O Grupo Açorsonho terminou 2025 com um crescimento de cerca de 10% nas receitas face ao ano anterior, mas alerta para um abrandamento da procura turística nos Açores em 2026, que atribui sobretudo à redução da oferta aérea resultante da saída da Ryanair do arquipélago. Em entrevista ao TNews, o diretor-geral e proprietário do grupo, Vítor Câmara, admite estar “pessimista” quanto à capacidade da TAP e da SATA para compensarem essa perda e defende um reforço significativo do investimento na promoção turística do destino.
“Se 2025 foi um ano excelente, em que houve algum crescimento, um crescimento expectável em relação a 2024, que já tinha sido um bom ano, tivemos uma trajetória de crescimento com resultados cerca de 10% acima [do ano anterior]”, afirma o responsável, referindo-se à evolução das receitas do grupo.
O grupo, que opera atualmente unidades em São Miguel e no Pico, registou um desempenho globalmente consistente entre os diferentes empreendimentos. Ainda assim, Vítor Câmara sublinha que a forte sazonalidade continua a marcar a operação hoteleira na região. “Temos hotéis praticamente cheios entre abril e outubro, com taxas de ocupação de 80% a 90%, mas depois há uma quebra significativa durante o inverno”, explica. No Pico, o grupo detém a Aldeia da Fonte Natura Hotel e, mais recentemente, as Adegas do Pico.
Entre os principais mercados emissores para o grupo destacam-se Portugal, Espanha, Estados Unidos e Alemanha. O empresário refere que os mercados norte-americano e espanhol têm sido os que mais cresceram nos últimos anos. “O cliente americano tem vindo a crescer e essa tem sido a tendência. O espanhol também é um mercado em crescimento”, afirma.
Quanto ao perfil dos visitantes, Vítor Câmara identifica as famílias entre os 30 e os 50 anos como o principal segmento do destino. “Temos promovido os Açores como um destino de aventura, trilhos, canoagem e atividades ao ar livre. O nosso principal cliente continua a ser a família ativa, que procura natureza e experiências”.
“Estamos a sentir um decréscimo nas taxas de ocupação”
Apesar dos resultados positivos alcançados em 2025, Vítor Câmara admite que o cenário mudou este ano. “Em 2026 estamos a decrescer em termos de taxas de ocupação. Estamos aqui a acompanhar a tendência do próprio destino”, afirma.
O empresário relaciona esta evolução com a saída da Ryanair dos Açores e considera que os impactos já são visíveis na procura e nas reservas. “Já estamos a sentir esse efeito. Apesar de haver alguma compensação pela receita, porque temos vindo a subir um pouco os preços, não há crescimento na ocupação”, refere.
Quanto à evolução das tarifas, Vítor Câmara considera que a margem para continuar a aumentar preços é reduzida. “Não vejo margem para crescer muito mais, porque o destino também fica muito pouco competitivo. E agora, com o aumento das passagens, ainda pior”, afirma.
Na sua opinião, a resposta ao problema passa por uma estratégia mais abrangente de promoção turística e de captação de ligações aéreas. “A Madeira investe cerca de 16 milhões de euros em promoção. Nós investimos dois milhões. Pelo menos investir como na Madeira seria interessante e necessário”, defende.
O responsável mostra-se cético quanto à capacidade das transportadoras nacionais para compensarem a saída da companhia irlandesa. “A minha opinião é que a TAP e a SATA, ao invés de colmatarem a saída da Ryanair, vão diminuir a oferta. Os preços sobem e vai haver menos produto. Sou muito pessimista nesse aspeto”, afirma.
Grupo investe mais de 40 milhões em novos projetos
O crescimento continua, contudo, a ser uma prioridade para o Grupo Açorsonho. Vítor Câmara afirma que a empresa pretende consolidar a sua posição entre os maiores operadores hoteleiros do arquipélago. “Neste momento somos o segundo maior grupo dos Açores e queríamos estar par e par com o maior grupo dos Açores”, afirma.
Para concretizar essa ambição, o grupo tem em desenvolvimento vários projetos em São Miguel e no Pico, que representam investimentos superiores a 40 milhões de euros.
Na ilha de São Miguel, a empresa tem em desenvolvimento dois novos projetos hoteleiros: o Natura & Mar e o Areal & Mar. Segundo Vítor Câmara, o Natura & Mar encontra-se em construção e deverá abrir em 2027. Já o Areal & Mar, um projeto cuja génese remonta a 2017, continua em fase de especialidades, devendo arrancar em obra apenas no final deste ano ou início de 2027, com conclusão prevista para 2028 ou 2029.
De acordo com informações anteriormente divulgadas pelo grupo, o futuro Hotel Areal & Mar deverá representar um investimento entre 25 e 30 milhões de euros e incluir cerca de 100 quartos, spa, piscinas e equipamentos direcionados para famílias.
A expansão passa também pela ilha do Pico. O grupo adquiriu recentemente a Aldeia da Fonte Natura Hotel, unidade de quatro estrelas localizada nas Lajes do Pico, com 40 quartos e suites distribuídos por várias casas integradas na natureza, e as Adegas do Pico, empreendimento de turismo rural composto por 13 casas.
Na Aldeia da Fonte está em curso um amplo plano de renovação. “Foram investidos 7,5 milhões de euros, com perspetiva de mais 2,5 milhões, num total de 10 milhões de euros”, revela Vítor Câmara. O objetivo é reabrir a unidade totalmente renovada em março de 2027, após uma intervenção que inclui a modernização das áreas comuns, restauração e novos equipamentos de bem-estar, como spa, massagens, terapias e piscina interior.
Nas Adegas do Pico, o investimento ascende a 2,5 milhões de euros. “Estamos a fazer a obra por casas, neste momento já temos três casas prontas. Estamos a pensar encerrar de novembro a janeiro e abrir em março de 2027 já com o hotel todo pronto, requalificado por completo”.
Além destes projetos, o grupo pretende avançar com uma nova unidade no Pico e desenvolver um hotel na costa sul de São Miguel, junto à Praia do Pópulo, até ao final da década.
Questionado sobre os principais desafios ao investimento turístico nos Açores, Vítor Câmara aponta os processos de licenciamento. “Há projetos que demoram quatro, cinco, seis, sete ou oito anos. O Areal é um projeto de 2017 e só agora está em condições de avançar”, refere.
Ainda assim, mantém uma visão positiva para o futuro. “A nossa estratégia para 2020-2030 era dobrar a capacidade do grupo. “Estamos longe disso, mas esperamos ainda conseguir duplicar a capacidade que tínhamos em 2020”, afirma.
Apesar das preocupações com a procura em 2026, Vítor Câmara rejeita a ideia de que os Açores devam limitar o crescimento da oferta turística. “Mais oferta melhora tudo. A ideia de que mais oferta será pior não corresponde à realidade”, afirma.
O empresário sustenta que destinos insulares concorrentes, como a Madeira ou as Canárias, demonstram precisamente o contrário. “A Madeira tem muito mais oferta do que nós e tem menos sazonalidade. A oferta cria apetite para vir para os Açores”, defende.
“Há operadores turísticos bastante grandes que não olham para os Açores porque ainda não temos dimensão suficiente. Se tivermos mais oferta, haverá mais interesse em voar para cá”, conclui.




