A ligação aérea direta entre Lisboa e Montego Bay voltou a aproximar a Jamaica dos viajantes portugueses. Num ano, o número de visitantes nacionais multiplicou-se e Portugal tornou-se um dos mercados europeus que mais cresceram para o destino. Ao longo de sete dias percorremos a costa norte e oeste da ilha para perceber o que está por detrás deste interesse crescente e descobrir uma Jamaica muito diferente da imagem construída pelas praias das Caraíbas, pelo reggae e por Bob Marley.
Essa mudança começou no verão de 2025, quando o operador turístico World2Meet inaugurou uma ligação aérea direta entre Portugal e a Jamaica, com uma frequência semanal, à quarta-feira, operada pela World2Fly entre junho e 1 de outubro. Um ano depois, a operação regressou para uma segunda temporada, reforçando a aposta num mercado que tem vindo a responder acima das expectativas. Segundo o Jamaica Tourist Board, o número de visitantes portugueses passou de 396, em 2024, para mais de seis mil em 2025, impulsionado precisamente por esta nova ligação aérea.
“Foi um salto enorme. Estamos extremamente satisfeitos com a parceria com a World2Meet, Newblue e World2Fly”, explica Paula Powell, Business Development Officer do Jamaica Tourist Board.
A responsável sublinha que, apesar de Portugal dispor apenas de uma frequência semanal numa operação charter sazonal, o mercado português já é o terceiro maior emissor da Europa Continental para a Jamaica, apenas atrás da Alemanha e de Itália. “Esperamos conseguir crescer ainda mais. Gostaria muito de ver duas frequências semanais, porque isso permitiria estadias de dez ou onze noites e daria aos visitantes mais tempo para conhecer diferentes regiões da ilha”, afirma.
O reforço da acessibilidade coincide com uma estratégia mais ampla do destino para diversificar a oferta turística. À expansão da capacidade hoteleira juntam-se investimentos em infraestruturas, formação dos profissionais do setor e desenvolvimento de novas experiências, com o objetivo de distribuir melhor os visitantes pelo território e incentivar um contacto mais próximo com a cultura local.
À nossa espera no Aeroporto Internacional Sangster estava Paula Powell, que nos acompanharia durante toda a semana e acabaria por ajudar a interpretar muitas das histórias, tradições e particularidades da ilha.
“A Jamaica é uma marca”, disse-nos ainda durante a viagem entre o aeroporto e o hotel. “Digam em qualquer parte do mundo que são jamaicanos e toda a gente sorri, começa logo a falar como um jamaicano ou a cantar Bob Marley. (…) Poucos países com apenas 2,8 milhões de habitantes têm este nível de reconhecimento mundial.”

A Jamaica abraça os símbolos que a tornaram conhecida – Bob Marley, o reggae, o rum, o café Blue Mountain ou o tempero jerk -, mas rapidamente percebemos que reduzir o país a esses elementos seria ignorar uma realidade muito mais diversa. É também um destino marcado por uma paisagem verde e montanhosa, com rios, cascatas, florestas tropicais e uma oferta crescente de atividades ligadas à natureza e à aventura.
“A Jamaica não é um destino de ‘isto ou aquilo’. É um destino de ‘isto e aquilo, e muito mais'”, resume Paula na entrevista concedida ao TNews. “Se procura luxo, encontra-o. Se procura aventura, também. Se procura tranquilidade, igualmente. O que realmente nos distingue é a diversidade e a autenticidade das experiências.”
Essa diversidade assenta também na história da ilha. Habitada originalmente pelos Taíno, a Jamaica foi reclamada por Cristóvão Colombo em 1494 ao serviço da Coroa espanhola e passou, mais tarde, para domínio britânico durante mais de três séculos. A produção de açúcar impulsionou a escravatura e deixou uma herança que continua presente na gastronomia, na música, na religião e nas comunidades Maroon, descendentes de escravos fugitivos que preservam parte das suas tradições.
“Todos os países têm uma história. O que nos diferencia é a forma como utilizamos essa história e essa mistura de culturas para construir aquilo que somos hoje”, defende Paula.
A segurança continua a ser uma das perguntas que a responsável mais ouve quando promove o destino. A responsável reconhece que, como acontece em muitos países, existem zonas que não fazem parte dos circuitos turísticos e onde não recomenda que os visitantes circulem sozinhos, mas garante que as principais áreas turísticas são seguras.
“O verdadeiro perigo para quem nos visita não é a criminalidade, é a segurança rodoviária”, repetiu-nos mais do que uma vez. Ao longo da semana assistimos a várias ultrapassagens em troços de reduzida visibilidade e a algumas manobras que dificilmente passariam despercebidas em Portugal, uma realidade que acabou por confirmar as sucessivas referências da responsável à condução na ilha.
Princess Grand Jamaica: Um resort que mostra a nova geração da hotelaria jamaicana


