Por Luís Moura, co-founder da Yacht Ocean Club Portugal
São 30 anos de viagens profissionais e mais uns quantos de viagens de lazer. São dezenas de cidades e países. São muitas horas voadas, são muitos os companheiros de viagem, são imensas as histórias, algumas, tantas vezes recordadas…
As viagens de lazer, com a família e amigos, são viagens diferentes das viagens em trabalho. Em trabalho, vamos porque temos de ir. Mas se gostamos do que fazemos e viajar também é um prazer, então temos um all in one.
Apesar de sempre ter gostado de viajar sozinho – a solo ficamos a conhecermo-nos melhor e a sermos mais atentos e resistentes – é sempre melhor viajar acompanhado. Seja por um colega da mesma empresa ou por um parceiro de negócios, de quem acabamos por nos tornar mais próximos.
Mas o melhor mesmo é viajar em grupo. Fazer um roadshow de 8, 10 ou 15 dias, é quase o mesmo que andar com uma banda de rock em digressão. Participar numa feira, mais que conhecer e reencontrar pessoas de todas as nacionalidades e quadrantes profissionais para “tratar de negócios”, é também uma oportunidade para – sobretudo à mesa – ter tempo para juntar os amigos, discutir ideias, projetos e… recordar as tais histórias de outras viagens, tantas vezes sem sabermos que, naquele momento, talvez estejamos de novo a escrever outra história.
E porque é de experiências, de momentos únicos, de acontecimentos especiais e porque não, de aventuras, o que fica para a história, gostava de partilhar aqui três ou quatro números, já icónicos (!), que se passaram comigo e com outros companheiros de tantas lutas.
Há uns 20 anos, os países do norte da Europa eram os que eu mais visitava em trabalho. E, claro, os roadshows de carro entre Copenhaga, Olso e Estocolmo, um clássico. Numa dessas viagens, éramos quatro e tinha acabado de abrir um conhecido hotel de Cascais. O diretor comercial que nos acompanhava, começou entusiasticamente a falar do “live show cooking” que faziam no restaurante… ao fim de cinco apresentações em agências, já todos sabemos o que cada um vai dizer a seguir. Por isso, estávamos nós numa agência, e segundos antes de sair o “live show cooking”, começamos todos a rir-nos e dizemos em uníssono “live show cooking”. Depois de entender porquê, o sueco riu-se também…
Outra cena parecida aconteceu no Rio de Janeiro, talvez há uns 10 anos, num roadshow de 10 dias pelo Brasil, 5 ou 6 cidades visitadas, 7 ou 8 empresas entre hotéis, DMC, venues… Era a última apresentação da viagem. Estavam talvez uns 100 convidados na sala para ouvirem as novidades da hotelaria e turismo nacionais. Estávamos todo sentados no palco – de frente para a audiência – e, à vez, cada um assumia o microfone para fazer a sua apresentação. Um dos hoteleiros que nos acompanhava, tinha como objetivo falar da remodelação da sua unidade. O seu diretor informou que, compreendendo a preferência do mercado brasileiro, tinham optado por colocar no chão dos quartos “piso frio” como se diz no Brasil… De seguida, entra em cena o diretor comercial de outro hotel em Lisboa e, a certa altura, com o seu magnífico sotaque insular, informa que, no seu hotel, porque também recebem muitos brasileiros, o piso não é frio… é semi-frio porque debaixo da cama tem uma carpete. Gargalhadas gerais no palco. Éramos 6 ou 7 a não conseguir controlar o ataque de riso. O público olhava para nós sem entender muito bem a razão, mas isso foi um quebra-gelo incrível; depois disso, o à vontade, a informalidade e a boa disposição marcaram aquele workshop.
Entretanto, desta vez na Polónia, estava com um colega da agência a visitar clientes. No inverno. Estávamos em Katowice, penso eu. Um frio danado no quarto, num hotel modesto… Uma bela manhã, acordei e lá estava ele, o meu colega de quarto e de profissão, às 07h30 da manhã a beber da carica um trago de whiskey para aquecer!!! E em Varsóvia fizemos um rally. Naquela época (penso que foi antes do ano 2000), a cidade ainda era escura, pouco movimentada e os visitantes estrangeiros não eram muitos. Por isso, os polácos gostavam de mostrar que eram cool. Apanhámos um táxi na estação de comboios para o hotel. De noite. Acreditem, o motorista acelerou aquele Ford Escort como se de um carro de rally se tratasse; chiava nas curvas em drift e saía da nossa faixa, fazia reduções até se ouvirem raters do escape, travava no limite, passava sinais vermelhos… e eu e o meu colega lá atrás de um lado para o outro, incrédulos. Chegámos num instante e o motorista, contente, perguntou: like?!
Dessa mesma viagem, recordo-me de um episódio emocionalmente marcante. Estávamos em Cracóvia a visitar uma agência. Simpática, a dona da agência perguntou-nos se no dia seguinte tínhamos tempo para visitar um lugar extraordinário; as famosas Minas de Sal de Wieliczka.
Aceitámos o convite e no dia seguinte lá fomos. Uma visita quase em privado, ainda muito poucos turistas, um lugar incrível… feliz com a nossa presença, a senhora lança-nos outro desafio. Continuar e ir até Auschwitz, a uma hora dali. Sim, naquela manhã tínhamos tempo e fomos. O que se passou de seguida foi do além; a senhora – nos seus 60 e tal anos – já lá não ia há mais de 40 anos. Lembrava-se de ter ido à celebração dos 20 anos da libertação do campo (contas feitas, em 1965) e estava a regressar agora. Connosco. Sentiu a necessidade de, com estranhos de quem ela tinha gostado, poder expiar os seus fantasmas e tristezas e receber algum conforto não excessivamente piedoso… a maioria dos seus familiares, nomeadamente o pai, faleceram ali.
A verdade é que chorou tanto, mas tanto, que nós, ao sentirmos o peso tenebroso daquele lugar, por momentos também nos rolou uma lágrima.
As histórias de copos, noitadas, concertos e outras aventuras ficam para outro dia. Ou não!



