A LUGGit, startup portuguesa que permite recolher, armazenar e entregar bagagens no local e horário escolhidos pelo viajante, prepara uma nova fase de expansão internacional e pretende alargar o serviço a novos segmentos, da aviação e cruzeiros ao transporte ferroviário. Em entrevista ao TNews, Ricardo Figueiredo, cofundador e CEO da empresa, revela ainda que a LUGGit prevê realizar uma nova ronda de financiamento para apoiar a entrada em mercados estratégicos e desenvolver novos modelos de operação e produto.
Fundada em 2019, a LUGGit está atualmente presente em três países – Portugal, Espanha e Grécia – e oito cidades: Lisboa, Porto, Madrid, Barcelona, Atenas, Rodes, Mykonos e Creta. Com uma equipa de 10 pessoas, movimenta mais de 50 mil bagagens por ano e tem vindo a reforçar a componente empresarial do negócio, que representa cerca de 30% da atividade e está a crescer.
A empresa nasceu com uma abordagem essencialmente dirigida ao consumidor final, mas está “cada vez mais presente no modelo B2B”, explica Ricardo Figueiredo, considerando que esta evolução permite “uma expansão mais eficiente”.
Portugal mantém-se, neste contexto, como um mercado estratégico. “Acreditamos que ainda tem muito para crescer”, afirma o responsável, reconhecendo que Espanha e Grécia são mercados de maior dimensão, mas salientando que Portugal continua a funcionar como “plataforma de lançamento e testes para muitas dinâmicas que viremos a replicar no estrangeiro”.
Entre os parceiros considerados estratégicos pela LUGGit estão atualmente a TAP Air Portugal, em Portugal, e a Wilhelmsen Port Services, na Grécia. A empresa trabalha ainda com gestores de alojamento local, hotéis, DMC e agências de viagens, parceiros que Ricardo Figueiredo considera terem “uma importância muito grande no desenvolvimento” do negócio.
Piloto com TAP e Norwegian abre caminho a novos serviços
Um dos exemplos da evolução do modelo B2B foi o projeto-piloto de remote baggage check-in realizado a 10 de novembro de 2025, em Lisboa, com a TAP Air Portugal e a Norwegian Cruise Line. A operação permitiu aos passageiros de cruzeiros entregar a bagagem no Terminal de Cruzeiros de Lisboa e voltar a ter contacto com as malas apenas no destino final, depois de realizado o respetivo check-in para os voos da TAP.
O piloto envolveu 188 passageiros e 221 bagagens, distribuídas por 32 voos da TAP com partida de Lisboa, sem registo de perdas ou danos. A iniciativa surgiu de uma necessidade identificada pela Norwegian Cruise Line, que já tinha utilizado um conceito semelhante em voos domésticos nos Estados Unidos e considerou que os passageiros que tinham adquirido cruzeiro e transporte aéreo com a TAP poderiam beneficiar de uma solução que lhes permitisse passar o último dia em Lisboa sem transportar as malas.
“A Norwegian Cruise Line entendeu que isto poderia ser algo interessante”, explica Ricardo Figueiredo. A operadora abordou a TAP e, devido à parceria existente entre a companhia aérea e a LUGGit, a startup foi envolvida no projeto. “Nós já tínhamos vindo a desenvolver essa solução antes deste projeto-piloto, o que acabou por acelerar um bocadinho [o seu desenvolvimento]”, acrescenta, classificando o teste como “um sucesso” do qual os três parceiros retiraram conclusões.
“A panóplia de clientes que podemos ter com este serviço [de remote baggage check-in] é muito grande, não se cinge só aos cruzeiros”
A empresa admite agora dar continuidade e alargar o modelo, embora o CEO considere ainda prematuro revelar futuros parceiros. “Existe essa vontade de continuar”, confirma. A presença da LUGGit em três portos considerados estratégicos – Lisboa, Barcelona e Atenas – dá à empresa, segundo o responsável, a perspetiva de poder “alargar este tipo de experiências a curto prazo”.
