Entrevista Nuno Mateus: “O ponto mais forte da Solférias é a sua independência”

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Na semana em que a Solférias reuniu uma vez mais as agências de viagens portuguesas para a apresentação da programação de inverno, Nuno Mateus realça a relação próxima do operador com o mercado e descarta a possibilidade de ter agências. Em entrevista ao TNews, o diretor geral da Solférias afirma que a maior “dor de cabeça” do operador é o Aeroporto de Lisboa.

Nestes últimos anos, a Solférias tem lançado novos destinos. Qual é o novo destino do próximo ano?

Não lançamos destinos por obrigação. É verdade que fomos muito felizes com o Senegal, no ano passado, e fomos muito felizes este ano com Zanzibar. Se calhar são destinos que até marcaram alguma tendência pelo marketing que se fez em torno dos mesmos. A Solférias está sempre disponível para analisar um destino, o problema é que só pode anunciar quando está fechado. Se vai haver? Neste momento, não consigo responder. Estamos sempre atentos, esse trabalho faz-se agora, mas ainda é prematuro dizer.

Como é o processo de lançar um novo destino?

É saber analisar os números, o potencial do destino e, acima de tudo, termos a capacidade de nos colocarmos nos sapatos do cliente final, quando fazemos a viagem de inspeção, e analisar se encaixa no perfil do cliente português. Falamos com os agentes de viagens, naturalmente, e temos algumas ideias, mas não partilhamos informação do destino até ao momento em que estamos em posição de o fazer. Neste momento, não sei responder se vai ou não haver um destino novo, a única coisa que posso dizer é que qualquer novidade que venhamos a lançar, queremos lançar com antecedência, até porque obriga a um trabalho de marketing e comunicação muito forte. Temos também de falar com as agências de viagens para ter alguma colaboração na divulgação do produto. É um trabalho complexo.

Mais rapidamente abririam um destino novo do que lançariam charters para as Caraíbas?

A Solférias tenta fazer a diferença. Acho que o mercado das Caraíbas é operado por especialistas. Não é o nosso objetivo entrar na República Dominicana ou no México com um charter, não faz parte do nosso ADN.

“o mais importante no Aeroporto de Lisboa é mantermos as nossas slots, porque sem slots não há operações. Ainda este ano tivemos essa situação: duas operações charters que não foram confirmadas (Monastir) e uma que conseguimos desviar para o Porto (Saïdia), foi uma dor de cabeça”.

A médio prazo vão apostar mais em voos regulares ou charters?

Em 2019, antes da covid-19, tínhamos cerca de 50/50, a nossa tendência normal será ter sempre um certo equilíbrio entre os voos regulares e charters. Até porque estamos bem preparados para isso – não esquecer que durante o período de verão vendemos muitos voos regulares. Aliás, basta olhar para Cabo Verde, vendemos muitos charters, mas os voos regulares andam, mais ou menos, no mesmo nível. O nosso objetivo é ter mais ou menos 50/50 entre passageiros viajados em voos especiais e regulares.

Mesmo com a dificuldade em obter slots no Aeroporto de Lisboa?

O Aeroporto de Lisboa é a nossa maior dor de cabeça e a nossa grande preocupação, sem dúvida. Tenho muita dificuldade em compreender como é que chegámos a este ponto, porque coloca todo o nosso trabalho em causa. Por isso, vamos colaborar com todos os players que estejam no aeroporto de Lisboa, sempre. Sejam companhias de voos regulares, sejam empresas habituadas a ter voos charters aqui, porque, acima de tudo, o mais importante no Aeroporto de Lisboa é mantermos as nossas slots, porque sem slots não há operações. Ainda este ano tivemos essa situação: duas operações charters que não foram confirmadas (Monastir) e uma que conseguimos desviar para o Porto (Saïdia), foi uma dor de cabeça. Não sabemos qual é a dimensão do problema em relação aos voos regulares, porque em relação aos voos charters a tendência será diminuir. Temos também uma grande preocupação com o Aeroporto do Porto, porque com a quantidade de voos que estão a ser colocados na cidade, o Porto um dia também vai ter problemas. Não sei se alguém está a analisar esse aspeto. Quando temos seis voos para a Tunísia e só um parte de Lisboa, alguma coisa está aqui desequilibrada.

É ir gerindo o melhor que sabemos e, acima de tudo, manter os nossos slots, que é a parte mais importante.

Vão manter toda a operação de verão no próximo ano?

Lisboa é para manter, nem sequer pensamos inventar, não vale a pena. De vez em quando há algumas exceções, por exemplo conseguimos confirmar Lisboa-Zanzibar.

Como é que conseguiram?

Foi num voo muito tardio. Zanzibar teve uma particularidade: a Hifly foi uma companhia que nos ajudou muito e conseguimos num voo tardio. E não foi um voo de ir e voltar, o voo partia à noite, chegava de manhã, a tripulação ia descansar, e só à noite regressava. Conseguiu-se encaixar.

Se equacionarem abrir um novo destino, não é fácil que seja à partida de Lisboa?

