WTM | Entre resultados recorde e quebras de atividade, empresas portuguesas alertam: “É tudo muito instável”

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Seis empresas portuguesas ouvidas pelo TNews na World Travel Market (WTM), em Londres, traçam um balanço desigual de 2026, marcado por resultados recorde em alguns grupos hoteleiros, mas também por quebras de atividade, reservas mais tardias e pressão sobre os custos operacionais. Para 2027, as perspetivas são globalmente cautelosas, embora várias empresas registem níveis de reservas superiores aos do período homólogo. A instabilidade internacional e a concorrência de outros destinos continuam entre as principais preocupações.

Entre as empresas ouvidas, a AP Hotels & Resorts, a Details – Hospitality, Sports & Leisure e a Savoy Signature apresentam balanços positivos ou próximos dos resultados de 2025, ainda que reconheçam alterações no comportamento da procura. Já a Living Tours terminou o ano com uma faturação estabilizada, enquanto a Top Atlântico DMC e a DTravel DMC registaram quebras face ao exercício anterior.

A diminuição da antecedência das reservas foi uma das tendências identificadas na hotelaria. “Este ano a grande característica, digamos assim, que definiu o ano de 2026 foi o last minute”, afirma Francisco Moser, co-CEO da Details, considerando que esta tendência introduziu “uma grande dose de imprevisibilidade durante praticamente todo o ano”.

Graça Guimarães, head of global sales da Savoy Signature, confirma que os clientes estão a reservar cada vez mais perto da data da viagem. Também Lino Martins, sales director da AP Hotels & Resorts, reconhece que a antecedência das reservas está a diminuir, numa altura em que os viajantes continuam a encontrar disponibilidade e preços competitivos mais perto da partida. “Os clientes não estão a reservar com a antecedência que nós gostaríamos”, admite.

No entanto, esta tendência não é uniforme entre mercados. Pedro Velosa, diretor comercial da Top Atlântico DMC, destaca que os clientes norte-americanos e canadianos continuam a planear as viagens com antecedência, enquanto Elisabete João, diretora-geral da DTravel DMC, identifica diferenças significativas entre nacionalidades. “Se nós formos para o mercado italiano, é tudo last minute. Se formos para o mercado canadiano, já não é”, exemplifica, acrescentando que os canadianos reservam “com muita antecedência”.

“Este ano a característica que definiu o ano de 2026 foi o last minute, o que deu uma grande dose de imprevisibilidade durante praticamente todo o ano”.

Francisco Moser, Details – Hospitality, Sports & Leisure

De resultados recorde a quebras de atividade: 2026 trouxe realidades distintas

Na AP Hotels & Resorts, 2026 foi “o melhor ano de sempre”, segundo Lino Martins, com os objetivos de ocupação e preço médio alcançados. O responsável confirma ainda que o grupo atingiu a previsão de crescimento das receitas entre 5% e 6% face a 2025, avançada no início do ano.

Apesar dos resultados, o desempenho exigiu um esforço comercial superior ao inicialmente previsto. “Fomos obrigados, digamos assim, a fazer mais ações, mais descontos, estar mais perto dos nossos parceiros do que é normal, porque o pace das reservas foi mais lento do que o previsto em algumas unidades”, explica.

O responsável reconhece que foi necessário “sacrificar algum preço”, através de campanhas e ofertas especiais, mas assegura que estas medidas não comprometeram os objetivos anuais.

Entre as unidades que mais se destacaram, Lino Martins aponta o AP Dona Aninhas, em Viana do Castelo, e o AP Sines Costa Alentejana, que beneficiou da procura empresarial associada aos investimentos na região. “Foi o nosso hotel estrela”, afirma, referindo que a unidade de Sines registou níveis recorde de ocupação e faturação.

No AP Lago Montargil, o regime tudo incluído, introduzido no ano anterior, contribuiu para melhorar os resultados, com uma forte adesão do mercado nacional. A captação de grupos e eventos fora da época alta permitiu também reforçar a ocupação e as receitas.

A Details encerra igualmente 2026 com crescimento, embora abaixo das expectativas iniciais. “Sentimos que há alguma estabilização na procura, em alguns mercados e em alguns destinos, mas no geral foi melhor do que o ano anterior”, explica Francisco Moser.