A cerca de uma hora do aeroporto chegámos ao Princess Grand Jamaica, em Green Island, no extremo ocidental da costa norte.
Inaugurado em novembro de 2024, o resort integra um complexo que inclui também o Princess Senses The Mangrove, exclusivo para adultos, e representa uma das mais recentes apostas da Jamaica no segmento premium.
Foi aqui que passámos as duas primeiras noites. Com 590 suites voltadas para o mar, o Princess Grand Jamaica foi pensado sobretudo para famílias, enquanto a unidade adults only aposta num conceito mais exclusivo.
Durante a visita percebemos rapidamente que o objetivo vai muito além do tradicional resort de praia. O complexo reúne parque aquático, um kids club enorme, várias piscinas, espaços desportivos, uma oferta diversificada de restauração e um programa diário de atividades, procurando responder a diferentes perfis de hóspedes. Está também prevista a abertura do primeiro casino oficialmente licenciado da Jamaica, acessível não apenas aos clientes do hotel, mas também ao público.
Na unidade Princess Senses The Mangrove, o destaque vai para as 14 water villas construídas sobre o mar, um conceito ainda pouco comum na Jamaica e inspirado noutros destinos tropicais.

A componente gastronómica foi um dos aspetos que mais nos surpreendeu. Durante a estadia experimentámos dois dos restaurantes da unidade adults only – The Pearl, dedicado ao marisco, e Robert’s Flame, especializado em carnes – e encontrámos uma qualidade superior à habitualmente associada aos regimes de tudo incluído. A confeção, a apresentação e a diversidade da oferta revelam uma aposta clara na valorização da experiência gastronómica.
Nem tudo, contudo, é perfeito. A praia em frente ao resort é artificial e um pouco rochosa, o que limita a experiência balnear. Ao longo da semana descobrimos, aliás, que algumas das melhores praias da Jamaica ficam fora dos grandes empreendimentos turísticos, em extensos areais públicos onde turistas e habitantes locais convivem naturalmente.
A Jamaica não vive apenas do mar
Foi precisamente à procura dessa outra Jamaica que deixámos o resort na manhã seguinte. “Temos hotéis fantásticos, praias e natureza, mas queremos que as pessoas saiam e conheçam a verdadeira Jamaica”, disse-nos Paula Powell. “A autenticidade, as pessoas e as experiências culturais são aquilo que realmente nos distingue.”
A poucos quilómetros do Princess Grand Jamaica fica o Bambuza – The Adventure Kingdom. À primeira vista, parece um parque de aventura, mas rapidamente entendemos que também procura dar a conhecer parte da biodiversidade e das tradições da ilha.
Enquanto caminhamos entre animais de quinta e vegetação tropical, cada planta surge acompanhada por uma explicação. Conhecemos a spirit weed, associada pela tradição popular à proteção contra maus espíritos; o fruto da calabash, utilizado na construção de maracas artesanais; a african tulip tree, que, segundo Paula Powell, servia de referência aos escravos que fugiam das plantações; e a trumpet tree, conhecida localmente como “the weather man“, por muitos acreditarem que as suas folhas anunciam a chegada da chuva. Pelo caminho, provámos ainda tamarindo e a chamada Jamaican apple.


