“O apelo de Portugal para o viajante chinês moderno é multifacetado e alinha-se perfeitamente com as atuais tendências do turismo”, afirma Li Xin, profissional com duas décadas de experiência que se tornou, recentemente, representante comercial da United Hotels of Portugal (UHP) na China. Em entrevista ao TNews, a executiva explica que o perfil do turista chinês mudou profundamente na última década. Segundo Li Xin, o viajante deixou de ser o turista de checklist, interessado apenas em monumentos e compras, para se tornar sofisticado, confiante e digital. Na conversa com o TNews, Li Xin fala ainda sobre a autenticidade dos hotéis portugueses, a estratégia de promoção junto do público chinês, a evolução do perfil do turista, o papel das plataformas digitais e os desafios de notoriedade e conectividade de destinos como Lisboa, Fátima e Óbidos, destinos onde a UHP representa hotéis.
O que torna Portugal atrativo para os turistas chineses neste momento?
É uma excelente pergunta. O apelo de Portugal para o viajante chinês moderno é multifacetado e alinha-se perfeitamente com as atuais tendências do turismo. A atratividade do país decorre de uma poderosa combinação entre experiências autênticas e uma relação qualidade-preço excecional.
Em primeiro lugar, trata-se do ambiente descontraído. Num mundo pós-pandemia, onde os viajantes procuram rejuvenescimento, o ritmo de vida tranquilo de Portugal, o seu clima soalheiro e o famoso conceito português de “saudade” oferecem um escape ideal ao ritmo acelerado da vida urbana.
Depois, há o aspeto tangível: a gastronomia e os vinhos incríveis, do marisco fresco ao vinho do Porto (que é mundialmente famoso), proporcionam uma viagem deliciosa. Isto é complementado por uma história rica e viva, percetível em cada rua de calçada, desde a era dos descobrimentos, em Lisboa, até às históricas caves de vinho no Porto.
Além disso, as paisagens deslumbrantes e diversas oferecem oportunidades inesgotáveis para fotografias e uma imersão profunda na natureza.
Por fim – e de forma muito relevante – temos a relação custo-benefício. Em comparação com outros destinos da Europa Ocidental, Portugal proporciona uma experiência europeia de alta qualidade com uma excelente relação qualidade-preço, desde refeições e compras até alojamentos de luxo. Esta combinação de autenticidade comovente, beleza e luxo acessível é o que realmente distingue Portugal neste momento.
Qual será a sua prioridade imediata para reforçar a presença da United Hotels of Portugal na China?
A minha estratégia imediata assenta num plano de três pilares, centrado no envolvimento profundo e em alianças estratégicas.
Em primeiro lugar, estabelecer parcerias estratégicas com o trade. Em vez de apenas realizar contactos comerciais, a minha prioridade passa por consultas aprofundadas com operadores turísticos e especialistas em viagens de luxo na China. O objetivo é co-criar pacotes de viagens personalizados, que vão além dos itinerários-padrão, oferecendo experiências únicas e de elevado valor, centradas nos hotéis membros e que correspondam às expectativas de um viajante chinês sofisticado.
Em segundo lugar, construir uma narrativa envolvente. Pretendo estabelecer uma ligação ativa com os principais meios de comunicação e influenciadores do setor de viagens, à procura de oportunidades de visibilidade.
E, por fim, criar sinergias com os canais oficiais. Uma das prioridades é integrar os nossos esforços com o excelente trabalho já desenvolvido pelo Turismo de Portugal e pelos organismos regionais. Trabalhar em conjunto permite amplificar o impacto, garantir uma mensagem coerente e atrativa sobre Portugal e aproveitar iniciativas conjuntas de marketing para chegar a um público mais vasto. Este ecossistema colaborativo é essencial para construir uma presença e uma procura sustentáveis.
Como planeia diferenciar a promoção dos hotéis independentes portugueses em relação às cadeias internacionais já presentes no mercado chinês?
Esta é a essência da estratégia. A diferenciação é a nossa maior força. As cadeias internacionais oferecem conforto padronizado e de elevada qualidade – são uma aposta segura. Sabe-se exatamente o que esperar, o que oferece uma sensação de segurança.
A United Hotels of Portugal proporciona algo diferente e, para o viajante moderno, algo mais valioso: a promessa de uma história única e de uma ligação genuína.
