As Bolsas Luís Patrão, promovidas pelo Turismo de Portugal, pretendem formar a próxima geração de líderes do turismo nacional. Com dez bolsas anuais e um apoio individual de 50 mil euros, o programa, que presta homenagem ao primeiro presidente da entidade, pretende criar uma rede de jovens altamente qualificados que contribuam para a competitividade e profissionalização do setor.
Cinco dos bolseiros – João Sousa, André Rocha, Inês Ferreira, Carolina Reis e Diogo Alexandre – partilharam com o TNews as suas motivações, expectativas e visão estratégica para o turismo em Portugal. Diferentes perfis, diferentes geografias, diferentes áreas de especialização, mas um mesmo ponto em comum: a certeza de que o turismo português precisa de talento qualificado e de líderes preparados para os desafios que se avizinham.
“São um motor de promoção do país e garantem que, mesmo durante uma fase de formação internacional de topo, existe uma ligação firme com o país”
André Rocha
Retrato de uma geração que quer liderar a transformação do setor
João Sousa, licenciado em Gestão pelo ISCTE e mestre em International Business pela Grenoble Graduate School of Business, em Londres, desenvolveu “um percurso centrado em estratégia, inovação e comunicação” em instituições como o Banco de Portugal, Bison Bank e Sicasal, e atualmente é diretor de Estratégia e Inovação do GCIMedia Group. Para o jovem, a candidatura à mais recente edição da Bolsa Luís Patrão surgiu da “ambição clara” de “contribuir para a transformação estratégica e sustentável do turismo português”.
“Mais do que um apoio financeiro, representa um compromisso: aplicar o que vou aprender em prol do turismo português e, em última instância, da valorização da economia portuguesa”, afirma João Sousa, que irá ingressar numa formação do EMBA do The Lisbon MBA Católica/Nova, com a expectativa de “fortalecer as competências de liderança e gestão estratégica, potenciando a criação de projetos no setor”. No futuro, João quer continuar a atuar na “interseção entre inovação tecnológica, comunicação estratégica e regeneração territorial”, ajudando destinos e instituições a tornarem-se “mais competitivos, humanos e sustentáveis”.
Também bolseiro de 2025, André Rocha encontra-se atualmente a frequentar o International MBA no INSEAD, em “três hubs globais”: Singapura, Abu Dhabi e Paris. “Esta imersão em localizações centrais permite-me uma nova exposição e uma rede de contactos global, que é importantíssima e será certamente útil para a minha contribuição para o desenvolvimento do turismo em Portugal”, refere o jovem.
Licenciado em Engenharia Aeroespacial e mestre em Engenharia e Gestão Industrial, ambos pelo Instituto Superior Técnico (IST), André já passou por cargos de gestão e liderança no grupo Jerónimo Martins. Após terminar o curso, tem como objetivo futuro “implementar e expandir o conceito de Search Fund em Portugal aplicado ao turismo”, promovendo a aquisição e gestão de pequenas e médias empresas que procuram um plano de sucessão, “permitindo ao gestor assumir uma liderança executiva para desenvolver e expandir o negócio”.


Inês Ferreira, formada no Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas pela Universidade da Beira Interior, é atualmente diretora técnica e de qualidade numa empresa de distribuição farmacêutica, mas decidiu conciliar a carreira na saúde com o seu projeto turístico – a Esteva CountryHouse, na Costa Vicentina. “Foi um projeto que comecei praticamente do zero, desde o licenciamento até à reabilitação dos edifícios, e que me despertou uma enorme vontade de aprofundar conhecimentos em gestão, liderança e desenvolvimento de projetos com impacto local”, explica a jovem.
Para Inês, a Bolsa Luís Patrão – através da qual se encontra a frequentar o Executive MBA no ISCTE – surgiu como uma “oportunidade transformadora de profissionalizar e expandir o seu trabalho no turismo”. No futuro, pretende continuar a atuar no turismo rural sustentável e no alojamento local “em zonas mais afastadas dos grandes centros”, com foco na regeneração do território e no desenvolvimento de pequenas economias locais. “Para mim, o turismo não é só receber pessoas; é criar impacto real na comunidade, apoiar trabalhadores e produtores locais, preservar a identidade cultural, promover práticas de consumo consciente”.
