“A NOVA ESHTE vai ser bastante diferente da ESHTE, para melhor”

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O reitor da Universidade NOVA de Lisboa, Paulo Pereira, fala pela primeira vez sobre a integração da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE) na estrutura da universidade. Embora não tenha sido ele a iniciar o processo — que remonta a decisões tomadas antes da sua posse, em outubro deste ano — o reitor garante que a integração está “num estado bastante avançado” e que a publicação do decreto-lei que oficializa a medida deverá ocorrer muito em breve.

Durante a entrevista ao TNews, Paulo Pereira destacou as suas ambições para a NOVA ESHTE: transformar a escola num referencial nacional e internacional na formação em turismo e hotelaria, potenciar sinergias com outras áreas da universidade e reforçar a internacionalização, a investigação e a ligação ao setor empresarial. A integração, sublinha, não será apenas uma transição administrativa, mas uma oportunidade para criar uma nova ESHTE, mais interdisciplinar e inovadora, ao serviço de estudantes, docentes e do próprio mercado do turismo

Em que fase está atualmente o processo de integração da ESHTE na Universidade NOVA?

O processo está já numa fase bastante avançada. Todo o trabalho necessário, tanto da parte da ESHTE como da Universidade NOVA, está concluído. Neste momento, falta apenas a publicação do decreto-lei por parte do Governo, algo que deverá acontecer muito em breve.

Até ao final do ano?

Eu espero que até ao final do ano, mas certamente que a tempo dos próximos estudantes já entrarem em junho, no início do próximo ano lectivo, já entrarem para a NOVA ESHTE.

Que passos já foram dados internamente desde a aprovação da integração?

A integração tem alguma complexidade, mas já foi feito um trabalho técnico muito significativo: desde os aspetos jurídicos até aos administrativos. Paralelamente, houve também um esforço no plano educativo, com um mapeamento das áreas que irão integrar a NOVA e a identificação de sinergias com as nossas próprias áreas de formação. Esperamos e acreditamos que estas sinergias venham a servir para que a NOVA ESHTE não seja apenas a transição de uma escola para dentro da Universidade NOVA, mas que represente verdadeiramente uma nova ambição para a formação, sustentada pelas oportunidades criadas através desta integração.

O que é que muda na prática para docentes e para estudantes?

Na prática, muda pouco. Salários, propinas e restantes condições mantêm-se inteiramente. A ESHTE vai entrar como uma escola que terá a autonomia que todas as nossas escolas já têm, e as propinas permanecem iguais, por ser uma instituição pública. O mesmo se aplica a funcionários e docentes. As principais alterações serão na qualidade da formação e nas oportunidades que resultam da integração numa universidade com maior escala e recursos. Ao entrar na NOVA, a escola passa a beneficiar de infraestruturas, contextos formativos e sinergias nas áreas da gestão, inovação, tecnologia, que podem melhorar a experiência para os estudantes e criar novas oportunidades para os docentes e investigadores.

“As principais alterações serão na qualidade da formação e nas oportunidades que resultam da integração numa universidade com maior escala e recursos”

Embora não tenha sido um processo iniciado por si, o que motivou a intenção de integrar a ESHTE na NOVA?

A primeira, tem que ver com a enorme oportunidade que representa o turismo em Portugal. É um mercado com enorme potencial e que precisa, para responder aos desafios do presente e mais ainda do futuro, de profissionais bem qualificados. E isto consegue-se melhor dentro de uma universidade grande do que com uma escola mais ou menos isolada. Mas estes seriam, se calhar, os argumentos para a ESHTE se juntar a nós. Percebemos, de facto, que essa oportunidade vai acrescentar também valor à NOVA, porque vamos contribuir para formar pessoas numa área onde estou convencido de que existirá bastante procura no mercado. Precisamos de elevar as qualificações das pessoas que vão integrar o mercado do turismo e há também mais oportunidades na área da investigação, por exemplo, de que vamos beneficiar se trouxermos para cá a ESHTE. É uma escola com ensino politécnico, mas que tem competências técnicas, práticas e profissionais que nós não temos tanto, e acho que nós podemos sempre acrescentar aquilo que fazemos bem: a investigação, a ciência, as dimensões da gestão.

Portanto, na verdade, creio que a NOVA ESHTE vai ser bastante diferente da ESHTE, para melhor.

Esta integração implicou investimento?