Na Madeira, a Savoy Signature conseguiu aproximar-se dos resultados de 2025, ano que Graça Guimarães identifica como o melhor de sempre para o destino. A responsável reconhece que igualar esse desempenho tem sido exigente, sobretudo devido às alterações nos padrões de reserva, mas destaca a capacidade do grupo para recuperar receita e atrair novos mercados.

O balanço é diferente entre os operadores de incoming. Na Living Tours, a faturação manteve-se estável, após três anos de forte crescimento no período pós-pandemia. “Não foi um ano de crescer nem de cair”, resume Rui Terroso, CEO da empresa, que descreve 2026 como um exercício de consolidação.

Contudo, o responsável alerta que a estabilidade das receitas não significa ausência de dificuldades. “Temos uma grande fatura de combustíveis”, explica, acrescentando que a maior concorrência impede a empresa de repercutir integralmente esse aumento no preço final.

Na Top Atlântico DMC, o desempenho ficou abaixo do registado em 2025, que tinha sido o melhor ano de sempre da empresa. “Estamos ao nível de 2024, portanto tem sido um ano mais difícil”, afirma Pedro Velosa, associando a quebra à instabilidade internacional, ao custo das viagens aéreas e à dependência dos mercados transatlânticos.

O diretor comercial considera que os consumidores estão mais receosos perante a conjuntura internacional. “Parece que todos os meses temos uma notícia menos boa que afeta o turismo”, observa, admitindo que alguns viajantes poderão estar a adiar decisões de viagem.

Também a DTravel DMC registou uma redução significativa da atividade, sobretudo no segmento dos grupos de lazer europeus com orçamentos mais reduzidos. “2026 foi um ano atípico. Houve mais cancelamentos de grupos de lazer do que o normal”, afirma Elisabete João.

Segundo a diretora, a diminuição do poder de compra e a instabilidade geopolítica agravaram as dificuldades de concretização de negócios no mercado europeu, levando a empresa a reforçar a prospeção comercial fora da Europa.

Reservas para 2027 dão sinais positivos, mas concorrência e custos preocupam

Apesar dos diferentes resultados de 2026, várias empresas apresentam perspetivas mais favoráveis para o próximo ano.

Na Details, Francisco Moser adianta que a carteira de negócios para 2027 está acima da registada no período homólogo. “Estamos com melhores perspetivas do que tínhamos no ano passado, na mesma altura”, afirma.

A tendência positiva estende-se à Savoy Signature, que apresenta, segundo Graça Guimarães, um volume de receitas previstas para a próxima época de inverno superior ao registado no mesmo período do ano anterior.

Na Top Atlântico DMC, as reservas para 2027 também superam as que estavam registadas há um ano para 2026. Pedro Velosa acredita, por isso, que a empresa poderá recuperar para níveis próximos dos alcançados em 2025. “Eu acredito que 2027 será um ano melhor. Mas nunca sabemos, é tudo muito instável”, ressalva.

Na AP Hotels & Resorts, Lino Martins antecipa um ano positivo, mas exigente, com necessidade de manter uma relação próxima com os parceiros comerciais. O responsável identifica alguma cautela nos mercados francês e alemão, enquanto as vendas do mercado britânico estão, nesta fase, em linha com o período homólogo.

Já a DTravel DMC apresenta uma perspetiva mais reservada. Elisabete João reconhece que as reservas estão bem encaminhadas, mas receia que a instabilidade internacional continue a provocar cancelamentos. A responsável considera que recuperar os resultados de 2025 seria “uma vitória”, embora antecipe dificuldades para atingir esse objetivo.

“O mercado americano reserva com muita antecedência, o canadiano também. O pick-up que temos neste momento para 2027 está acima do que tínhamos na mesma altura do ano passado. Acredito que 2027 será um ano melhor, mas nunca sabemos, é tudo muito instável.”

Pedro Velosa, Top Atlântico DMC

A concorrência internacional constitui outra preocupação, sobretudo para a hotelaria de lazer do Algarve. Lino Martins alerta para a pressão exercida por destinos como a Grécia, a Turquia e as ilhas espanholas, que estão a apresentar preços mais competitivos.