Em vez de um modelo global padronizado, cada um dos nossos hotéis tem a sua própria alma e personalidade. O hóspede não reserva apenas um quarto; escolhe um capítulo da sua viagem em Portugal. Esta singularidade cuidadosamente selecionada proporciona aquele espaço para imaginar e explorar tão valorizado por quem procura criar memórias pessoais e partilháveis.
Adicionalmente, diferenciamo-nos na dimensão do serviço. As cadeias internacionais oferecem um serviço impecável e profissional; os nossos hotéis vão mais longe, proporcionam uma hospitalidade calorosa e personalizada. A escala é mais íntima, permitindo ao staff estabelecer uma ligação humana com os hóspedes. É a diferença entre uma interação cordial e uma conversa que faz com que nos sintamos genuinamente bem-vindos. Esta ligação pessoa-a-pessoa não é apenas um detalhe do serviço; é uma ponte cultural essencial que transforma a estadia num hotel numa experiência autêntica e reconfortante, mesmo longe de casa.
Quais são as principais tendências atuais do turismo emissor chinês?
Estamos a assistir a uma evolução muito interessante e significativa do mercado emissor chinês, caracterizada por um movimento claro em direção à maturidade, à personalização e à profundidade.
A tendência mais evidente é o rápido crescimento dos FITs (free independent travelers) e dos pequenos grupos privados. Embora o modelo de viagens em grupo continue a ter peso, também ele está a transformar-se. Observamos uma transição acentuada de uma realidade marcada por circuitos clássicos e apressados de vários países para uma abordagem que prioriza itinerários regionais mais focados e aprofundados. O produto “Espanha + Portugal”, por exemplo, tornou-se excecionalmente popular no pós-pandemia, permitindo aos viajantes mergulhar verdadeiramente na cultura única de cada destino, em vez de apenas riscar mais um país numa lista.
Isto reflete uma mudança mais ampla na psicologia dos viajantes. O foco passou decididamente da quantidade para a qualidade – de um objetivo primário de ver pontos turísticos e fazer compras para um desejo profundo de experiências autênticas e locais. O viajante chinês moderno quer viver como um habitante local, ainda que apenas por um dia: saborear a gastronomia, compreender a história e ligar-se ao estilo de vida.
Quanto a segmentos de nicho como o turismo religioso, é verdade que ainda não são mainstream no sentido tradicional. No entanto, quando estes elementos são enquadrados no contexto de experiências culturais e patrimoniais aprofundadas – como visitar mosteiros históricos, entender a importância arquitetónica ou explorar rotas de peregrinação – geram um interesse significativo. Este posicionamento subtil é fundamental para desbloquear o seu potencial.
Para a United Hotels of Portugal, estas tendências estão perfeitamente alinhadas com os nossos pontos fortes. A nossa coleção diversificada de hotéis independentes é uma verdadeira porta de entrada para essas experiências autênticas, locais e profundamente culturais que os novos turistas chineses procuram.
“O produto ‘Espanha + Portugal’ tornou-se excecionalmente popular no pós-pandemia, permitindo aos viajantes mergulhar verdadeiramente na cultura única de cada destino”
Como mudou o perfil dos turistas chineses na última década e o que isso significa para Portugal?
A evolução nos últimos dez anos tem sido profunda. Passámos do viajante de checklist da primeira vaga – cujo objetivo principal era visitar o maior número possível de monumentos e países num itinerário frequentemente apressado – para o surgimento de um viajante sofisticado e ávido por experiências.
O turista chinês atual é mais confiante, viajado e digital. Prioriza a profundidade em relação à extensão. A nova moeda deste perfil de turista não são apenas as fotografias em locais icónicos, mas as histórias autênticas e as ligações pessoais – seja numa aula de culinária prática, numa estadia numa propriedade histórica ou numa interação significativa com um habitante local. Quer compreender a alma de um destino, e não apenas ver os seus monumentos.
Para Portugal, esta evolução não é apenas uma tendência; é uma oportunidade de alinhamento perfeito. Portugal pode não ser um país de grande dimensão, mas tem uma profundidade extraordinária. A sua força reside na autenticidade – o charme dos bairros locais, a gastronomia e vinhos reconhecidos mundialmente, a riqueza histórica que se sente viva e tangível.
“Portugal pode não ser um país de grande dimensão, mas tem uma profundidade extraordinária. A sua força reside na autenticidade”
Quais os maiores desafios na atração de turistas chineses para destinos como Lisboa, Fátima e Óbidos?
O desafio é de notoriedade e posicionamento, e varia consoante o destino.