Além do investimento que resultou de todas aquelas atividades que já referi e todo o trabalho que teve que ser feito, nesta fase não houve um investimento. Se me pergunta em infraestrutura? Nesta fase não houve um investimento em infraestrutura. É possível que tenha de existir.

Há planos para reforço de instalações ou modernização?

Estamos cientes de que, para melhorar a qualidade da experiência dos estudantes e da sua formação também, podemos ter de fazer um investimento em infraestrutura, sim.

A ESHTE continuará no polo do Estoril?

A ideia é que aquele polo do Estoril passe a integrar o património da NOVA e que passe a ser uma parte da Universidade NOVA. Como sabe, temos polos em vários locais, somos uma universidade distribuída e metropolitana, e passaremos a ter mais um polo ali.

O ensino português em turismo está a perder atratividade. O que explica a quebra recente nas candidaturas?

Não sei se tenho uma resposta muito definitiva sobre isso, em particular na área do turismo, mas o que assistimos no último ano — e temos vindo a assistir — é a um decréscimo global da procura pelo ensino superior. Acho que, no final, a ESHTE não ficou numa situação assim tão má; conseguiram preencher quase todos os lugares nas diversas fases do concurso. Portanto, julgo que há aqui um problema talvez mais conjuntural, que não será particular da ESHTE. Portanto, eu não interpretaria isto como um problema da ESHTE ou como um fenómeno que afetou apenas a ESHTE.

Associa esta quebra às condições de trabalho e remunerações praticadas no setor?

Talvez. Talvez haja uma componente que tenha a ver com isso, mas que nos leva a uma das perguntas que já me fez, parece-me, que é a necessidade de qualificar mais os profissionais nessa área. Acho que nós não podemos ser competitivos no turismo se não tivermos recursos humanos qualificados, reconhecidos, reputados e valorizados pelo mercado.

Agora, precisamos de formar mais pessoas e de as formar de uma forma um pouco diferente, para conseguir alimentar uma indústria que, na minha opinião, não poderá continuar muito tempo a viver com salários muito baixos e com qualificações que nem sempre são suficientes para os novos desafios da área.

As empresas dizem que os currículos devem responder mais ao dia-a-dia das funções. A componente prática da ESHTE vai manter-se?

Não há razão nenhuma para não se manter essa atividade prática. Continuará a ser uma escola de dimensão profissionalizante. E é assim, na minha opinião, que deve ser. Mas não significa que não se abram outras oportunidades pela integração da ESHTE na NOVA, e que os estudantes e as pessoas que lá trabalham não possam olhar, ou não devam mesmo olhar, para o seu futuro com outra ambição — e com mais ambição. Porque essa é a oportunidade que decorre da sua integração.

A ligação à comunidade, à inovação e às empresas é algo que na NOVA fazemos muito bem. Portanto, eu ficaria surpreendido se isso deixasse de acontecer agora com a integração da ESHTE. Temos muito presente sempre esta dimensão de ligação ao tecido produtivo, às comunidades e à indústria.

Neste caso, espero — e julgo, estou certo — que a ligação às empresas da área do turismo continuará. Aliás, já temos protocolos com associações de empresas de turismo e com associações da hotelaria, iniciados com um projeto ainda antes da integração da ESHTE, através da Plataforma de Turismo da NOVA. Portanto, acho que essa dimensão vai continuar e estou seguro de que vai melhorar.

As sinergias dentro da NOVA aplicam-se também aos docentes?

Sim, aos professores e ao próprio desenho das unidades curriculares. Espero que consigamos ter unidades curriculares comuns, partilhadas por mais do que uma unidade orgânica, e também ter professores e investigadores que estão atualmente na NOVA e que colaborarão com os professores e investigadores que virão da ESHTE.

A área da investigação é uma área para a qual eu tenho grandes expectativas, porque acho que é uma das áreas que pode crescer de forma mais substantiva e beneficiar da integração na NOVA.

Considera que há pouca investigação na área do turismo?

Sim, considero que não há uma investigação de tanta qualidade como há noutras áreas. Creio que há maneiras de a melhorar. E isso nós sabemos fazer bem.

“A área da investigação é uma área para a qual eu tenho grandes expectativas, porque Acho que é uma das áreas que pode crescer de forma mais substantiva e beneficiar da integração da ESHTE na NOVA”

Portugal deveria ambicionar ter escolas de referência internacional como as suíças? A integração da ESHTE é um passo nessa direção?

