Nem só de turismo são feitos os livros de quem vive o setor. De romances policiais a crónicas musicais, passando pelo desenvolvimento pessoal, há profissionais do turismo que encontram na escrita um espaço de expressão fora do dia a dia laboral. O TNews destaca cinco livros escritos por personalidades do setor turístico que nada têm a ver com turismo – mas que dizem muito sobre quem os escreveu.
37 Hacks for Personal Growth, de João Pinto Coelho

37 Hacks for Personal Growth, de João Pinto Coelho, diretor comercial do Grupo Onyria, surgiu num período de pausa forçada. Como explica, “o livro nasceu em plena pandemia, quando hotéis e restaurantes estavam parados e, de repente, tive tempo para respirar”. Leitor ávido de obras de self-improvement, recorda que durante anos leu “obsessivamente” sobre a temática, mas rapidamente percebeu que muitos desses livros “eram densos e difíceis de digerir”.
Daí surgiu a ideia de criar “uma versão leve, prática, quase um ‘best of’ dos melhores ensinamentos” que foi aprendendo ao longo dos anos. O “momento difícil que se viveu”, nomeadamente no turismo, permitiu “olhar para dentro”, abrindo espaço para “uma reflexão profunda sobre melhoria pessoal”.
“Percebi que, antes de pensar no setor, tinha de perceber como podia crescer enquanto pessoa”, salienta João Pinto Coelho. A mensagem central resume-se numa ideia simples: “crescimento pessoal não precisa de ser complicado” e “pequenos ajustes criam grandes mudanças”.
Para o autor, “se o leitor sair com um ou dois hacks que o façam viver com mais clareza, propósito e calma – missão cumprida”. Em termos de público-alvo, o livro destina-se a “qualquer pessoa com vida acelerada que queira melhorar sem ler 300 páginas de teoria”, nomeadamente “pessoas práticas, curiosas, que gostam de soluções simples, testáveis e com impacto rápido”.
“Trabalhar no turismo treinou-me a ver detalhes e deu-me a oportunidade de conhecer muitas realidades. Interiorizei que às vezes um detalhe faz toda a diferença. O livro é exatamente isso: uma tentativa de oferecer pequenas experiências transformadoras”, refere João Pinto Coelho.
37 Hacks for Personal Growth está disponível para compra online na Amazon ou na Bubok.
A Música é a Última a Morrer, de Miguel Coelho

A vontade de escrever não é recente para Miguel Coelho, business development director para Portugal e Espanha da Iberostar Hotels & Resorts, mas foi apenas em 2022 que decidiu dar o passo decisivo e publicar o seu primeiro romance, Os Dez Graus que se Perdem na Viagem. Durante esse processo, começou desde logo a ganhar forma o novo livro. “Comecei a arquitetura da história e as respetivas personagens de A Música é a Última a Morrer”, explica.
A publicação do primeiro livro foi determinante, não só como exercício criativo, mas também emocional. Para o autor, “editar o primeiro livro não só foi um desbloqueador de vergonha mas, sobretudo, um momento de bastante inspiração e realização”. Até então, a escrita fazia parte da sua vida “de uma forma muito solitária e em segredo”, através de pequenos textos escritos apenas “por satisfação pessoal”. A decisão de partilhar trouxe um misto de emoções – “um sentimento ambíguo entre o orgulho e a incerteza” – mas também “uma enorme motivação para escrever mais”.
O novo romance cruza duas paixões assumidas. Como sublinha, “A Música é a Última a Morrer não é um livro sobre música, mas é uma história com muita música”, sendo que “juntar estas duas paixões (escrita e música) foi também de certa forma uma inspiração”.
A escolha de um romance policial surge tanto do gosto pessoal como do desafio de “escrever algo distinto do primeiro livro”. A narrativa arranca em setembro de 2016, quando dois jovens músicos prodígios desaparecem misteriosamente, levando a equipa de homicídios da Polícia Judiciária do Porto a uma investigação cheia de segredos, conduzida não só pelo superintendente Martins e pelo inspector Euclides Brito, como também por um “enigmático melómano, com uma condição única, que o faz expressar-se através de espasmos musicais inusitados”.
Mais do que um policial, o autor assume que é “um livro que fala da fragilidade humana e da capacidade que a arte (neste caso, a música) tem de nos manter vivos, mesmo nos momentos mais sombrios”. A história desenrola-se entre “as ruas da cidade do Porto e da ilha grega de Creta, mais propriamente em Chania”, e Miguel Coelho gostava que o leitor criasse “essa conexão entre a história e as canções”, mas também que fosse capaz de “refletir sobre a forma como olhamos e tratamos os outros, incluindo aqueles que nos são mais próximos”.
O público-alvo é amplo: “leitores que gostem de romances policiais, leitores ávidos, independentemente do estilo e também pessoas que reconhecem e valorizam o poder de uma canção”.
Apesar de trabalhar no turismo, a influência surge apenas de forma pontual. Parte da ação decorre em Creta, “a ilha na qual trabalhei como REP durante cinco anos”, numa clara homenagem “a todos os gregos e a todos os cretenses que me ajudaram nos momentos mais difíceis”. Ainda assim, admite que “o mundo do turismo, em geral, e a minha profissão, em particular, não foram, pelo menos até agora, motivo de principal inspiração”.
“Acabo por fugir da minha área profissional, o que faz com que inconscientemente me obrigue a desconectar física e emocionalmente dessa realidade. E a verdade é que tenho gostado que seja assim”, conclui.
A Música é a Última a Morrer está disponível no site oficial da editora Atlantic Bookshop, bem como nas livrarias físicas e respetivas plataformas online (FNAC, Bertrand, Porto Editora, El Corte Inglês e Livraria Martins). Para quem procura exemplares autografados, o autor refere que é possível entrar em contacto direto consigo através das redes sociais.
Roteiro para uma Vida Feliz, de Patrícia Correia

