Ávoris ajusta oferta nas Caraíbas em 2027: “Não podemos eternamente estar a subsidiar operações que não são rentáveis”

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A Ávoris está a preparar uma revisão da sua programação de longo curso para 2027, com uma redução da capacidade para o México e a República Dominicana e a introdução de novos destinos. Em entrevista ao TNews, Constantino Pinto, diretor comercial de tour operação do grupo em Portugal, revelou que estão em negociação duas novas operações, que deverão ficar definidas antes da Black Friday, e admitiu a possibilidade de aumentar as frequências da Iberojet à partida de Lisboa. A estratégia surge depois de um verão marcado por ocupações superiores a 95% nas Caraíbas, mas com resultados de rentabilidade abaixo das expectativas.

“Não podemos eternamente estar a subsidiar operações que não são rentáveis”, afirmou Constantino Pinto, explicando que o objetivo passa por “adequar bastante mais a nossa oferta às características do mercado baseadas nas lições que temos recolhido nos últimos anos”.

A Ávoris já reduziu a oferta de longo curso para 2027, tendo atualmente à venda três operações: Cancún, no México, e Punta Cana e La Romana, na República Dominicana, sendo que esta última terá início apenas em junho. O grupo está ainda a estudar a introdução de novos destinos, com duas possibilidades em negociação. “Temos aí duas possibilidades que estão em negociação e por isso não posso referir concretamente, mas antes da Black Friday estará tudo definido, estará tudo à venda”, adiantou.

Embora o México e a República Dominicana continuem a ser destinos de referência para os portugueses, Constantino Pinto considera que o mercado não comporta um crescimento contínuo da capacidade. “Por um lado, o México e a República Dominicana são destinos que vão ter sempre a preferência de grande parte dos portugueses que viajam para estas bandas. Por outro, não suportam crescimento, antes pelo contrário, haverá tendência a uma contenção com os anos.”

A resposta da Ávoris passa, assim, por reduzir e reajustar a capacidade para estes destinos, tanto em número de lugares como nas datas das operações, procurando simultaneamente novas alternativas que estimulem a procura. “Há que equilibrar e adequar a oferta de lugares para esses destinos, quer em data, quer em número de lugares, e por outro lado, criar novos destinos que tenham outros atrativos e que possam estimular o gosto das pessoas”, explicou.

Questionado sobre a possibilidade de reforçar a operação da Iberojet a partir de Portugal, Constantino Pinto confirmou que existe margem para crescer.

“Por um lado, o México e a República Dominicana são destinos que vão ter sempre a preferência de grande parte dos portugueses que viajam para estas bandas. Por outro, não suportam crescimento, antes pelo contrário, haverá tendência a uma contenção com os anos.”

Caraíbas com ocupações superiores a 95%, mas rentabilidade penalizada

O balanço de 2026 é considerado positivo pela Ávoris, tendo em conta o contexto internacional, embora com resultados distintos entre as marcas. “Quem sofreu mais foi efetivamente a Travelplan nas operações charter, principalmente as operações charter longo curso, refiro-me às Caraíbas. As outras marcas e a Travelplan, nos outros tipos de produto, até registaram um ligeiro crescimento”, explicou.

A Nortravel cresceu, enquanto a CATAI recuperou de um início de ano menos favorável e deverá terminar 2026 com uma faturação ligeiramente superior à de 2025. Já a LePlan, especializada no produto Disney, registou um crescimento de dois dígitos, embora partindo de uma quota de mercado ainda reduzida.

O maior desafio esteve nas operações charter para as Caraíbas. “No caso do longo curso, das operações das Caraíbas, as ocupações até foram boas, mas com um grande sacrifício de rentabilidade”, reconheceu Constantino Pinto. “A nossa política, eu tenho repetido isso, não é volume, é efetivamente rentabilidade. A nossa batalha é a EBITDA, porque só isso pode garantir a qualidade do produto e a sustentabilidade do grupo.”

Apesar das ocupações elevadas, os preços praticados ficaram aquém do pretendido. “Há que dizer as coisas como são: volume excelente, ocupações excelentes também. Andamos quase sempre a 100%. A diferença está, de facto, nos preços a que se vende que são muito inferiores aos preços reais.”

Um dos fatores determinantes foi o cancelamento da programação para Cuba, anunciado em fevereiro, devido aos constrangimentos no abastecimento de combustível. A Ávoris tinha preparado três operações para o destino, incluindo Cayo Santa María, cuja programação deveria arrancar na Páscoa.