A internacionalização é uma das características talvez mais distintivas da NOVA. Somos uma universidade com uma ambição internacional e com a ambição de sermos uma referência na Europa. E a integração da ESHTE na NOVA vai, de facto — não tenho qualquer dúvida — permitir uma maior internacionalização da escola.

Aliás, desde que se soube que incorporaríamos a ESHTE, já fomos contactados por algumas das escolas de referência nos Estados Unidos e na Suíça também. Portanto, acho que isto traz efetivamente novas oportunidades. Gostaria muito que a ESHTE fosse uma referência internacional, fosse uma escola líder em Portugal e uma referência internacional ao nível das escolas de Lausanne, Cornell, enfim, todas essas grandes referências.

Quais são os objetivos da NOVA para a ESHTE nos próximos cinco anos?

Um deles é exatamente este: ser uma referência na Europa; a melhor escola portuguesa na área do turismo e hotelaria; uma escola profundamente internacionalizada, com um corpo docente também internacionalizado, que atrai estudantes portugueses e estrangeiros e com uma grande ligação à comunidade, ao tecido produtivo, à indústria e às instituições nacionais — o Turismo de Portugal, que é já um parceiro privilegiado e que espero que continue a ser.

É exatamente isso: uma escola de referência na Europa.

“Gostaria que a ESHTE fosse uma referência internacional ao nível das grandes escolas de Lausanne ou Cornell”

A plataforma NOVA Turismo & Hospitalidade quer aproximar a universidade das empresas e potenciar talento num setor altamente competitivo e volátil. Que projetos concretos já estão em curso e como esta plataforma vai transformar a ligação entre a academia e o setor do turismo?

Esta plataforma já é um reflexo — porque antecede a integração da ESHTE — da importância que a Universidade NOVA deu à área do turismo. Temos ligações ao Turismo de Portugal, ligações à AHP e à APAVT; temos uma parceria também importante com o Grupo Pestana. Portanto, já temos um trabalho preparatório feito que vai facilitar muito a integração da ESHTE.

No fundo, esta plataforma de turismo e hotelaria é já um caminho para a integração da ESHTE. E a ESHTE passará depois, com certeza, a integrar muitas das competências — ou a concentrar muitas das competências — que são agora da Plataforma de Turismo e Hospitalidade. É também uma dimensão que nós gostaríamos de ver reforçada na ESHTE: a dimensão da hospitalidade, do turismo em saúde, aspetos relacionados com a nutrição, o turismo sustentável.

Há um conjunto de áreas emergentes para as quais temos de nos começar a preparar. Julgo que a ESHTE vai conseguir preparar-se muito melhor para esses desafios se estiver integrada na NOVA, onde temos um contexto muito mais interdisciplinar, muito mais diversificado, um ambiente mais internacional.

Portanto, o papel desta plataforma, como lhe digo, traduz o interesse da NOVA na área do turismo, a importância que lhe atribuímos e, agora, facilitará a integração da ESHTE. Muitas das dimensões que estão nesta plataforma transitarão para a ESHTE, porque já construímos aqui competência. Ou seja, não estamos a introduzir uma escola e a começar tudo do zero — temos já um trabalho preparatório, e isto aconteceu de uma maneira até orgânica.

Que mensagem deixaria aos professores, aos estudantes, aos futuros alunos e aos profissionais do turismo que acompanham este processo e aguardam a sua concretização?

É uma mensagem de esperança e de ambição. Dizer-lhes aquilo que creio que já sabem: que ao integrarem a NOVA estão a integrar uma grande universidade e a fazer parte de uma coisa muito maior; que vão ser uma escola com uma projeção nacional e internacional que não tinham até agora; que vão fazer parte de uma grande comunidade e que nós esperamos acolhê-los de braços abertos.

Os estudantes vão encontrar aqui novas oportunidades, porque vão fazer parte e vão partilhar tudo aquilo que a NOVA tem para oferecer, do ponto de vista de infraestruturas, de talento, de interdisciplinaridade, de diversidade.

Os professores vão fazer parte de uma grande universidade também, portanto, terão condições para crescer e melhorar o seu trajeto pessoal dentro da universidade. Abrir-se-ão novas oportunidades na área da ciência e da investigação.

E vão fazer parte de uma estratégia, de um projeto que vai renovar o turismo, que — acredito — será bem feito. É um projeto ambicioso e que representa uma pequena revolução na forma como olhamos para o turismo nas suas diferentes dimensões.

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