Não, hoje em dia tudo é uma aventura. A Solférias respeita os agentes de viagens e os nossos passageiros, e, por isso, quando assinamos os contratos, fazem-se os pedidos e a confirmação das slots leva tempo. Se chegarmos a 30 de abril e a operação não estiver confirmada na totalidade, cancelamos a operação. É preciso informar as agências e tentar arranjar alternativas. Não deixamos arrastar a situação. Portanto, 30 de abril é para nós a data de análise em relação às operações de verão.

“Todas as operações vão ser positivas este ano”

As operações mais rentáveis são de médio ou longo curso?

Não é fácil responder, a operação mais rentável é aquela que tem a melhor taxa de ocupação, ou seja, muitas vezes basta haver uma partida mal vendida e lá se vai a rentabilidade toda da operação. Operar charters é algo muito complexo. Temos a nossa forma de gerir, mas obviamente que há algumas formas de tentar rentabilizar as operações, porque têm pelo menos de chegar ao ‘break even’.

Todas as operações chegaram ao ‘break even’ este ano?

Em termos de destinos, todas as operações vão ser positivas. Não significa que não tenhamos tido umas partidas negativas. Não há nenhum destino que acabe negativo.

Preço dos Pacotes turísticos: “Naturalmente que gostava que não houvesse aumentos, mas acho que é impossível”

O preço dos pacotes turísticos vai aumentar no próximo ano?

Sabemos que todos os países estão a debater-se com o problema da inflação, depois ainda há a inconstância dos combustíveis. Naturalmente que gostava que não houvesse aumentos, mas acho que é impossível. O que vamos tentar é que sejam o menos possível. Não podemos perder a competitividade, e daí a razão porque dizemos que devem marcar com antecedência, dizemos isso por temos acesso a campanhas de reservas antecipadas que fazem a diferença, mesmo em voos regulares.

No futuro, preferem fazer operações especiais com parceiros ou avançar sozinhos para novos destinos?

Depende das situações. No Senegal lançámos sozinhos, no caso de Zanzibar lançámos em parceria com a Sonhando. Mantemos as nossas parcerias ao longo de muitos anos. Temos parceiros diferentes, em operações diferentes, às vezes há um conjunto de situações que nos leva a falar com A, B ou C. Como ainda não sei qual é o destino novo, também não sei responder.

É melhor dividir o risco?

No tempo da troika, o mercado dos operadores teve uma capacidade de análise invulgar – fomos simples, concisos e dissemos: o mercado é pequeno, vamos juntar-nos. Por isso é que há tanta pool diferente em operações diferentes. No caso do Senegal, é diferente, avançámos logo com dois aviões por semana só da Solférias. Cada caso tem de ser analisado, porque às vezes existe um conjunto de fatores que não tem só a ver com o destino. Normalmente, a probabilidade de voar com parceiros é mais elevada, mas não significa que não haja destinos em que a Solférias voe sozinha. Depende das situações e da análise que fazemos. 

“Temos uma relação privilegiada com todas as redes e com todos os agrupamentos, sem distinção. Considero que a nossa independência é uma mais valia, sem dúvida nenhuma”

Tendo em conta que há grupos de operadores com agências ou a fazer parcerias com agências, a Solférias não equaciona ter agências?

O ponto mais forte da Solférias é a sua independência. A Solférias desde a primeira hora que tem feito o seu trabalho, relaciona-se com todas as agências de viagens. O mercado nacional é pequeno e precisamos de todos. Sei que, naturalmente, existem vários grupos e várias disputas normais dentro do que é habitual. A Solférias vai manter-se independente.

Não sentem necessidade de ter uma rede para escoar produto?

Não, temos uma relação privilegiada com todas as redes e com todos os agrupamentos, sem distinção. Considero que a nossa independência é uma mais valia, sem dúvida nenhuma. Depois cada um tem a sua filosofia diferente. A Solférias é independente e vai manter-se independente.

“No lazer, tudo muda de um momento para o outro, aprendemos isso com a covid”

Temem que os próximos meses sejam de abrandamento da atividade?

Gosto de ter os pés bem assentes. A verdade é que não estávamos à espera destes crescimentos em 2022 e em 2023. No lazer, tudo muda de um momento para o outro, aprendemos isso com a covid. Tanto caiu para zero, como subiu quando ninguém estava à espera. Se acho agradável as notícias? Claro que não, ninguém gosta de ver as taxas de juro a aumentar e as pessoas cada vez com mais dificuldades. Era desejável que voltássemos a ter uma inflação em patamares razoáveis. Até agora, temos estado a vender acima do que era expetável. Em anos em que as condições forem outras, temos que estar preparados para qualquer eventualidade e ter capacidade de reforçar quando o mercado o pede. Essa é uma das razões pela qual antecipamos a abertura das vendas. Se abrirmos com antecedência e se vendermos muito, ainda vamos a tempo de reforçar as operações, se fazemos tudo à última, não temos essa capacidade. Não sou de todo uma pessoa que sofra por antecipação. É analisar o mercado, tomarmos as nossas conclusões, mas nem sempre o dia-a-dia coincide com o que se vê nas notícias.

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