempenho económico do turismo continua a não traduzir-se numa maior atratividade do setor enquanto opção de carreira. “O NPS relativo à recomendação de uma profissão no turismo situa-se em -42,9 pontos, com 50,8% de detratores e apenas 7,9% de promotores. Este resultado demonstra que o desempenho e as perspetivas económicas positivas do turismo não se traduzem automaticamente numa imagem igualmente favorável enquanto área profissional. A pressão sobre os custos, a instabilidade externa e interna e a falta de recursos humanos podem limitar a capacidade de crescimento das organizações e a sua atratividade.”

Os responsáveis pelo estudo deixam ainda uma nota metodológica, lembrando que “os resultados devem ser interpretados considerando as características da amostra, constituída sobretudo por profissionais ligados à hotelaria e à distribuição turística e com uma concentração significativa nos distritos de Lisboa e do Porto”. Por esse motivo, acrescentam, “o estudo representa uma fotografia das perceções dos participantes no Barómetro e não necessariamente a totalidade das organizações e profissionais do turismo em Portugal.”

Elaboração e Coordenação do projeto:

João Freire, Professor e Diretor da Licenciatura Marketing Global do IPAM Lisboa  

Sofia Almeida, Professora e Coordenadora da Área Turismo & Hospitalidade da Faculdade de Ciências Sociais e Tecnologia da Universidade Europeia.

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