Reportagem | Famtrip da Solférias revela uma Boa Vista de resorts, dunas e hospitalidade cabo-verdiana

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A menos de quatro horas de Lisboa, a Boa Vista continua a afirmar-se como uma das principais portas de entrada dos portugueses para férias de sol e praia fora da Europa. Partilhando a língua portuguesa, laços históricos profundos com Portugal e um clima ameno durante todo o ano, a ilha cabo-verdiana mantém uma proposta simples, mas eficaz: praias intermináveis, águas de temperatura agradável e tranquilidade.

Entre os dias 26 e 30 de maio, o TNews participou numa famtrip organizada pela Solférias à Boa Vista, com voos diretos da TAP a partir de Lisboa. Ao longo de quatro dias, o programa incluiu inspeções a unidades hoteleiras e excursões pela ilha, proporcionando uma visão abrangente da oferta de um destino que continua a ocupar um lugar de destaque na programação dos operadores turísticos portugueses.

Ao contrário da ilha do Sal, que oferece uma maior concentração de animação, comércio e vida fora dos resorts, a Boa Vista continua a destacar-se por um ambiente mais tranquilo e por preços geralmente mais competitivos. Fora dos hotéis, as experiências centram-se sobretudo nas praias, nas dunas, nos passeios de barco e na descoberta das pequenas localidades espalhadas pela ilha, onde o turismo convive diariamente com uma realidade marcada por recursos limitados e por desafios de desenvolvimento.

VOI Praia de Chaves e Riu Karamboa

VOI Praia de Chaves

A estadia na Boa Vista ficou dividida entre duas unidades com posicionamentos bastante distintos, mas complementares na forma como ilustram a diversidade da oferta turística da ilha: o VOI Praia de Chaves e o RIU Karamboa.

Foi no VOI Praia de Chaves que o grupo iniciou a viagem. Situado numa posição elevada sobre a praia que lhe dá nome, o hotel beneficia de uma das vistas mais bonitas da ilha, com o Atlântico a surgir constantemente no horizonte.

Ao contrário do conceito de grande resort que domina parte da oferta da Boa Vista, o VOI Praia de Chaves apresenta uma escala mais humana. Os quartos estão distribuídos por pequenos blocos integrados na paisagem e a ausência de edifícios de grande dimensão faz com que o ambiente seja mais tranquilo e descontraído. A sensação é menos a de estar num resort e mais a de estar alojado numa pequena aldeia turística junto ao mar.

Com 276 quartos, a unidade encontra-se atualmente numa fase de renovação iniciada após a entrada da marca VOI Hotels, em 2023. Cerca de 70 quartos já foram remodelados e o objetivo passa por concluir a renovação da totalidade da oferta até ao final do próximo ano.

Apesar de registar uma ocupação próxima dos 85% durante a visita, o hotel nunca pareceu particularmente cheio. Segundo os responsáveis da unidade, cerca de 60% dos hóspedes são italianos, um mercado que privilegia longos períodos na praia e uma utilização menos intensa das áreas comuns.

Mas aquilo que mais se destaca no VOI Praia de Chaves não é necessariamente a infraestrutura. É a componente humana. Ao longo da estadia, o contacto com os colaboradores foi constante, seja numa simples conversa à beira da piscina, durante as refeições ou nos diferentes espaços do hotel. A simpatia, disponibilidade e informalidade do staff contribuem para criar uma experiência particularmente acolhedora, uma característica que continua a distinguir muitos dos empreendimentos turísticos cabo-verdianos.

A oferta gastronómica distribui-se por três restaurantes: o buffet principal, o restaurante de praia, que atualmente serve pizzas, hambúrgueres e pokes ao almoço, mas deverá evoluir para um conceito buffet, e um restaurante gourmet especializado em marisco e lagosta, disponível mediante pagamento adicional.

Uma das novidades mais recentes é o restaurante temático cabo-verdiano junto ao bar da piscina, inaugurado este ano e onde decorreu o jantar da primeira noite, numa tentativa de aproximar os hóspedes da gastronomia local.

A unidade conta ainda com duas piscinas principais de água salgada, piscina infantil, centro de desportos náuticos, campos de ténis, padel e pickleball, kids club e uma área de spa com sauna, banho turco e piscina interior climatizada.

