“Se conseguirmos que uma rua histórica do Porto volte a ser um verdadeiro espaço de encontro, estaremos, à nossa escala, a contribuir para cidades mais abertas, mais humanas e mais vivas”
Há ideias que ficam connosco durante anos e cujo verdadeiro significado só percebemos muito mais tarde.
Em 2005, nas aulas de Geografia Urbana do Professor Nuno Pires Soares, que infelizmente este ano nos deixou, alertava-nos para uma transformação silenciosa das cidades. Enquanto celebrávamos um mundo cada vez mais global, construíamos novas barreiras. Erguiam-se muros nas fronteiras, multiplicavam-se os condomínios fechados, privatizavam-se espaços que antes eram públicos e a rua perdia, lentamente, a sua principal função: ser um lugar de encontro.
Vivemos numa sociedade mais conectada do que nunca, mas onde o contacto humano é cada vez mais escasso. O turismo continua a crescer, e ainda bem, mas cresce também a responsabilidade de garantir que esse crescimento beneficia quem vive nos destinos e quem os visita. Só quando uma comunidade sente orgulho em receber, convive naturalmente com o turismo e reconhece valor na sua presença é que o visitante consegue viver uma experiência genuína e memorável.
Talvez a resposta não esteja apenas nas grandes estratégias de desenvolvimento turístico. Talvez comece na escala mais simples: a rua.
A Rua de São João, no Porto, é um dos espaços mais emblemáticos da cidade. Desde a sua abertura, assumiu-se como uma importante ligação entre a Ribeira e a cidade, afirmando-se como um importante eixo comercial e social da cidade. Hoje continua a receber milhares de pessoas, mas, como tantas outras ruas históricas, arrisca-se a ser apenas um espaço de passagem.
Foi desta reflexão que nasceu o projeto Rua de São João | Uma Rua Viva. O objetivo nunca foi apenas organizar um evento. Foi criar oportunidades para que moradores, comerciantes, hotéis, restaurantes, instituições e visitantes se conhecessem, colaborassem, celebrassem e voltassem a viver a rua como um espaço comum.
Durante demasiado tempo habituámo-nos a pensar cada negócio de forma isolada. No entanto, uma rua só é verdadeiramente forte quando todos os que nela vivem e trabalham compreendem que o sucesso de cada um depende também da vitalidade do conjunto.
Esta é, na minha opinião, uma das grandes oportunidades do turismo nas próximas décadas.
Se durante anos falámos de sustentabilidade sobretudo na sua dimensão ambiental, hoje sabemos que existe outra dimensão igualmente importante: a sustentabilidade social. O turismo deve contribuir para fortalecer as comunidades, gerar relações, criar orgulho local e aproximar quem visita de quem vive nos destinos.
Foi precisamente isso que procurámos fazer no último sábado.
A Rua de São João abriu as suas portas. Os hotéis receberam moradores que nunca os tinham visitado. Restaurantes, lojas e edifícios históricos mostraram-se à cidade. Houve música, visitas guiadas, provas gastronómicas, um peddy paper que contou a história da rua e um brinde que juntou comerciantes, residentes e visitantes.
Mais importante do que o programa foi aquilo que aconteceu entre as pessoas. Conversas que normalmente não existiriam. Colaborações entre negócios vizinhos. Famílias a ocupar o espaço público. Turistas a descobrir a identidade da rua através de quem a vive todos os dias.
Durante algumas horas, a Rua de São João voltou a cumprir aquela que sempre foi a sua principal função: aproximar pessoas.
Num momento em que o mundo parece caminhar para o isolamento, talvez as cidades tenham uma responsabilidade acrescida. Criar espaços de encontro, incentivar a colaboração e reforçar o sentimento de comunidade.
Volto muitas vezes às aulas do Professor Nuno Pires Soares. Percebo hoje que não falava apenas de urbanismo. Falava da forma como escolhemos viver as nossas cidades.
E talvez essa seja uma das missões mais relevantes do turismo contemporâneo: não apenas trazer pessoas aos destinos, mas criar condições para que esses destinos sejam melhores lugares para quem os visita e, sobretudo, para quem lá vive.
Se conseguirmos que uma rua histórica do Porto volte a ser um verdadeiro espaço de encontro, estaremos, à nossa escala, a contribuir para cidades mais abertas, mais humanas e mais vivas.
No turismo fala-se muito de inovação, tecnologia e crescimento. Talvez seja tempo de voltarmos a falar também de proximidade, comunidade e pertença.
Porque, no final, o maior sucesso de um destino não se mede apenas pelo número de visitantes que recebe, mas pela vontade de quem lá vive em continuar a abrir-lhe a porta.
Este artigo é também uma forma de agradecer ao Professor Nuno Pires Soares, que me ensinou a olhar para as cidades para além dos edifícios, e a todas as pessoas que, com generosidade, acreditaram que uma rua pode voltar a unir uma comunidade. Este projeto é tanto delas como de quem um dia teve a coragem de sonhá-lo.

Por Fernando Assis Coelho
É licenciado em Geografia pela Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Turismo, com formações executivas na Porto Business School, SDA Bocconi, AESE Business School e Universidade de Londres. Estreou-se como assistente de direção no grupo hoteleiro escocês Brudolff, tendo exercido funções como diretor de hotel no grupo Pestana e Hotel Cidnay, bem como funções com responsabilidade no turismo do grupo Symington. É atualmente é diretor para Portugal do grupo hoteleiro Petit Palace.





Um exemplo a divulgar, seguir e multiplicar.
os meus parabens a todos os que o estao a fazer, orgulha-me como portugues mas sobretudo como portuense.
Que piada! Tenho 79 anos. Nasci na rua do comércio do porto, frequentei a escola primária da Ordem de S. Francisco, fiz a comunhão solene na igreja de S. Nicolau e o Crisma na Sé. A minha mãe trabalhava em tricô , para um casal que vendia para as lojas do bolhão e morava na rua se São João! Quase todos os dias ía a essa rua. Não inventem! Na época essa rua e a do infante eram armazéns de bacalhau, sal e afins! Rio-me dessas modernices, com o slogam de “antigo”. Só na vossa cabeça!😂😂😂
O Porto terá que ser uma cidade de proximidades, que a qualidade de vida das pessoas que a habitam ser o principal fator.
Obrigada pela excelente reflexão e por recordar o Nuno Pires Soares. Devo lhe muito do que sei sobre Lisboa, dos passeios por Lisboa enquanto lá vivi. Um colega disponível, amigo, sempre pronto a partilhar o seu conhecimento e as suas reflexões. É muito bom ver depoimentos sobre professores que fizeram a diferença. É a nossa maior recompensa. Espero que essas dinâmicas na rua de São João venham a ter impacto e servir de inspiração. Obrigada
Nasci…i na Rua de S João há 74.anos no n. 90