No caso de Lisboa, não se trata de falta de reconhecimento, mas sim de profundidade. Enquanto capital, tem uma marca forte e é a porta de entrada incontestável para os turistas chineses. A tarefa aqui é ir além da imagem de postal e promover as mais diversas zonas da cidade, a cena gastronómica dinâmica e a sua história viva, incentivando estadias mais longas e imersivas.
Para Fátima, o principal desafio é transcender a identidade religiosa específica do destino junto de um público chinês mais vasto. A nossa estratégia é reposicioná-la como um destino de contemplação cultural e espiritual. A procissão das velas, por exemplo, não é apenas um ritual religioso: é um espetáculo visualmente deslumbrante e poderoso de fé e tradição – uma experiência cultural única que comove, independentemente das crenças individuais. Este enquadramento torna-a acessível e cativante.
Quanto a Óbidos, o desafio é simplesmente dar a conhecer esta joia escondida ao mercado. O potencial é imenso. Esta vila medieval muralhada é como um conto de fadas tornado realidade. Com um património bem preservado e uma atmosfera encantadora, é um cenário perfeito para narrativas e conteúdos nas redes sociais. Representa a “Europa de conto de fadas” que apela fortemente aos chineses que viajam à procura de experiências únicas e fotogénicas fora dos circuitos habituais.
A nossa estratégia, portanto, é personalizada: reforçar o apelo de Lisboa com mais profundidade e introduzir Fátima e Óbidos através de narrativas estratégicas que destaquem o seu valor experiencial único.
Qual é a importância dos canais digitais chineses (WeChat, Weibo, Xiaohongshu) na promoção de Portugal como destino?
Estes canais são extremamente importantes e formam um ecossistema digital completo que guia o turista chinês desde a inspiração inicial até à decisão final de reserva. Compreender os seus papéis distintos é essencial para uma comunicação eficaz.
O Xiaohongshu (Little Red Book) e o Douyin (TikTok chinês) são os principais motores de inspiração. É aí que nascem os sonhos sobre Portugal. O Xiaohongshu, com as suas fotografias cuidadosamente selecionadas e diários de viagem funcionais, funciona como uma revista digital de viagens. O Douyin, com os seus vídeos curtos e imersivos, consegue transportar o utilizador instantaneamente até aos destinos.
O WeChat é o centro de autoridade – e, por vezes, também de conversão. É onde a inspiração inicial gerada no Xiaohongshu se consolida. A nossa conta oficial no WeChat será uma fonte de confiança, com artigos aprofundados, notícias oficiais e, por vezes, mecanismos integrados de reserva. É onde construímos uma imagem de marca credível e alimentamos uma comunidade leal.
O Weibo funciona como o nosso canal de interação em tempo real e como uma agência de notícias. É ideal para amplificar eventos, lançar campanhas rápidas, participar em tópicos de viagem em voga e manter uma presença ativa e dialogante junto do público.
Na sua opinião, qual é o elemento mais distintivo da hospitalidade portuguesa que pode atrair o público chinês?
Na minha opinião, é a combinação poderosa entre a cordialidade humana genuína e um serviço prático e atento.
O elemento mais distintivo é a personalidade autêntica do povo português. Existe aqui uma hospitalidade que é tão acolhedora quanto o famoso sol português. Não se trata apenas de um protocolo treinado, mas de algo que vem do coração – uma simpatia natural, honestidade e uma verdadeira vontade de fazer com que os hóspedes se sintam bem-vindos. Esse sorriso genuíno cria uma ligação emocional imediata.
Para além deste toque humano maravilhoso, o que realmente completa a experiência para os hóspedes chineses são os cuidados práticos e atenciosos. Trata-se de compreender que hospitalidade significa antecipar as necessidades do hóspede. Gestos simples, como ter água quente disponível nos quartos, chinelos, ou sinalética em chinês, não são apenas comodidades; são um sinal impactante que diz: “Vemos-te, compreendemos-te e preparámo-nos para o teu conforto.”
Portanto, é esta combinação única – o calor inesquecível da alma portuguesa, complementado por uma atenção cuidadosa aos detalhes – que cria uma experiência de hospitalidade verdadeiramente distinta e memorável para o viajante chinês. Faz com que não se sintam apenas turistas, mas convidados de honra numa casa acolhedora.
Quais são, na sua opinião, os principais obstáculos ao aumento do fluxo de turistas chineses para Portugal neste momento?
Essa é uma questão muito relevante. Enquanto destino europeu de longo curso, Portugal enfrenta um conjunto de desafios comuns, mas estamos a trabalhar ativamente para os transformar em oportunidades.