Praia das Dunas, partilhada pelos hotéis RIU Karamboa e RIU Palace

Se o VOI Praia de Chaves se posiciona como uma opção mais serena e familiar, o RIU Karamboa representa o conceito clássico de resort all inclusive de grande dimensão. Foi também nesta unidade que decorreu a segunda metade da nossa estadia na Boa Vista. 

Exclusivamente para adultos, o hotel dispõe de 968 quartos e assume-se como uma das maiores unidades turísticas da Boa Vista. Renovado há cerca de três anos, apresenta uma imagem mais contemporânea do que o VOI, com quartos modernos, áreas comuns amplas e uma operação claramente desenhada para receber um elevado volume de hóspedes.

Aqui, a sensação de resort é imediata. Os edifícios são maiores, os espaços mais amplos e a animação assume um papel muito mais central na experiência.

A oferta gastronómica é também mais abrangente. Além do restaurante buffet principal, os hóspedes podem escolher entre três restaurantes temáticos – italiano, asiático e de fusão mediterrânica – todos incluídos no regime all inclusive.

O serviço revela-se inevitavelmente mais impessoal, algo compreensível numa operação desta dimensão. Ainda assim, o hotel compensa essa diferença através da diversidade de infraestruturas e da oferta de entretenimento.

RIU Karamboa

Um dos maiores trunfos do RIU Karamboa é precisamente a animação. Além dos programas diurnos, piscinas com bares e atividades regulares, os hóspedes têm acesso às famosas RIU Party, que se tornaram uma das imagens de marca da cadeia. Realizadas às sextas-feiras e abertas aos clientes de diferentes unidades RIU na ilha, estas festas combinam atuações de DJs, coreografias protagonizadas pelas equipas de animação, efeitos visuais e uma seleção musical centrada em êxitos bem conhecidos do grande público.

Enquanto o VOI Praia de Chaves poderá ser mais indicado para famílias, casais ou viajantes que privilegiam tranquilidade e proximidade humana, o RIU Karamboa responde melhor a quem procura uma experiência all inclusive mais completa, com maior oferta gastronómica, animação e ambiente de resort internacional.

Uma oferta que vai além dos grandes resorts

Além dos hotéis onde ficámos alojados, a famtrip organizada pela Solférias incluiu várias visitas de inspeção que permitiram conhecer diferentes propostas de alojamento na Boa Vista. Embora o segmento all inclusive continue a dominar a oferta da ilha, existem diferenças significativas entre unidades, quer ao nível do posicionamento, quer do público-alvo.

Localizado ao lado do RIU Karamboa e partilhando a privilegiada Praia das Dunas, o RIU Palace apresenta-se como a alternativa para famílias dentro da oferta da cadeia espanhola na Boa Vista.

Com 510 quartos, o hotel combina uma imagem mais elegante e contemporânea com uma forte componente familiar. O destaque vai para a zona Riuland, dedicada às crianças, que inclui piscina própria, parque aquático infantil e atividades organizadas, bem como para os quartos familiares e para os exclusivos quartos swim-up reservados a adultos.

Os hóspedes têm ainda acesso ao Splash Water World, o parque aquático partilhado pelas unidades RIU da ilha, que acrescenta uma componente de entretenimento particularmente valorizada pelas famílias.

A componente gastronómica assume igualmente um papel central, com vários restaurantes temáticos incluídos no regime tudo incluído, entre os quais opções asiáticas, steakhouse e cozinha gourmet contemporânea.

Comparativamente ao RIU Karamboa, transmite uma atmosfera mais tranquila durante o dia, sem abdicar da dimensão e da variedade de serviços típicas dos grandes resorts internacionais.

Conhecido durante muitos anos como Royal Horizon Boa Vista, o atual Occidental Boa Vista Beach atravessa uma profunda fase de transformação desde a integração na marca Occidental, do grupo Barceló.

Quarto renovado do Occidental Boa Vista Beach

Situado na Praia de Chaves, o hotel mantém uma das localizações mais privilegiadas da ilha e continua a destacar-se pelas vistas panorâmicas sobre o oceano. Com cerca de 308 quartos atualmente, a unidade está a renovar progressivamente os alojamentos e prevê aumentar a capacidade para cerca de 450 quartos.

As diferenças entre os quartos renovados e os mais antigos são particularmente evidentes, refletindo o reposicionamento que a unidade pretende alcançar nos próximos anos.

Os planos passam ainda pela criação de novos restaurantes temáticos, uma zona Royal Level exclusiva para adultos, com piscina e restaurante dedicados, e pela modernização de diversas áreas comuns. O processo deverá culminar com o encerramento temporário da unidade a 1 de maio do próximo ano, permitindo concluir as intervenções finais antes da reabertura do hotel já totalmente renovado.