“Estamos a falar de 20 mil passageiros, grosso modo. Portanto, estes 20 mil passageiros que tínhamos no ano passado não os tivemos este ano. Ou melhor, tivemos-los distribuídos por outros dois destinos”, explicou.

balanço de 2026: “Há que dizer as coisas como são: volume excelente, ocupações excelentes. Andamos quase sempre a 100%. A diferença está, de facto, nos preços a que se vende que são muito inferiores aos preços reais.”

Para compensar a ausência de Cuba, o grupo reforçou a capacidade para Punta Cana, La Romana e México, mas não conseguiu recuperar integralmente a procura perdida. “O cliente de Cuba procura alguma coisa que não encontra nem no México, nem na República Dominicana, para além do preço”, sublinhou.

A diferença de preços e o regresso do sargaço a algumas zonas balneares também condicionaram a procura. Ainda assim, a República Dominicana apresentou o melhor desempenho no longo curso, com destaque para La Romana e Bayahíbe.

Constantino Pinto alertou também para o excesso de capacidade disponibilizada para a República Dominicana durante o verão, apontando para a existência de oito voos semanais. “Aumentou o fluxo de turistas para a República Dominicana, mas a que preço?”, questionou.

Venda antecipada foi determinante em 2026, mas Black Friday será “o grande teste” para 2027

A venda antecipada foi decisiva para os resultados de 2026, com uma parte significativa das reservas concentrada nas campanhas da Black Friday, Expo Abreu, Mundo Abreu e BTL. “Houve, de facto, um grande volume de venda antecipada, eu diria que até foi isso que nos salvou”, reconheceu.

Contudo, as campanhas de última hora, utilizadas para escoar a capacidade disponível, poderão alterar o comportamento dos consumidores em 2027. “O cliente que anda só atrás do preço é capaz de pensar duas vezes em reservar antecipadamente”, admitiu.

Em determinados momentos do verão, a Ávoris chegou a ter cerca de 100 lugares disponíveis em voos de longo curso a apenas três semanas da partida, o que obrigou ao lançamento de campanhas promocionais.

A próxima Black Friday será, por isso, determinante para avaliar a resposta do mercado à programação de 2027. Quanto às vendas já realizadas, Constantino Pinto ainda não dispunha dos resultados consolidados da Expo Abreu, realizada entre 10 e 11 de outubro, embora as primeiras indicações apontassem para uma evolução ligeiramente positiva face à edição anterior.

“A sensação que tinha no sábado, ao fim do dia, que penso que se mantém, é que teríamos melhorado um pouco em relação ao ano passado”, adiantou.

Uzbequistão terá 371 lugares e poderá integrar também a programação da Nortravel

Entre as novidades para 2027 está a operação da Travelplan para o Uzbequistão, com voo direto da Iberojet entre Lisboa e Urgench, previsto para 6 de junho. A programação inclui três circuitos de nove dias e sete noites, com passagem por Khiva, Bukhara, Samarcanda e Tashkent.

Constantino Pinto revelou que a operação terá 371 lugares, através de uma aeronave da Iberojet habitualmente utilizada na programação à partida de Madrid.

“Vai ser um primeiro teste. O que estamos a fazer é desviar um avião da operação de Madrid. Tem que ser um avião grande pela distância, portanto, iremos contar com 371 lugares”, explicou.

Para já, está prevista apenas uma partida de Lisboa, embora o responsável não exclua novas operações, nomeadamente no outono, uma vez que as temperaturas elevadas limitam a realização de circuitos culturais durante o verão.

A aposta resulta da experiência da Travelplan em Espanha, onde o destino tem registado uma boa aceitação. “As agências têm reagido muito bem ao produto, às propostas de circuitos que nós fizemos. De maneira que vamos testar, mas estamos plenamente convencidos que vai ser um destino de eleição e de preferência para os portugueses”, afirmou.

Questionado sobre a escolha da Travelplan em vez da Nortravel, tendo em conta a especialização desta última em circuitos culturais, Constantino Pinto apontou a “longa experiência” da Travelplan no destino e o modelo de operação charter.

Ainda assim, a Ávoris está a analisar a possibilidade de disponibilizar parte dos lugares à Nortravel, permitindo ao operador desenvolver programas adaptados ao seu posicionamento.

“Não seria descabido que a Nortravel tivesse uma parte do avião para comercializar outro tipo de circuitos mais ao estilo Nortravel, portanto, isso não está fechado, está em análise”, revelou.

Também a possibilidade de disponibilizar acompanhamento em português está em avaliação, uma vez que dois dos três circuitos inicialmente anunciados incluem guias locais de língua espanhola.

uzbequistão: “As agências têm reagido muito bem ao produto, às propostas de circuitos que nós fizemos. De maneira que vamos testar, mas estamos plenamente convencidos que vai ser um destino de eleição e de preferência para os portugueses”

Quanto ao público-alvo, a Ávoris pretende atrair viajantes interessados em experiências culturais, com particular atenção ao segmento de grupos. “É um destino de eleição para grupos, para o tipo de grupos que as agências portuguesas fazem e que têm sempre um objetivo que está para além da viagem”, afirmou.

