Os hoteleiros portugueses antecipam um verão de 2026 mais desafiante do que o do ano passado, prevendo uma quebra da taxa de ocupação, da estada média e dos proveitos totais, apesar da expectativa de aumento do preço médio por quarto. As conclusões constam do inquérito “Balanço Páscoa & Perspetivas Verão 2026”, apresentado esta terça-feira pela Associação da Hotelaria de Portugal (AHP).
“Estamos a ser prudentemente realistas”, afirmou a vice-presidente executiva da AHP, Cristina Siza Vieira, ao apresentar os resultados do estudo realizado junto de 328 empreendimentos turísticos associados, entre os dias 27 de abril e 17 de maio.
Questionados sobre a evolução do verão de 2026 face ao período homólogo de 2025, os hoteleiros revelam uma perceção mais negativa do que positiva relativamente aos principais indicadores operacionais. Segundo o saldo de respostas extremas (diferença entre respostas positivas e negativas), a taxa de ocupação apresenta um saldo negativo de 28 pontos percentuais, tal como a estada média (-28 p.p.), enquanto os proveitos totais registam um saldo negativo de oito pontos. Apenas o preço médio por quarto (ARR) apresenta uma perspetiva positiva, com um saldo de 13 pontos. Segundo a AHP, este é o único indicador para o qual os hoteleiros antecipam uma evolução mais favorável do que em 2025.
“Na globalidade, as perspetivas dos hoteleiros são de quebra relativa do verão de 2026 perante o verão de 2025”, afirmou Cristina Siza Vieira.
Os dados mostram que 50% dos inquiridos acreditam que a taxa de ocupação será pior ou muito pior do que no verão passado, enquanto apenas 22% antecipam uma melhoria. Já no ARR, 43% dos hoteleiros esperam uma evolução positiva, contra 30% que preveem uma deterioração.
Segundo a responsável, a conjugação entre uma eventual quebra da ocupação e da estada média poderá acabar por penalizar os resultados globais da hotelaria, mesmo num contexto de aumento dos preços médios. “Mesmo que o preço suba do quarto, porque a taxa de ocupação diminui e porque a estada média também diminui, os consumos na hotelaria, a expectativa é que venham a quebrar”, explicou.
Apesar da cautela demonstrada pelos empresários, os níveis de reservas já registados para os meses de verão apresentam uma evolução positiva em várias regiões.
Para junho, metade dos inquiridos da Madeira já tinham à data do inquérito reservas acima dos 83%, seguindo-se os Açores (79%), Algarve (64%) e Grande Lisboa (57%). Em julho, os Açores (74%), Madeira (65%) e Algarve (61%) continuam entre as regiões com maiores níveis de reservas. Já para agosto, mês tradicionalmente mais forte para a hotelaria nacional, os Açores (75%), Madeira (58%) e Algarve (50%) lideram as reservas on the books.
Em setembro, os Açores mantêm-se como a região com melhor desempenho, com metade dos inquiridos a reportar reservas superiores a 73%.
Ainda assim, Cristina Siza Vieira sublinhou que persistem diversas incertezas para os próximos meses. “Há ainda muitas incógnitas”, referiu.
Um dos sinais que mais chamou a atenção da associação foi a redução do peso do mercado português entre os principais mercados emissores para o verão.
Embora Portugal continue a integrar o top 3 dos principais mercados emissores para 68% dos inquiridos, Cristina Siza Vieira admitiu que este valor representa uma descida de 10 pontos percentuais face aos 78% registados no inquérito do ano passado.
“Para nós é a primeira vez que isto acontece”, afirmou Cristina Siza Vieira, acrescentando que o fenómeno poderá refletir uma maior cautela das famílias portuguesas na marcação das férias.
“As pessoas estão a guardar-se mais para o último momento”, explicou, associando este comportamento às preocupações com o custo de vida, a habitação e a taxa de esforço dos agregados familiares.
Ainda assim, a responsável considera prematuro retirar conclusões definitivas sobre o mercado nacional, recordando que, em várias regiões, continua a figurar entre os três principais mercados emissores.
O Reino Unido continua a integrar o top 3 dos principais mercados emissores para 58% dos inquiridos, seguido da Espanha (42%), dos Estados Unidos (40%) e da Alemanha (35%). O destaque vai para o Brasil, que praticamente duplica a sua relevância, passando de 12% para 28% das referências dos hoteleiros.
Lisboa “sob observação” e aeroportos entre os principais riscos para o verão
A AHP manifestou também preocupação com os sinais de abrandamento observados na região de Lisboa, que considera estar “sob observação”.
Segundo Cristina Siza Vieira, os dados mais recentes apontam para um abrandamento do ritmo de crescimento da procura na capital, numa conjuntura marcada pelo aumento da oferta hoteleira e pelos constrangimentos aeroportuários. “É uma tendência que nos preocupa um bocadinho”, admitiu.
A responsável considerou que fatores como a saturação do aeroporto de Lisboa, as limitações de slots e os problemas operacionais em terra poderão estar a influenciar o desempenho da região, embora reconheça que ainda não existem conclusões definitivas.
A capacidade aeroportuária surge, aliás, entre os principais riscos identificados pelos empresários para este verão, apontada por 37% dos inquiridos.
No topo das preocupações aparece a instabilidade económica e geopolítica, referida por 71% dos hoteleiros, seguida pelo aumento dos custos operacionais (38%) e pelo aumento generalizado dos custos dos transportes (35%).
Apesar disso, a associação admite que o atual contexto internacional poderá também gerar oportunidades para Portugal, sobretudo através do desvio de turistas de destinos afetados por conflitos ou instabilidade política.
“É um fenómeno de desvio de tráfegos”, explicou Cristina Siza Vieira, recordando que situações semelhantes já ocorreram durante a Primavera Árabe.
De acordo com os dados do inquérito, as agências de viagens foram mencionadas por 38% dos inquiridos entre os principais canais de reserva, registando uma subida de três pontos percentuais face ao ano anterior. A responsável considera que parte do crescimento observado nas reservas intermediadas por operadores turísticos e agências de viagens poderá estar relacionada com este movimento de procura de última hora por destinos alternativos.
No conjunto do país, o nível de confiança dos empresários no turismo nacional aumentou de 6,8 para 7,4 pontos, numa escala de um a dez, face ao início do ano, refletindo uma visão globalmente positiva sobre o desempenho do setor, apesar das incertezas que marcam a preparação da época alta.