“A panóplia de clientes que podemos ter com este serviço [de remote baggage check-in] é muito grande, não se cinge só aos cruzeiros”, afirma Ricardo Figueiredo. O responsável aponta como exemplo uma agência de viagens que coordene um grupo e pretenda despachar as bagagens antes de uma atividade ou conferência, mas também passageiros individuais que queiram evitar transportar as malas até ao aeroporto.
O processo não elimina todas as formalidades presenciais. “Nós fazemos o check-in da mala. O check-in da pessoa, não”, esclarece. No projeto com a Norwegian, os passageiros tiveram de estar presentes no Terminal de Cruzeiros para validar o cartão de embarque, a identidade e a documentação necessária. Segundo Ricardo Figueiredo, a operação exige também “elementos de segurança homologados”, permitindo à LUGGit atuar “como se fosse o aeroporto a ir ter com o cliente”.
Apesar do desenvolvimento de novos casos de uso, uma parte relevante da procura continua associada ao intervalo entre o check-out do alojamento e a partida do viajante. É nesse período que surge, segundo o CEO, a “mais-valia” de a empresa recolher as malas no alojamento e entregá-las diretamente no aeroporto, numa estação ou noutro local, evitando que o cliente tenha de regressar para as recolher.
A empresa trabalha com hotéis e, sobretudo, com gestores de alojamento local. Para Ricardo Figueiredo, o serviço tradicional de guarda de bagagem representa também “uma oportunidade enorme para o hotel se diferenciar”, uma vez que consome espaço e tempo das equipas que nem sempre são monetizados. Com a recolha e entrega posterior das malas pela LUGGit, defende, o hotel pode disponibilizar “um serviço de valor acrescentado” e otimizar a utilização da própria infraestrutura.
“Em vez de termos uma perspetiva tão direct to consumer, como se fosse um Uber, começámos a fazer algumas parcerias com gestores de alojamento local”
A aposta no B2B resulta de uma evolução que começou ainda durante a pandemia. A LUGGit iniciou efetivamente a operação no final de 2019, pouco depois do primeiro investimento da Portugal Ventures, mas teve apenas alguns meses de atividade antes da interrupção provocada pela Covid-19. “Na verdade, a operação começou ali no final de 2021, início de 2022”, recorda Ricardo Figueiredo.
Foi também nesse período que a empresa começou a alterar o modelo. “Em vez de termos uma perspetiva tão direct to consumer, como se fosse um Uber, começámos a fazer algumas parcerias com gestores de alojamento local”, explica. Segundo o CEO, a mudança permitiu à LUGGit crescer “não só em volume de negócios, como em margem” e avançar posteriormente para outros mercados.
Em 2023, a empresa anunciou uma ronda de investimento de 1,8 milhões de euros. A prioridade passa agora por continuar a desenvolver o modelo B2B, “desde logo o produto, operação e capacidade de atingir uma escala eficiente”. A LUGGit não revela dados de faturação, mas confirma que prevê realizar uma nova ronda de financiamento para continuar a abrir mercados estratégicos e desenvolver modelos de operação e produto que lhe permitam entrar de forma consistente em novos segmentos.


Da bagagem “end-to-end” ao transporte ferroviário
Parte desta evolução está a ser desenvolvida através do projeto LUGGit E2E – First & Last Traveler Touchpoint, apoiado pelo COMPETE 2030 e atualmente próximo da conclusão. O projeto procura desenvolver uma solução mais abrangente para a gestão da bagagem ao longo de toda a viagem, incluindo o check-in remoto, acompanhamento em tempo real e partilha de informação entre os diferentes intervenientes.
“A base deste projeto de investigação e desenvolvimento tem a ver com a disponibilização deste check-in remoto de bagagem, ou seja, a possibilidade efetivamente de fazermos o check-in das malas antes de elas sequer irem para o aeroporto”, explica Ricardo Figueiredo.