A frequentar o Mestrado em Marketing e Gestão para Turismo de Luxo na Les Roches Marbella, Carolina Reis acumula experiências em marcas de referência, como Four Seasons, em Lisboa, Six Senses, em Ibiza, e Four Seasons, na Côte d’Azur. “O que me motivou a candidatar-me à Bolsa Luís Patrão foi a combinação de duas forças que sempre orientaram o meu percurso: a paixão que tenho pelo meu país e a ambição que tenho por mim mesma. Percebi que, para crescer verdadeiramente, precisava de sair, observar o mundo de perto, compreender diferentes culturas, métodos e modelos”, conta a estudante.
Licenciada em Direção e Gestão Hoteleira e com especialização em Turismo e Comunicação, ambas pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE), Carolina não esconde a ambição de “posicionar Portugal no mapa global do turismo de luxo”, entendendo o segmento premium não apenas como “conforto ou exclusividade”, mas “pela qualidade do tempo vivido, pela autenticidade das experiências e pela capacidade de revelar a alma de cada região portuguesa”.
Ao contrário dos restantes jovens com quem o TNews falou, Diogo Alexandre é bolseiro da edição de 2024 e já concluiu com distinção o programa de estudos “Chef de Alta Cozinha” no Culinary Institute of Barcelona, com recurso à Bolsa Luís Patrão. “O impacto foi claro a vários níveis”, salienta Diogo, acrescentando que este apoio “proporcionou acesso a conhecimento que vai muito além da cozinha ou da operação diária” e “trouxe ferramentas sólidas em gestão estratégica, planeamento, inovação e liderança”, áreas que vê como “essenciais para qualquer profissional que queira atuar com visão de futuro no turismo”.
Neste momento, encontra-se a frequentar o nível avançado do curso para obtenção do “Grand Diploma Chef”, na mesma instituição. “A BLP preparou-me de forma estruturada para este passo. Ao fortalecer capacidades de liderança, organização e análise, permitiu-me chegar ao Culinary Institute of Barcelona com uma base sólida e uma visão estratégica clara”, refere.



“De momento tenho intenção de ir, crescer e explorar. Mas também pretendo voltar. Porque acredito que o futuro do turismo português se escreve com o mundo, mas constrói-se em casa”
Carolina Reis
Emigrar ou não emigrar? Eis a questão
Apesar de valorizarem a experiência internacional, os jovens reconhecem a importância de Portugal como base para o seu futuro profissional. Para João Sousa, a prioridade é “continuar a construir carreira em Portugal, contribuindo para fortalecer o setor turístico como eixo estratégico da economia nacional”, embora considere que “a internacionalização é essencial para trazer conhecimento, investimento e inovação” ao país. “O objetivo é aprender com o que de melhor se faz noutros países, para trazer mais e melhores práticas para Portugal”, acrescenta.
Também André Rocha pretende regressar e contribuir para o país, ainda que, “dado o formato intensivo do MBA (um ano)”, acredite que “numa fase inicial faz sentido continuar a ter alguma exposição internacional estratégica em geografias-chave”. Isso permitirá, diz, “alargar a experiência e rede de contactos, o que será futuramente essencial para maximizar a minha contribuição para o turismo português”.
Apesar de não fechar portas ao estrangeiro, Inês Ferreira mantém o foco no território onde atua: “Portugal é o meu ponto de partida e onde faz mais sentido continuar a construir neste momento, principalmente porque o meu projeto turístico está profundamente ligado à Costa Vicentina”.