A direção acredita que esta transformação permitirá reposicionar o empreendimento num segmento mais elevado.

Entre as unidades visitadas, o Barceló Marine Boa Vista foi uma das surpresas da viagem. Exclusivamente para adultos, apresenta um conceito mais intimista e descontraído, aproximando-se, em certa medida, da atmosfera encontrada no VOI Praia de Chaves.

Com apenas 160 quartos distribuídos por seis tipologias, o hotel privilegia a tranquilidade e a privacidade. Os quartos destacam-se pela decoração contemporânea e pelas áreas generosas, enquanto os espaços comuns mantêm uma escala bastante mais reduzida do que a dos grandes resorts da ilha.

Situado na Praia de Cruz, a poucos minutos a pé de Sal Rei, constitui uma opção interessante para quem pretende combinar descanso com alguma proximidade à principal localidade da Boa Vista. A pequena enseada em frente ao hotel oferece acesso direto ao mar, embora a experiência esteja claramente mais orientada para os hóspedes que privilegiam a piscina e um ambiente mais reservado.

A poucos minutos do centro de Sal Rei, o Oasis White Hotel representa uma proposta diferente da habitual oferta turística da Boa Vista.

Com apenas 67 quartos, este hotel urbano afasta-se do conceito de resort tudo incluído e pode ser uma solução interessante para viajantes que valorizam maior autonomia durante a estadia. Os quartos apresentam uma decoração luminosa e funcional, enquanto a pequena piscina localizada no rooftop oferece vistas sobre a cidade e a costa.

Em frente ao hotel encontra-se uma das praias mais abrigadas e tranquilas observadas durante a viagem, funcionando quase como uma pequena baía. Ao contrário das praias associadas aos grandes resorts da ilha, não dispõe de concessão nem de serviços de apoio dedicados aos hóspedes. Em compensação, oferece um ambiente mais local e descontraído. A proximidade ao centro de Sal Rei permite ainda explorar facilmente restaurantes, bares e comércio local, algo menos acessível a partir dos grandes empreendimentos turísticos espalhados pela ilha. 

Entre desertos, tartarugas e os primeiros povoados da ilha

Embora os resorts continuem a ser a principal porta de entrada para quem visita a Boa Vista, bastam algumas horas fora do hotel para perceber que a ilha tem muito mais para oferecer do que praias e programas all inclusive.

Ao longo da famtrip organizada pela Solférias, participámos em excursões ao norte e ao sul da ilha, além de um passeio de catamarã pela costa, experiências que permitiram conhecer uma Boa Vista mais autêntica e diversificada. As deslocações foram realizadas nos típicos jipes utilizados nas excursões locais, com alguns participantes no interior e outros na caixa traseira. Entre estradas de terra batida, trilhos arenosos e passagens pelas dunas, a própria viagem acaba por fazer parte da experiência.

A excursão ao sul da Boa Vista começou na Povoação Velha, considerada a localidade mais antiga da ilha. Fundada no século XVII, foi um dos primeiros núcleos populacionais do território e mantém ainda hoje um ambiente tranquilo, marcado pelas casas coloridas e pelo ritmo descontraído típico de Cabo Verde.

Foi também aqui que encontrámos uma homenagem a Maria Barba, cantora e compositora associada à morna, género musical que continua profundamente ligado à identidade cabo-verdiana. Na mesma zona encontra-se um mural dedicado a Frank Brito, uma figura bem conhecida na ilha. Artesão desde os 14 anos, dedica-se à produção de chapéus de palha e continua a receber visitantes no seu pequeno atelier. Não é raro encontrá-lo sentado em frente ao mural que o homenageia em vida, a cantar mornas para quem passa.

A visita incluiu ainda uma degustação de grogue, a bebida tradicional cabo-verdiana produzida a partir da cana-de-açúcar, apresentada em diferentes versões e sabores.

A sul, a paisagem muda rapidamente. As estradas de terra conduzem a cenários quase desérticos, onde a vegetação escasseia e o Atlântico surge em contraste com as dunas e formações rochosas. Entre as paragens mais conhecidas está a chamada Gruta dos Desejos, escavada pela erosão marinha, e a Baía das Tartarugas, uma das zonas de observação destes animais que fizeram da Boa Vista um dos mais importantes locais de desova da tartaruga-careta (Caretta caretta) no Atlântico.