Neste livro, Patrícia Correia, diretora-geral do Palácio de Tavira, transforma uma experiência pessoal difícil num testemunho de partilha. O refúgio na escrita surge depois de um percurso marcado por um burnout e uma depressão. Como explica, “ter ultrapassado tudo isso trouxe-me um profundo sentimento de gratidão, mas também de retribuição”. A motivação foi clara: “se consegui superar tudo isto, então partilhar a minha experiência poderia ser útil a tantos outros que enfrentam processos semelhantes e se sentem sozinhos dentro desta doença que, infelizmente, ainda é tabu para muitos”.
Para a autora, a escrita surge também como forma de combate ao silêncio que ainda envolve a saúde mental, numa realidade em que “a vergonha de dizer ‘Não me sinto bem’ continua a impedir muitos de procurar ajuda”.
Escrito durante a pandemia, Roteiro para uma Vida Feliz conta a história de “uma mulher que decidiu agarrar a sua saúde mental com ‘unhas e dentes’”, mostrando “que a cura é possível”. Patrícia Correia descreve-o como “escrito de forma muito positiva”, representando a sua “maneira de retribuir a dádiva que recebi: ter conseguido libertar-me desta doença”.
O livro pretende ser “um testemunho de força”, transmitido para que outros “descubram a sua”, assumindo-se quase como “um dever de partilhar para motivar e dar esperança”, que a autora não hesita em classificar como “um verdadeiro ‘serviço público’”.
Dirige-se sobretudo a “leitores homens e mulheres com mais de 30 anos, que possam estar a enfrentar desafios pessoais como divórcio ou depressão”. A escrita foi, para Patrícia Correia, uma ferramenta de sobrevivência: “foi através [dela] que consegui manter-me à tona”, num exercício para “exorcizar os meus próprios fantasmas”. Por esta razão, acredita que “pessoas que estejam a passar por situações semelhantes ou até diferentes procurem livros que lhes ofereçam força e inspiração para superar qualquer adversidade”.
A experiência no turismo ajudou a profissional a abrir “horizontes para culturas diferentes da minha”, permitindo escrever “sem tabus sobre a importância de uma saúde mental forte, com uma mentalidade mais aberta, humana e centrada”.
“O turismo é uma atividade de pessoas para pessoas, e eu também sou assim. Por isso, se consegui atravessar o meu ‘Cabo das Tormentas’ e chegar ao outro lado, por que não escrever sobre isso?”, remata.
Roteiro para uma Vida Feliz está à venda nas lojas online Wook e Livraria Almedina.
Bandas Crónicas, de Luís Moura

