Terça-feira, Março 10, 2026
Terça-feira, Março 10, 2026

SIGA-NOS:

Reter talento: o desafio estrutural do Douro

O Douro tem vindo a afirmar-se como destino turístico de excelência, mas enfrenta um problema estrutural que, se não for resolvido, pode comprometer o futuro: a dificuldade em manter os profissionais qualificados na região.

Seria irrealista pensar que o Douro pode competir com os grandes centros urbanos no que toca a salários mais competitivos e diversidade de oportunidades. Mas há um caminho possível, que passa por criar condições de vida que tornem a região atrativa para quem nela quer trabalhar e, sobretudo, construir futuro.

Reter talento não é apenas pagar mais. É garantir que aqueles que escolhem ficar encontram respostas para as suas necessidades mais básicas e estruturais:

  • Habitação acessível – condição fundamental para qualquer jovem que queira iniciar vida profissional e familiar na região;
  • Acesso à saúde – com serviços eficazes e próximos, que evitem deslocações constantes;
  • Planos de carreira claros – que deem perspetiva de evolução dentro das empresas locais;
  • Condições para a vida em família – desde creches e escolas a transportes e serviços de proximidade.

Formar e perder talento: um ciclo que é preciso quebrar

A realidade é que muitas instituições do Douro já formam profissionais competentes – mas acabam por perder esse capital humano para Lisboa, Porto ou até para o estrangeiro. Este ciclo precisa ser quebrado.

Não há oferta de luxo sem profissionais altamente capacitados, motivados e preparados para o grau de exigência que este setor implica.

Por outro lado, não podemos falar do problema da mão de obra na região sem considerar a grande mudança de mentalidade da nova geração. Estes jovens estão mais informados, procurando equilíbrio, flexibilidade, propósito e reconhecimento. Para as empresas da região, criar condições de vida e de trabalho adequadas, oferecer perspetivas de carreira claras e um ambiente valorizador torna-se essencial para reter talento.

Outro tema incontornável na discussão sobre retenção de talento é a questão dos salários, embora subsista um tabu persistente. Todos dizem que pagam acima da média no Douro, mas onde estão os números que sustentam essas afirmações? Porque é que se esconde tanto os valores concretos? Esta falta de clareza impede que haja uma verdadeira discussão sobre competitividade salarial na região.

A ponte que falta: formação e empregabilidade

Com formação em Hotelaria, Restauração e Organização e Controlo (2005) e Licenciatura em Gestão Turística, Cultural e Patrimonial (2012), trabalhei em hotéis e restaurantes antes de me tornar formadora nestas áreas, durante 11 anos, comprovando que há espaço para melhorar a comunicação e a articulação entre as entidades de ensino e formação e as empresas da região.

Nos últimos anos, a expressão “trabalho em rede” tornou-se quase um mantra. Mas se esse trabalho em rede tem de começar em algum lado, será precisamente entre escolas, universidades, centros de formação e empresas locais.

Seria justo, no mínimo, que as empresas do Douro estivessem na linha da frente das oportunidades de integração de estagiários. Porém, estes definem os seus futuros sem conhecerem as opções locais, desperdiçando-se a possibilidade de captar talento logo na origem.

Na nossa região, grande parte das atividades turísticas ainda é fortemente sazonal, com muitas empresas a sentirem uma quebra abrupta nos seus rendimentos entre novembro e fevereiro. No entanto, a maioria mantêm os colaboradores porque sabe valorizar o capital humano. Neste contexto, seria justo que as empresas recebessem apoio, por exemplo através de formação contínua, promovida pelas entidades ligadas ao turismo, destinada a profissionais de todas as áreas da região.

O papel das entidades do setor

Entretanto, quantas ações existem nas universidades, como a UTAD ou a ESTGL, em que as empresas são convidadas a participar e apresentar a sua perspetiva? Quantas reuniões de trabalho existem entre empresas, autarcas ou presidentes de junta? Quantas empresas são efetivamente ouvidas pelas entidades ligadas ao turismo antes de decisões estratégicas serem tomadas?

Só com uma rede bem estruturada, onde formação e empregabilidade se cruzem de forma natural, será possível criar o círculo virtuoso que o Douro precisa: formar, integrar e reter talento.

A responsabilidade é coletiva: empresas, entidades de ensino, autarquias e instituições públicas, todos têm um papel a desempenhar. O caminho para transformar o Douro num destino que retém talentos passa por uma mobilização conjunta, mas começa por cada voz que se levanta com conhecimento, experiência e compromisso.

Porque o verdadeiro luxo não está apenas nas paisagens ou nos vinhos da região. Está nas pessoas que dão vida a cada experiência. Se quisermos crescer em valor, precisamos primeiro de garantir que o Douro é, também, um lugar onde vale a pena viver e ficar.

Por Ana Clara Silva

Diretora de Operações da Pipadouro, empresa de turismo fluvial de luxo no Douro

-PUB-spot_img

DEIXE A SUA OPINIÃO

Por favor insira o seu comentário!
Por favor, insira o seu nome aqui