Catai, Icárion, Solférias e Honeymooners identificam sinais de recuperação da procura por viagens através do Médio Oriente, depois do impacto provocado pelo conflito na região ter condicionado as reservas e levado parte dos portugueses a procurar alternativas. Em entrevistas ao TNews durante o Arabian Travel Market (ATM), que decorre entre 14 e 17 de setembro, no Dubai, os quatro operadores apontaram para uma redução gradual do receio dos clientes, embora persistam algumas reticências, e destacaram a América Latina e África entre as regiões que beneficiaram da alteração dos fluxos de procura.
Na Catai, as vendas de 2026 estão atualmente equiparadas às do ano passado, depois de um início de ano positivo ter sido interrompido pelo conflito. “O ano está a correr bem, começou muito bem, mas depois sofreu uma paragem devido ao conflito. Neste momento já está a retomar”, afirmou Isabel Almeida. A responsável destacou ainda a “muita pré-venda para 2027”, que considera “um bom barómetro” da recuperação da confiança, e prevê “um 2027 de pleno crescimento”.
João Alves, da Icárion, traçou um cenário semelhante. O conflito afetou particularmente as reservas para o Médio Oriente e as viagens que implicavam escalas na região. Contudo, desde o final de junho e início de julho, o operador começou a observar uma recuperação. “As coisas estão a voltar à normalidade, os clientes estão a deixar de ter receio de viajar pelo Médio Oriente”, explicou.
Também Pedro Botelho, da Solférias, identificou “uma quebra significativa” nas reservas de longo curso quando o conflito se intensificou, mas salientou a recuperação das ligações, destacando a flexibilidade das companhias aéreas, em particular da Emirates, na alteração de viagens e datas. “Rapidamente conseguimos voltar a fazer viagens ou para o Dubai ou para o Médio Oriente como destino final, mas principalmente como stopover”, afirmou.
Na Honeymooners, Magda Lourenço reconheceu um impacto inicial nas viagens para a Ásia, devido à associação às escalas no Dubai. “Os clientes associavam muito tudo o que era Ásia com o Dubai, mas há imensas alternativas”, explicou. A empresa procurou, por isso, outras ligações aéreas e preparou a equipa comercial para apresentar opções que permitissem chegar aos mesmos destinos sem passar pela região.
Receio diminui, mas ainda condiciona algumas reservas
Apesar da retoma, persistem algumas reservas entre os consumidores portugueses. Na Catai, Isabel Almeida reconheceu que “ainda há algum receio”, com clientes a pedirem para “mudar a companhia aérea ou mudar a posição da escala”.
A responsável considera, aliás, que a recuperação da confiança está a ser mais lenta do que após a pandemia. “Acho que no Covid a recuperação foi muito mais rápida a partir do momento em que se percebeu que se conseguia viajar do que agora”, afirmou, associando parte da hesitação à perceção transmitida pelas notícias sobre a região.
O contacto direto com o destino foi, por isso, uma das razões para a participação da Catai no ATM. “Viemos primeiro também para ver, efetivamente, como estava o Dubai”, explicou Isabel Almeida, que encontrou hotéis, centros comerciais e atrações a funcionar normalmente. A feira permitiu ainda conhecer novidades para 2027 e reforçar relações com parceiros.
Na Solférias, um dos fatores que ainda gera hesitação está relacionado com os seguros. Pedro Botelho afirmou que alguns clientes ficam reticentes quando são informados de que determinadas apólices podem não cobrir repatriamentos em caso de perturbações provocadas por situações de força maior. Ainda assim, “de uma forma geral, as pessoas vêm na mesma”, incluindo para stopovers no Dubai.
Já a Honeymooners tem recorrido à experiência dos próprios clientes para reforçar a confiança. Segundo Magda Lourenço, a empresa divulgou conteúdos de viajantes que estiveram no Dubai e quiseram mostrar que “estava aqui tudo bem”.

América Latina e África beneficiam da alteração da procura
A instabilidade no Médio Oriente teve reflexos noutras geografias, com os operadores a identificarem uma redistribuição de parte da procura para destinos com outras opções de acesso.
Na Catai, África e América Latina estão entre as regiões com maior potencial de crescimento, uma tendência que Isabel Almeida associa também à atual facilidade de ligações aéreas. Os safaris destacam-se particularmente, com “muita adesão” por parte do mercado português.
Na Icárion, a América Latina foi igualmente uma das beneficiárias desta alteração. João Alves identificou “as Américas e as Américas Latinas” entre as geografias que mais se destacaram este ano, associando a evolução ao impacto sentido nas viagens através do Médio Oriente.
Na Solférias, o Brasil assumiu um papel particularmente relevante. “O Brasil foi um grande destino que funcionou quase como redirecionar dos clientes quando sentiram que o Médio Oriente podia estar numa fase um pouco mais instável”, afirmou Pedro Botelho. A Turquia beneficiou igualmente desta dinâmica, sobretudo pela possibilidade de realizar ligações através de Istambul.