Os principais obstáculos podem ser agrupados em duas categorias: estruturais e de perceção.
No lado estrutural, temos fatores como a ligação aérea, os processos de visto e a distância. São barreiras que afetam muitos destinos, mas não são impeditivas. A boa notícia é que estamos a assistir a desenvolvimentos positivos, como o aumento do interesse das companhias aéreas e procedimentos de visto mais eficientes no âmbito do Espaço Schengen, que promovemos ativamente.
No entanto, o desafio mais significativo – e onde concentramos os nossos esforços – é o de perceção: a falta de uma notoriedade ampla e generalizada. Embora Lisboa esteja a ganhar destaque, muitos potenciais viajantes na China ainda não conhecem verdadeiramente a diversidade da oferta portuguesa para além da capital.
“Embora Lisboa esteja a ganhar destaque, muitos potenciais viajantes na China ainda não conhecem verdadeiramente a diversidade da oferta portuguesa para além da capital”
Portugal concorre com destinos bem estabelecidos para o turismo chinês, como França, Itália ou Espanha. O que pode ser feito para diferenciar Portugal e colocar os hotéis independentes portugueses no radar?
Essa é uma excelente pergunta. Reenquadraria ligeiramente o ponto de partida, passando da lógica de concorrência direta para uma de posicionamento estratégico e de sinergias.
Destinos como França e Itália são portas de entrada clássicas na Europa para os viajantes chineses que fazem a sua primeira viagem, desempenhando um papel vital na construção de um amor pela cultura europeia. A nossa estratégia não é substituí-los, mas apresentar Portugal como o capítulo seguinte e mais íntimo dessa viagem europeia. À medida que o mercado chinês amadurece, os turistas procuram destinos mais autênticos, menos sobrelotados e cheios de potencial de descoberta. Portugal, com uma escala menor e uma diversidade impressionante, está perfeitamente posicionado para este novo perfil de viajante.
Quanto a Espanha, a relação é inerentemente simbiótica, não competitiva. O itinerário “Espanha + Portugal” é um dos produtos com mais sucesso no mercado e vemos isso como uma enorme vantagem. Introduz milhões de potenciais visitantes à nossa porta. O nosso papel é garantir que, quando experienciam Portugal, reconheçam o seu carácter único.
A nossa diferenciação é clara: oferecemos o calor de um segredo descoberto, a autenticidade de histórias por viver e uma perfeita sinergia com os grandes destinos que levam os turistas até à Península Ibérica.
“À medida que o mercado chinês amadurece, os turistas procuram destinos mais autênticos, menos sobrelotados e cheios de potencial de descoberta”
A conectividade aérea é frequentemente apontada como um fator decisivo na escolha de um destino. Qual a importância do reforço de voos diretos entre a China e Portugal para o sucesso da estratégia da United Hotels of Portugal?
O reforço da conectividade aérea não é apenas importante; é o catalisador fundamental do crescimento e é essencial para o destino.
A atual ligação direta entre Hangzhou e Lisboa, operada pela Hainan Airlines, tem sido um ponto de partida fantástico e de grande valor, provando que existe procura. No entanto, para desbloquear totalmente o potencial do mercado chinês, temos de encarar esta ligação como apenas o início.
Mais rotas diretas, especialmente a partir de grandes hubs como Pequim, Xangai ou Guangzhou, mudariam radicalmente o cenário. Reduziriam entropias associadas à viagem – poupando tempo, reduzindo custos e aumentando a conveniência –, o que é um fator determinante para os viajantes chineses ao escolherem um destino de longo curso.
Para a United Hotels of Portugal, uma maior conetividade aérea proporciona dois benefícios vitais. Por um lado, amplia significativamente o nosso mercado-alvo, fazendo com que Portugal deixe de ser uma opção “com escala” e passe a ser uma escolha “de acesso direto” para milhões de hóspedes potenciais. Por outro lado, aumenta o retorno dos nossos investimentos em marketing. Cada história que contamos nas redes sociais, cada parceria que estabelecemos com agentes de viagens, torna-se exponencialmente mais eficaz quando o caminho para Portugal é simples e direto.
Por isso, uma parte essencial do meu papel é colaborar ativamente com o Turismo de Portugal, as companhias aéreas e os nossos parceiros do trade para demonstrar a crescente procura. Não queremos ser apenas beneficiários passivos da conectividade aérea; queremos ser defensores ativos, porque sabemos que, quando os aviões estiverem cheios, os nossos hotéis também estarão.