A tranquilidade dura pouco. Primeiro chega a tirolesa, que nos faz atravessar a copa das árvores suspensos por cabos de aço. Depois, trocamos os equipamentos de segurança pelas moto4 e a experiência muda completamente de ritmo.
Os primeiros minutos servem para ganhar confiança, mas rapidamente percebemos que o percurso seria mais exigente do que imaginávamos. Entre lama, pedras, subidas e descidas acentuadas, houve momentos em que preferimos reduzir bastante a velocidade. A poeira levantada pelos veículos da frente diminuía a visibilidade e, em alguns troços mais estreitos, bastava um pequeno erro para perder o controlo da moto4. A adrenalina fez parte da experiência, mas também algum receio. No final, a sensação de missão cumprida acabou por se sobrepor ao nervosismo dos primeiros quilómetros.
Ao longo das deslocações entre hotéis e excursões, as conversas com Paula acabaram por funcionar como uma aula informal sobre a Jamaica. Foi nessas viagens que compreendemos como a história continua presente no quotidiano da ilha, desde os nomes de origem espanhola de localidades como Ocho Rios, Rio Bueno ou Seville até às tradições preservadas pelas comunidades Maroon e à própria gastronomia.
A herança colonial continua particularmente visível na cozinha jamaicana. Poucos pratos simbolizam tanto o país como a jerk chicken, mas a origem desta técnica de confeção remonta ao período da escravatura.
“Os escravos que fugiam para as montanhas precisavam de cozinhar sem produzir fumo que denunciasse a sua localização”, explica Paula Powell. “Começaram a cozinhar a carne lentamente em buracos escavados no solo, utilizando pimento wood, que lhe dava um sabor muito característico. Foi assim que nasceu o jerk.” Atualmente, acrescenta, a confeção tornou-se mais comercial, mas continua a obedecer aos mesmos princípios e beneficia de uma Indicação Geográfica protegida.
Dias mais tarde, quando provámos uma autêntica jerk chicken, percebemos que estávamos também a provar um pedaço da história da Jamaica.
No dia seguinte seguimos para Negril, na costa oeste da ilha. Conhecida pela Seven Mile Beach e pelos pores do sol, a região é, juntamente com Montego Bay e Ocho Rios, um dos três principais polos turísticos do país, mas também aqui compreendemos que a Jamaica é muito mais do que praia.
O destino da manhã era o Wavz Beach Club, junto à Seven Mile Beach. A extensa faixa de areia branca e o mar transparente são impossíveis de ignorar, mas o verdadeiro motivo da visita aguardava-nos alguns metros mais à frente.