“Há comparações muito óbvias que muitos tour operadores nos estão a dizer: a Grécia está muito barata, a Turquia está muito barata, as ilhas espanholas estão muito baratas”, refere, antecipando que os hotéis algarvios enfrentarão uma concorrência particularmente forte em 2027.

Para o responsável da AP Hotels & Resorts, a resposta passa também pela modernização das unidades. Lino Martins considera fundamental acompanhar as exigências dos consumidores, que procuram hotéis modernos e com boas instalações, alertando que os estabelecimentos que não invistam na renovação poderão perder competitividade.

“Os clientes procuram cada vez mais hotéis atualizados, modernos, com boas instalações. Quem não renova, fica para trás, porque o Algarve, felizmente, está a receber muitos investimentos, há cada vez mais novos hotéis.”

Lino Martins, AP Hotels & Resorts

A pressão sobre os custos é igualmente identificada pela Details e pela Savoy Signature. Francisco Moser destaca o aumento das despesas com materiais, energia e exploração hoteleira, a par das dificuldades de recrutamento e retenção de trabalhadores. No Algarve, acrescenta, a falta de alojamento e os problemas de transportes agravam estes desafios.

Graça Guimarães aponta dificuldades semelhantes na Madeira, defendendo que a contenção de custos não pode comprometer a qualidade do serviço. “Continuar no desafio da formação da mão de obra, efetivamente, a qualidade do serviço temos que mantê-la”, afirma.

No caso da Living Tours, além do combustível, as restrições à circulação de autocarros turísticos no Porto constituem um dos principais obstáculos à atividade.

Rui Terroso critica as limitações impostas pela autarquia, que, segundo explica, obrigam a antecipar as partidas de excursões para o Douro, Minho e outras regiões. “Nós temos que estar a sair com operações às 7 da manhã”, descreve, acrescentando que, durante o inverno, os grupos têm de iniciar as deslocações ainda de noite.

O responsável considera que estas restrições afetam particularmente o turismo sénior, devido às dificuldades de mobilidade na cidade. Segundo Rui Terroso, vários operadores deixaram de trabalhar o destino por não conseguirem assegurar as condições necessárias aos seus clientes.

Novos mercados, experiências e investimentos marcam estratégias para 2027

A diversificação dos mercados emissores continua entre as prioridades das empresas portuguesas. Na hotelaria, o Reino Unido mantém-se como um dos principais mercados: lidera a procura nas seis unidades algarvias da AP Hotels & Resorts, representa, juntamente com a Irlanda, cerca de metade dos clientes da Details e ocupa a primeira posição na Savoy Signature.

Enquanto a AP Hotels & Resorts destaca o crescimento da Alemanha e de mercados como a Polónia, Hungria e República Checa, a Details e a Savoy Signature identificam um reforço da procura norte-americana. Francisco Moser associa esta evolução às ligações aéreas diretas e à presença de marcas internacionais como Hilton e Hyatt, enquanto Graça Guimarães salienta a importância das redes de hotelaria de luxo na captação de clientes dos Estados Unidos.

No incoming, os mercados transatlânticos também assumem um papel central. Na Living Tours, os Estados Unidos lideram a procura, seguidos do Canadá e do Brasil. Rui Terroso destaca ainda o contributo dos turistas sul-americanos, nomeadamente do México e da Argentina, para reduzir a sazonalidade. “Já não se nota só os picos de abril a outubro”, afirma.

Brasil, Estados Unidos e Canadá são igualmente os principais mercados da Top Atlântico DMC, que procura desenvolver negócio na Ásia e na Austrália, embora Pedro Velosa identifique a ausência de voos diretos como um obstáculo. A empresa está também a reforçar a oferta nos Açores e no Norte de Portugal, apostando em programas que combinam diferentes destinos nacionais e internacionais, incluindo Espanha e Marrocos.

“Os mercados da América do Sul vieram colmatar um bocado a sazonalidade. Já não se notam só os picos de abril a outubro. Temos agora, de novembro a março, uma época baixa que já não é tão baixa, precisamente com turistas do hemisfério sul.”

