O acidente no Elevador da Glória, ocorrido a 3 de setembro, que provocou a morte de 16 pessoas e feriu 23, não chocou apenas Lisboa, mas o mundo inteiro. A tragédia, num dos cartões-postais mais emblemáticos da cidade, suscitou debates imediatos sobre o uso excessivo pelo turismo e possíveis falhas de investimento e manutenção por parte da Câmara Municipal.
Profissionais do setor turístico questionaram nas redes sociais para onde vai o dinheiro da taxa turística, cobrada mensalmente às unidades hoteleiras, e criticaram a falta de transparência na sua aplicação. Alguns chegaram a questionar outros impostos municipais, como IMI e IUC, afirmando que não parecem contribuir para melhorar a qualidade de vida dos lisboetas ou a experiência dos visitantes.
Moedas responde às críticas
Em entrevista à SIC este domingo, dia 7, o presidente da Câmara Municipal, Carlos Moedas, respondeu às críticas sobre investimento e manutenção e à pergunta da jornalista sobre se a Câmara alguma vez avaliou o impacto do aumento do turismo na segurança dos elevadores históricos. “Os dados que tenho da Carris, porque é a Carris que faz essa gestão, são simples, é que cada vez que há um aumento da carga há um aumento na manutenção. E, curiosamente, ao contrário do que eu tenho ouvido, o número de utilizadores em 2019 é superior aos números de utilizadores em 2025″, afirmou o autarca.

Segundo o Expresso, enquanto se chegou a afirmar que o Elevador da Glória transportava 3 milhões de passageiros por ano, os dados mais recentes da Carris indicam que, em 2024, o ascensor teve 769 mil passageiros, menos 23% do que no ano anterior e abaixo dos níveis pré-pandemia. Para 2025, a empresa estimava cerca de 1,7 milhões de passageiros nos três ascensores históricos (Bica, Glória e Lavra).
“O número desceu na pandemia e voltou a subir. Agora está abaixo do nível de 2019. E sempre que houve aumento de carga, obviamente que as empresas no seu contrato têm essa necessidade de aumentar a manutenção. Muita gente veio dizer que havia uma sobrecarga. Não é verdade”, rematou Carlos Moedas.
O presidente da Câmara reforçou ainda que os contratos de manutenção aumentaram 30% e que os investimentos globais cresceram 60% durante o seu mandato, garantindo que a Carris recebeu os recursos necessários para gerir a segurança e manutenção dos elevadores históricos. “O contrato anterior era de 300.900 euros, o contrato atual é de mais de 1,2 milhões”, garantiu Moedas.
Após o acidente, a Câmara decidiu suspender temporariamente os outros elevadores históricos para inspeções. A este propósito, o presidente da autarquia afirmou: “Aquilo que eu queria era garantir aos lisboetas — e quero mesmo dar essa garantia — é que, até termos a certeza do que aconteceu, em todos estes sistemas, não vou permitir que se repita um acidente se os sistemas de emergência não funcionam. (…) Os lisboetas têm de estar seguros e é essa segurança que estamos a garantir, com uma análise e vistorias exaustivas até ao último detalhe”, .
Investigação aponta falha no cabo
Segundo o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários, a investigação preliminar concluiu que o cabo que unia as duas cabinas cedeu no ponto de fixação do trambolho superior da cabina n.º 1, desencadeando o descarrilamento. A cabina desceu cerca de 170 metros em menos de 50 segundos, colidindo com edifícios e postes de iluminação.
Apesar da atuação imediata do guarda-freio e do funcionamento do sistema de emergência, a redundância do sistema não conseguiu impedir o acidente, uma vez que a falha ocorreu num ponto invisível sem desmontagem. A inspeção realizada no dia não detectou a anomalia e não houve evidência de defeito nos sistemas de freio ou em componentes acessíveis à observação visual.
A manutenção estava em dia e o sistema de emergência funcionou conforme projetado. A investigação prossegue com recolha de provas, peritagens técnicas e análise documental, com relatório preliminar previsto para 45 dias e relatório final num ano.