Além do Uzbequistão, a outra grande novidade da Travelplan para 2027 será Creta, na Grécia, com uma operação charter à partida do Porto. “Estamos a apostar fortemente nesse destino”, revelou Constantino Pinto. A programação já está à venda e as primeiras reservas indicam uma receção positiva do mercado.

A Travelplan pretende ainda alargar a oferta de médio curso à partida de Lisboa, recorrendo a voos regulares para comercializar destinos já disponíveis em charter com origem no Porto.

Na Nortravel, a estratégia passa por reforçar a programação de circuitos, escapadas e mercados de Natal, bem como a oferta para os Açores e a Madeira. O operador continuará também a apostar em Cabo Verde, através de operações charter e lugares contratados na easyJet. “O Cabo Verde continua a ser um dos destinos fortes da Nortravel e reforçamos essa aposta”, garantiu.

Entre os produtos com maior potencial de crescimento, Constantino Pinto destacou ainda a Disney, comercializada pela LePlan, a Lapónia e as grandes viagens da CATAI, nomeadamente para o Extremo Oriente e África, incluindo safaris.

CATAI deverá fechar 2026 a crescer e regista aceleração das vendas para 2027

A reorganização da CATAI em Portugal, anunciada em maio, já está a produzir resultados, segundo Constantino Pinto. A marca passou a contar com uma equipa própria de três profissionais, com autonomia para responder a pedidos de orçamento, acompanhar reservas e prestar apoio direto às agências de viagens.

Embora o impacto nos resultados de 2026 ainda seja limitado, a CATAI deverá terminar o ano com uma faturação “ligeiramente superior” à de 2025. A principal diferença está nas vendas para 2027. “Onde estamos a notar um crescimento dentro dos objetivos ou até superior aos objetivos traçados é nas vendas já para o próximo ano”, revelou.

O responsável destacou a melhoria da capacidade de resposta e da proximidade com as agências, considerando que a mudança representa “uma diferença do dia para a noite em termos de comportamento e de aceitação no mercado”.

A Ávoris mantém o objetivo de acelerar o crescimento da marca em Portugal. “Estamos perfeitamente dentro dos objetivos traçados”, concluiu.

Combustível, geopolítica e sensibilidade ao preço entre os desafios de 2027

Apesar das expectativas positivas, Constantino Pinto identificou vários fatores de risco para 2027, começando pelo preço do combustível de aviação.

“Daqui até ao início das operações de longo curso não fazemos ideia do que pode acontecer. O combustível que tínhamos garantido já lá vai, já estamos a fazer as negociações para novas aquisições, mas ainda há muito pouco tempo os preços estavam o dobro do que tínhamos comprado”, afirmou.

O impacto poderá ser particularmente significativo nas operações de longo curso, tendo em conta a duração dos voos e a sensibilidade dos consumidores portugueses ao preço.  Em viagens entre as 8 e as 10 horas, isto tem um impacto gigantesco”, alertou.

A instabilidade geopolítica constitui outra preocupação, sobretudo pelo efeito da perceção de insegurança nas decisões de viagem. O responsável reconheceu que o Médio Oriente poderá continuar a enfrentar dificuldades na captação de turistas enquanto a situação regional não estabilizar.

“O problema muitas vezes não é o ser seguro ou não ser seguro, muitas vezes é a sensação e a percepção de segurança global que se tem”, explicou.

A evolução da economia portuguesa será igualmente determinante. Constantino Pinto considera que os viajantes nacionais são particularmente sensíveis ao preço, apesar de existir um segmento com maior capacidade financeira que continua a realizar grandes viagens.

“Nós verificamos isso, por exemplo, com as campanhas de última hora, quando baixamos o preço. De um dia para o outro, a situação altera-se”, afirmou.

Neste contexto, reforçou que a prioridade da Ávoris em 2027 não será aumentar o volume de passageiros a qualquer custo, mas assegurar a sustentabilidade das operações.

“Não podemos estar a lançar operações só por lançar, para ter volume, para termos quota de mercado. Tudo isso é importante, mas o fundamental e a razão de ser tudo isto é que as empresas têm que ser rentáveis”, defendeu.

Para Constantino Pinto, a indústria terá de encontrar um maior equilíbrio entre capacidade, procura e preços. “Há uma preocupação geral para diversificar um bocadinho e não sobredimensionar a oferta como se estivéssemos sozinhos no mercado”, concluiu.

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