Rui Terroso, Living Tours

Já a DTravel DMC está a intensificar a prospeção na América Latina, sobretudo na Argentina e no Uruguai, e no Canadá, procurando compensar a quebra do mercado europeu. Japão e Coreia do Sul estão também entre os mercados em desenvolvimento, enquanto a Lituânia e o Canadá francófono surpreenderam positivamente em 2026, embora ainda tenham um peso reduzido na atividade.

Ao nível dos produtos, Elisabete João destaca a crescente procura por experiências ligadas à cultura e às tradições portuguesas. “Tudo o que é mais autêntico. Tudo o que for mais português”, afirma, apontando como exemplos oficinas de filigrana em Gondomar, pintura de azulejos e atividades gastronómicas.

Na Living Tours, o enoturismo continua entre os produtos mais procurados, com destaque para os circuitos no Douro e no Alentejo. A empresa está também a expandir a operação fluvial no Douro, preparando a entrada de uma terceira embarcação, depois de ter integrado a segunda em 2026.

Na hotelaria, os planos para 2027 passam também pela renovação de unidades e pelo desenvolvimento de novos projetos.

A AP Hotels & Resorts prepara uma intervenção no AP Aeroporto Porto, com início previsto para o final de novembro de 2026 e conclusão até à Páscoa de 2027. Segundo Lino Martins, as obras vão abranger o spa, o ginásio, os espaços de restauração, o bar e a receção, com o objetivo de modernizar a unidade e reforçar a sua competitividade.

Em Lisboa, o projeto de abertura de um hotel na Praça da Figueira continua condicionado por negociações pendentes, sem uma data definida para avançar. Paralelamente, o grupo está a analisar oportunidades de aquisição de unidades hoteleiras nas regiões de Lisboa e do Algarve. “Estamos ativamente no mercado à procura de crescimento”, afirma Lino Martins, admitindo que poderão surgir novidades até ao final do ano.

“Num circuito clássico, tentamos pôr sempre alguns sítios que os clientes levem na memória. Porque ir fazer um workshop e depois estar na oficina com os artesãos, ou ir a Ovar pintar um azulejo, é isso que fica. Tudo o que lhes dermos como experiências é o que fica na memória.”

Elisabete João, DTravel DMC

Na Details, Francisco Moser destaca vários projetos em desenvolvimento, sobretudo no Algarve. Entre eles está a transformação do antigo Dom Pedro Marina no Canopy by Hilton Vilamoura, com abertura prevista para 2027, e a conversão do Victoria Golf Resort & Spa, antigo Anantara, numa unidade da marca Fairmont. O responsável aponta igualmente 2027 para a abertura deste último empreendimento.

A empresa será ainda responsável pela gestão do futuro Nobu Hotel Monte Rei, no Algarve, cuja abertura está prevista para 2029. Francisco Moser confirma que a operação será assegurada pela Details através de um contrato de franquia, reforçando a presença de marcas hoteleiras internacionais no portefólio gerido pela empresa.

Em Vilamoura, o responsável destaca também o Springs, um projeto turístico-residencial que deverá integrar alojamento turístico e um country club. Já em Tróia, a Details prepara intervenções em dois ativos hoteleiros anteriormente integrados no portefólio da Sonae, agora designados The Anchor e The Pearl. Segundo Francisco Moser, estão previstas remodelações nas unidades, devendo ser divulgados mais detalhes sobre os projetos nos próximos meses.

Por sua vez, a Savoy Signature prepara a reabertura do Gardens, na Madeira, atualmente encerrado para remodelação, com previsão de regresso à atividade em setembro ou outubro de 2027. “Vamos reabri-la no final do verão. Será um design hotel”, revela Graça Guimarães.

A responsável explica que a classificação da unidade ainda está em avaliação, podendo posicionar-se como um hotel de quatro estrelas de luxo ou de cinco estrelas. A decisão terá também em consideração o mercado norte-americano, cuja importância tem vindo a crescer para o grupo.

Fora da Madeira, a Savoy Signature mantém em carteira um projeto hoteleiro em Lisboa, com abertura apontada para 2028 ou 2029, assinalando a intenção do grupo de expandir a sua presença no território continental.

“Vamos reabrir o Gardens no final do verão de 2027, que será um design hotel. Ainda não decidimos se será de quatro estrelas de luxo ou cinco estrelas”.

Graça Guimarães, Savoy Signature

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