Herbert Brooks, mais conhecido por Calbert, recebeu-nos acompanhado pelo grupo Calbert & All Star Drummers. À nossa frente alinham-se djambés, tambores tradicionais e outros instrumentos de percussão construídos artesanalmente. Poucos minutos depois, já ninguém permanece quieto no seu lugar.
Enquanto tentamos acompanhar o ritmo, Calbert alterna entre a música, a dança e pequenas explicações sobre o significado cultural daquela tradição.
“Continuo a tocar porque sinto que é a minha responsabilidade preservar a cultura jamaicana”, conta-nos. “Mesmo depois da tempestade [Melissa], continuámos a reunir-nos aqui para tocar. As pessoas precisavam de aliviar a mente. A música ajuda a fazer isso.”
Foi uma das muitas referências ao Melissa que ouvimos ao longo da semana. A tempestade, que atingiu a Jamaica em outubro de 2025, continua muito presente na memória dos habitantes e deixou marcas visíveis em várias zonas da ilha. Durante as deslocações cruzámo-nos com árvores derrubadas, edifícios ainda em reparação e alguns empreendimentos turísticos que permaneciam encerrados, apesar de a maioria das atrações e hotéis já ter retomado a atividade. A recuperação do setor tem sido progressiva, mas os efeitos do Melissa continuam bem presentes no quotidiano de quem vive na ilha.
Percebemos, por isso, que quando Calbert fala da música como forma de ajudar as pessoas a “aliviar a mente”, não se refere apenas à preservação de uma tradição cultural. Fala também da forma como a comunidade encontrou um espaço para voltar a reunir-se depois de um dos episódios mais marcantes da história recente da Jamaica.
Todas as quartas-feiras, entre as 15h00 e as 18h00, aquele pequeno espaço transforma-se num ponto de encontro aberto a habitantes e visitantes, onde qualquer pessoa pode juntar-se ao círculo de tambores. Mais do que um espetáculo para turistas, é um momento de partilha que ajuda a perceber como a música continua profundamente ligada à identidade jamaicana.
Ao lado, pequenos artesãos vendem esculturas em madeira, pinturas e outros objetos feitos à mão. Voltamos também a ouvir uma das expressões que Paula nos ensinara logo à chegada ao aeroporto: “wah gwaan?“, equivalente ao nosso “como estás?”. A segunda acabaria por resumir quase toda a filosofia jamaicana: “irie.” Uma palavra difícil de traduzir literalmente, mas que significa algo próximo de bem-estar, tranquilidade, equilíbrio ou, simplesmente, “está tudo bem”.

A poucos metros do Wavz Beach Club embarcámos numa pequena Glass Bottom Boat Tour, organizada pela Negril Ocean Adventure Tours. À primeira vista, trata-se apenas de um barco de reduzidas dimensões, mas basta afastarmo-nos alguns metros da costa para percebermos o motivo do nome.
O fundo em vidro permite observar, sem entrar na água, os peixes tropicais que circulam entre pequenas formações de coral e estrelas-do-mar espalhadas pelo fundo arenoso. Para quem quiser prolongar a experiência, existe ainda a possibilidade de fazer snorkeling em diferentes pontos da costa. No entanto, há um pormenor a ter em conta: sendo uma embarcação pequena, o movimento das ondas sente-se bastante. Quem tem tendência para enjoar dificilmente chegará ao final do passeio sem o notar.
De regresso à praia voltámos a confirmar uma ideia que se repetiria ao longo da viagem. Na Jamaica, algumas das praias mais bonitas não pertencem aos resorts. São praias públicas, onde turistas e habitantes locais partilham naturalmente o mesmo espaço.
Ao final da tarde seguimos para outro dos locais mais emblemáticos de Negril: o Rick’s Café. Fundado em 1974, tornou-se um dos maiores ícones turísticos da Jamaica. Construído sobre escarpas calcárias, continua diariamente a atrair centenas de visitantes que ali se reúnem para assistir às atuações de música ao vivo, aos mergulhos a partir da falésia e ao pôr do sol.
Ali, o espetáculo acontece em dois cenários ao mesmo tempo. Enquanto o sol desaparece lentamente no horizonte, dezenas de pessoas sobem às plataformas instaladas na falésia para mergulharem no mar. Alguns saltos fazem-se a poucos metros de altura, outros ultrapassam facilmente os dez metros. Quem prefere não arriscar pode simplesmente acompanhar o momento ao som do reggae, com uma cerveja Red Stripe na mão.
Quando os últimos tons dourados desaparecem sobre o mar das Caraíbas, torna-se fácil perceber porque é que este continua a ser um dos locais mais fotografados da Jamaica.
Ao terceiro dia da viagem tornava-se evidente que a Jamaica dificilmente cabe na imagem construída ao longo de décadas pelo reggae, por Bob Marley ou pelas praias paradisíacas. A verdadeira identidade da ilha revela-se sobretudo nas pequenas conversas, nas histórias que sobrevivem ao tempo e na forma como os jamaicanos recebem quem chega. Era essa Jamaica que continuaríamos a descobrir nos dias seguintes.







Marvellous Jamaica!