“O acolhimento e a integração no turismo devem assentar em critérios claros e equilibrados, que valorizem o conhecimento da língua, o respeito pela cultura local e o compromisso com a qualidade da experiência oferecida”
A integração de migrantes no setor do turismo está hoje no centro de um debate fundamental. Se, por um lado, é verdade que o nosso país depende crescentemente de mão de obra externa para manter e expandir a sua atividade, por outro, há fluxos migratórios cada vez mais diversos, que nos colocam desafios acrescidos.
Nem toda a imigração é igual — e não tem de o ser. Dizer isto não é hierarquizar pessoas; é reconhecer que existem contextos históricos, sociais, culturais e linguísticos diferentes, e que isso tem consequências reais na forma como os migrantes se integram e contribuem para os setores onde trabalham, turismo incluído.
Imigrantes oriundos dos PALOP ou do Brasil, por exemplo, partilham uma base linguística e cultural com a sociedade portuguesa, o que facilita a comunicação, o serviço e a convivência. O mesmo se aplica, com nuances, a migrantes oriundos de países europeus, particularmente do Leste, em regra muito qualificados, cuja presença em Portugal já é significativa há bastante tempo e que tem sido recentemente reforçada pelos fluxos de refugiados da Ucrânia.
A nova vaga migratória, por contraste, traz realidades bem distintas — pessoas certamente também empurradas pela necessidade, mas muitas vezes sem domínio da língua, sem conhecimento do contexto cultural e, em muitos casos, com hábitos e referências que entram em choque com a forma de estar e de se relacionar da comunidade portuguesa e ocidental. Num setor assente na hospitalidade, na empatia e na comunicação, esta falta de enquadramento torna-se particularmente sensível.
Não se trata de criar migrantes de primeira e de segunda, mas sim de definir regras claras e critérios objetivos para o acolhimento e a integração — especialmente num setor que é a face do país que mostramos ao mundo.
O turismo, mais do que qualquer outro, depende da experiência humana. Queremos que quem nos visita — e nós próprios, enquanto clientes — se sinta acolhido por alguém que compreenda a língua, os costumes e o espírito do lugar onde trabalha. Um sorriso simpático (quando existe) não chega quando falta contexto, linguagem e sentido de pertença.
O nosso país tem, historicamente, sido um espaço de acolhimento. Mas a integração não pode ser feita à pressa, precipitadamente, nem baseada apenas na urgência de preencher vagas (e resta saber, com precisão, de que vagas falamos). Isso acaba por ser prejudicial para todos: para os migrantes, que não têm as condições necessárias para se integrarem com sucesso; para os clientes, que sentem a quebra na qualidade do serviço; e para o próprio destino, cuja reputação depende da experiência que oferece.
O contexto atual não é abstrato. Segundo a AIMA, vivem já em Portugal mais de 1,5 milhões de cidadãos estrangeiros, o que representa cerca de 15% da população residente — num total de 10,7 milhões de habitantes. Este crescimento populacional é alimentado sobretudo pelo saldo migratório positivo, já que o saldo natural continua negativo (os nascimentos de portugueses estão em queda). As comunidades mais representadas incluem cidadãos de países como o Brasil, Cabo Verde, Ucrânia ou Roménia, a que se juntam, cada vez mais, migrantes oriundos da Índia, Bangladesh, Paquistão e Nepal. É impossível ignorar este fenómeno, e um enorme risco não encontrar soluções à altura.
Há quem diga que somos um povo de brandos costumes. Mas será que ainda o somos — e, afinal, quem somos? Em algumas zonas de Lisboa, já não se ouve português — nem sequer inglês. Na esplanada, quem atende mal percebe o pedido; no TVDE ou no tuk tuk, o condutor fala pouco, inventa pior e sorri com a tranquilidade de quem não faz a mais pequena ideia do que está a mostrar. Percorrem-se ruas que ainda se dizem da Mouraria, mas onde o árabe e o berbere que se falavam até ao século XV deram agora lugar ao hindi, ao urdu e a uma presença crescente de práticas e códigos culturais alheios ao contexto local.
Em algumas ruas, a concentração de migrantes é tão acentuada que se criam verdadeiros guetos, muitas vezes desligados da envolvente, onde o sentimento de pertença local se perde.
No Largo de São Domingos, em Lisboa, junto à Ginjinha, hoje uma atração turística, registam-se frequentemente rixas, um comércio paralelo de origem duvidosa e uma sensação difusa de insegurança. A hospitalidade de que tanto nos orgulhamos começa a dar lugar ao desencontro cultural — e ao desconforto, tanto para quem visita como para quem aqui vive.
“Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si” — foi este o slogan de uma campanha de promoção turística no século passado. Seria apropriado hoje? Talvez, mas não necessariamente no sentido positivo.
O acolhimento e a integração no turismo devem, por isso, assentar em critérios claros e equilibrados, que valorizem o conhecimento da língua, o respeito pela cultura local e o compromisso com a qualidade da experiência oferecida. Integrar, sim — mas com sentido e com critério. Porque a inclusão, para ser verdadeira, tem de ser justa para todos.
Há também que reconhecer a tentação de muitos empresários em recorrer a mão de obra barata, escudando-se sob o chavão de que “os portugueses não fariam este trabalho”. Mas talvez a verdadeira questão seja esta: quantos estariam dispostos a fazê-lo pelos salários que estão a ser oferecidos?
Em vez de promover condições justas, formação adequada e valorização do serviço, opta-se demasiadas vezes pelo caminho mais fácil: preencher vagas rapidamente, mesmo que à custa da qualidade e da dignidade no trabalho.
Ora, num setor como o turismo, que vive da experiência, da comunicação e da relação com o cliente, essa opção compromete não só a inclusão dos migrantes, como também a confiança de quem visita e a reputação do próprio destino.
Há que debater, sem receios, estas questões.
Por Paulo Brehm, Consultor de Sustentabilidade