A génese de Bandas Crónicas remonta ao período de confinamento, conta Luís Moura, project manager da Tiger Team. “Nos longos dias (e noites) de inverno e de recolhimento obrigatório impostos pela pandemia mundial de 2020/2021”, a antiga ideia de escrever começou finalmente a ganhar forma, encontrando no Facebook o espaço ideal para publicar “quase diariamente pequenos textos sobre música”.
Escrever sobre música foi uma escolha natural. Como refere, “todos temos um ou vários hobbies” e, entre muitas possibilidades, gosta “de muitas dessas coisas, mas também de música”, o que tornou simples a decisão de escrever sobre um tema que lhe é “tão presente”.
O livro reúne uma coleção de 160 crónicas, onde o leitor encontra “histórias e curiosidades sobre bandas e artistas de vários quadrantes”, referências a concertos, opiniões sobre determinados artistas e “enquadramentos históricos que justificam o surgimento de novos estilos”. São textos sobre “as ‘minhas’ bandas e os ‘meus’ discos”, muitas vezes só preferidos por uma ‘enorme minoria’”, sublinha.
Para Luís Moura, qualquer banda ou disco desconhecido, independentemente de ter sido lançado há dez, 20 ou 30 anos, será “sempre uma descoberta e uma novidade de hoje a acrescentar-nos valor”. Nesse sentido, pretende que “o leitor não só descubra alguma coisa que desconhecia sobre os seus artistas preferidos”, como também “sinta curiosidade em procurar uma nova banda, disco ou tema que refiro no livro – e através da sua audição daí possa tirar prazer”.
O autor não acredita que exista um “leitor padrão” de Bandas Crónicas, embora reconheça que, “na primeira linha, estarão os fãs de música, aqueles que consomem música diariamente e que são sensíveis a vários géneros”.
A influência do turismo manifesta-se na forma como Luís Moura vê o mundo, refletida em “algumas das frases mais cliché que existem no meio das viagens”: “Viajar é a melhor forma de se perder e de se encontrar ao mesmo tempo” e “O destino nunca é um lugar, mas sim uma nova maneira de ver as coisas”.
Essa perspetiva atravessa também um dos capítulos do livro – The New Yorkers – em que o autor transcreve, palavra por palavra, a sua participação no programa de rádio A Hora do Bolo na Radar, comentando as bandas que viu e ouviu ao vivo em Nova Iorque. Estes momentos, muitas vezes vividos sozinho, mas na companhia dos locais, marcaram a sua “forma de estar e de observar o mundo”, sempre “com curiosidade, respeito pelas diferenças e com sentido de pertença”.
Bandas Crónicas está disponível em formato físico ou digital e pode ser adquirido na Wook.
Intermezzo Sombrio, de Miguel Oliveira

Intermezzo Sombrio nasce de um gesto simbólico. Ao celebrar os 50 anos, em junho de 2025, Miguel Oliveira, fundador da Imagin’art – Performing Arts, quis oferecer a cerca de 60 amigos e familiares “um presente verdadeiramente único”, que “refletisse quem sou”. A escrita, presente há anos na sua vida, levou-o a “escrever um livro exclusivamente para esse dia”.
“Mantive o projeto em segredo absoluto, inclusive da minha mulher, e oferecer um exemplar a cada convidado acabou por ser um dos momentos mais emocionantes da noite”, recorda o autor.
Apesar de não ser um livro de turismo, “tem muito de mim enquanto músico”, afirma Miguel Oliveira, lembrando que “os primeiros rendimentos significativos que ganhei na vida foram precisamente a tocar em hotéis”. Essa vivência marcou a escrita, que procurou desenvolver “com verdade: com rigor musical, com autenticidade e com a densidade emocional” de quem toca “para salas cheias de desconhecidos”.
O romance acompanha Tomás Veludo, um pianista de hotel “cuja vida disciplinada e silenciosa se cruza inesperadamente com uma mulher enigmática e com um universo de poder, desejo e perigo”. A música funciona como “lente através da qual o protagonista lê o mundo”, explorando “essa tensão permanente entre o que ouvimos, o que sentimos e aquilo que não queremos ver”.
Miguel Oliveira espera que o leitor compreenda que, “tal como na música, na vida há notas que definem tudo – mesmo as que não tocamos”.
Para o autor, a experiência profissional influencia inevitavelmente a escrita: “É sempre um reflexo das nossas vivências”, e no seu caso, “música, eventos e turismo acabam por se entrelaçar naturalmente”. Detalhes como as descrições do Palácio da Bolsa e do Salão Árabe só existem porque passa “grande parte” da sua vida “dentro desses espaços, a produzir dezenas de eventos corporativos e turísticos por ano”.
O livro é acessível a “qualquer leitor, mas quem tiver sensibilidade musical – seja músico, melómano ou alguém que valorize a dimensão emocional da música – encontrará camadas adicionais e referências que enriquecem a experiência”. Miguel Oliveira sugere até que a leitura seja acompanhada da banda sonora indicada no livro, que “transforma completamente a imersão”.
Intermezzo Sombrio encontra-se atualmente em fase de publicação e, em breve, estará disponível nas “principais livrarias físicas e online”, assim como diretamente através da editora. O autor partilhará a data de lançamento nas suas redes e canais habituais.