A paisagem é dominada por extensos areais e dunas que ajudam a justificar a alcunha frequentemente atribuída à Boa Vista: a “ilha das dunas”. O contraste entre o azul intenso do oceano e os tons dourados da areia é uma constante ao longo do percurso.

Se o sul impressiona pelas paisagens, o norte oferece um contacto mais próximo com a vida quotidiana da ilha. Ao longo das excursões, uma das figuras centrais são os próprios guias locais, na sua maioria jovens cabo-verdianos oriundos de diferentes ilhas do arquipélago, que encontram no turismo uma oportunidade profissional e uma forma de partilhar a história e a cultura do país. Foi o caso de Jorge, cuja paixão pela história de Cabo Verde transformou cada paragem numa oportunidade para compreender melhor a realidade da ilha.

Em Rabil, segunda maior localidade da Boa Vista, o turismo convive com atividades tradicionais como a criação de gado e o artesanato. Foi aqui que visitámos a escola de olaria local, um projeto comunitário aberto a residentes e visitantes onde é possível acompanhar gratuitamente o processo de produção das peças e adquirir trabalhos realizados pelos artesãos da região.

A localidade preserva ainda alguns dos traços mais tradicionais da ilha. Segundo os guias locais, muitos dos habitantes mais velhos continuam ligados à agricultura, à pecuária e às atividades associadas ao turismo, enquanto serviços como ensino secundário, farmácias ou abastecimento de combustível obrigam frequentemente deslocações a Sal Rei.

O percurso incluiu também uma visita à Igreja de São Roque, construída em 1806, e à Capela de Nossa Senhora de Fátima, uma pequena igreja isolada sobre uma formação rochosa que se tornou um dos locais mais fotografados da ilha.

O percurso seguiu depois para alguns dos ex-líbris da Boa Vista. Entre eles está o Deserto de Viana, considerado uma das sete maravilhas naturais de Cabo Verde. Formado por areias trazidas do Saara pelos ventos alísios, o local oferece uma paisagem surpreendente, mais associada ao Norte de África do que a uma ilha atlântica.

Naufrágio do Cabo Santa Maria

Foi também aqui que experimentámos uma das atividades mais populares entre os visitantes: descer as dunas em pranchas de madeira, numa versão improvisada de sandboard que se tornou presença habitual nos programas de excursão.

Pouco depois surge outro dos ícones da ilha: o naufrágio do Cabo Santa Maria. O cargueiro espanhol encalhou na costa norte em 1968 e permanece até hoje parcialmente visível na Praia de Atalanta, transformando-se num dos cenários mais fotografados da Boa Vista. Com o passar das décadas, a estrutura enferrujada acabou por se tornar um símbolo da ilha e uma das suas imagens mais reconhecidas internacionalmente.

A estadia na ilha terminou de forma mais descontraída, a bordo de um catamarã que percorreu parte da costa da Boa Vista.

Este tipo de passeio é uma das atividades complementares mais procuradas pelos turistas que visitam a ilha. Além da navegação ao longo da costa, os programas incluem normalmente animação, bebidas a bordo e paragens para mergulho ou snorkeling.

Durante a saída, alguns participantes optaram por explorar os fundos marinhos, enquanto outros aproveitaram para desembarcar num banco de areia e desfrutar de algumas horas de praia deserta.

É uma experiência simples, mas que permite observar a ilha sob uma perspetiva diferente. Vista do mar, a Boa Vista revela aquilo que continua a ser o seu principal ativo: dezenas de quilómetros de praias praticamente intocadas e uma sensação de espaço difícil de encontrar noutros destinos de sol e praia.

Ao longo de quatro dias, a ilha confirmou a proposta que a tornou uma das principais apostas do turismo português em Cabo Verde. Os grandes resorts continuam a ser o principal motor da atividade turística, mas coexistem com pequenas povoações, tradições locais e uma hospitalidade que permanece uma das imagens de marca do arquipélago.

Num mercado cada vez mais competitivo, a Boa Vista não procura competir pela quantidade de atrações ou pela intensidade da experiência. O seu apelo continua a residir noutras qualidades: a proximidade a Portugal, o clima, as praias, o ritmo tranquilo e a autenticidade de uma ilha que, apesar da crescente presença do turismo, continua a preservar uma identidade muito própria.

Tnews

*A jornalista viajou a convite do operador turístico Solférias.

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