A Honeymooners apresenta uma procura mais dispersa. Maldivas, Seychelles, Maurícias e Japão continuam entre os seus principais destinos, a par de produtos mais específicos na América Latina e na Indonésia, incluindo Sumatra. “Temos um cliente muito exigente que procura coisas, às vezes, diferentes”, explicou Magda Lourenço, referindo que os desafios no Médio Oriente levaram também a empresa a procurar novas alternativas.
Menos noites e hotéis de categoria inferior entre clientes mais sensíveis ao preço
O impacto do aumento dos preços não é uniforme entre os operadores. A Catai é a empresa que identifica de forma mais clara um reajustamento do orçamento entre determinados segmentos.
Segundo Isabel Almeida, a procura de gama alta manteve-se, mas o cliente intermédio, nomeadamente famílias e casais que já faziam um esforço financeiro para realizar uma grande viagem anual, adaptou as escolhas. “O budget reajustou: não há um cinco estrelas, há um quatro estrelas; não há uma viagem de dez noites, há uma viagem de sete”, exemplificou. A responsável associa a mudança ao aumento do custo de vida e a alguma incerteza em relação ao futuro, um comportamento que diz já não estar a verificar nas reservas para 2027.
A Icárion, pelo contrário, não identifica maior sensibilidade ao orçamento face a 2025, mas registou “um grande aumento de venda de última hora”. João Alves considera que muitos clientes adiaram a decisão enquanto aguardavam pela evolução da situação no Médio Oriente e acabaram por reservar mais próximo da partida, beneficiando também de tarifas que a menor procura tornou disponíveis.
Na Honeymooners, Magda Lourenço também não identifica uma alteração substancial no comportamento do seu público. Apesar do aumento generalizado dos preços, afirma que o cliente da empresa “não vai muitas vezes pelo preço, mas sim pela qualidade e pelo serviço”.
Já a Solférias aponta o aumento dos custos de combustível como um dos principais desafios, sobretudo na programação charter. Pedro Botelho salientou que o impacto ganha dimensão nas viagens familiares, nas quais um acréscimo de 50 ou 70 euros por passageiro pode representar um valor significativo no orçamento.
Para a Solférias, outra mudança passa pelo acesso à informação. Pedro Botelho considera que os clientes chegam “cada vez mais informados, não obrigatoriamente de forma correta”, apontando para o impacto do TikTok e dos criadores de conteúdos na promoção dos destinos. Segundo o responsável, este consumo constante de conteúdos tem contribuído para aumentar o conhecimento sobre os destinos e as formas de chegar até eles.
Pré-vendas dão confiança para 2027
Na Catai, 2026 poderá não superar o ano passado, mas Isabel Almeida espera pelo menos igualar o desempenho de 2025. “O ano poderá não ser superior a 2025, mas com toda a certeza que não será abaixo de 2025”, afirmou. Para 2027, a expectativa é de crescimento, apoiada pelo volume de pré-vendas que o operador já está a receber.
A Icárion também antecipa uma evolução positiva. João Alves acredita que as vendas poderão “igualar ou superar” o ano anterior e espera uma normalização progressiva tanto das viagens com escala na região como do Médio Oriente enquanto destino final.
No caso da Honeymooners, a estratégia passa também pela expansão internacional. A empresa trabalha atualmente com os mercados português, brasileiro e norte-americano e pretende continuar a crescer noutras geografias.
A participação no Arabian Travel Market teve um objetivo comum entre os quatro operadores: reforçar relações comerciais e identificar novos parceiros, produtos e destinos.
A Solférias, que já trabalha destinos como Dubai, Abu Dhabi e Ras Al Khaimah, pretende ampliar a oferta na região. Pedro Botelho revelou que a empresa estabeleceu recentemente contactos comerciais na Arábia Saudita com o objetivo de começar a vender o destino. O responsável reconhece, contudo, que existe “um desafio grande” em gerar procura no mercado português para a região.
A Catai está, por sua vez, a preparar a programação para 2027 e a adaptar o site e a oferta ao mercado português, após a abertura do escritório da Catai Portugal em maio. A empresa está também a intensificar a formação dos agentes de viagens, com ações dedicadas a safaris, Moçambique e Maldivas, entre outros produtos.
Na Icárion, João Alves apontou como objetivos reforçar relações com parceiros, fazer networking e identificar destinos e DMC’s que possam complementar a atual oferta. “O cliente final está sempre à procura de algo novo”, justificou.
A inovação é também uma prioridade para a Honeymooners. “Não estagnar, não vender sempre a mesma coisa e tentar ver o que há de diferente no mercado”, resumiu Magda Lourenço, explicando que o ATM permite encontrar novos parceiros e experiências adequados ao posicionamento da empresa.




