A Madeira prepara-se para uma mudança profunda na forma como gere o seu território já em 2026, ano que marcará uma alteração estrutural na organização dos espaços naturais e pontos de interesse para o turismo. A garantia foi dada por Eduardo Jesus, secretário Regional de Turismo, Ambiente e Cultura, na sessão inaugural da 21.ª convenção da GEA, que decorre na Madeira de 13 a 16 de novembro, sob o mote “Glocal Thinking”.
Perante mais de 500 profissionais do setor, o governante traçou o enquadramento do que designa como um novo ciclo para o destino Madeira: “O ano de 2026 vai ser um ano bastante importante, não diria de uma revolução, mas de uma grande alteração no modelo em que gerimos o território.”
No âmbito desta estratégia, já está em curso o programa Upgrade Madeira, que pretende reforçar a qualidade da experiência turística, melhorar a convivência com os residentes e regular o uso do espaço natural.
“Interessa-nos que a experiência aqui na Madeira seja a melhor. Por isso desenvolvemos um programa que tem a ver com a forma como o turismo se relaciona com os residentes e com a qualificação da experiência. A nova campanha lança há três dias procura reforçar esta sensibilização: “Explorar o território com responsabilidade”. O responsável avisa: “No dia em que um destino turístico não consegue manter este equilíbrio entre aqueles que nos visitam e o bem-estar dos que aqui vivem, o destino está condenado.”
“No dia em que um destino turístico não consegue manter este equilíbrio entre aqueles que nos visitam e o bem-estar dos que aqui vivem, o destino está condenado.”
Crescimento do mercado português: de quebra a liderança
O secretário regional recordou o percurso da procura nacional na última década, agradecendo o papel das agências de viagens e da APAVT: “Nada disto aconteceu por acaso… é sempre fruto do trabalho aquilo que nós conseguimos.”
Após os anos de quebra entre 2010 e 2012, a recuperação iniciou-se em 2015:
“Em 2015 tivemos aqui cerca de 700 mil dormidas. Até setembro deste ano registamos 1 milhão e 700 mil dormidas.” O número de hóspedes seguiu o mesmo caminho: “Visitavam a Madeira 241 mil portugueses continentais; ultrapassámos os 500 mil há dois anos e temos 460 mil em setembro.” Como resultado, “Portugal passou a ser líder nos hóspedes e terceiro em dormidas na Madeira, ultrapassou o mercado do Reino Unido e já é número 2 em termos de dormidas.”
O impacto económico sublinhou a relevância destes números: “O turismo corresponde a 30% do nosso PIB e mais de 20% da população está diretamente envolvida com este setor”.

“Temos resistido à tentação” — limitar camas para proteger a Madeira
A partir de 2015, a Região Autónoma da Madeira definiu uma estratégia clara para evitar a pressão excessiva sobre o território: não ultrapassar as 40 mil camas na hotelaria tradicional. Eduardo Jesus recordou essa decisão na convenção da GEA, explicando que a intenção sempre foi proteger o destino e evitar que o crescimento turístico colocasse em risco os recursos que sustentam a própria atividade económica.
Segundo o secretário regional, essa postura tem exigido firmeza. “Temos resistido à tentação de crescer em número de camas”, afirmou, lembrando que “não é fácil” dizer não a grandes investidores que chegam com milhões e projetos de grande dimensão. “Quando se chega ao ponto de estarmos sentados com um grande investidor que diz que tem estes milhões para trazer para a Madeira… não é fácil responder: agradeço e vamos marcar uma reunião para 2027”, assumiu. Ainda assim, confirma que esta linha tem sido mantida: “Sim, nós temos recusado investimento desta natureza”, para não “matar a galinha dos ovos de ouro
Apesar da capacidade total ter duplicado — “tínhamos 30 mil camas, estamos com cerca de 70 mil” —, Eduardo Jesus esclareceu que não foi a hotelaria tradicional a responsável por este crescimento, mas sim o alojamento local. E rejeita a narrativa demonizadora que por vezes acompanha este segmento: “O alojamento local não é o demónio que muitas vezes se diz”
“Temos resistido à tentação de crescer em número de camas, Para Não MAtar a Galinha dos Ovos de Ouro. Não É FÁcil. MAS temos recusado investimento desta natureza”
O governante chamou a atenção para o impacto que teria sido necessário absorver caso a expansão tivesse sido feita exclusivamente através de hotéis. “Imaginem o que é duplicarmos a nossa capacidade sem o alojamento local. Teríamos construído dois Savoys, dois Pestana Casino…”, destacou, sublinhando que tal pressão sobre o saneamento, o abastecimento de água potável e a vida das populações seria incomportável. Pelo contrário, argumentou, o alojamento local permitiu recuperar edifícios devolutos no Funchal e estimular a descentralização turística para fora da capital.
Reconheceu, ainda assim, que existem problemas — tal como em qualquer destino turístico — e citou como exemplo a recente decisão do município do Funchal de travar novas licenças de alojamento local em prédios de habitação urbana. Uma medida que procura equilibrar a presença de residentes com a atividade turística, mantendo a convivência sustentável entre ambos.
Essa abordagem faz parte de um esforço mais amplo de gestão estratégica. A Região realizou um estudo sobre densidade e intensidade turística, aplicando indicadores da Organização Mundial do Turismo às 54 freguesias da Madeira. O resultado é um mapa detalhado que identifica áreas que já atingiram o seu limite e outras que ainda têm margem de crescimento. “Hoje temos um guia que permite orientar os municípios”, explicou, reforçando que este trabalho evita decisões arbitrárias ou restrições sem fundamento.
Além da gestão do território e do ordenamento turístico, Eduardo Jesus destacou os avanços obtidos na conectividade aérea e na promoção da Madeira, pilares essenciais para o crescimento do destino. O secretário regional sublinhou que o investimento constante permitiu alcançar a maior conectividade de sempre da ilha: “Hoje temos a maior conectividade de sempre que a Madeira alguma vez registou”, afirmou, lembrando que este resultado foi fruto de um trabalho coordenado com o Turismo de Portugal e com a ANA.
“Hoje temos a maior conectividade de sempre que a Madeira alguma vez registou”
Quanto à promoção do destino, sublinhou a decisão estratégica de concentrar esforços na Associação de Promoção da Madeira, enquanto a Direção Regional passou a ter um papel regulador e de animação do setor. “Duplicámos o valor da promoção e hoje o Governo Regional investe cerca de 16 milhões de euros por ano na promoção”, referiu, destacando ainda a criação da nova marca Madeira, que, apesar de inicialmente criticada, trouxe grande visibilidade ao destino.
Durante a sessão de abertura da convenção da GEA, os administradores do grupo de gestão, Pedro Gordon e Carlos Baptista, entregaram à Região de Turismo da Madeira o prémio GEA Destination. A distinção reconhece a estreita proximidade e colaboração do destino com o setor das agências de viagens.

*Na Madeira, a convite da GEA