Entre os eixos trabalhados estão o tracking em tempo real da bagagem, a ligação aos sistemas aeroportuários e mecanismos destinados a garantir que a mala não é violada durante o percurso. O objetivo é chegar a um serviço end-to-end, que possa permitir “recolher a mala em casa do cliente e entregá-la no hotel, no destino final”, suportado por uma plataforma através da qual os diferentes intervenientes consigam perceber “em tempo real o que é que está a acontecer”.
“A base deste projeto de investigação e desenvolvimento [o LUGGit E2E – First & Last Traveler Touchpoint] tem a ver com a disponibilização deste check-in remoto de bagagem, ou seja, a possibilidade efetivamente de fazermos o check-in das malas antes de elas sequer irem para o aeroporto”
A inteligência artificial e a automatização estão também a ganhar peso na operação. A LUGGit utiliza estas ferramentas no desenvolvimento de software e na monitorização diária do serviço, incluindo na otimização logística, definição de rotas e gestão da capacidade em tempo real. “Temos muita coisa baseada em inteligência artificial na nossa empresa”, afirma o CEO.
A empresa está ainda a estudar a utilização de reconhecimento de imagem para registar automaticamente o estado das bagagens. A ideia, explica Ricardo Figueiredo, é “poder fazer um scan com um telemóvel e automaticamente assumir se a mala tem algum problema, se já está riscada, se tem menos uma roda”, informação que poderá depois ser incorporada no produto e partilhada entre os diferentes intervenientes na operação.
Para o responsável, o principal desafio à medida que a LUGGit cresce continua, porém, a ser operacional e é também aí que identifica uma das vantagens competitivas da empresa. “Fazer uma operação bem não é fácil”, afirma, salientando que o objetivo é garantir que, “quando dizemos que [a bagagem] chega às 8 da manhã, chega efetivamente às 8 da manhã” e que, quando uma mala tem de ser entregue no aeroporto às 19h00, chega à hora prevista.
Além da tecnologia e automatização dos sistemas logísticos, a operação tem de se adaptar às características de cada cliente. “Um cliente B2B com 200 malas tem uma expectativa diferente e uma operação diferente de um cliente individual”, exemplifica, considerando que a capacidade de manter os mesmos padrões de serviço à medida que o negócio cresce será determinante.
“A forma como podemos ligar todos estes pontos e ser uma plataforma unificadora para viajar end-to-end, sem que as bagagens sejam carregadas pelas pessoas, mas ao mesmo tempo que toda a gente saiba onde elas estão (…) essa é a visão da LUGGit e aquilo que estamos a construir”
O transporte ferroviário é outro dos segmentos que a LUGGit pretende explorar. Ricardo Figueiredo aponta as ligações de alta velocidade em Espanha como exemplo de um contexto em que o passageiro poderia deslocar-se de comboio sem transportar fisicamente a bagagem. “Porque é que tem de ir com as malas?”, questiona.
Para o CEO, existe espaço para articular este tipo de solução com companhias aéreas, operadores ferroviários de longa distância e outros meios de mobilidade. “Faz sentido que Portugal comece a olhar para isso também”, defende, considerando que a mobilidade deve ser encarada “de um ponto de vista único”, permitindo ao viajante utilizar diferentes infraestruturas sem ter de transportar consigo a bagagem.
Esta abordagem distingue-se, segundo Ricardo Figueiredo, dos serviços internacionais de shipping, nos quais “a mala é tratada como carga” e pode demorar vários dias a chegar. A visão da LUGGit passa por fazer com que o percurso da bagagem acompanhe a viagem do passageiro, ainda que ambos não sigam fisicamente juntos: “A mala está no avião, mas o cliente não foi três horas antes fazer o check-in. A mala está no percurso do comboio, mas não está no comboio. A mala chega no momento em que a pessoa chega”.
“A forma como podemos ligar todos estes pontos e ser uma plataforma unificadora para viajar end-to-end, sem que as bagagens sejam carregadas pelas pessoas, mas ao mesmo tempo que toda a gente saiba onde elas estão”, resume Ricardo Figueiredo, “é a visão da LUGGit e aquilo que estamos a construir”.




