Quinta-feira, Fevereiro 22, 2024
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A excentricidade enquanto vantagem competitiva na hotelaria

Em marketing ensinamos os alunos a identificarem a vantagem competitiva do seu produto/serviço para que se possam diferenciar da sua concorrência. Em marketing aplicado à gestão hoteleira, perguntamos: qual é o factor de diferenciação do seu hotel? Sendo o core business do negócio: ‘uma cama e um pequeno-almoço’, o que o diferencia dos demais? Porque devo ir para o hotel A e não para o hotel B ou mesmo o C? Ao compreender e promover a referida vantagem, os hoteleiros podem conquistar uma parcela maior de mercado.

As crises, como a que vivemos, acentuam estas perguntas e tornam as respostas ainda mais complexas. A hospitalidade e a arte de saber receber fazem parte da essência do produto existindo, no entanto, há quem queira ir mais além. Os hoteleiros querem demarcar-se da concorrência e fazer a diferença e, para tal, munem-se de ferramentas, instrumentos ou simplesmente ‘filosofias’ para identificarem a sua vantagem competitiva que se encontra na simplicidade do produto, num conceito excêntrico, na mobilidade, no design, na reciclagem, no serviço ou simplesmente na oferta de experiências distintas.

O ser humano é biologicamente nómada, apesar da necessidade de se sedentarizar, por questões relacionadas com a marcação de território, segurança e mesmo a prática agrícola. Sendo a mobilidade intrínseca à natureza humana, a oferta hoteleira tem se vindo a adaptar. E o planeta está cheio de exemplos, se não vejamos, o Salt & Sill (www.saltosill.se), é uma unidade hoteleira flutuante, que está usualmente atracada na ilha de Klädesholmen, na Suécia, mas que se move a pedido.

Outro exemplo da mobilidade marítima é o Hotel Bunker localizado em Hague, na Holanda. Trata-se de cápsulas de petróleo transformadas em unidades hoteleiras que podem boiar ou ser posicionadas em terra firme. Originalmente construído pelo designer Denis Oudendijk na década de setenta, este hotel é um bom exemplo do uso criativo de algo que já não tinha serventia. O Everland Hotel (www.everland.ch/en/info/) estaciona-se em terra firme. É um quarto móvel e simultaneamente uma obra de arte que viajou até locais como Yverdon-les Bains, na Suiça (estacionado 159 noites) Leipzig, na Alemanha (320 noites) e Paris em França (557 noites). O Everland foi concebido por Sabina Lang e Daniel Baumann para a exposição Swiss National Exhibition em 2002 e provocou polémica por todos os locais onde passou, havendo a necessidade dos seus criadores explicarem que os hóspedes são apenas uma parte do projeto de arte.

Encontramos o mesmo sentido de reciclagem, mas em ‘estado líquido’ num hotel em que as camas são feitas a partir de barricas de tequilha. O Matices Hotel (www.tequilacofradia.com.mx/), no México, tem 30 quartos instalados no meio de uma plantação de agave, a planta usada no fabrico da bebida e símbolo do país. Na Dinamarca, o Can Sleep Lake Skanderborg foi desenhado a partir dos desejos dos apreciadores de cerveja que a bebem durante o dia e à noite dormem numa lata gigante. A coleção Can Sleep tem 121 latas de cerveja de alumínio e o hotel só abre durante o Skanderborg Musical Festival, em agosto.

Se não for claustrofóbico (a), existem ainda muitas experiências hoteleiras em carteira, nomeadamente: o Capsule Hotel, em que o quarto se limita a um pequeno bloco de plástico, mas com espaço suficiente para dormir. O conceito foi desenvolvido no Japão, no final da década de 70, como resposta ao súbito crescimento da população – densidade urbana e de grupos empresariais. Estes pequenos hotéis oferecem aos hóspedes compartimentos extremamente compactos para dormirem a um preço acessível.  O Hotel Alcatraz (www.alcatraz-hotel.com) tem mais espaço, mas permanece a sensação de estar num espaço fechado, pois o hotel está instalado numa prisão em Kaiserslautern, na Alemanha. Esta antiga prisão foi transformada num hotel e oferece aos seus hóspedes a experiência de serem prisioneiros, apesar de poderem fugir quando quiserem. Os 57 quartos são fiéis às celas de uma prisão e grades não faltam.

E perguntam sobre a procura destes hotéis, as taxas de ocupação ou mesmo a rentabilidade? Existem. Porque as pessoas querem coisas estranhas, coisas diferentes, que às vezes as façam esquecer do seu quotidiano e da sua realidade. Falando em extravagâncias, não resisto a mencionar a série da moda, Squid Game. Alguns já viram e defendem-na, outros viram e não gostaram, outros recusam-se a ver, apesar de conhecerem a história, outros tantos não viram e não querem ver dada a falta de valores e visão destorcida da vida. Eu vi a sinopse e não tenho grande vontade de ver a série, apesar de ser enaltecido o seu argumento inteligente e altamente viciante. Ao mesmo tempo, a sociedade está preocupada com o efeito perverso do copy cat nas escolas. Partilho desta última preocupação e acredito que a série e os hotéis extravagantes se enquadram na atracção para o incomum, o peculiar, o inusitado… Satisfeitas as necessidades básicas, procura-se o topo da pirâmide. As pessoas querem coisas estranhas, mas com o sentido de lhes dar ordem. Fugir da rotina, ganhar dinheiro fácil, procurar entretenimento, enfim os motivos podiam continuar ad eternum. Da minha parte olho para a série e para os hotéis excêntricos e justifico a sua existência como uma fuga à realidade e, para muitos, aquela em que vivemos nos últimos dois anos, não tem sido bonita. Quem não procura escapes à realidade que atire a primeira pedra. Mas convenhamos, dormir numa cela ou dentro de uma lata não serão das coisas mais confortáveis desta vida. É simplesmente diferente, é ter uma história para contar e para partilhar.

Prepare-se, pois, estes são apenas alguns dos hotéis igualmente estranhos que habitam o nosso planeta e a lista continua…!

Por Sofia Almeida

É professora na Universidade Europeia e investigadora no CEG/Territur, Universidade de Lisboa.

salmeida@universidadeeuropeia.pt

1 COMENTÁRIO

  1. Como empreendedor em um projecto “excêntrico”, posso ver que apesar dos pedidos públicos em inovação do Turismo de Portugal, os investidores continuam muito conservadores (ou então, com falta de visão excêntrica), investindo somente em pequenas ideias, financeiramente pouco arriscadas, avançando centímetro em centímetro, em vez de criar algo bombástico. Por isso continuo com alguma esperança e á procura de apoio…

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