Para Carolina Reis, a experiência internacional é “uma das formas mais eficazes” para adquirir visão estratégica, maturidade cultural e competências profissionais. No entanto, Portugal está “a investir no talento jovem, a criar condições para liderarmos com ambição e está a abrir espaço para que regressemos com novas ideias e novos horizontes” – um “compromisso” que pesa na sua decisão. “De momento tenho intenção de ir, crescer e explorar. Mas também pretendo voltar. Porque acredito que o futuro do turismo português se escreve com o mundo, mas constrói-se em casa”.
“Trabalhar fora permite absorver novas culturas, técnicas e formas de gestão que dificilmente encontramos num único país”, defende Diogo Alexandre, que, ao mesmo tempo, nutre “um forte desejo de contribuir para Portugal” e trazer de volta essa aprendizagem. “No final, a decisão dependerá de fatores como projeção de carreira, oportunidades de inovação e a capacidade do mercado nacional de reconhecer e valorizar talento”.
“O objetivo é aprender com o que de melhor se faz noutros países, para trazer mais e melhores práticas para Portugal”
João Sousa
Bolsa Luís Patrão como “catalisador” na formação e retenção de talento
Todos os anos, o Turismo de Portugal investe um total de 500 mil euros na atribuição de dez Bolsas Luís Patrão, cuja segunda edição teve lugar em 2025, reforçando a aposta na formação avançada e na qualificação de jovens talentos do turismo.
João Sousa vê o apoio como “uma ferramenta fundamental de retenção de talento e para a capacitação dos futuros líderes do setor”, que cria as condições “para que jovens com potencial escolham investir o seu talento” no país. “No meu caso, é um voto de confiança que reforça o meu compromisso com o turismo português e com o desenvolvimento de projetos de impacto real”.
“Dada a realidade económica portuguesa e os salários praticados, ter uma experiência num MBA de topo sem patrocínio é um desafio considerável, tanto pelo custo das propinas como pelo custo de vida nos diferentes hubs. Esta bolsa permite-me ter uma experiência formativa de excelência que dificilmente conseguiria sem este apoio”, destaca André Rocha. Segundo o estudante, iniciativas como esta garantem que, “mesmo durante uma fase de formação internacional de topo, existe uma ligação firme com o país”.
Inês Ferreira realça que a bolsa “está a abrir portas”, permitindo-lhe “aceder a formação avançada que, de outra forma, não seria possível”. Mais do que isso, diz, “está a dar-me confiança para ambicionar mais, seja na expansão da Esteva, seja na criação de novos projetos ligados à sustentabilidade, energias renováveis e turismo imersivo”.
O impacto da bolsa foi transformador para Carolina Reis. “Esta bolsa redefiniu totalmente o rumo da minha vida. Foi o passo mais audaz que já dei e transformou em realidade aquilo que, durante anos, parecia um sonho longínquo”, tornando possível chegar a “conhecimento de excelência, metodologias avançadas e uma rede internacional que está a moldar a forma como compreendo o turismo”. A Bolsa Luís Patrão demonstra que o país “está, de facto, a cuidar dos seus”, acrescenta Carolina. “Programas como este não apenas formam futuros líderes. Dão-lhes razões para querer liderar em Portugal”.
Diogo Alexandre destaca o “acesso a conhecimentos estratégicos, a uma rede de contactos qualificada e a experiências que reforçaram a minha maturidade profissional”. Além disso, acrescenta, a nível pessoal, “ganhei maior segurança e clareza sobre o caminho que quero seguir”.
“Sejam curiosos, não tenham medo de começar pequeno e procurem sempre criar impacto verdadeiro no território”
Inês Ferreira
Visão sobre o futuro de um setor em constante mudança
Apesar de terem percursos diferentes, os cinco bolseiros convergem numa leitura clara sobre o futuro do turismo português: o setor enfrenta desafios estruturais que exigem visão estratégica, inovação contínua e uma nova abordagem à gestão de talento.
“Os grandes desafios passam pela escassez de talento, pela sustentabilidade dos destinos, pela transformação digital, e pela necessidade de diversificar a oferta turística”, começa por salientar João Sousa, defendendo a importância de evoluir “de um modelo quantitativo para um modelo qualitativo – mais sustentável, mais equilibrado e mais inovador”.
Carolina Reis sublinha “a necessidade de redefinir o verdadeiro significado de sustentabilidade, indo muito além das medidas superficiais que frequentemente dominam o discurso”. Para a jovem, o primeiro passo deve começar dentro das próprias organizações, “na forma como cuidamos das equipas, promovemos ambientes de trabalho equilibrados e cultivamos culturas que valorizam propósito, ética e responsabilidade”.
É daí que nasce, defende, “a inevitável questão da retenção de talento, que não surge de forma isolada”, mas como “consequência direta de culturas organizacionais que ainda não conseguem oferecer estabilidade, perspetivas de crescimento e condições que estimulem permanência”.
A isto Diogo Alexandre acrescenta que “a competitividade mundial exige que Portugal continue a evoluir na qualidade da oferta e na adaptação às novas tendências e expectativas dos viajantes”.
Os bolseiros identificam também áreas concretas de melhoria no setor. André Rocha aponta a falta de planeamento estratégico das plataformas e infraestruturas turísticas, como aeroportos e acessos ao interior, que “limita o potencial de crescimento” da indústria. Defende ainda que é possível “fazer muito mais” no aumento do turismo interno e na inclusão das várias regiões do país, através de medidas como “a discriminação positiva de preço para os turistas locais”.
Inês Ferreira destaca a importância de modelos de turismo regenerativo, “que devolvem mais ao território do que retiram”, lembrando que Portugal “tem recursos incríveis, mas o futuro passa por preservar, não por esgotar” e que colocar “sustentabilidade e autenticidade no centro das decisões, desde políticas públicas de apoio a projetos de alojamento local até à forma como cada negócio opera”, permite construir “um setor muito mais sólido e responsável”.
Carolina Reis, por sua vez, defende que a criação de um Ministério do Turismo permitiria traduzir o peso económico do setor numa “representação política clara, estável e estrategicamente orientada”, consolidando prioridades, alinhando políticas públicas e garantindo visão de longo prazo. “Alguns países já caminham nessa direção como a Itália que dispõe de um ministério exclusivamente dedicado ao turismo e outros integram-no em pastas de grande peso económico, como é o caso da França e do Japão”, acrescenta.
“A BLP não é apenas uma bolsa; é um compromisso consigo próprio. É importante estar preparado para aprender, aceitar desafios e trabalhar com dedicação”
Diogo Alexandre
Com a experiência académica e profissional que acumulam — em Portugal e no estrangeiro —, estes bolseiros partilham também conselhos para quem quer construir carreira no turismo. João Sousa considera que o setor funciona como “uma escola de liderança e visão global”, exigindo criatividade, resiliência e compromisso com as pessoas e o território. Para João, os jovens devem procurar aprender continuamente, experimentar e construir pontes entre diferentes áreas, “da tecnologia à cultura, porque o futuro do turismo será multidisciplinar”.
André Rocha reforça a importância de adquirir experiência internacional durante a formação. “Só através do benchmarking internacional conseguimos saber o que fazemos muito bem em Portugal e, mais importante, onde ainda existe espaço para crescer e inovar. Essa perspetiva global é crucial para quem quer liderar no turismo nacional”, afirma.
Aos jovens que ambicionam iniciar carreira no turismo, Inês Ferreira aconselha: “sejam curiosos, não tenham medo de começar pequeno e procurem sempre criar impacto verdadeiro no território”, frisando que “o turismo é uma área onde a autenticidade faz toda a diferença” e que, se se acreditar num projeto e houver consistência, “o resto vem com trabalho e dedicação”.
Para quem pretende candidatar-se à Bolsa Luís Patrão, Diogo Alexandre deixa um conselho claro e direto: “o segredo está na combinação entre curiosidade, perseverança e sentido de propósito”. A BLP, sublinha, “não é apenas uma bolsa; é um compromisso consigo próprio”, que exige “estar preparado para aprender, aceitar desafios e trabalhar com dedicação”.




